Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Pequenos Milagres – A Mão de Amália

A Mão de Amália

O rapaz vai chamar-se Quim. E mais nomes não serão necessários para o nomear nesta história. Para que chame por ele quem tiver de o chamar, para que se lembre dele quem tiver de lembrar-se.

A rapariga vai chamar-se Amália. E de apelidos não precisará, também. Apresentar-se-á com esse nome e é com ele que se cruzará com Quim.

A cidade chamar-se-á Lisboa. Tem o mesmo nome da cidade que conhecemos e é capital do nosso país, mas já não existe esta cidade de que vos falarei. Será ela, o palco da vida onde o milagre vai dar-se.

É uma Lisboa de casario branco, escadinhado colina acima, ruas estreitas e sombrias e chão coberto de seixos do rio. É uma Lisboa de portas escancaradas e janelas abertas de par em par donde saem os ralhetes, as discussões e o trinado de uma guitarra antes de uma voz chorar um fado. É uma Lisboa de varinas e pregões ecoando na manhã. E tem ardinas vendendo esperança e notícias e é a Lisboa do tempo em que amarelo ainda não tinha sido pintado de encarnado e percorria as ruas com a sineta a avisar e a garotada pendurada na porta traseira arreliando o motorista da Carris. É a Lisboa dos banhos públicos, das fontes onde se vai à água de bilha na cabeça e dos lavadouros onde as mulheres acorrem a lavar a roupa e a perfumar o ar de sabão azul e lixívia. Corre água avonde e os miúdos chapinham com os pés descalços nas poças e nas regateiras por onde corre o líquido ensaboado. Há roupas de corpo e enormes lençóis brancos nas cordas das ruas e nas janelas. No largo do lavadouro, a garotada improvisa um jogo de bola, o mais importante jogo da época. É um Benfica-Sportengue. Duas pedras marcam uma baliza e outras duas delimitam uma segunda baliza, um pouco mais pequena porque o guarda-redes é mais pequeno e A gente joga com menos um. Quim quer ser o Ósébio. Mas tu não és preto! Ora, isso não é razão, aqui ninguém é preto. Mas se queres ser o Ósébio, tens de ficar mais preto. Quim baixa-se, raspa as mãos no empedrado da calçada e na terra, olha para elas, estão bem sujas, leva-as à cara, esfrega bem, esforça-se por ser o mais preto possível, já sonha com um golo à Ósébio, e pergunta, Está bom? Eh, ainda não estás bem preto, mas já serve, jogas pelo Benfas. E já todos sabem quem são as equipas. Só os sportinguistas comprovados podem jogar pelo Sportengue. Só os benfiquistas atestados podem jogar pelo Benfas e é por isso que cada um anuncia o seu nome de jogo. Eu sou o Hilário, Eu sou o Costa Pereira, aquilo é que é um quiper, tem cá umas mãozinhas, como estas, olha, olha! Eu sou o Carvalho, Eu sou o Zé Ógusto, Eu sou o Fernando Mendes, Eu sou o Torres! Tu? O Torres sou eu! Mas eu queria ser o Torres e disse primeiro. ‘Tá bem, mas eu sou mais alto. E continuam por aí adiante, brincando de viver, fazendo da brincadeira vida séria. As mulheres estão por ali, com um olho no burro e outro no cigano, ora lavam, ora vigiam a bola e, às tantas, gritam frases de incentivo, Vai Quinzinho, remata à baliza, faz um golo para a mamã ver. Ele aqui não é Quinzinho, é o Ósébio! E as mulheres desabam numa gargalhada e retomam o lavar de roupas e começam a cantar e de entre elas uma se destaca pelo timbre da voz, pelo milagre da harmonia, pela forma como as faz sorrir ou chorar consoante o que canta. Chama-se Amália. As outras começam a cantoria, mas, a pouco e pouco, vão-se calando e deixam o Senhor cantar pela boca de Amália. Ela reclama, Vá lá, acompanhem-me, vocês sabem esta. Elas sabem, mas preferem ouvi-la a ela. Só assim os seus corações se enchem, as suas almas se guindam aos céus. Ó Amália, canta aquela que eu gosto. E ela faz-lhe a vontade e toda a cidade parece calar-se, até mesmo os pardais de telhado, para que a sua voz atravesse as ruas e suba aos céus para donde veio. O Sportengue chegou ao intervalo a ganhar 5-4, é um clássico muda aos 5, acaba aos 10. Muda-se de campo, reajustam-se as pedras a marcar as balizas, o Benfas dá réplica na segunda parte. Há 9-9, a emoção está ao rubro, Torres faz uma finta exímia recorrendo a uma tabelinha com a parede caiada, uma mulher ralha com ele, Ah malvado que sujas a parede toda! Mas ele não quer saber, coloca o pé direito na bola de trapos e faz um passe de morte para o Ósébio que recebe no peito, cola na calçada, encara com Hilário, pergunta-lhe, Para que lado queres? E atira para o fundo das redes. É o júbilo, a loucura total. Findo o jogo, à medida que se aproxima do lavadouro, Ósébio vai voltando a ser Quim e Quim está entusiasmado e cansado, sua em bica. Quando aí chega, deixa-se invadir pelas vozes das mulheres conversando, pelo som das roupas mergulhando na água e fazendo chape na pedra e pelo perfume a limpeza e felicidade. Está uma garrafa na beira da pedra do lavadouro, distraído com a emoção do jogo e do ambiente, o miúdo de calções e pés descalços pega na garrafa e leva-a à boca. E é nesse momento que o mundo para. Que a sua vida muda para sempre porque não chegou a mudar. Uma voz cristalina corta o ar da manhã, suspende a vida toda porque traz um tom inequívoco de alarme: Quiiiim! O miúdo suspende por momentos o gesto numa breve hesitação, o suficiente para que Amália lhe segure a mão e lhe roube dela a garrafa, Cuidado menino, se bebes isso, matas o Eusébio!

