Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Pergunta muito específica que fiz a mim próprio sem obter resposta

Pergunta muito específica que fiz a mim próprio sem obter resposta

Onde está a medida?
Onde jaz a melodia?
Onde vagueia meu ser?
Numa bala perdida?
Numa arma vazia?
Numa profunda ferida
Que não sara?
No sangue que jorra
E não para?
Nas minhas mãos
Abandonadas no teu corpo?
No homem que fui,
Agora morto?

Onde está a medida?
Vale a pergunta
Sem resposta?
Serve a mentira
Pela verdade composta?

Onde está a medida?
No corpo?
Na alma?
Na palma
Da mão?
Dentro ou fora
De meu coração?

Onde está a medida
Da infância perdida?
Da morte?
Da vida?

Onde está a medida?

jpv


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Teasing The Dark Sweet Cherry Bunch


Hello, dear friends from The Dark Sweet Cherry Bunch,

This one is a Portuguese red. And why do I share it with you? For two reasons. First, it’s a very reasonable wine. Intense but soft. Had a glass for dinner. Second, it’s from a region that our Dark Sweet Cherry has already visited: Setúbal.
It’s made out of Trincadeira, Alicante Bouschet and Syrah grapes. It has a intense garnet colour. A touch of ham, smooth but full bodied. A long finish.

If we could translate, the name would be “Land of the Turtle Doves”.

See you guys!

jpv


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Num Voo Nunca Acontece Nada – O Beijo

Num Voo Nunca Acontece Nada
Fazemos o check-in, tiramos o relógio, o cinto e os anéis, passamos no detetor de metais, percorremos a loja dos chocolates, a dos perfumes e a das revistas, dirigimo-nos para a porta de embarque, esperamos, entramos no avião, arrepiamo-nos no momento da subida, comemos uma refeição a bordo, lemos uma revista, vamos à casa-de-banho, arrepiamo-nos com a descida, saímos à rua e… fazemos tudo de novo. O que a seguir se conta são histórias entre o primeiro e o último momento da sequência que acabámos de registar.

O Beijo

É imprevisível, a vida. E, por sorte, são imprevisíveis os comportamentos. Não é que as surpresas sejam sempre boas. É que não poderíamos viver sem elas. As boas. E as más. Esta história é simples. Conta-se de um fôlego. Os motivos por trás dela, ou pela frente, ou pelo meio, ou dentro das pessoas dela, esses, é que dão que pensar.

Era um casal. Dois carrinhos de bebé. Uma criança tinha um ano. A outra tinha dois. Depois do check-in, quando se deu o embarque, tiveram direito a ser os primeiros por via dessa especial e preciosíssima carga. À entrada do avião, um rapaz simpático num colete fluorescente ficou com os carros. As duas crianças ficaram cada uma num banco. A de dois anos junto à janela. A outra no assento do meio com uma cadeirinha especial. Na ponta, o pai. A mãe com os seios inchados e generosos de amamentar o mais novo, ficou no primeiro lugar da mesma fila mas depois do corredor. Descansaria na primeira parte do voo e depois trocavam de lugar e assumia ela o comando da criançada. Ao lado dela, um anónimo e a seguir a ele outro anónimo.

Ela percebeu com o decorrer do tempo que o anónimo junto a si reparava insistentemente nos seus seios. Era bonito, o rapaz. Novo. Barba rala, loira. Olhos azuis. Cabelo curto. Fato beige e um ar sorridente. Cruzaram o olhar duas ou três vezes e houve, nesses momentos, um subtil sentido de oportunidade. Há três anos que vivia soterrada em gravidezes e crianças e afazeres relacionados. A vida era demasiado previsível. Demasiado repetitiva. O jovem estava em trabalho e tinha tudo consigo, a vantagem de responder só perante si mesmo. Claro que reparou nos seios dela. Claro que os achou atraentes. Claro que relacionou isso com a amamentação. Mas não se importou. Aquele decote merecia um olhar demorado e generoso. E olhou. Sensivelmente a meio da viagem, um pouco antes da refeição que ia ser servida a bordo e acabara de ser anunciada, o marido informou que ia à casa-de-banho. Depois iria ela e trocavam de lugar. De posto. Assim que ele virou costas, ela sentiu de novo o olhar do rapaz anónimo no seu peito. Pensou repreendê-lo. Conteve-se. Pensou vestir o casaco de malha e tapar a provocativa abertura. Não quis conter-se. De repente, todo o stress dos últimos anos quis explodir, a loucura aflorou-lhe a mente como uma descarga emocional, como quem tenta sorver em segundos a vida desperdiçada em anos. Virou-se para ele. Fez um olhar atrevido. Ele não se amedrontou. Fez um sorriso malandro. E, num repente, ela colocou-lhe uma mão na nuca, puxou-o para si e beijou-o avidamente na boca como quem quisesse sorver-lhe a língua e absorver-lhe a vida prometida no sorriso malandro. Ele beijou-a de volta. E, enquanto se beijavam, ela agarrou-lhe numa mão e colocou-lha sobre os seios que ele acariciou abundantemente por cima da roupa. Quando terminaram, compuseram-se nos assentos como se não se conhecessem. E não conheciam.

