Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Como?

Diz-me, meu amor…
Como é que não se faz amor contigo?
Como resistir à tentação e ao perigo
De cair em teus braços?
Como posso evitar
Teus doces afagos
E os dolentes cansaços?

Diz-me, meu amor…
Como não deslizar nas tuas linhas?
Como fugir às carícias
E impedir que tuas mãos
Se fechem nas minhas?

Diz-me, meu amor…
Como resistir às palavras
Nascidas desse sorriso que se insinua?
Diz-me, como quem me salva,
Como pode a minha pele alva
Não colar-se à tua pele nua?

E, se encontrares resposta e solução
Para que eu não caia em tentação…
Vem, meu amor, ao meu ouvido dizer
Como se não faz o que só sei fazer,
Como se vive sem se morrer…
Estando vivo.
Vem meu, amor…
Libertar meu peito cativo
E obrigá-lo a ser quem é…
Não cai, jamais…
Um homem que ama de pé.

jpv


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Mulher é Mesmo Assim

Mulher é mesmo assim,
Chega no teu peito,
Rasga ele
E rouba teu coração.
E, no fim,
Pergunta porque não palpitas de amor.
Mulher não percebe a dor
Para lá da dor.

Mulher é mesmo assim,
Chega no teu universo,
E vira tudo do avesso.
E, no fim,
Pergunta porque não arrumas a casa.
Mulher quer que tu voes
E quer ficar com a asa.

Mulher é mesmo assim,
Leva tua caneta
Para escrever receita de bolo de tâmara.
E, no fim,
Pergunta se és poeta
Porque não escreves-lhe
Um poema de arrebatar.

Mulher é mesmo assim,
Quer carinho a toda a hora,
Há de pedir passares mais tempo com ela.
E, no fim,
Exige que vás trabalhar
E faças um curso de vela
Para teu físico melhorar.

Mulher é mesmo assim,
Quer comprar sapato
Que vale um mês de trabalho.
E, no fim,
Baila na tua frente
Com os pés nus no soalho.

Mulher é mesmo assim,
Critica porque só pensas em sexo
E não conversas com ela de mansinho.
E, no fim,
Quer com vigor
E também devagarinho.

Mulher é mesmo assim,
Não tortura,
Mas quer loucura
E pede juízo sem fim.
Mulher é mesmo assim.

jpv


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Luzes

Vi, sim,
No escuro, as luzes.
Vi os movimentos
E os reflexos.
E vi os verbos que,
Parecendo complexos,
Eram simples e banais…
E traidores.
Vi as dores fingidas
E as verdadeiras dores
De ódio e inveja.
Vi-te na conjura
E na peleja
De me armares a cilada.
Teu gesto é nada
E tua intenção vazia.
O negrume da tua alma
Não vale a luz de um só dia,
Uma hora, um segundo…
Tu não és do meu mundo
E eu desaprendi
O caminho para o teu.
Foi um ato consciente e propositado.
Não volta ao breu
Quem conheceu o caminho iluminado.
Queres apagar-me.
Queres riscar dos mapas
Os trilhos que minha mão conduz.
Não se apagam, camarada,
Os caminhos desenhados com luz.
Não és nada. Nunca foste nada.
Nunca serás nada.
Não sou nada. Nunca fui nada.
Nunca serei nada.
E a única diferença
Nestes dois termos da Lei,
É que eu…
Eu sei!

jpv


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Parabéns, Mãezinha!

Olá mãezinha.

Tu partiste de repente. Sem aviso. De consciência tranquila e sem remorsos. Enfrentavas as tuas dificuldades com um sorriso nos lábios e eras, no passado dia 23 de fevereiro, uma mulher autónoma, livre, absolutamente resolvida. Quer em termos da tua espiritualidade, quer em termos dos teus objetivos. Amavas e eras amada. Tinhas um círculo vasto de amigos. E era visível, na tua face e nas tuas palavras, a alegria pela antecipação de conheceres o teu bisneto. O James. O bisneto que não conheceste por meros 47 dias.

Hoje, farias 74 anos. Já tinhas casado, parido e criado dois filhos, sobrevivido a uma guerra, derrotado um cancro e estavas numa fase luminosa da tua vida. A beleza do teu sorriso espelhava isso mesmo. Uma curva, um acidente estúpido, um momento de infelicidade, levaram-te quando mais parecias querer viver.

