Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Ode por um Atraso

Ode por um Atraso

Escorrem os minutos
Pela minha impaciência
E procuro do Universo a ciência
De voar para ti.
Entrego as passadas
À sorte e ao acaso
E procuro convencer-me
De que é só um atraso.
E anseio ter-te
Nos braços
Em ritual
De estreitar laços
E ternuras.
Mas tu estás atrasada
Para as nossas loucuras.
E o dia fica
Com um tom sombrio,
Corre-me o dorso
Um pressentimento frio.
Virás?
E iluminas-me a alma
Irradias a luz da tua presença,
Inundas a paisagem com a sentença
De um sorriso.

E recomeça a vida
Em tempo conciso.
E há palavras
E beijos
E há um festim de sensualidade
Que se estende
Por um tempo
E um espaço
Sem idade.
E há cavalos à solta
E cavaleiros entusiasmados
Há receios a cair
E lábios inchados.

Fenece o dia
Começa a aventura
Em tons de harmonia
E pinceladas de ternura.
E caiu mais um muro
Em poucos instantes,
Foi num ermo escuro
A poesia dos amantes.
E o que lá ficou
Marcando o local,
É um rio
Que inundou
As terras de Portugal.

Uma palavra final
Para este estranho caso
Foi uma alegria total
Receber-te em mim
Com ilusório atraso.

jpv


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Estranha

Estranha

Ias ali,
Mas não sei onde estavas.
Sei só
O peso que carregavas
No olhar.
Não há
Neste mundo de mortais
Nada que valha
A morte
De um sorriso, jamais.
Sorri,
Estranha,
A esta vida
Que engana.
E traz a este mundo
A luz
Da Beleza
Que o teu sorriso produz.

jpv


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Elogio ao Amor

[Não sendo eu um apreciador da prosa de Miguel Esteves Cardoso, sempre lhe reconheci e gostei de certa crueza na forma como encara e expõe as ideias. Estou a postar este texto dele porque tenho pensado nisto. Nesta vida de meias tintas e conveniências que nos assola. Falta assumir. Falta sofrer. Falta acreditar. Faltam ideias e ideais. Aqui fica, pois, para memória futura.]
———————-

Elogio ao amor

Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há,estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje.Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.
O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio,não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado,viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”
Miguel Esteves Cardoso in Expresso.


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Vieille canaille


Se esta música não te fizer sentir nada, já sabes, mão no peito a ver se ainda tens um coração que bata!


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Parabéns à Cegonha

Ontem recebi a seguinte SMS:

“Caros amigos e família, tenho o prazer de anunciar que para mim e para a Ana começou uma nova vida, pois esperamos um bebé para breve. Beijos e abraços, Gabriel e Ana.”
Resta-me fazer publicamente o que fiz de imediato: felicitar os futuros papás, desejar-lhes felicidades infinitas e aconselhá-los, enquanto pai, que aproveitem cada momento, nunca adiem nada, experimentem tudo porque a vida, uma vida, é irrepetível.
Muitos Parabéns, Primos!
jpv


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Forças Maiores

Já quando foi do vulcão na Islândia falámos disto. Reparem como, quando a Natureza se mexe um bocadinho, proporções mínimas na dimensão do Universo, a vulnerabilidade e a fragilidade humanas se expõem.
Nós, por vezes, e por ilusão de perenidade, julgamos que temos força e que interferimos nos destinos do Universo e que temos soluções científicas. Não temos nada. Não somos nada. Somos só mais um minúsculo elemento de uma ordem maior. E não há mal nenhum nisso, mas deveria haver a humildade de reconhecer a nossa dimensão.
Andamos às voltas com crises políticas e financeiras, andamos à volta com discussões inócuas sobre os destinos das pessoas como se os controlássemos e, como se viu ontem, não controlamos nada.
Uma palavra de solidariedade e de esperança para os que sofrem com a catástrofe no Japão.
O poeta tinha razão. Não somos mais do que um bicho da terra tão pequeno.


