Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Desejo Noturno

Uma só.
Uma só palavra.
Uma só palavra no momento.
Uma só palavra no momento exato.
Explode a invasão,
Doma-se o domador,
Toma-se o tomador.
Perde-se a visão, o sabor, a audição e o olfato.
Fica só a palavra.
A intenção.
A remota ideia de existir
E o êxtase sublime do tato.
Já viveu o homem.
O homem agora morre.
Já não sabe quem foi.
Não se lembra, já,
Nem lhe ocorre,
Quem tivesse sido.
Esta palavra foi a morte
Do homem renascido.
Alonga-se o tempo.
Alonga-se o tempo todo.
Alonga-se o tempo todo no espaço exato.
Não fica, sequer, o tato.
Só o abandono.
Só o abandono nos braços.
Só o abandono nos braços da mulher.
Tudo renasce.
Tudo renasce quando.
Tudo renasce quando o homem quer.

jpv


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Há um mar encapelado
No meu peito.
Revelam-se monstros, fantasmas,
E figuras sem forma nem jeito.
Há lumes a arder,
Fumos encarniçados
E mortes a morrer.
Há criaturas que cospem fogo
E salivam revolta.
Há deuses agrilhoados
E demónios à solta.
E há, depois,
O resgate da tua carícia,
O encanto do teu olhar…
Há esperanças que me entregas num beijo
Mesmo antes de acordar.
E há volúpias sedosas
E a marca da tua pele de cetim.
Há sons encantadores
Que te embalam
Para junto de mim.

jpv


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Quatro Meses sem Feicebuque

De Rerum Natura
Quatro Meses sem Feicebuque

Há quatro meses atrás, decidi, consciente e deliberadamente, encerrar todas as minhas contas em redes sociais. Twitter, Instagram, Facebook e outras. Claro que esta última era que me tomava mais tempo e atenção.

Escrevo este texto para vos dizer que estou vivo, não me deu nenhum ataque de nada, nenhuma crise de coisa nenhuma, a desabituação não foi nem um bocadinho difícil e a minha qualidade de vida melhorou assombrosamente. Vou já explicar porquê, mas, por agora, quero só ousar dar-vos um conselho: deixem o FB e, já agora, as outras todas.

Após estes quatro meses sem redes sociais, aquilo que posso dizer-vos com grande certeza é que as redes sociais são, efetivamente, redes antissociais.

