Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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De Porto em Porto – Munique

16 de maio – Aeroporto de Munique – 15:05 locais
Ainda faltam duas horas para o embarque. Tempo de reler uns documentos e por o blogue em dia.
Está frio. 6 graus. Notou-se bem na passagem do aviao para o aeroporto. Mas nao é geral. Aqui dentro está-se bem. Eu sei que o que vou escrever é óbvio, mas nao resisto. Eu tenho 1,72 de altura. Nao sendo alto, em Portugal sou um tipo de estatura média. Aqui sou um anao. Eu explico. Os mais baixos destes tipos, assim tipo os velhinhos já encolhidos e raquíticos, sao mais altos do que eu. Qualquer miúdo com 12/13 anos também. E elas? Sao da altura deles! Mai nada.
O aeroporto de Munique é muito confortável. Internet. Computadores sem alguns acentos e tal, mas tudo a funcionar na perfeicao, cafezinhos gratuitos nao vá aparecer algum mediterranico, jornais oferecidos só com o problema de serem alemaes e mais ninguem os ler a nao ser eles… mas há uma prateleirinha com uns americanos. Só nao tem a Bola nem o Record: nao sei onde é que este país vai parar.
Pormenor: os teclados sao tao manhosos que nem eles os sabem usar. Uma alemoa inda agora me perguntou como é que se fazia a @. Eu lá lhe disse. Devo ter acertado porque ela agradeceu. Ya, ya… dizia ela… danquechum… e eu, armado em parvo: nao tem de que, volte sempre, estou aqui todos os dias das 9 às 17. Ela riu-se e foi à vida dela que é como quem diz, escrever um e-mail.
Bem agora vou estudar um bocadinho… a ver se mais logo arranjo um teclado melhor. Noutro país… cá para mim… acabou-se a sorte!
jpv


Nota: texto escrito em teclado alemao, daí algumas falhas, a saber, cedilhas, acentos circunflexos e til…


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De Porto em Porto – Lisboa

16 de maio – Aeroporto de Lisboa – 8:40

Estao já mais de 20 graus. A manha nasceu luminosa.
O comboio ainda durante a noite. A expectativa da partida. As pessoas multinacionais circulando em seus afazeres, os sons próprios de partir, a responsabilidade na bagagem. Ingredientes de uma manha menos igual às outras.
jpv
Nota: texto escrito em teclado alemao, daí algumas falhas, a saber, cedilhas, acentos circunflexos e til…


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ErotiKa – O Corpo da Ideia

AVISO
Esta publicação contém um texto de teor erótico. Se se sente ofendido com textos, imagens ou quaisquer conteúdos sobre erotismo e sexualidade por favor não prossiga.
Do mesmo modo, o conteúdo desta publicação só pode ser acedido por pessoas maiores de 18 anos.
Assim, caso prossiga com a leitura, o utilizador fá-lo por vontade própria e assume ter idade para aceder aos conteúdos.
Obrigado
jpv
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O Corpo da Ideia

Caras leitoras,
Este, é um homem de que não ides gostar. Quero dizer, talvez não vos importásseis de amá-lo por uma tarde, uma noite, um dia, um fim-de-semana, mas esse conceito de um amar efémero e carnal não é para vós o conceito de amar, pelo menos, aquele que acarinhais mais e melhor. Não quero com isto dizer que sejais contrárias à ideia dos prazeres do corpo. Não. De todo. Acontece que, para vós, mulheres, os prazeres do corpo são uma extensão de outro amor. O amor alicerçado na dedicação, no carinho, no compromisso e na felicidade. E é quando uma tal sintonia no plano afetivo se atinge que a vossa mente e o vosso corpo despertam para os prazeres da carne. E é por isso que não ides gostar deste homem. É que, para ele, a carne vem primeiro. Acontece que, no seu caso, há uma arte, uma generosidade, uma envolvência e uma cortesia que mulher alguma pode ignorar. E caímos, assim, num paradoxo. Querei-lo, mas querei-lo só para vós. Para cada uma de vós. E isso é contra a sua natureza pois há muito que se assumiu como sendo de todas vós. Ao mesmo tempo!