Cansado, suado da refrega do jogo, ávido de matar a sede que o atormentava, Quim esteve quase a sorver dois generosos golos de líxivia. o bastante para o queimar todo por dentro, talvez mesmo para lhe roubar a vida ou, caso a sorte o protegesse desse destino, para o tornar dependente de medicamentos e cuidados durante todo o tempo que lhe restasse viver. A atenção e a mão célere de Amália salvaram-no desse caminho. Fez outro. Nunca saberá se foi melhor ou pior. Saberá, só, que naquele dia Lisboa continuou feliz. Um pequeno milagre do quotidiano mudou para sempre a sua vida e a vida daqueles que com ele se vieram a cruzar.

Amália cantou e encantou. Fez o milagre da comoção. Fez o milagre de levar as pessoas a sentirem-se tocadas pela voz do Senhor, envoltas em emoção e reconhecimento. Amália viajou, encheu plateias, escreveu e, sobretudo, cantou. Cantou e elevou a condição dos homens e das mulheres que a ouviram a seres abençoados. Amália não soube, nunca, contudo, que o verdadeiro milagre que operou na sua vida, acontecera naquela manhã junto ao lavadouro. No dia em que salvou a vida de uma criança que coisa mais preciosa no mundo não há.

jpv


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Crónicas de Maledicência – Apresentação

Crónicas de Maledicência – Apresentação

As Crónicas de Maledicência não serão textos simpáticos. Nem antipáticos. Serão a verdade nua e crua segundo a minha perspetiva e, como tal, refletem exclusivamente a minha opinião.

A ideia não é fazer justiça, não é ser moralista, não é encontrar a solução milagrosa, não é destruir, mas também não é construir. É, simplesmente, pegar num assunto da atualidade e dizer sobre ele o que bem entender e o que bem me apetecer.

Serão polémicas? Admito que sim. Há em mim um homem cordato e tranquilo, um tipo conciliador. Mas também há em mim um rebelde confrontador sem papas na língua. É este segundo que quero se veja nas Crónicas de Maledicência.

Tive um professor na faculdade que dizia amiúde, A maledicência é uma coisa muito portuguesa e muito saudável. Não farei maledicência pela maledicência. Isso seria inócuo. A ideia é, quem sabe, despertar algumas reflexões e talvez alguns comentários. E, por favor, não concordem comigo. Ou concordem. Façam o que vos apetecer. Se há coisa que prezo na Bíblia é aquela ideia do livre arbítrio que não é a mesma coisa que livre arbitragem. Está mais na moda esta segunda. Lá iremos.

