Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Salmo 23


O Senhor é meu pastor: nada me falta.
Leva-me a descansar em verdes prados,
conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma.
Ele me guia por sendas direitas por amor do seu nome.
Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos,
nada temerei, porque Vós estais comigo:
O Vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança.
Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários;
Com óleo me perfumais a cabeça, e o meu cálice transborda.
A bondade e a graça hão-de acompanhar-me todos os dias da minha vida,
E habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.


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Saudade

Hoje é um dia de Académica-Benfica.

Quem me conhece, sabe que sou adepto de ambos. Do primeiro porque vivi muitos anos em Coimbra, porque o meu pai é de lá, porque me formei lá… Do segundo porque o meu avô me ensinou a dizer Benfica, antes de qualquer outra palavra…
E nesta divisão moram outras emoções como a de comemorar um golo do Benfica. É sempre um momento fantástico. Ou, outra ainda, que me preenche a alma. O sorriso do meu pai quando a Académica ganhava, fosse a quem fosse, mesmo ao Benfica. E penso nesse sorriso e numa frase que o meu pai costumava dizer quando a Académica ganhava ao Benfica. Olhava para mim, sorria, esperava para ver como é que eu me aguentava à provocação e dizia no tempo em que os jogos eram a 2 pontos:
– Deixa lá, são só dois pontos e fazem mais falta à Briosa!
Não sei bem porque é que estou a escrever este texto. Acho que não tem nada a ver com o jogo, nem com a Académica, nem com o Benfica. Acho que é só saudade de telefonar-lhe no fim para comentarmos as peripécias do jogo.
– Paizinho, aí onde estás, há telefones? Precisava tanto falar contigo!


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À Flor da Pele


Olhar e ver
Grandes ou pequenas coisas
que nos cruzam o caminho…
Olhar…olhos nos olhos!

Ouvir, escutar e compreender

Palavras, sons ou o próprio
silêncio.

Saborear
O doce, o acre, o sal…

Cheirar, inalar o perfume
O odor
Das flores, do mar, da terra

molhada
Roupa lavada, suor…

Tocar, sentir

Um objecto, o frio, o calor
As mãos de uma criança,
Um corpo,
Um beijo…

Os cinco sentidos
Sentidos…à flor da pele.

Fernanda


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Bola de Fogo

Bola de Fogo

A bola laranja
Com o fogo a rebentar
Nasceu para me acordar
A esperança e o desejo.
Está prenhe e gorda,
Está farta e enchida,
E traz mais coisas do que calor,
Vê-se bem que vai parir a vida.

E aquece o corpo,
Que é o menos,
E traz luz a esta alma que temos,
E fecunda a terra e o chão,
Emprenha o engenho do Homem.
Enche de luz cada coração.

Estás aí, bola de fogo,
A provocar-me a consciência.
Começas e terminas o jogo
De fecundar e adormecer a existência.

Estavas rasteirinha, ainda agora
E teus laranjas floresceram em amarelo vivo
E em segundos foi-se a aurora
E vivemos, já, um dia de luz festivo.

jpv


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Palavras

Palavras

Não sei como se alivia a dor
Com palavras.
Não sei como se fortalece a alma
Com palavras.
Não sei como se ama um corpo
Com palavras.

Sei só que me resta
Esta vontade de curar-te,
Este impulso de fortalecer-te,
Este desejo de amar-te,
E palavras são só o que tenho.

Não sei.
E esta ignorância
É meu abismo
E minha ponte
E as palavras são meu fim
E minha fonte.
Não sei como faça
Sei só como diga,
Mas dizer-te não basta.

Tenho só estas palavras
Que me não chegam para tocar-te
E é com a impotência das palavras
Que cumprirei o Destino
E o Destino é amar-te.

jpv


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Presidenciais 2011 – Escolha aqui o seu Candidato

É aqui, amigos. Aqui neste blogue e em mais lado nenhum se vai escolher o candidato ideal para vencer as Presidenciais 2011.

Como hoje em dia se faz por tudo e por nada, traçaremos metas e delinearemos perfis. Ora, quanto às metas é fácil porque é só uma: ser Presidente da República Portuguesa. O perfil é que é o diabo! Coisinha difícil. Tenho muita compreensão e até certo dó por quem tem o ousado e corajoso cometimento de ser candidato presidencial. Diz-se para aí que hoje em dia os empregadores são muito exigentes, querem saber tudo, esquadrinhar a vida das pessoas, antes de as contratarem. Comparado com o escrutínio que se faz a um candidato, isso não é nada.