O marido voltou. Trocaram de lugares como combinado. Ela tratou das crianças. Nunca mais olhou para o anónimo que nunca mais lhe olhou para os seios. Aterraram. Foram às suas vidas e não voltaram a cruzar-se.

jpv


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Could

Could

I could sail
Your lips
Following the balance
Of your hips.
I could see
Through your eyes.
Live your truth
With no lies.
I could be a man
In your body of desire.
You could be my water
Killing my thirst
And consuming my fire.

jpv


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La Seule Loi

La Seule Loi

Près de toi,
L’amour
C’est la seule loi.
Les yeux dans les yeux.
L’envie
De te donner
Tout ce que tu veux.
Les mains dans les mains.
Ton sourire
Pour le matin.
Un corps
Sur un corps tombé.
Un soir de conversation
Autour d’un thé.
Chaque chose à la fois,
Près de toi
L’amour
C’est la seule loi.

jpv


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Crónicas de Maledicência – O Mais Eficaz dos Homens

Crónicas de Maledicência – O Mais Eficaz dos Homens

Miguel Relvas é, a meu ver, opinião humilde e recatada, o homem mais eficaz que eu conheço. Nem percebo porque é que andam com o processo das escutas às costas. Eu arquivava o dito e condecorava Relvas. Por quê? Por eficácia!

Senão vejamos, a Seleção jogou em 4x3x3 e não foi além de um empate com amadores. Relvas apostou num 6x3x1 e revolucionou o mundo das escutas e agitou o mercado das comunicações desde a rádio à Internet passando pela televisão, jornais e revistas cor-de-rosa com outra cor. Com a sua simples existência excitou e deu sentido à vida da malta que até aí não fazia mais do que divertir-se com sms e telefonemas de homens e mulheres casados a combinarem encontros com outros homens e mulheres casados. Claro que há mais gente para escutar, mas não já têm o mesmo valor. O Sócrates porque deixou de ser Primeiro Ministro e a coisa perdeu a piada. O Pinto da Costa porque, escutem o que escutarem, nunca foi ele!

Reparem, com 6 simples sms, Relvas conseguiu 3 encontros com 1 homem. Mas não foi assim, tipo, um homem qualquer. Foi o Super-Espião. Se eu tivesse oportunidade de falar com Relvas, perguntava-lhe se ele também tem a receita para as Super-Espias, as Espias ou qualquer ser do género e sexo feminino, vulgo, mulher comum mas em bom. Qualquer homem que se preze sabe o valor da eficácia do Ministro. Conseguir um encontro leva dezenas, senão mesmo centenas de sms, leva horas de conversa aturada e interesse genuíno ou dissimulado, leva, até, alguns fingimentos. Ora o que Relvas terá conseguido com 6 sms foram três encontros com um homem e nesses três encontros satisfez o apetite dos jornalistas por parangonas que vendam. É o mais eficaz dos homens. O resto? Fogo de artifício para distrair a malta enquanto as coisas verdadeiramente importantes, as que afetam as nossas vidas, continuam a acontecer…

Tenho dito.
jpv


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Num Voo Nunca Acontece Nada – Roupa Suja

Num Voo Nunca Acontece Nada
Fazemos o check-in, tiramos o relógio, o cinto e os anéis, passamos no detetor de metais, percorremos a loja dos chocolates, a dos perfumes e a das revistas, dirigimo-nos para a porta de embarque, esperamos, entramos no avião, arrepiamo-nos no momento da subida, comemos uma refeição a bordo, lemos uma revista, vamos à casa-de-banho, arrepiamo-nos com a descida, saímos à rua e… fazemos tudo de novo. O que a seguir se conta são histórias entre o primeiro e o último momento da sequência que acabámos de registar.

Roupa Suja

Três semanas fora do país. Não de um país qualquer. Fora de Portugal. Para os portugueses, partir e chegar têm cargas emocionais diferentes dos outros povos. E a razão é simples. Os portugueses nunca partem sozinhos. Levam consigo todo um povo, todo um orgulho e, paradoxalmente, toda uma humildade. E atrás deles vai sempre a nação. Se repararem, quando pessoas de outros países se encontram no estrangeiro, falam desse país em que estão de visita ou em trabalho. Os portugueses põem-se logo a falar de Portugal e, muito provavelmente, de comida. Acho mesmo que a frase portuguesa mais dita no estrangeiro é “Não há comida como a nossa.” Nisto, só há um povo que se nos aproxima: os brasileiros. Mas, esses, eu não tenho a certeza de que sejam outro povo.