Caros leitores,
Esta, é uma mulher de que não ides gostar. Quero dizer, talvez não vos importásseis de amá-la por uma tarde, uma noite, um dia, um fim-de-semana, mas esse conceito de amor não é para ela aceitável. Possuí-la pela carne implica um caminho de provações e compromissos que, na maioria dos casos, não estais prontos para aceitar. De resto, respondeis a um impulso básico e primário de cobrição em que amor e sexo se confundem e onde o primeiro pontua sempre desde que aconteça o segundo. É para vós o amor algo de imediato e jactante e, em abono da verdade, diverso e múltiplo. Podeis bem amar uma mulher, dedicar-lhe uma vida inteira, sem que isso vos impeça de ter outras em vosso leito. Tendes um coração largo, generoso e espaçoso onde todas caberão e onde cada uma terá seu quartinho para não misturar-se com as outras. Ora, isso é contra a natureza desta mulher que aceitará em si um só homem. Aquele que provar merecê-la. Sempre. Única e exclusivamente.

Vai ele chamar-se Carlos que outro nome não pode ter um tal coração. E foi com ele que a desposou. E quando o Padre lhe perguntou se era de sua livre vontade que a aceitava em matrimónio, ele respondeu Sim. E estava a ser honesto. Aquela era a mulher da sua vida. A primeira nas suas prioridades. Aquela a quem amava. Descobriria mais tarde que era capaz de amar outras, mas isso teve de esperar. Seis anos se passaram. De felicidade. De sintonia e genuína exclusividade. Carlos tinha os olhos fechados para o Mundo e as mulheres nele. No decurso desse sexto ano, contudo, coisas houve que o fizeram mudar de perspetiva. Olhar o Universo com os olhos abertos. Ver e observar as coisas, os acontecimentos e as pessoas à sua volta. E amou. Amou outra mulher. Uma paixão tórrida e consumidora que escondeu a custo da sua própria mulher. Quis dizer-lhe, mas conteve-se. Preferiu esperar. Ser prudente. E, menos de um ano volvido, começava a encontrar as falhas nesta mulher perfeita que aparecera na sua vida. E fechou esse capítulo. Tentou esquecê-lo. Nunca conseguiu. Por fim, decidiu guardá-lo como uma memória grata. Só isso. Tudo isso. E refugiou-se de novo no seu porto seguro, no seu lar, na sua amada de todos os momentos. Aquela que escolhera para casar e viver a vida inteira. Viu um documentário na TV sobre as crises matrimoniais onde se falava insistentemente no fenómeno da crise dos sete anos. Atribuiu o que acontecera a isso e fechou sobre o seu peito esse capítulo entusiasmante e efémero da sua vida. Durante três anos voltou a ser o Carlos que sempre fora. Quando perfez dez anos de casamento, voltou a sentir-se atraído por outra mulher. Desta vez estava preparado para o evento e sabia como resistir-lhe. Não resistiu. E não resistiu ao seguinte e ao outro e ao próximo que seria o último e ao que veio depois dele e ainda a mais uns quantos de circunstância. Hoje, está casado há dezasseis anos, tem um historial de relações extra-conjugais paralelas a um casamento feliz. Quase sempre. Já se percebeu. Já aprendeu a conhecer-se. E, o mais difícil de tudo, já aprendeu a aceitar-se como é. Mantém-se fiel ao seu amor primeiro, fiel aos sentimentos que nutre pela sua mulher, tem com ela uma relação estável e bonita e, contudo, decidiu deixar de fingir que não gosta da atração inicial, do enamoramento, da sedução e depois da entrega total, do sexo sem complexos e, por vezes, sem sexo. Percebeu que na vida há pouco mais do que aquilo que sentimos e experienciamos e percebeu, também, que há muito pouca coisa de real e verdadeiro interesse em todo o espectro do Universo conhecido para além das pessoas. As pessoas são o verdadeiro milagre da vida e as mulheres são as melhores das pessoas. A graça e a graciosidade, a elegância e a sensibilidade, as formas, o espírito, a amplitude do seu olhar, as suas inseguranças e as forças, a generosidade e a compreensão, fazem deste complexo ser, na opinião de Carlos, a mais extraordinária das criações de Deus e da Natureza que é Deus junto dos homens. É um hotel concebido para receber os amantes do sexo. Cama redonda, varão de inox, luzes néon encarnadas, muitos espelhos e uns desenhos alusivos às práticas que aí se espera aconteçam. Carlos está de joelhos ao centro da cama, à sua frente uma mulher está de quatro oferecendo-lhe o sexo e as nádegas. É generosa nas formas, libidinosa nos gestos e insaciável no desejo. Carlos incita-a com palmadas que lhe desenham as mãos na carne alva das nádegas, ambos gemem em sintonia e quando se dá a explosão das explosões, os dois estão preparados para mais. Ele vira-a e tomba sobre ela. Ela abraça-o, aceita-o em si e crava-lhe as unhas nas costas. Não foi propositado. Foi um impulso. Deixou uma marca. E a marca originou uma conversa.