Temas? Os que me apetecer. Sobretudo aqueles de que eu perceber pouco! Sempre achei uma treta aquela conversa das pessoas só falarem ou escreverem do que sabem. Isso faz sentido em ambientes profissionais ou muito circunscritos. A verdade é que todos temos direito a uma opinião sobre tudo aquilo que for inteligível para nós, tudo aquilo que faz parte das nossas vivências e que, de uma forma ou de outra, nos afeta enquanto cidadãos. Ora, nestas crónicas, eu quero ser só o cidadão que anda na rua, paga impostos, tem empréstimo à habitação, vê televisão, lê jornais e escreve umas coisas. E reage. Reage ao universo que o rodeia, à sua própria circunstância. E zurze.

Estilo? Abertura, frontalidade, sarcasmo, textos diretos, concisos e breves, de preferência. O propósito não será ofender pessoas nem instituições e se houver alguém que se sinta ofendido e não consiga perceber que não foi esse o intuito das crónicas e que elas não podem calar-se por via dessa possibilidade, então sugiro que leia outro blogue. Ele há tantos!

Interação? Claro! comentem para aí a ver se eu me importo e… se vos apetecer sugiram temas. E pronto, até breve! A primeira Crónica de Maledicência é já a seguir!
jpv


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Por causa dA Dívida – VIII


Caros leitores,

Dulce Morais acabou de publicar o 
Capítulo VIII de “Por causa dA Dívida” no Crazy 40 Blog.

Iremos continuar a história em breve nestas páginas com o Capítulo IX.

Boas leituras!


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Como é que diz que disse?

No Comboio:

– Podias trazer outro jornal para ler no comboio. Um mais pequeno.

– Eu não trouxe o jornal para ler no comboio, foi para ler em casa.

– Você podia trazer aquele jornal francês, o El País!


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Quadra da Janela

Quadra da Janela

Para toda a janela
Devia haver
Uma moça bela
P’rá a gente ver.

jpv


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Golden Gate

Golden Gate

Fundido está o ferro.
Desenhado está o portão.
Abre e fecha sem erro
Por dextra ou sinistra mão.
Torcido está o ferro,
Construída a gaiola,
Para sua ave canora e cativa.
Se a dourada prisão
É feia ou bonita,
Isso,
Depende da perspetiva.
Quer sair a ave
Que agora presa está.
Desespera com o cativeiro
E anseia a liberdade
Porque não sabe
O que esta lhe trará.
Liberta-se e voa
À procura da sua sorte
E a única que encontra
É um jogo soturno e frio
Cujo vencedor é sempre a morte.
Em fome e perigo
Passa por ali outra ave,
De asa abatida e torta.
Entra na gaiola
E fecha, por dentro, a porta.
Por insegura se sentir,
Na gaiola se escondeu,
Faltou-lhe a liberdade,
E por isso morreu.

Vieste até mim,
Trazias uma lágrima sentida,
E disseste, enfim,
Porque tinhas a alma perdida.
És libertina e canora,
Irradias, dentro da tua gaiola
A luz que levaste cá de fora.
É curiosa e dramática
A tua situação.
Estando lá dentro,
Queres vir para fora,
E voando cá fora,
Lá dentro, cativo, ficou teu coração.

Não há portões doirados,
Nem gaiolas que preservem da maldade.
O portão por ser portão,
A gaiola por gaiola ser,
Hão de sempre tolher a liberdade.
A menos que aconteça
Ser-se cativo por vontade.

jpv


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Como é que diz que disse?


“Um dia aquele senhor ainda se vai sentar numa cadeira e aplaudir-me de pé!”


In Ídolos de Portugal


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Elegia para um Concerto – III

Capítulo III – Alquimia
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Alquimia, s. f. Química da Idade Média. Ciência oculta tendente a descobrir o elixir da vida e a pedra filosofal.