Tu não deixaste só um vazio. Deixaste uma lição de vida. Um lastro de amor e resiliência.

Os teus gestos vivem em mim. As tuas palavras habitam em mim. A tua força guia-me. A tua presença é constante.

A vida não é a mesma coisa sem a tua presença. Mas continuamos honrando a tua herança de busca da felicidade, a tua determinação, o teu sorriso, a forma despachada e resoluta de enfrentares as dificuldades e de fazeres o que tinha de ser feito.

O teu bisneto tem os olhos azuis e é dinâmico. Ias amá-lo profundamente. O teu neto é um pai carinhoso e dedicado e tem uma esposa carinhosa e dedicada.

A mana está bem ou, pelo menos, está muito melhor do que seria de esperar. Levou tempo a cura das feridas do corpo. Levará mais ainda a cura das feridas da alma. Mas ela é forte e tem também, agora, a obrigação de sobreviver-te. De honrar-te.

Eu… tu sabes tudo sobre mim… tenho-te contado diariamente… amiudadamente…

Parabéns, mãezinha! Dou-te os parabéns. Darei sempre. Eu sei que tu gostas de fazer anos. Sempre gostaste. E, por mais perfumes que te ofereça, nunca serão de mais… era sempre uma escolha certa… afinal de contas, tu gostas de tomar um banho e arranjar-te e perfumar-te antes de… ires para a cama!

Do teu filho,
João Paulo.


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O Previsível Caminho dos Dias Pardos

De Rerum Natura
O Previsível Caminho dos Dias Pardos

O dia nasceu pardo. Não era hábito naquele lugar, naquela altura do ano. Mas nasceu pardo, como que a negar uma qualquer centelha de esperança. Não era dia para grandes cometimentos. Não era dia para iniciar projetos ambiciosos, nem mudanças de fundo. Era só mais um dia pardo. Dia de ficar perscrutando o sentido do amor no fundo do olhar dela. Dia de ficar roçando a pele na pele do desejo. Dia de dizer o que ela já sabia assim como quem se assegura de que ainda está tudo no seu lugar. Era o dia perfeito para fazer tudo que já fora feito antes, mas agora com intensidade redobrada e cuidado particular. Era o dia de andar descalço e seminu pela casa, de ver aquela porta do armário que fecha mal, de vestir a t-shirt com um buraco no ombro, de verificar aquela tomada que teima em pendurar-se da parede à espera de cair. Era dia de ler. De ouvir ler. Era um dia pardo, um dia de percorrer o previsível caminho dos afetos conquistados, constantemente reconquistados. Nesse dia, a nádega dela acordara com a exata forma da minha mão côncava. Não teve história e, contudo, foi habitado pelas personagens todas de todas as histórias que nos trouxeram até ali. Quando as pessoas se perguntam, por vezes, por que razão os dias brilhantes de sol não cintilam, esquecem-se de que o brilho tem de fundear-se neste amanho interior da alma, dos corpos e dos rituais que só pode acontecer quando a luz do astro grande se esconde. E tem de ser previsível. Tem de ser alimento. Fonte. Tem de ser um manual de rituais e um mapa de códigos e heranças ancestrais a invocar os pais dos pais dos pais e a desaguar em mãos dadas e afetos reafirmados. Os dias pardos não são tristes. São baús de aprender. São sementeiras de estar. São trilhos de interioridade e segredos por revelar. Ela levantou-se, deambulou sensual pelo espaço que nos separava, passou por mim sem parar, estendeu a mão como quem me convida e não aceita negação e eu levantei-me naquele enlevo guiado para desaparecermos na penumbra da casa. Percorreu-se, depois, o previsível caminho dos dias pardos. Hoje, o sol pendurou-se no firmamento e brilhou abundâncias de luz. Exatamente como estava previsto que acontecesse.

jpv


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Sei lá… é uma ideia…

A Instrumentalização da Covid-19

Desde que surgiu a pandemia Covid-19, logo desde o seu início, emergiram dezenas de teorias sobre a instrumentalização da doença. Eu também tenho uma da qual, curiosamente, não tenho ouvido falar muito.