– És um canalha, Carlos, um canalha sem vergonha! O que eu te amei, meu Deus!
– Tem calma.
– Calma? Como podes pedir-me calma? Tu destruíste as nossas vidas. Eu nunca te pedi nada, Carlos, nunca! A não ser que me amasses…
– E amo!
– Mentiroso! És um mentiroso sem emenda!
– Sim, sou. Não nego. Mas não quanto a amar-te…
– Como podes amar-me Carlos? Como pode isso ser verdade? Acabaste de assumir que dormiste com essa galdéria.
– Por isso mesmo. Porque assumi. Ela não significou nada…
– Quantas foram? Diz-me! Quem mente uma vez…
– Isso não é importante.
– Como não? Claro que é importante.
– Não é não. Não interessa quantas foram, interessa que não significaram nada. Tenta compreender-me. Eu vivi até aos dez anos do nosso casamento sem que nada disto acontecesse e nessa altura percebi a efemeridade da vida, percebi que eram importantes para mim os prazeres da carne… e essas mulheres, as diversas mulheres com quem me deitei, foram só isso, prazeres do corpo. Mas foste tu a ideia. A ideia do amor. Sim, eram os corpos delas, a sua graça, a sua variedade, mas foi sempre a tua ideia. Tu foste uma ideia em muitos corpos.
– Sai daqui Carlos, sai! Sai! Metes-me nojo! És asqueroso! És a negação de tudo o que eu pensava que éramos um para o outro. Sai daqui…
– Tem calma. Eu sei o que sentes…
– Não sabes, não. Não sabes, Carlos… mas… sabes que mais? Vais saber!