Escolheram o momento adequado para dizer-me. Acontece que nenhum momento é adequado para se dizer a uma pessoa que outra pessoa morreu. Sobretudo se eram amigos. Sobretudo se algo poderoso os ligava. E ligava. Era um concerto. A vida nunca mais foi a mesma. Porque não fica a mesma, a vida de uma pessoa quando outra lhe é subtraída. Porque nunca mais ouviria aquele concerto da mesma maneira. Dali em diante, quando o ouvia, não era só pelo gosto de o ouvir, era também, e sempre, como quem presta uma homenagem. Vou contar-vos a minha história com o S. e o concerto que nos uniu para sempre.

Por razões que as leis do comércio ditam, gravaram o concerto. Ainda bem. Os jornais já vinham falando do lançamento há algum tempo. Sobretudo o “Sete” porque era da especialidade. Na altura, era possível produzir e vender um jornal que fosse exclusivamente sobre arte. Finalmente, em 1 de março de 1984, o álbum com a gravação do concerto foi lançado. Em dois suportes. Vinil e cassete. Não comprei. Nem sequer soube do lançamento. Lembro-me de ver um poster com o Mark Knopfler a tocar guitarra com um casaco encarnado e uma tira branca de pano na cabeça, mas não associei à música. Não podia. Não a conhecia. Mas este concerto tinha de vir ter comigo. Tinha de fazer o seu caminho até encontrar-me. Acontece que a alquimia não se opera sozinha. Precisa de um alquimista. E o meu alquimista foi o S.

Os dias de escola tinham acabado. Pela frente havia um longo Verão de trabalho e aventuras. As aventuras lá mais para o pico da estação. Para já, o trabalho. Com o meu pai, com a minha mãe, com a minha mana. De manhã à noite, mercearias, charcutarias, frutas, clientes, balança, máquina de fiambre, embrulhos, contas, cumprimentos e de frente, do outro lado de uma rua estreita onde não passavam carros, o S. vendia material elétrico. Tomadas, interruptores, disjuntores e quejandos. Era um pouco mais velho do que eu. Rondava os 20, ele. Nos momentos de menor movimento, vínhamos os dois à porta, encostávamo-nos à ombreira e conversávamos. Sobre raparigas, futebol, episódios do trabalho e, claro, música. A música era a paixão do S. Ele tocava. Foi num desses momentos, lembro-me que era segunda-feira, que me disse, Tenho aqui uma coisa que vais gostar. Ah sim o que é? Um concerto, é o último álbum dos Dire Straits, conheces? Não, isso é o quê? É rock, o melhor de sempre, dizem que o guitarrista é o melhor do mundo, olha. E mostrou-me duas cassetes, parte 1 e parte 2, com o Alchemy. Quanto queres por elas? Um conto e quinhentos. ‘Tás maluco, isso é muito. Faço-te um desconto, mil paus. Não tenho dinheiro pá. Pagas aos bocados. E posso ouvir um bocado antes de comprar? Bem sei eu se gosto disso. Toma, leva-as contigo, só mas pagas se gostares, se não gostares dás-mas de volta.

No outro dia dei-lhe os mil escudos. Aquilo não era coisa que se comprasse a prestações. Demasiado bom. Demasiado precioso. Comecei a ouvir o concerto pelas dez da noite sentado na alcatifa da sala com um gravador que tinha, daqueles com uma portinha que levantava para se colocar a cassete e uma fileira de teclas à frente. Play, Stop, Pause, Fwd, Rwd, Rec. Esta última era encarnada. Depois mudei-me para o quarto e fiquei a ouvir os épicos solos do Mark, as histórias evocativas, as baladas, as músicas ritmadas. O que me entusiasmava era que cada música parecia contar uma história na forma como a sequência das notas estava ordenada. Assim como se a guitarra falasse. Só desliguei a música à hora do pequeno-almoço. Aquilo não era música. Aquilo era tudo o que eu alguma vez tinha conseguido sentir, todas as minhas emoções e sentimentos concentrados e condensados em duas cassetes a despertarem em turbilhão, música a música, nota a nota. Alquimia pura. Um milagre.

Gostaste? Toma o dinheiro. Pagas quando puderes, já te disse. Toma, quero pagá-las agora, esta noite não dormi. Eu sei, quando as ouvi pela primeira vez também fiquei assim. Não me saem da cabeça, não sei de qual é que gosto mais, acho que há uma para cada estado de espírito.