As mais óbvias e divulgadas foram: i. um plano da indústria farmacêutica para vender uma suposta vacina que até já existiria. ii. Um plano das multinacionais para fazerem escoar matéria prima sob a forma de máscaras e outros acessórios. iii. Um plano dos chineses para enfraquecerem e dominarem o ocidente. iv. Um plano, à escala mundial, para dizimar os pensionistas com o objetivo de reajustar os macro orçamentos do Mundo na sequência dos efeitos da recente crise económica. v. Um plano do Planeta Terra para se vingar da Humanidade e a disciplinar. E outros, tantos outros…

Consigo perceber os raciocínios, mas considero-os, na sua maioria, lugares comuns, alguns até absurdos, fruto da cultura vigente nas redes sociais: a cultura do domínio da ignorância sobre quaisquer outras forças.

Ora, teorias há muitas e cada um de nós pode ter a sua… a minha é, provavelmente, tão falível e ignorante como todas as outras, mas tenho direito a ela.

Vejamos, em meio de todos os desatinos comportamentais que a Humanidade vinha cometendo, algo havia que nos trazia unidos e trazia, também, tons de esperança sobre esta nossa precária condição: nos últimos trinta anos, com particular ênfase para os últimos vinte anos, a Humanidade unira-se em torno da Questão Ambiental. O Ambiente era um assunto, efetivamente, concatenador das nossas atenções, preocupações e estava a mudar as atitudes e, mais difícil, as mentalidades dos povos. Eram aos milhões as campanhas, a investigação avançava, a informação disseminava-se e a conduta das pessoas estava mesmo a mudar. Reduzir, Reutilizar, Reciclar eram conceitos que estavam a entrar no nosso quotidiano. Tal como estavam a fazer parte dos nossos dias pequeninos gestos que, todos juntos, geravam grandes mudanças. Acabar com o plástico de uso único, apagar as luzes desnecessárias, fechar as torneiras desnecessariamente abertas, usar loiças, talheres, e outros utensílios de uso múltiplo… etc. etc. etc. uma infindável corrente de preocupação e união em torno da causa ambiental que, por medo da Covid-19, foi desbaratada em meia dúzia de meses. O distanciamento físico e o medo de transmissão do vírus trouxeram de volta, em muito pouco tempo, hábitos de consumo que levaram décadas a abandonar ou mudar. Deve haver alguém que ganhe com tudo isto… e particular aqueles cujos ramos de exploração do Planeta e de negócio começavam a perigar porque quando se muda a mentalidade das pessoas e os seus hábitos, há sempre alguém que fica a perder. Entristece-me, não obstante reconhecer a necessidade de nos protegermos da Covid-19, ver a tremenda regressão que está a dar-se nos hábitos de consumo. Já vale tudo de novo. Já todo o plástico de uso único é admissível, já todas as práticas que subvertem os conceitos de Reduzir, Reutilizar e Reciclar, são admissíveis e até encorajadas. Já ninguém quer saber da pegada de carbono e já ninguém quer saber se estão esgotados, ou não, os recursos do nosso Planeta.

É inegável que a Covid-19 veio mudar o nosso modo de vida e, supostamente, vinha fazer-nos refletir e aprender a dar valor àquilo que realmente tem valor. Não considero que isso esteja a acontecer. Pelo contrário, no que diz respeito ao Ambiente, está a fazer-nos recuar décadas.

jpv


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Eh lá! Not Normal Mr. Trump!

Bom dia, caros Amigos e Leitores.
É normal, Graças a Deus, termos cerca de 200 visitas por dia.
Também é normal, e compreende-se, que sejam, sobretudo, oriundas de Portugal e Moçambique.

O que não é normal, mesmo nada normal, é, às dez da manhã, haver quase uma centena de visitas oriundas da Terra do Tio Sam ou, nos dias que correm, da Terra do Tio Trump!