Vai ela chamar-se Joana, Joaninha entre as amigas, que outro nome não pode ter uma tal capacidade de amar, uma tal dedicação. E foi com ele que o desposou. E quando o ouviu dizer Sim ao Padre, seu coração tremeu e precipitou-se empurrando o seu Sim não fosse o momento perder-se. Aquele era o homem da sua vida. O primeiro nas suas prioridades. O escolhido. Aquele que quer para as manhãs de Primavera, as tardes de Verão e as noites de Inverno até que cheguem ambos ao Outono da vida. Será este o homem das suas alegrias, das suas tristezas e dos seus prazeres íntimos. Os mesmos que farão dele o pai de seus filhos. Dedicou-lhe o seu coração, dedicou-lhe a sua mente, dedicou-lhe a sua atenção e o seu tempo e teve dele os filhos que só dele queria. E sorveu-o para si. Acompanhou-o para todo o lado, sofreu com as dores dele, alegrou-se com as alegrias dele, ajudou-o no trabalho, poupou-o às preocupações que poderia ter partilhado. Fez do seu casamento a sua obra de arte e colocou-o a ele e aos filhos no centro dela. E confiou. Por volta dos seis anos de casamento sentiu-o mais distante, menos entusiasmado com a sua vida a dois. Organizou umas férias, tentou percebê-lo, não foi capaz. O homem era um bloco granítico. Não se revelava. Deu-lhe tempo. Refugiou-se na leitura. Gostava de ler, mas, desde que se casara, colocara esse hábito de parte como tanta coisa na sua vida. Agora voltava a ele. Lia os romances, uns atrás dos outros, os franceses, os ingleses, os alemães, os portugueses e os russos. Adorava os russos. Mergulhava naquela dor e esquecia a sua. Lia clássicos e contemporâneos com a mesma avidez. Sofria com eles. Entusiasmava-se com eles. Deixava-se abraçar e beijar e possuir pelos seus encantos. Quando Carlos acordou do desinteresse em que mergulhara, Joaninha continuou a ler, mas percebeu a sua mudança e deu-lhe atenção e a sua relação viu de novo nascer dias de luz e alegria. Ela nunca deixou de ler e, três anos mais tarde, quando ele voltou a emigrar para a indiferença, ela soube de novo onde refugiar-se. Cuidava dos filhos, cuidava dele, amava-o quando ele lhe pedia, mas quase sem sair do universo que os livros lhe criavam. As escapadelas começaram por ser para as páginas impressas e terminaram sendo das páginas impressas. O tempo foi passando e Joaninha sofria porque não fora aquela a vida com que sonhara, mas não se sentia com forças para suportar o fardo do casamento sozinha. E assim coabitavam, quase cordiais, quase indiferentes. Até ao dia em que ele saiu do banho, estava sozinho e não contava que ela entrasse, mas ela entrou como tanta vez fizera na intimidade do casal, e surpreendeu-lhe as costas marcadas pelas unhas de outra que as suas não haviam desenhado aquele êxtase. E aconteceu a conversa que ouvimos há pouco e agora se retoma.

– Tem calma. Eu sei o que sentes…
– Não sabes, não. Não sabes, Carlos… mas… sabes que mais? Vais saber!
– Acho que sei, Joana.
– Não sabes, não. Há coisas que não imaginas. Sabes, há pouco disseste, tentando ser agradável no meio de toda a trapalhada que fizeste, que eu fora uma ideia em muitos corpos… e foi essa frase tua que me provocou. Eu vou dizer-te a verdade…
– Qual verdade, Joana?
– A verdade, Carlos, é que eu te traio há muitos anos, com muitos homens. Diferentes nos seus corpos e nos seus desejos e uníssonos num só facto. Todos queriam possuir-me. E eu deixei. Mais do que isso, gozei os prazeres da carne com cada um deles.
– Mas que raio dizes tu, Joana? Há anos que não sais de dentro desses livros.
– Saio. Saio, Carlos… saio de dentro dos livros para trair-te com o teu próprio corpo. Há muitos anos, Carlos, que não faço amor contigo. Há muitos anos que não me entrego a ti. Tu, pobre Carlos, não foste mais do que um corpo para muitas ideias.

jpv


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Não se Faz

Não se Faz

Tinha a blusa
Um tom doirado
E, por baixo dela,
Um seio perfeitamente desenhado.
Era um prazer
E um espetáculo deleitoso.
Uma impertinência
De teu seio generoso.
Acordou-me emoções.
Despertou-me sentidos.
E vi na displicência
De teu seio
O fim e o meio,
Os homens felizes e os perdidos.
Provocavas e não sabias
Ou, sabendo, não querias
Ser ostensiva
Na ostentação.
Tinha o teu seio, por forma,
O côncavo da minha mão.
E olhou para meus olhos
Que lhe retribuíram o olhar.
Bailou no brilho deles
Enquanto lhe foi permitido bailar.
Vá lá,
Não me provoques
Que sou fraco
E facilmente me tento.
Guarda, com jeitinho, o teu seio.
Arrecada-o,
Mete-o para dentro.
E deixa meus olhos em paz
Que um seio tentado-me,
Assim, a alma,
É coisa que não se faz!

jpv


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MANUTENÇÃO TERMINADA

E pronto, caros amigos, terminámos as tarefas de manutenção e aproveitámos para fazer um ou outro ajustamento.

Grato pela vossa paciência.


Já a seguir, um poema a retomar a nossa verdadeira linha de publicação e a iniciar o nosso 4º ano de atividade.