O Alchemytem uma identidade própria. É quase como se houvesse duas bandas chamadas Dire Straits. A que tocou o Alchemy em 22 e 23 de Julho 1983 e a que tocou as outras coisas todas. A que tocou as outras coisas todas é uma banda interessante, mas comum. A que tocou o Alchemy fez magia, encheu de emoção os corações de milhões de pessoas, preencheu-lhes as almas com imaginários fabulosos. As notas são imaculadamente tocadas nos momentos exatos, as pausas são perfeitas, as intervenções do vocalista na sua interação com o público são apropriadas e dão intensidade e familiaridade ao concerto, o público está a ouvir música rock num silêncio absoluto, embevecido e respeitoso e quando se manifesta isso vem na sequência da emoção acumulada e fá-lo de forma harmoniosa. Sim, por incrível que pareça, a gritaria dos milhares de espetadores que foram ao HammerSmith Odeon naquela noite é harmoniosa.

O concerto tem quatro momentos sublimes. São trechos longos que evocam vidas passadas, imaginários históricos, têm ritmos alternados que vão do entusiasmo absoluto à nostalgia melancólica e têm solos memoráveis, como se não fossem ter fim, como se aquilo que queríamos ouvir a seguir saísse por magia da guitarra de Knopfler. Por vezes quase param, mas, a pouco e pouco, promessa a promessa, retomam os ritmos trepidantes e fazem-nos acreditar de novo na Humanidade. São trechos épicos. Ouvir estes temas, cada um deles, é como nascer, viver uma vida, morrer e ressuscitar. O ciclo completo da vida mais um milagre. Falo de Once upon a time in the West, Telegraph Road, The Tunnel of Love e o imprescindível Sultans of swing.

Há, ainda, três momentos de inconfundível, ritmado e trepidante rock. São músicas de um folgo só. Avassaladoras na forma como nos exultam o espírito. Nesses momentos, é como se todo o Universo girasse à volta daquela batida, daquela trepidância arrebatadora. Solid Rock, Expresso  love e o inesquecível Two young lovers.

E há por fim um outro conjunto de momentos. As reflexões. São baladas melodiosas que nos empurram para dentro de nós próprios e nos revelam os nossos mistérios interiores. São histórias de amor e nostalgia. São hinos. E uma delas, a que fecha o concerto, é uma despedida. Um lento e suave adeus de quem parte e regressa às suas origens. Romeo and Juliet, Private investigations, Love over gold e a suprema Going Home.

Durante a semana em que conheci este concerto, conversei diversas vezes com o S. sobre as canções e o seu significado. Sobre qual gostaríamos mais. Gostávamos de todas. Em separado não fazem grande sentido. O ideal é ouvir o Alchemyde uma vez, como se fosse uma história e depois… ouvi-lo de novo. O significado do Alchemy para nós era a reinvenção do Homem pela música, uma história abreviada da nossa existência, uma visita guiada pelas nossas aspirações, pelos nossos sucessos e pelas nossas desilusões. Às vezes púnhamo-nos a trautear as letras ou os solos e a fingir que tocávamos guitarra. Braço esquerdo estendido, braço direito encolhido a dedilhar junto à barriga. O S. estendia o braço direito e encolhia o esquerdo. Era canhoto.

Aquelas cassetes acompanharam-me durante anos, até as fitas se partirem de tanto tocar. Depois adquiri o vinil, depois os CDs, hoje em dia tenho o Alchemyem diversos suportes e, claro, espalhado por todo o lado. Aparelhagem, computador, carro e telemóvel. Para quando as coisas correm muito mal, muito bem ou assim-assim. Consigo trazê-lo no carro durante dois ou três meses e ouvir pedaços sempre que conduzo nem que sejam só dez minutos. É como se a vida ficasse mais fácil, mais fluida, como se valesse mais a pena vivê-la.