Huuummmm… aqui há gato…
Mr. Trump, and associates, I’m just a writer… 🙂 🙂 🙂 just a writer…
No politics involved! 🙂

jpv


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Cumplicidade

Cumplicidade,
É quando te faço um chá
E to levo à cama
Para poderes descansar.
Cumplicidade,
É quando sei o que vais dizer
Mesmo antes de começares a falar.
Cumplicidade,
É quando te dou a mão
Porque vi uma nuvem cinzenta
Pairar no teu olhar.
Cumplicidade,
É cuidar de quem amas
Quando não te consegues levantar.
Cumplicidade,
É quando entro no consultório
Porque sei que vais desmaiar.
Cumplicidade,
É ficar a ver-te dormir,
Noite dentro,
Até o sol raiar.
Cumplicidade,
É ficar contigo
A contar as ondas do mar.
Cumplicidade,
É enfrentar a tempestade
E ajudar-te a superar.
Cumplicidade,
É trabalhar a teu lado
Até voltares a acalmar.
Cumplicidade,
É uma vida
Na outra vida,
Uma dádiva e uma entrega.
Cumplicidade,
É tomar comprimidos
Porque não chegas
E o peito não sossega.
Cumplicidade,
É fazer-te rir
Quando apetecia chorar.
Cumplicidade,
É um homem perdido
No meio do alto amar.
Cumplicidade,
É ver-te vestir
E quase não ser capaz de respirar.
Cumplicidade,
É adormeceres no meu ombro
Só para te ver descansar.
Cumplicidade,
É olhar o teu corpo
Como se fosse um altar.
Cumplicidade,
É não saber o que vai acontecer
E estar disposto a morrer…

jpv


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Divindades Intermitentes

Sempre imaginei
Qua as deusas se banhavam
Em frescas fontes
Brotando cascatas de prata.
E, contudo,
Aqui estás, no meu chuveiro,
Com esse sorriso que resgata
O homem perdido,
Enquanto a espuma desce
As curvas de teu corpo despido.

Sempre julguei
Que as deusas comiam
Sob árvores frondosas e seculares,
Em mesas postas
De iguarias e manjares
Sobre toalhas de linho branco,
Embaladas pelo chilrear dos passarinhos.
E, contudo,
Sentas-te à mesa da cozinha
E comes queijo aos pedacinhos,
Em pão fresco e café quente,
Com papaias generosas no horizonte.

Sempre pensei
Que as deusas descansavam
Em camas de marfim
E imaculados lençóis de cetim
Com o firmamento por teto.
E, contudo,
Sentas-te na nossa varanda
Saboreando a brisa e o tempo
Enquanto escrevo por perto.

Sempre imaginei
Que as deusas orientavam
Os pobres humanos
Com um suave aceno da alva mão.
E, contudo,
Deslizas na sala de aula
De palavra límpida e proferida
E envolvente explicação.

Sempre julguei
Que as deusas dormiam recostadas
Em leitos divinais
Com pajens e amas de quarto
Satisfazendo seus caprichos banais.
E, contudo,
Deitas-te exposta ao meu olhar
Bela, sensual,
E sem qualquer banalidade,
Em lençóis simples e monocromáticos
Comprados na calamidade.

Sempre pensei
Que as deusas amavam
Em leitos de luxúria
E orgias intensas e loucas.
E, contudo,
Em breves dias me ensinaste
Que são parcas e poucas
As artes das deusas
Nesse diálogo de tranquilas euforias
Que nossos corpos travam nos dias
Em que dançam juntos
A melodia do amor…

Tenho dó das deusas.

jpv


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Desejo Noturno

Uma só.
Uma só palavra.
Uma só palavra no momento.
Uma só palavra no momento exato.
Explode a invasão,
Doma-se o domador,
Toma-se o tomador.
Perde-se a visão, o sabor, a audição e o olfato.
Fica só a palavra.
A intenção.
A remota ideia de existir
E o êxtase sublime do tato.
Já viveu o homem.
O homem agora morre.
Já não sabe quem foi.
Não se lembra, já,
Nem lhe ocorre,
Quem tivesse sido.
Esta palavra foi a morte
Do homem renascido.
Alonga-se o tempo.
Alonga-se o tempo todo.
Alonga-se o tempo todo no espaço exato.
Não fica, sequer, o tato.
Só o abandono.
Só o abandono nos braços.
Só o abandono nos braços da mulher.
Tudo renasce.
Tudo renasce quando.
Tudo renasce quando o homem quer.

jpv