Até já!

jpv


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MANUTENÇÃO

Caros Amigos e Leitores,

Se notarem algumas alterações no aspeto do Blogue nas próximas horas, não estranhem. O Blogger arranjou-me um probleminha de formatação que estou a resolver… Os textos continuam disponíveis para leitura.

Amanhã deverá estar tudo normalizado. Deve ter sido uma prenda pelo nosso terceiro aniversário!

Até já!

jpv


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Parabéns a Você!

A vida rola, surpreende-nos. Umas vezes pela positiva, até às lágrimas da alegria, outras vezes mergulha-nos no desespero total. E, de vez em quando, temos um motivo para celebrar.

Mails para a minha Irmã faz hoje 3 anos!

Pois é, estamos todos de parabéns. A mana, eu, a família, os amigos e os mais importantes de todos, os leitores.

Este espaço faz parte do meu quotidiano. Começou por ser um espaço de republicação de mails que tinha escrito à minha irmã. Depois as reflexões, depois a poesia, depois a música, depois os romances, depois os contos,  depois os índices, depois as citações, depois, depois… depois são três anos de publicações, de interações e fidelidade para com os meus leitores.

No início, éramos cerca de 20 por dia. Hoje somos cerca de 200. Não é muito, mas quem vem aqui costuma ficar a ler as coisas e faz-se frequentador.

Não vou fazer estatísticas. Para quê? O importante é que os leitores continuam a visitar este cantinho e a encontrar motivos para voltar. Este blogue tem um acervo de escrita muito significativo cuja qualidade só pode ser aferida por quem o lê. E o certo é que cada vez mais somos lidos. E nunca aderimos, até ao momento, a nenhuma forma de publicidade que não fosse o boca-a-boca, o passa a palavra…

É preciso dizer-vos que estou orgulhoso do Blogue e de vós e que, enquanto o meu cérebro trabalhar, escreverei. E enquanto escrever, publicarei para vós!

Uma saudação sentida e comovida a todos os leitores de Mails para a minha Irmã!

Até breve, amigos!
Até à próxima publicação!
João Paulo Videira

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PS: curiosamente, no dia em que fazemos três anos, estamos com alguns problemas técnicos que estão a estragar o aspeto do blogue no topo da página. Vamos tentar resolver. Em última análise, fazemos tudo de novo.


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Voz

Voz

Como mel,
Deixas fluir as palavras
Envoltas em doçura
E suave rouquidão.
É baixo, o teu tom,
E grave,
Mas desliza com encanto
E sedução.

jpv


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Fábula da Cigarra Enquanto a Formiga Dormia

Caros leitores, ontem um simpático anónimo fez um comentário a uma história antiga aqui publicada. Coloquei-a no blogue em 24 de outubro de 2011. O engraçado é que, ao contrário de tudo o que escrevo, não me lembrava de a ter escrito. Não me lembrava de rigorosamente nada relacionado com a criação daquela história. Foi necessário um significativo esforço de memória para recuperar esses momentos. E sabem que mais, modéstia à parte, acho que a história, sendo singela é, como diz o leitor anónimo, muito bonita. Tem um ritmo e uma musicalidade interessantes. Nunca, neste blogue fiz uma republicação. Esta será a primeira. Mas, antes disso, aqui ficam as palavras do leitor: “Que linda história! É pena que já não se veja no seu blogue, pena que não exista um índice para poder encontrá-la mais tarde. Merece bem uma nova publicação!!!”