Vamos a aspetos práticos…

  • Quando comecei a usar as redes sociais e, em particular, o Facebook, foi para promover a minha escrita através da divulgação das publicações do meu blogue, Mails para a minha Irmã. Ora, volvidos quatro meses sem FB, posso dizer-vos que o número de visitas e leitores no blogue não diminuiu, pelo contrário, aumentou ligeiramente.
  • A minha vida social, por exemplo, eventos em grupo, deixou de estar dependente da selfie perfeita ou da validação de que tinha acontecido através de uma publicação. Os eventos tornaram-se mais tranquilos e genuínos e valem por si mesmos uma vez que desapareceu o espectro da publicação.
  • Ganhei mais tempo para mim. Faço tudo com mais calma. Dedico-me às pessoas e às tarefas com muito mais tranquilidade.
  • Deixei de ser incomodado por notificações de amigos, de amigos de amigos e de amigos de amigos de amigos, normalmente a chamarem a atenção para publicações com nada de útil ou interessante. O tempo é meu, não é dos outros.
  • Socializo mais. Muito mais. Saio com amigos, almoço com amigos, janto com amigos e, durante estes momentos, não interrompo nem sou interrompido por novidades fantásticas que não são novidade e nada têm de extraordinário.
  • Não perco tempo a dar, nem a receber, os parabéns a pessoas que não conheço. Hoje em dia, quando dou os parabéns a alguém é pela relevância que essa pessoa tem para mim e não porque o Facebook me lembrou.
  • Não leio “da-mos” nem “hadem”
  • Não tenho de aturar como doutos, muito sabedores, e até especialistas de ocasião, pessoas que são só ignorantes sem mais nada para fazer ao tempo do que repassar imagens com frases lamechas e imprecisas e citações de autores que nunca disseram aquilo que lhes é imputado. Até cheguei a encontrar a mesma citação atribuída a autores diferentes. Se o Einstein, o Obama, o Dalai Lama, o Fernando Pessoa, a Clarisse Lispector, o José Saramago e o Mia Couto soubessem as frases que lhes foram imputadas, refaziam as suas obras e duplicavam as publicações.
  • Sou eu quem seleciona a informação e as notícias que considero úteis e relevantes.
  • Deixei de receber como importantes e urgentes, notícias, comunicados e diplomas legais, com vários anos e até revogados.
  • Deixei de me ver envolvido em conversas futebolísticas irracionais e virulentas onde o recurso ao insulto pessoal era o nível mais civilizado da coisa.
  • Agora, quando chamo amigo a um amigo, sei que é mesmo meu amigo.
  • A minha privacidade é, efetivamente, minha e privada.
  • Deixei de ser alvo de mal-entendidos inadvertidos ou propositados.
  • Uso de maior rigor e critério na seleção do que leio na Internet.
  • Estou a descobrir uma Internet, até aqui oculta sob as redes sociais, que se tem revelado bem interessante e com muita qualidade.
  • Já ninguém faz juízos de valor acerca do que penso, como, bebo, os locais onde vou, quando e porque vou e com quem vou.
  • Já não sou vítima de fake news nem tenho de me chatear com ninguém por ter revelado que uma certa notícia era falsa.
  • Deixei de sofrer daquela antecipaçãozinha de saber quantos vão ver ou ler uma publicação e quantos “gostos” vai ter o que trouxe muita paz à minha vida.
  • Sou mais igual a mim mesmo e menos permeável à opinião, à ação e às chatices de terceiros.
  • Os senhores do FB, e todos os outros, deixaram de poder fazer juízos de valor acerca de mim e das minhas opções de vida.
  • E, finalmente, não podia esquecer, deixei de ser ameaçado com 100 anos de azar e desgraças por não repassar um powerpoint manhoso por 15 “amigos”! E, claro está, deixei também de ser ameaçado com o pagamento súbito do FB ou mesmo o seu encerramento repentino se eu não mudasse uma certa configuração. O Facebook não me encerrou. Eu é que encerrei o Facebook!

Enfim, não sou melhor nem pior pessoa. Sou só mais igual a mim mesmo, mais genuíno e faço o que quero do meu tempo sem a interferência constante de terceiros. Não tenho nada contra quem tem Facebook, respeito a liberdade de opção das pessoas, mas não quero mais para mim aquilo que, agora vejo, ao cabo de simples 120 dias, era pernicioso para a minha vida, nada acrescentava e muito retirava. Não sofro a tentação de voltar. A Liberdade é assim, quando se experimenta, não se quer mais nada. E agora sou livre.

jpv


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Canon


Uma metáfora no olhar.
Um regato a murmurar.

Uma onomatopeia na voz.
Um som que ecoa em nós.

Uma antítese nos lábios.
Palavras loucas
E conselhos sábios.

Uma aliteração nos seios.
Suaves contornos
E serenos anseios.

Uma personificação na cintura.
Movimento de sedução e loucura.

Uma perífrase nas pernas.
Passada longa e antiga,
Formas modernas.

Uma sinédoque nas mãos.
A parte e o todo
Em rituais sagrados
E desejos pagãos.

