Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Portugal [Abril, Sempre!]

É um país de mar e de flores.
É uma terra semeada.
São colinas onde se cantam amores.
São quilómetros na ponta de uma enxada.
São festas e rituais
E é um folclore colorido.
São feiras e são estendais
E é um barco, no mar, perdido.
É gente dobrada ao sol
De coluna bem erguida.
São homens defendendo a prole
Na ponta da palavra proferida.
São poetas e são canções,
É a Amália e é um fado.
São ideais e revoluções
Imortalizados num trinado.
É uma ideia peregrina
Germinando na coragem e na vontade.
Nasceu e é menina,
O povo chama-lhe Liberdade.
São reis e tradições,
Mesas postas e bom vinho.
É o mar, em estrondo, aos repelões,
Fustigando um farol sozinho.
São miúdos a jogar à bola,
Uma conversa, uma anedota, uma graçola.
E é um sorriso numa criança,
E é um povo em crise de confiança.
São conquistas e aventuras memoráveis,
O mundo inteiro em histórias inolvidáveis.
São naus sulcando o oceano
Numa melodia de glória e pranto.
É um romance,
É um manifesto realista.
É a tecnologia de ponta
À sombra duma caravela quinhentista.
É um golo no último minuto,
Um lance cortado em cima da linha,
É uma bola nos pés de um puto,
Numa jogada que se adivinha…
E é uma estrada aberta,
Um caminho por percorrer.
É uma praia deserta
Onde as ondas vêm morrer.
Foram glórias
E são glórias.
Foram histórias
E são memórias.
É um mês, é Abril,
Uma revolução sem morte nem sangue.
São canhões e é um fuzil
Nas mãos de um povo cansado e exangue.
É uma gente triste e feliz,
Um paradoxo de morte e de vida.
É uma terra, é um país.
Foi uma promessa cumprida.
Tocam sinos, anunciam perigo.
Corre um rumor sinistro e fatal.
Acorda! Povo adormecido!
Hoje é preciso morrer por Portugal!

jpv
[Texto publicado pela primeira vez em 24 de abril de 2012]


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Um domingo de sentimentos mistos…


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Mulher Moçambicana

És um alguidar de plástico
À cabeça,
Uma silhueta recortada
Na manhã que começa.
És uma criança
Nas costas amarrada,
És a vendedeira de peixe
Por trás da bancada.
És um sorriso límpido,
Sem igual,
És a voz que desperta
O sol inaugural.
És um corpo vergado
Na machamba dos afazeres,
És mãe de sete ou oito
E irmã de outras mulheres.
És o trabalho e a libertação,
És a marrabenta e a oração.
És uma calça de licra
Na marginal,
És a força e o poder,
A resiliência fundamental.
És uma vendedeira de amendoim
Na beira da estrada,
És um olhar de esperança em tudo
E uma mão cheia de quase nada.
És uma palavra meiga e carinhosa,
És o epicentro da força revoltosa.
E és a graça
Que desliza e passa
Cingida por uma capulana,
Mãe de África,
Mulher Moçambicana.

jpv


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Porto Aberto

O azul imenso
E a distância,
A felicidade toda
No olhar de uma criança.
Um só sorriso,
Um só momento,
Um só juízo,
E tudo nasce de novo.
Tu, a majestade.
Eu, a plebe súbdita,
O povo.
Tens por coroa
Uma gargalhada cristalina,
E por cetro
A palavra imprevista da menina
Que ousa e atreve
E comanda o gesto
Que o servo conteve.
Não há praias,
Nem ondas,
Nem mares,
Que te façam justiça.
Serei sempre um lenho imperfeito,
Em seco e sem destino,
Sem mastro
Nem o nauta que iça
A vela do desejo.
Até chegares
E me devolveres à vida
Com suave carícia,
Inaugural beijo.
E haverá, então,
Um rumo certo,
Um porto aberto,
Uma mão estendida
Onde se acolhe outra mão.

jpv