Quando chegámos a sexta-feira, percebemos que tinha sido uma semana igual às outras todas e, contudo, especial. Igual às outras todas porque repleta dos mesmos rituais, dos mesmos gestos. Especial porque conversámos sobre a música das nossas vidas, porque numa só semana aprendemos sentimentos e emoções extraordinários a ouvir Knopfler e os seus amigos no HammerSmith Odeon. E, claro, criámos uma cumplicidade nascida no gosto pelos acordes e ampliada pela perceção do sentido múltiplo das composições. Eu estava feliz por ter encontrado a felicidade. Ainda bem que comprara as cassetes. Era como se uma parte de mim tivesse andado perdida e, pela música, se reunisse na minha existência. O S. estava feliz por me ter mostrado a felicidade, por ter encontrado quem admirasse a música com ele. Ao final da tarde de sexta-feira disse-me, Amanhã vou a Lisboa buscar umas coisas muito boas, há uma que vais gostar. O que é? Logo vês.

Na segunda-feira de manhã, quando cheguei à loja, não o vi. Pela hora do almoço, a minha mãe disse-me, Sabes, filho, às vezes a vida traz-nos coisas boas e outras vezes leva-nos as coisas boas que nos trouxe. O que é que foi? Não há como dizê-lo de outra forma, o S. faleceu. O quê? O S. o quê? Como? Parece que foi a Lisboa no sábado e no regresso teve um acidente ali no cruzamento de Leiria, uma vida não se ceifa assim, mas a vida não está nas nossas mãos. Sim, eu sei.

Não fui ao funeral. Não soube sequer quando foi. O S. para mim não morreu. Vive em cada acorde da mágica noite de Londres em 22 de Julho de 1983. E vive em cada emoção que me aflora a alma e o peito quando oiço a guitarra de Knopfler. Vive porque está comigo, o meu alquimista, o jovem que me revelou a magia da música. A música que, desde então, tem sido a banda sonora da minha vida.

“HAVE A SAFE JOURNEY HOME”
(Mark Knopfler ending Alchemy)

jpv

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Elegia para um Concerto – II

Capítulo II – Concerto
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Concerto, s.m. [Música]  Execução de vários trechos musicais. Consonância de vozes ou sons. Harmonia. Canto harmonioso das aves. Trecho musical destinado a fazer sobressair um instrumento.

Há já vários meses que todos os bilhetes tinham sido vendidos. Há duas noites, já, que muitas pessoas, mais jovens e menos jovens, marcavam lugar junto ao recinto. Mas foi no próprio dia do concerto que a multidão atingiu o seu auge em número, em agitação e em folia.

Nesse dia, a paisagem da grande urbe londrina estava envolta em luz e calor. Um calor sufocante e um sol intenso. Incomum. Como incomum foi o concerto que o marcou. Em 22 de julho de 1983, todos os caminhos, ruas, ruinhas e ruelas pareciam desaguar gente nas imediações do HammerSmith Odeon. A razão era simples. Simples e mágica como o nome do evento anunciava em jeito de premonição: Alchemy: Dire Straits Live.

Não estive lá. Nem sequer soube do concerto. Esse memorável evento só entraria na minha vida no início do Verão seguinte.

Continua…

jpv


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Elegia para um Concerto – I

Capítulo I – Elegia
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Elegia, s. f. Poema sobre assunto triste ou lutuoso.

Uma elegia é um poema sobre um assunto triste ou lutuoso. Diz o dicionário. É preciso concordar com o dicionário. E é preciso, também, discordar dele. Em primeiro lugar, na forma, um poema tem carreirinhas de letras mais ou menos curtas, na generalidade, mais curtas do que compridas. E rima. Enfim, não rima sempre, mas rima muitas vezes. Ora, na forma, as carreirinhas de letras que aqui vos deixo não são um poema. São prosa. Mas não é na forma que as quero poema. É no canto.

Sim, estas carreirinhas de letras serão tristes. E, por vezes, serão bem alegres. E, sim, será um texto lutuoso. Mas será também – atentai, especialistas, no paradoxo – uma elegia à vida! E à arte de viver que não é a mesma coisa que estar vivo.

Em conclusão, a minha elegia será em prosa, será sobre assunto triste e alegre que versa o luto, mas também a vida. Assim sendo, porque lhe chamo elegia? Porque o sinto como um poema. Porque o sinto pungente. Porque, no fundo do meu coração, e para além de todas as explicações avisadas e cientificamente validadas, sinto que é uma elegia.

E é por isso, caro leitor, que, se decidir continuar a leitura destas linhas, o que vai ler é uma elegia para um concerto.

Continua…
jpv