E um oximoro no sexo.
Prender-te e soltar-te,
Possuir-te e ser possuído
No vórtice da coerência sem nexo.

jpv


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Inside Out


Cá fora é uma coisa.
Aí dentro é outra coisa mais linda.
É o tempo que não finda,
A carícia que persiste,
O olhar que contempla
E a voz que insiste
Em mostrar-me a eternidade.
Não há espaço,
Nem idade…
Só o olhar,
A carícia,
O desenho da emoção que impera.
A dor da suave espera.
Não magoa nem perturba
Esperar por ti.
Num átomo de tempo estarás aqui.
O que magoa
É a tua ausência.
A luz, a palavra,
O riso e a Ciência
Da Fé.
Magoa não sentir
O odor do teu corpo.
Não estares aqui
É jazer frio e morto
À espera que a vida se refaça.
O tempo passa
E a espera esfuma-se em nada.
A tua ausência, contudo,
Não pode ser apagada
Porque não se apaga das coisas
A essência.
Do amor,
Os amantes.
Do riso,
O espírito.
Do olhar,
A luz.
Do sexo,
O corpo que seduz.
Da palavra,
O ímpeto e a ternura.
Do gesto,
A intenção mais pura.
Cá fora é uma coisa,
Pobre e vazia.
Uma noite
Sem aurora nem dia.
Aí dentro é outra coisa mais linda,
O amor que não finda.
O poder todo do Universo
Num simples e singelo verso.
Aí dentro
Há um infinito.
Um silêncio
E um grito
Onde renasço,
Onde cresço
E habito.
Aí dentro…

jpv


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Três Mil e Seiscentos


Uma hora.
Sessenta minutos.
Três mil e seiscentos segundos.
Cada um deles
É uma eternidade,
Um tempo estrutural,
Uma fundação.
Um barquinho no temporal,
A minha mão
Na tua mão.
Cada segundo,
Não sendo nada para o mundo,
É um poço sem fundo
No amor que te tenho.
Não conheço o mapa,
Nunca vi o desenho
De estar contigo,
Mas sei este clamor,
Conheço esta força
E esta pujança
A cavalgarem-me a emoção
Quando,
Em um de três mil seiscentos,
A minha mão
Não encontra a tua mão.

jpv


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Multiculturalidade

Mails para a minha Irmã tem muito, e cada vez mais, orgulho nos seus leitores, na sua multiculturalidade.

Este quadro reflete a localização de quem leu MPMI num dia desta semana.

Obrigado, Amigos e Leitores.

jpv


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Se…

Se soubesses, meu amor,
O quanto gosto de ti.
Se ao menos conseguisses imaginar
Todos os peixinhos que há no mar,
Nesse oceano sem fim,
E quantas estrelas há no céu…
Saberias uma centelha
Das razões por que sou teu.

jpv


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A Tatuagem do Caminhante

Uma voz interior
Acorda um clamor
Dentro do peito exangue.
Uma ave corta o céu
No azul que brilha sobre a mão.
Informes, as nuvens
Desenham futuros em vão.

É uma planície
E é um terreno acidentado
E montanhoso.
É um jovem fogoso
E um velho decrépito a morrer.
E não sabe o velho porque não viveu,
Não sabe o jovem porque não vai viver.
É uma dúvida nua
Cravada no pensamento.
E ter o tempo todo
E gastá-lo como se não houvera mais tempo.
É uma coisa indizível
Sem palavras para a desenhar.
E é outra coisa, igualmente perecível,
Com todos os verbos no lugar.
É um rebentamento devastador
E uma música dolente
No horizonte distante.
É um homem-estátua
Rindo-se do caminhante.

A voz é agora um grito
E o pássaro livre procura, aflito,
Onde emudecer sossegado.
É uma estrada de terra vermelha
Tomando conta do chão macadamizado.
E o caminhante passa descalço,
Pés rasgados a arder,
Continua a rir-se o homem-estátua,
Inerte e imutável, sem Saber
E sem ignorância também.
Ri-se com desdém do desdém
Do olhar azul e altivo
Do caminhante só e cativo
De si e do Conhecimento.