 

Fábula da Cigarra Enquanto a Formiga Dormia

Foi na primavera dos teus braços, enquanto a luz da vida despontava, que encontrei esse bosque de carícias e afagos a retemperar uma alma perdida e ansiosa e capaz de amar. E foi no florir sumptuoso de cores e emoções que bebi a tua água por entre sussurros e palpitações. E os passarinhos cantavam nesta história e ao fundo, num simulacro de efeitos especiais, Julie Andrews cantava a música do meu coração. E houve vivas e saudações, sombras frondosas e naturezas presentes, e houve todo o pólen, toda a magia na fábula da cigarra enquanto a formiga dormia. Adensou-se o bosque. Cresceram as árvores guindando-se aos céus e perderam-se os limites, os teus e os meus. Um lago imenso, calmo e tranquilo, reflete a luz e o caminho. Um trilho de terra com pequeninos malmequeres que não atravesso sozinho. Há um casalinho de mão dada. Ele de calções. Ela de saia rodada. E sem saber-se porquê, magia de certo, passa um duende por perto que sorri e pula. Não há sobressaltos. Só dois corações pulsando, as borboletas o ar cruzando, uma leve brisa deixando as ervas altas e as flores em breve dança. E a luz. Sim, essa diáfana luz forçando a densidade do bosque e banhando de claridade a penumbra onde o amor se fez verdade. E lei. A única lei. Sem papel nem escrita. Só a sua explanação, o seu viver num bater de coração, numa mão entregue, numa cena bonita. E há uma árvore alta e idosa a caminhar para os céus que tem na base uma loca onde vive a cigarra e os seus. Sentiu passos e veio ver o amor. E quando lhe perguntaram, as crianças, aconchegadas no lar acolhedor, o que passava, ela respondeu, quase desinteressada, como que não importunando, É a Primavera do amor. E chegaram, sem desdar as mãos, a uma clareira toda rodeada de canas. Era circular o espaço e tinha uma abertura em arco na vegetação, um convite que aceitaram sempre mão na mão.
 
Era o Verão. A amplitude do espaço e do tempo, searas dançando, aromas quentes no ar. Abriram os braços e afagaram a flor do trigo. Árvores pontuais a prover a sombra necessária para o coração descansar do ritmo quente e louco da paixão. E correram. E libertaram-se. E foram dando vivas às aves, à terra firme e ao céu azul e limpo. E via-se longe. E o mundo parecia não ter fim. Viviam um amor assim. Uma loucura consentida, uma centralidade perdida. Uma trepidação constante. E despiram-se. E fizeram amor. E sexo também. E viveram os dias como se não houvesse ninguém. E suaram o suor da descoberta na tarde caindo, a luz certa. Ao longe, uma ovelha branca balindo. E eles sorrindo. Amando sob o calor do Verão, dos corpos desnudados em paixão. E, pela primeira vez, entre eles, a semente de tudo, o princípio de todas as coisas: a palavra. A que cria e germina, a que alimenta e saceia, a que começa e termina, a que perde e norteia, a palavra que dá a vida e a morte, a mesma palavra que faz dos homens seres. A sorte. A palavra primeira que disseram foi Despertar, depois Encontro, depois Amar, depois disseram as palavras todas e uma vez gastas estas, reinventaram-nas. E disseram-nas todas outra vez. Assim como quem faz só porque fez. E gostou. E tudo se amou dentro dos limites seus. Só não disseram Adeus. Essa palavra doce e suave que queima. Guardaram-na para o Outono mesmo sem saber o que seria e quando viria se viesse. Quem olhasse a seara ao nível da altura do trigo, veria uma imensidão doirada banhada de sol sob o céu azul e deles, nem notícia, Mas a cigarra tem experiência e perícia e anunciou à filharada um passeio, um voo rasante sobre a seara doirada. E partiram de asa aberta e alma livre e repararam ali, a meio de lugar nenhum, sob o céu, sobre a terra, uma rodela de trigo que faltava como se estivesse pisado e amachucado por um transeunte descuidado. E estava! E eram dois os safados que rolaram em amores amados e deixaram circular marca na vegetação. A cigarra viu e entoou a canção do amor ali mesmo, sob o céu amplo e ao calor. E repetiram os filhos aquilo que ouviram e tendo cantado, logo partiram. E ao partir sentiu-se pequena aragem. E fria. Dona cigarra fez uma paragem, estendeu o dedo no ar e anunciou, Estão mudados os ventos, vêm aí novos tempos, vai mudar a sorte, sinto no horizonte um prenúncio de morte…
 
Rederam as mãos que tinham desdado para tatear os corpos, levantaram-se e correram a fugir da nuvem escura, da bátega de água certa, e enquanto a luz dura, caminham alerta em busca do bosque. Lá estava a abertura em arco nas canas e depois dela a clareira. Tudo igual e tudo diferente. Fosse ação natural ou de gente, algo havia mudado. Tudo.
 