Três semanas fora do país. Em férias. Com as malas no porão e as histórias na cabeça. Desde que partira que começara a imaginar como contá-las. Já sabia como fazê-lo na altura. Só lhe faltavam as histórias. Agora não lhe falta nada. Era um voo Istanbul-Lisboa com escala em Frankfurt. Estavam no ar há uma hora e picos. Ele dormitava. Ela dormia profundamente. Os cachopos rabiscavam  cores num livro de pintar. E foi então que ela se deu. Começou por lembrar-se do bacalhau com natas que ela fazia lá em casa, depois lembrou-se do bacalhau cozido com batatas na noite da consoada, depois lembrou-se do bacalhau à lagareiro e, finalmente, veio-lhe à memória a roupa suja que é bacalhau com rodelas de ovo cozido, azeitonas e couves e, de repente, sentiu-se confortável, como se estivesse em casa para começar a almoçar e não a doze mil pés de altitude. Imaginou um branco de Pias e pensou de si para consigo:
– Por que raio não me sai o bacalhau da cabeça?

Resolveu despertar. Esticou o pescoço, levantou a cabeça, espetou o nariz no ar e cheirou. Inspirou profundamente duas vezes:
– Môr, môr… não vais acreditar, acho que vai alguém a comer bacalhau!
– Cala-te e dorme. É uma ilusão. A altitude baralha-nos os sentidos.

Não conseguiu acordar-lhe a curiosidade, mas também não desistiu de investigar. Estava na hora de ir à casa-de-banho. Percorreu o corredor devagarinho no sentido da cauda do avião. Na penúltima fila de bancos estava, no lugar junto ao corredor, um jovem com o portátil aberto. No lugar do meio lá estava ele. Mais de sessenta, enfiado numas calças de fazenda, uma camisola de lã e um casaco. À sua frente, uma caixa de gelado e dentro dela bacalhau com batatas e couves regadas com azeite. Nem experimentou outra língua:
– O senhor é português!
– A menos que você conheça outro povo que faça bacalhau com batatas…
– Espantoso!
– Espantosas são as porcarias que eles nos dão para comer no avião.
– De acordo! Mas… como é que conseguiu? Você tem bacalhau com batatas à frente e parece quente.
– Morno!
– Sim, mas…
– Vocês espantam-se com pouco. Cozinhei o bacalhau, púzio nesta caixa bem apertadinho, sem o azeite. Depois, pus a caixa num saco térmico e trouxe uns saquinhos de azeite que dão no Mec… aquela coisa dos hambúrgers…
– MacDonald’s…
– Isso.
– Sim, mas não é proibido comer aqui comida sem ser do avião?
– Sei lá. Há bocado passaram aí com a comida de plástico, eu disse, No, diet, e tirei a caixa…
– Fantástico!
– Amigo, vá por mim, onde há um português, pode haver bacalhau. É servido?
– Não, obrigado.
– Vá lá…
– Não, obrigado.

Nem foi à casa-de-banho. Voltou para o lugar fascinado. Um português a comer roupa suja num voo Istanbul-Lisboa. Quais seriam as probabilidades? E sentou-se tranquilo e tranquilo estava quando uma hospedeira se aproximou com uma caixa de gelado na mão:
– Sir, the gentleman back there asked to deliver you this box… as an offer.

jpv


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Madalena

Madalena

É franzina
E pequena,
A Madalena.
E tem borboletas
No sorriso
E aventuras
No olhar.
Gosta de brincadeiras
Sem fim,
Uma bola para jogar,
E, claro,
O Faísca Mcqueen.
De repente,
Pára um momento
E vê-se a ternura
No olhar atento.
É uma flor
Cheia de vida
E Cor.
E agora
É uma finalista bonita
Que pediu com carinho,
Ao padrinho,
Para lhe assinar a fita.

É franzina
E pequena,
A Madalena.

jpv


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A pedido…

Pode um homem escrever bons (?) romances, excelente (??) poesia ou fantásticos (???) contos e não recebe comentários de rajada como aconteceu no post anterior! E porquê? Porque a alma humana gosta de explorar as fraquezas… a pedido da Mana e da D, aqui fica o miserável testemunho de minha mísera condição, hahahaha…

(Não vale gozar!)


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Registo

Amigos e leitores,


fica registado que estou oficialmente velho.


Pois, eis os meus primeiros óculos de ver ao perto! Ai, ai, ai…