Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Falta de Tempo

Passei por ti e não vi
Não vi porque não olhei ou,
Se olhei nem reparei no teu olhar
Perdido, vagueando por um passado longínquo
Combatendo o tempo que passa devagar

Falaste para mim mas não ouvi
Ou se ouvi não escutei
As tuas histórias

As tuas histórias que estavam ali
Ao alcance de um minuto de prosa

Mas agora não…
Agora não tenho tempo
Não tenho tempo para ouvir as tuas histórias
De guerras e batalhas
Por pouco mais que meio palmo de terra
Eu sei que foste herói
Foste guerreiro
Foste jovem travesso e menino traquina
Foste um príncipe
Foste um grande rei no teu pequeno império

Amanhã, talvez eu tenha tempo…
Amanhã…

É irónico!
Eu não tenho tempo
Mas… é o teu tempo
Que se está a esgotar

Rosinha


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Parabéns, pai.

Olá Pai.
Não há palavras para expressar a falta que nos fazes.
Não cabe no léxico dos homens, o homem que foste, sobretudo, o pai que foste para nós.
E continuas a ser. O teu tempo e a tua vida não terminaram no dia em que partiste. Estás connosco, sempre. Os teus gestos, os teus princípios, as tuas virtudes e as tuas falhas fizeram de ti um modelo humano que procuramos no quotidiano. Não encontramos a tua presença para abraçar-te, mas sentimos-te connosco sempre.
Se ainda estivesses entre nós, farias hoje anos. Sabes, pai, continuas a fazê-los porque a mãe, a mana e eu continuamos a celebrar-te e a reviver-te e a erguer de ti a memória nas nossas acções. À medida que o tempo passa, vão-me dizendo que estou cada vez mais parecido contigo. Quem dera! Mas não sou capaz de tanto. A mãe continua casada contigo. Acho que ainda não enviuvou. A mana está bem. Tem outra vez a força que lhe conheceste. E eu continuo a reinventar a vida e as palavras em busca de ti e embato com estrondo neste vazio de não encontrar-te no tacto e no cheiro e na voz. E fica-me a imagem do meu guia, da minha segurança e temo. O mundo é um lugar mais inseguro e mais difícil e hostil sem ti. Sinto esta inexorável falta. Por vezes, converso contigo. Espero que tenhas estado atento porque todos os fins-de-semana finjo que te telefono para comentarmos o resultado da Académica. Ficou-me este hábito.
E hoje, um pouco mais do que nos outros dias, lembrei-me de ti e vim oficiar a memória e a força de estarmos unidos mesmo que em universos diferentes.
Parabéns, pai.
Teu rapaz.
————————————————
(Father and Son by Mark Knopfler)


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1-1-11

Pois, não é sempre que pode escrever-se uma data com esta curiosidade: 1-1-11.
Será que vamos ter um ano fundador, iniciático em qualquer plano? Nos planos todos?
Independentemente disso, a Natureza brindou 2011 com águas abundantes e transbordantes. Combinou-se com isso, o facto do meu Bronco permitir passeios pouco usuais uma vez que passa por quase todo e qualquer terreno. Juntamos uma companhia familiar agradável e temos uma manhã do primeiro dia do ano com alguma emoção e diversão.
Como já disse noutras alturas, não é preciso muito para usufruir das coisas mais fantásticas do mundo. A mãe Natureza fornece-as gratuitamente.
Votos de um bom ano. Pleno de realizações. Com riscos, ganhos e perdas que são o sal da vida.
JP


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Feu

Feu

Ardia forte e em rubor
E trazia nesse arder
Mais coisas do que calor.
Era um chamamento
De gentes rurais e antigas,
Um aquecimento de velhos,
De rapazes e raparigas.
E pouco se ouvia falar
Que ficavam enfeitiçadas as gentes
Pela conversa do crepitar.
Em silêncio.
Um respeito mudo por aquele poder
De aquecer em plena praça
Qualquer alma errante que passa.
E as gentes vieram chegando
Em ritmo lento e venerado
Como se estivessem orando
À coragem de Prometeu Agrilhoado.
E pairou ali uma nuvem ancestral,
Uma história de contorno imperfeito,
Uma dança e um ritual
Com homens, fogo e respeito.

jpv


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Scrabble

Scrabble

Sim
Não
Amor
Razão
Tudo
Nada

Eu
Tu
Ela
Porta
Parede
Janela

Alvorada
Poente
Saúde
Doente
Magia
Esforço
Parto
Torço

Aventura
Segurança
Loucura
Constança
Óptimo
Bom
Melodia
Tom
Harmonia
Tensão
Amor
Razão
Sim
Não

Já dei uma volta ao coração
E falta-me no tabuleiro da razão
Uma peça do jogo da emoção.

jpv


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Feliz 2011

A todos os leitores e amigos, votos de um excelente 2011.
Que se concretizem todos os sonhos.
JP


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Ouvido de passagem

Vá, quando der, vamos revolucionar Lisboa!”


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Made in China

Made in China

Era uma montanha
Com casario serpenteando a colina.
Era o breu da noite
Cortado por uma luz feita na China.

E não havia gente
Que a gente estava dormindo,
E cortava o frio constante
A luminosa estrela cintilante.

E senti naquilo um prenúncio,
Um aviso de um povo distante,
Um luminoso anúncio
De uma combinação intrigante.

Lá longe, onde se não ouve a Sua palavra,
Há um menino que produz
Esta luz psicadélica e brilhante
Que anuncia a chegada de Jesus.

jpv


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Morte d’Alma

Morte d’Alma

Ninguém percebeu.
Ninguém viu.
Ninguém suspeitou.
Qualquer coisa se partiu.
Algo em minh’alma se quebrou.

Foi uma coisa despercebida
Que fez um estrondo só meu.
Foi um lenço branco de despedida
Na mão de uma donzela que morreu.

E o navio já lá vai,
Eu lá com ele,
Eu cá comigo.
E pergunto a meu defunto pai
Qual é da vida o maior perigo.

E responde-me com palavras doces e suaves:
“Filho, arrepende-te do que fizeres,
Não queiras arrepender-te do que não fazes.
Procura no peito o que quiseres
E segue-o com gestos ousados e audazes.”

Morreu algo em minh’alma
E, no meio da turba, sinto chegar a calma.

jpv


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Alvorada

Alvorada

Vós, na cama deitados,
Não tendes como saber
Que anda no céu uma nota de alegria.
Junto às sete e trinta,
A luz faz uma finta
Ao breu
E já se vê o dia.
Anda o Sol às voltas
Com as voltas da Terra
E banha-a de mansinho,
E meu visual sentido não erra
Porque se corta a noite devagarinho.
E espraia-se a alvorada,
E isto é tudo
mesmo parecendo nada.
Há luz e vida
Nesta revolta.
Há um anunciar
De Liberdade.
Há almas vivas à solta.
E neste sentido
Que me conduz
Minh’alma nasce para a vida
Para a esperança e para a luz.

jpv