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O Clã do Comboio – Multiculturalidade

Multiculturalidade
Não se trata de uma história. É o mero anotar de um apontamento multicultural.
Hoje, quando entrei no interregional das 7:18, a configuração daquela zona da carruagem ficou, subitamente, multicultural. À minha frente, à esquerda, um jovem casal de ciganos com sacos e malas diversas e uma conversa constante num tom audível e cantado como se cada frase fizesse parte de uma melodia andaluz. Também à minha frente, mas à direita, uma moça acerca de quem escreverei um dia destes, e cuja marca mais distinta é a suavidade e a doçura do sotaque brasileiro. Fala como se acariciasse as palavras e tivesse muito ciudado para não as partir. Não é música o que diz, é poesia. E, ao meu lado, um jovem africano, enfiado num fato-de-treino de feira, bem giro, por sinal, puxou do telemóvel e iniciou uma conversa imperceptível numa língua que não identifiquei, mas que tinha a envolvência e o calor do continente africano. Era melódica, mas de uma melodia recorrente nos sons e envolvente na tonalidade. Estava tudo a correr bem, quando entraram dois dos três amigos que querem salvar o mundo e não se calaram até Lisboa e não deixaram mais ninguém dormir e depois ainda tiveram a lata de dizer que o culpado era o escritor. E como falaram eles? Alto, mesmo a fingir que era baixo. Vozes ásperas e mudanças bruscas de tom. Qualquer coisa a parecer um faduncho de taberna em noite bem bebida! E o que é que se safou? Duas coisas. Primeiro, o humor. Um humor cáustico e peremptório a provocar gargalhadas abertas e fáceis. Segundo, a descrição da loira. Até eu, que não a vi, é como se a tivesse visto. Ia jurar que a vi. E gostei.

É assim o interregional das 7:18: tem seus momentos multiculturais!


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M

M

Não sou, porque nunca fui, uma pessoa de dias internacionais e mundiais e outros que tais. E a razão é simples, sou uma pessoa de todos os dias, os dias todos.

Acontece que tenho uma Mãe, uma Mana, uma Mulher, várias Marias, e muitas Mulheres na minha vida. Homenageio-as sempre que posso. Sempre que estou com elas tento que isso seja uma homenagem. Mas não era possível passar ao lado desta data. A data da Maternidade. A data da graciosidade. A data da generosidade.
Gostava que um dia, a Humanidade se reunisse em torno da indispensabilidade da Mulher. Muito sinceramente, não me interessa muito as que são amadas e desamadas. Isso são circuntâncias das vivências de cada um. Mas interessa-me profundamente que todas sejam respeitadas.
O meu respeito, a minha consideração e a minha vénia a todas as Mulheres, as que comigo se cruzaram e cruzam, e a todas as outras que fazem deste mundo um local melhor para se estar. Que lhe trazem conforto e amparo e força e perseverança. Consigo imaginar o Universo sem algumas das suas componentes, mas não consigo concebê-lo sem a presença da Mulher. E talvez seja isso por estarem elas na origem de todas as coisas!
Bem hajam.
jpv


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Mágoa


Magoa-me a mentira. Como me magoa a omissão. Não pela mentira em si. E a razão é simples. Todos mentimos. Faz parte do nosso processo de mediação. Quem afirma convictamente que não mente, já está a mentir. O que me fere são as razões por trás da mentira. As mediações. As falhas de quem mente e as falhas daquele a quem se mente. Sim, uma mentira nunca é imputável somente a quem mente, mas de igual modo a quem se mente. E as proporções de responsabilidade podem ser iguais ou não. E, não o sendo, não são, forçosamente, superiores na pessoa do mentiroso!
Magoam-me as mentiras e as omissões. As dos outros e, mais profundamente ainda, as minhas.
jpv