As árvores choravam humidade e seus ramos despediam-se das folhas, os animais faziam escolhas de abrigos, a evitar os maiores perigos. Um tapete folhado e colorido cobria o chão de amarelos, laranjas e castanhos, e chegam ao bosque acolhedor habitantes que no Verão lhe são estranhos. Eles entraram e beberam. Olharam o lago e contemplaram o reflexo e estranharam não se terem visto na imagem refletida. Assim, com um misto de tranquilidade e tristeza, perceberam que já lá não estavam. Faltava só a partida. A despedida. E com o brilho e a lágrima no olhar, decidiram caminhar lado a lado, pelo frondoso bosque, agora inundado de silêncio. E num ponto do caminho, a estrada dividiu-se. Aí chegaram como se nunca lá tivessem estado. Ela imóvel. Ele parado. E duas coisas aconteceram, duas tragédias numa só. Juntamente com as plantas que feneceram, um gesto e uma palavra reduziram o amor a pó. Desderam as mãos em passos tranquilos. Foi o gesto. Ergueram os braços seus e pronunciaram em coro uníssono: Adeus!
 
Impassível ficou o bosque. Seguiram e levaram a memória do toque, do odor, das palavras, do olhar, do amor e das promessas e continuaram lado a lado, sem pressas, afastando-se um do outro. Não se sabe nesta história onde leva cada estrada. Sabe-se que uma conduz a tudo e outra ruma a nada. Só falta saber o mais sério que é se vão cruzar-se. Mas isso permanece mistério. Sendo certo que saberão amar-se na presença e na ausência. Agora e aqui, estão separando-se unidos. Vencedores e vencidos. Do corpo. E do coração.
 
A cigarra jaz morta de frio. Não lhe aprouve o canto no Verão. A formiga, que trabalhou no Estio, dorme quente no colchão. E acorda. Serena. E olha em volta e encontra-se. Estava perdida no sono e agora desperta para a vida sem saber que quem acorda no Outono, ainda que quente e aconchegado, sem ter visto o amor empolgado dos amantes na seara quente e no tempo absorto, não esteve dormindo, esteve morto. Ah formiga que vives com o corpo da cigarra tombado e inerte a poucos metros daí, se pudessem agora ver-te, os amantes teriam pena de ti. Tem mais vida esse cadáver vencido que sentiu a pujança do amor do que o teu corpo aquecido e gasto pelo suor cego do labor. Nunca saberás o voo sobre a seara, o sol amanhecendo paixão, nunca correste o risco que se exige ao mortal para que se liberte da eterna prisão. Vives adiada e ela morre saciada e há mais vida na sua morte do que na tua pobre e estéril sorte.
 
Nunca contarás aos teus filhos, como ela fazia, a fábula da cigarra enquanto a formiga dormia.
 
jpv


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Make Up Sex

Make Up Sex

Na ira absurda das palavras,
Nos gestos descontrolados da discórdia,
Nas acusações que cuspimos exaltadas,
Nas portas que batem,
Nos murros na mesa,
Reside a verdade
E a certeza
De uma exaltação,
De uma dádiva
E de uma louca paixão
Onde não cabe a indiferença.
E depois da tempestade
Cai, célere e excitada,
A sentença.
Tenho de amar-te.
Tens de ser minha.
E, sobre a discussão e a refrega
Cai o doce e diáfano véu
Da entrega.
E sobre uma coisa dura
Tomba outra coisa dura.
E desse louco desentendimento
Nasce um momento
E é esse que quero para mim.
Sim, sou teu.
Serás minha, sim.
Para sempre.
Entre combates
E pazes feitas,
Emerge uma vida
De almas eleitas
Para amar.
E não me digas
Que é tudo demasiado complexo.
Depois de irar-me contigo,
É muito melhor o sexo!

jpv