Suspensa está a Natureza
dos raios de Sol exuberantes,
porque só um véu de cinza
cobre os céus circundantes.
Ouvem-se, porém, suaves
chilreios e sopros de frescura
e eu viajo até às águas
dos ribeiros, sua brandura…
Saltitantes, ondeantes,
nas montanhas, nos pinhais!
Mas sem a alegria do Sol
até eu me sinto mole,
sem vontade, sem reacção,
ouvindo esta doce canção
da rola, do cuco, tão musicais,
e ainda muitas mais notas
dos passarinhos às voltas,
nas suas verdes catedrais.
É tão suave o ar que se espraia
e dilata por toda a paisagem
que trocava, para ir à praia,
meus afazeres pela viagem!
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Tu Destruíste-me a Vida

Tu Destruíste-me a Vida
A acusação soou
E trouxe no eco da sua entoação
Um grito de desespero
Um prenúncio de destruição.
Fugiram-me as ideias para longe
Para o tempo de não ouvir-te dizer isto,
Mas perdi-me no caminho do reverso.
Assalta-me a questão fatal,
O anúncio do final:
Será capaz de olhar em frente
Quem não vê o fim do passado?
Quem não tem memória que valha ser lembrada,
Ainda tem pernas para a caminhada?
Há coisas que se não pensam,
E há coisas que se não dizem,
Porque ditas,
Ou pior, pensadas,
São barreiras levantadas,
Fendas abertas nas estradas,
Cortes que não ardem nem sangram.
Apenas doem e secam.
Tu destruíste-me a vida!
Não há homem, nem mulher,
Capaz de viver
Com o peso desta acusação!
É demasiada a força,
É demasiado o peso,
Da destruição.
jpv
Cidreira Bela
Abraço
19000
Breve História da Humanidade
O Clã do Comboio – Iago
Curvas Formas

Curvas Formas
A redonda curva
Que o teu seio fazia
Acompanhava a linha
Elegante da baía.
A prenhe forma
Que o teu peito traçava
Tinha a linha da areia
E do mar que a banhava.
jpv
São só Poemas

Muda a Hora
Muda a Hora
Muda a hora.
E onde estava o sol
Ainda agora,
Lá se mantém,
Que os relógios mudam
Pela humana mão,
Mas o sol não quer saber
De ninguém.
E mantêm-se os passarinhos
Aconchegados em seus ninhos,
E correm os rios desvairados
Por montes, cabeços e valados,
E ribomba com pujança o mar
Lavando as mágoas da areia,
E tece a aranha
Sua letal teia,
E zumbem no ar silvestre as abelhas
Reencontrando-se na colmeia,
E balem as ovelhas
Pela manhã,
E continua a crescer-lhes a lã.
E o galo anunciou
Orgulhoso e altivo
A aurora de mais um dia,
Enquanto passava furtivo
Um lagarto de figura esguia.
E as formigas fizeram seu carreiro,
E a Natureza reproduziu
Um dia por inteiro.
E meu coração
Continua a bater assim
Como se não soubesse
Que um dia terá fim.
E porquê?
Porque só tem aqui e agora
E não lhe interessa para nada
Se mudou, ou não, a hora!
jpv