Este blogue facilitará a tarefa a todos os portugueses e portuguesas ou, pelo menos, aos que nos lêem que sempre são cento e picos em dias de vento favorável.

Primeiro requisito. A regra de ouro é que o político que quiser ser Presidente da República não pode ser… político! Que é lá isso agora os políticos acharem que podem fazer política? É uma arrogância, é o que é! Requisito imprescindível para exercer um cargo eminente e exclusivamente político: não ser político.

Segundo requisito. Ser pobre, ter sido pobre, ter amigos pobres, ter conhecido pobres ou, em última análise, independentemente do mais fausto e anafado aspecto, ter um dia passado fome nem que fosse uma laricazinha na fila para pagar o IRS. O nível de importância varia, mas é absolutamente imprescindível ter tido uma qualquer ligação com a pobreza.

Terceiro requisito. Ora, como não pode ser político, o que deve ser o político ideal para candidato à Presidência da República? Exactamente, não sei, mas deve ter uma profissão considerada digna. Tipo, médico, economista, professor universitário… Se a profissão puder estar relacionada com o segundo requisito, tanto melhor.

Quarto requisito. Este é um requisito coerente com o primeiro. O candidato ideal deve manter uma prudente distância em relação ao dinheiro. Acções, então, é fugir delas. Nunca ter tido, ter comprado ou ter vendido acções. E percebe-se. Sabendo nós que a crise é culpa dos bancos, quem tiver dinheiro nos bancos, sob que forma for, é também culpado. Assim, não é desaconselhável ter uma mesada, um dinheirito de bolso, mas acções é que não.

Quinto requisito. Não ter orientação política definida. Não ser de esquerda que é bandalho, não ser de direita que é elitista, não ser neoliberal que é amigo dos banqueiros que fizeram a crise, não ser nada. Ser neutro. E, simultaneamente, perceber muito bem o que são todos os que são alguma coisa.

Sexto requisito. Ser suficientemente inteligente para ser ignorante. Eu explico. O candidato deve ser inteligente e perceber do país e das pessoas e dos mercados e das necessidades e do que é preciso fazer para melhorar isto tudo, mas, ao mesmo tempo, tem de ser um ignorante político. Um tipo que percebe de tudo menos daquilo para que se candidata.

Sétimo requisito. Ter comprovadamente, leia-se, com testemunhas, desempenhado tarefas domésticas. Se não conseguir qualificar para este requisito, pode substituir por trabalho na lavoura ou numa indústria onde tivesse sido explorado. Em todo o caso, as tarefas domésticas pontuam mais na medida em que a maioria do eleitorado é feminino e aprecia uma ajuda na cozinha.

Oitavo requisito. Não ter amigos nem bem nem mal colocados. Sobretudo se derem nas vistas. O candidato ideal deve ter amigos e os amigos devem gostar dele e aparecer nas entrevistas rápidas no jornal da noite mas é fundamental que sejam sempre amigos anónimos.

Nono requisito. Nem ser tão velho que se identifique com o regime salazarista, nem tão novo que não tenha vivido nele!

Décimo requisito. Ter um nome próprio ou um apelido que reflicta a digna humildade do candidato, ou seja, funcione também como adjectivo. Se não tão humilde que sirva para adjectivo, ao menos que dê para nome comum. Não pontua tanto mas também qualifica. Exemplos válidos: alegre, nobre, defensor, cavaco…

Décimo primeiro requisito. Estar muito preocupado com a situação financeira a que os políticos profissionais deixaram chegar a nação e, ao mesmo tempo, defender o abaixamento dos impostos, a subida dos salários e o investimento público.

Décimo segundo requisito. Nunca ter roubado nada a ninguém e saber muito bem quem são e onde estão os que roubam!

Por fim, não como requisito, mas como opção metodológica, o não-político que quiser ser Presidente da República deve dar-se ares de independente e ter um forte apoio político, deve ser educado e acusar os outros candidatos de tudo quanto é coisa e, claro, deve ser sereno e colocar o dedo em riste enquanto fala com a veia jugular prestes a rebentar.