Calou-se a voz interior.
Desfez-se o terreno acidentado.
Morreu o jovem ignaro
E foi a sepultar o velho abandonado.
Não há, já, dúvida,
Nem palavras para a vestir.
Não há música,
Nem homem-estátua a rir.
Só a estrada,
Um cavalo alado que dança,
O asfalto fervente,
A imensidão do vazio
E a linha magra e infinita
Na frente do caminhante
Que sorri de esperança.

jpv


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De Rerum Natura

Rosa do Deserto denominada “Bárbara Dias”

Não é…

Este texto não é sobre a Covid-19. É sobre coisas realmente importantes. Não são urgentes. São importantes. Não são mediáticas nem vão vender jornais ou fazer subir audiências. São só importantes. E o que é importante, hoje, tem muito pouca importância.

Não é porque não reajo que não vejo o que fazeis ao meu redor. Como vos reunis à volta da minha carne e farejais o sangue. Eu vejo. Não reagir é uma opção consciente e calculada. É um gesto de preservação da minha serenidade e da minha paz. Só depende de mim. Oiço música tranquila, neste momento em que escrevo à brisa de uma sombra fresca. E ninguém, nem nada, me tira isso. Não estou interessado em mais nada. Só na brisa e na frescura da sombra.

Não é porque não me insurjo que não percebo a injustiça e a ignomínia. Como conjurais com base em argumentos falaciosos construídos com conhecimento quase nulo de coisa nenhuma. Eu percebo. Mas não sinto. Não sentir é uma opção consciente e calculada. Nada do que digais ou façais tem o poder de, sequer, bater-me à porta da consciência tranquila em que me cerro e encerro.

Não é porque não veja o afastamento delicado e maquinado que não o denuncio. Eu vejo bem todo o direito e todo o avesso conjurado da trama. Sei por onde passa, para onde vai e que objetivos tem. Não denunciar é uma opção consciente e calculada. Porque, ao contrário de vós, eu já sou feliz e não careço da conjura para realizar-me e ser o que já sou. Porque a minha paz não se alimenta dessa matéria pútrida e fétida que alimenta a vossa existência. Por vezes, é melhor não existir do que cheirar mal. É melhor deixar correr os rios de lama do que cais na inglória e vã intenção de pôr-lhes diques. A lama corre sempre.

Aqui, onde me encontro, chegam sons da Natureza e dos Homens e a brisa e a sombra fresca e afetos simples e caseiros. Aqui, chega o tempo de ter tempo, chega a paz da contemplação e nada abaixo disso trepa os muros que lhe coloquei à volta. Neste Olimpo de serenidade, a conjura não tem como formar-se, crescer e subir porque é de outro universo. Um universo que não se cruza com este. Correm realmente paralelos.

Ainda há pouco aqui veio Deus perguntar-me o que mais queria para ser feliz, quem queria que resgatasse ou condenasse, um desejo só, que falasse e concretizar-se-ia. Vai pelos outros e dá-lhes do meu viver, disse-Lhe. E Deus foi, amuado e com um sorriso semi-desenhado na face imprecisa. Foi educado. Pediu desculpa por interromper. Eu fiz-Lhe um aceno desajeitado e reconfinei-me à minha efémera, perecível e doce felicidade. A felicidade de quem assoma à proa da vida e conduz o Destino de forma consciente e calculada. Esse nauta vê a borrasca no horizonte e vê-a aproximar-se e passa por ela e recupera o sol na pele e o céu limpo a fundir-se com o mar no olhar. Não se debate com a ondulação enfurecida. Navega-a, impassível e imperturbável. Sem hesitação nem temor. É que o nauta tem um segredo. Sabe onde fica o porto seguro. E tem uma bússola no coração. E tem um sextante na alma.

Não é porque não vejo a rebentação feroz das ondas na tempestade que não me debato com elas. Não debater-me com elas é uma opção consciente e calculada.

jpv