Fácil, não?
Juntando todos os ingredientes, fica-se com uma lusa versão do Tiririca, p’ra melhor não vai, pior não fica!


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Red Nails

Red Nails

As tuas unhas, hoje,
Querem arranhar-me.
Não, não é para aleijar-me.
É só para me marcar a carne
E a alma.
Para me roubar o sossego
E a calma.
Sim, hoje trazes mensagens
Nas unhas de carmim.
Unhas impecáveis
Que devoram a carne de mim.
E os teus lábios têm hoje
Um fino recorte
Onde apetece abandonar à sorte
Esta vida inteira.
Quero passear-me nessa curva suave e fina
Que são teus lábios de mulher e menina.

jpv


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Envelhecer

Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glória, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores
Mas lavra ainda e planta o teu eirado
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade!
Alimenta no espírito a saúde!
Luta contra as tibiezas da vontade!

Que a neve caia! o teu ardor não mude!
Mantém-te jovem, pouco importa a idade!
Tem cada idade a sua juventude.

Bastos Tigre


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Nota Mental

Ninguém nos obriga à força àquilo que interiormente não queremos. Até podemos fazê-lo, mas a negação interior estará sempre lá. E o preço a pagar por ela é demasiado elevado.


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O Duelo

Era uma vez um lorde que se zangou com outro. Já não sei bem a propósito de quê. Acho que tinha a ver com umas questões de terrenos e extremas e medidas e violações das ditas. E esse problema invocou querelas antigas. E o lorde, ferido no seu orgulho, certo de que estava coberto de razão, senhor da sua verdade, manipulador dos seus juízos de valor, marcou a sua posição e fez as suas exigências. O outro, assim lhe chamaremos, não cedeu. Não concordou. E não lhe satisfez as exigências. Tinha razões que só a ele assistiam e assistia compreender. Ora, não fosse o caso ficar em impasse e a honra manchada, o lorde esbofeteou o outro com a luva branca da palavra e desafiou-o para um duelo que, por duelo ser, acabaria com a morte de um e poria fim à querela. O outro revoltou-se todo por dentro. Não lhe parecia necessária tão radical solução, mas aceitou. Preparou a alma para o durante e o depois. Rearranjou e perspectivou a sua vida de acordo com todas as consequências possíveis do duelo. E treinou-se. Treinou a posição de partida com o braço levantado e a pistola na mão virada ao céu, treinou os passos a dar, quando virar-se, quando esperar o disparo do outro, como encarar a bala dele, quando fazer o seu, a firmeza da mão, a força no premir do gatilho, a pólvora a salpicar a vista, o que fazer se sobrevivesse, como tratar a viúva do adversário, os filhos, como apoderar-se das terras e dar-lhe amanho e cultivo. E, nos poucos dias que decorreram entre ser desafiado e apresentar-se a duelo, o outro mudou por dentro, fez-se um homem diferente e olhou para o mundo de diferente forma. Aparelhou o coração e fortaleceu a mente para apresentar-se a duelo.

Quando os padrinhos exibiram as pistolas numa caixa de madeira exótica forrada a veludo no interior, o lorde exclamou:

– Afinal, já não quero o duelo, não foi nada assim tão grave, vamos ser vizinhos e amigos como sempre fomos.

O outro ficou parado, especado, à espera do duelo que não pedira mas para o qual aparelhara o coração e fortalecera a mente. E ficou ali. Perdido. Sem saber o que fazer com a pistola que tinha na mão nem com a vida que tinha nas veias. Fizera-se um homem diferente para travar o duelo e já não havia duelo. E foi estranho o que depois aconteceu. O outro tirou uma pistola da caixa. Encolheu o braço e virou-a ao céu. Virou-se de costas para o local onde ainda agora estava o lorde. Fingiu que estava de costas para ele. Foi caminhando e contando os passos. Quando terminou, virou-se tranquilo, esperou o tempo que o lorde levaria para dar o tiro que não deu. Estendeu o braço. E disparou no vazio.

Soube sempre que o lorde lá não estava. Não soube nunca porque travou o duelo sozinho. Soube só que algo em si o obrigara a terminar aquilo para que se preparara. Um homem não aparelha o coração nem fortalece a mente em vão.