Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Impulso Navegante

Impulso Navegante

Tens nesse traço gentil
As águas de março
E as flores de abril.

Tens nas curvas do teu rosto
A brisa de maio
E o sol de agosto.

E tens um tapete de folhas caídas
Nas formas encontradas
E nas palavras perdidas.

E tens um oceano de água e emoções
Que permite absorver-te no olhar
Todas as Estações.

E eu sou só um pobre e humilde devoto da Natureza
Que bebe da tua presença
A graça e a delicadeza.

Ah poder navegar-te o olhar,
Aportar em teus lábios
E beijar.
Poder navegar as tuas linhas
Com os meus dedos
E afogar o desejo
No calor dos teus segredos.

Capitão de amar,
Armador de ti.
Homem de procurar o mar
No teu olhar,
Esse oceano em que me achei
E perdi.

Deixa-me ir à aventura
Por essa planície terna
De loucura,
Por teus vales e colinas.
Subirei ao alto de ti
Para me procurar
A mim!
Dominarei o Universo
Que dominas!

jpv


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Crónicas de Maledicência – A Tática da Seleção

Crónicas de Maledicência – A Tática da Seleção

Estou em completo desacordo com quem acha que a Seleção de Portugal vai fazer uma má campanha no Euro 2012. Acho que vamos muito longe. De resto, a Polónia não é perto. E mais, quero condenar publicamente quem assobiou e vaiou a Seleção pelo empate com a Macedónia e a derrota com a Turquia.

É preciso não ter espírito patriótico nem qualquer espécie de rasgo ou inteligência.

Analisemos. Jogou-se bem contra a Turquia? Não. Jogou-se muito mal. O que não quer dizer que não se saiba jogar bem. Foi, a meu ver, que não ando aqui a dormir, tudo planeado. A mais pura estratégia. E a verdade é que já está a dar resultados. No dia a seguir ao jogo, os jornais alemães diziam que Portugal não metia medo, que a defesa era fraquinha, rebéu béu béu, pardais ao ninho. Ou seja, já estão com a moral toda em cima, com excesso de confiança e a cantar de galo que é onde Paulo Bento os quer.

Agora, de repente e sem se saber bem de onde nem porquê, no próximo sábado, Ronaldo e os amigos vão acertar os passes, vão fazer cortes perfeitos, transições alucinantes e até aposto que vão rematar à baliza e fulminar o poste loiro que os tipos lá vão pôr para tentar parar as bolas. Inglório. A malta vai arrasar.

A tática da Seleção foi dar uma vantagenzinha psicológica ao adversário como a tartaruga fez com a lebre.

De resto a história fala por si. Sempre que vamos com grandes expectativas, vimos de lá com o rabinho entre as pernas. Sempre que vamos com missões impossíveis, saímos de lá em grande glória, mesmo que não se ganhe nada, mas já Salazar ensinara que o materialismo é uma coisa muito feia e o bonito é ser pobrezinho. Reparem no seguinte. Neste momento, levar menos de três é bom, perder por um é ótimo, empatar é fantástico, e ganhar dá direito a feriado nacional. Eu diria mesmo mais: o único problema da Seleção Portuguesa vai ser se, após a fase de grupos que vamos passar, nos calha uma equipa das fracas. Isso é que é perigoso. Ainda bem que a Macedónia não vai ao Euro 2012. É que corríamos o risco de perder a eliminatória nos penaltis com essa cena impossível que é o Popas da Nação falhar um remate da marca dos 11 metros.

Tenho dito
jpv


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Por causa dA Dívida – XII

Caros leitores,

Dulce Morais acabou de publicar o Capítulo XII de “Por causa dA Dívida” no Crazy 40 Blog.

Iremos continuar a história em breve nestas páginas com o Capítulo XIII.


É claro que será difícil porque a boa da Dulce resolveu recorrer a efeitos especiais do tipo ficção científica e, além disso, espetou comigo na PJ. Enfim, nada que não se resolva e, desde já fica prometido, a vingança será terrível!!!

Boas leituras!


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Cónicas de Maledicência – A Falta de Ética da RTP

Cónicas de Maledicência – A Falta de Ética da RTP.

Deixemo-nos de rodeios. A RTP poderia ter feito quase tudo o que fez porque tem cobertura legal para fazer quase tudo o que fez. Isso não invalida que tenha agido sem nenhum sentido ético nem pedagógico. Isso não invalida que tenha tido um comportamento desonesto e vergonhoso. Isso não invalida que tenha desrespeitado a propriedade intelectual alheia.

Vamos a factos.

A RTP abriu um concurso, em parceria com a Federação Portuguesa de Futebol, através do programa Canta Portugal, para encontrar o hino de apoio à Seleção Nacional de Futebol durante o Euro 2012.

O concurso consistia em castings perante um júri até encontrar os cinco melhores e, depois, desses cinco, escolher o vencedor por votação do público via sms.

Os cinco finalistas receberiam bilhetes para o jogo particular Portugal-Turquia a realizar em 2 de junho de 2012 e o vencedor poderia cantar o seu hino no intervalo do jogo e receberia até cinco viagens e bilhetes para um jogo da Seleção Portuguesa no Euro 2012.

Ontem, dia 2 de junho, cerca de 2 horas antes do jogo Portugal-Turquia foi anunciado o vencedor no canal 1 da RTP durante a transmissão do programa Eu Sou Portugal. E o sobrescrito com o resultado das votações indicava como vencedor o hino “Seremos Campeões” da autoria de 61 alunos e 11 professores do concelho da Lousã – “Os Destemidos”.

No contrato que assinaram, os concorrentes cederam todos os direitos de autoria e divulgação o que é natural, nestes casos. Contudo, devo esclarecer porque sou autor e também já cedi direitos, que a cedência de direitos NUNCA aliena a propriedade intelectual da obra produzida. Ou seja, os direitos são da RTP, mas a autoria não pode ser atribuída a outrem nem a obra pode ser modificada e/ou adulterada.

E o que aconteceu?
Ao contrário do que prometeu e anunciou, a RTP não convidou os 72 “Destemidos”  a cantar o hino no intervalo do jogo. Apareceu no relvado um indivíduo que se auto-intitulou de Betão e cantou o hino em vez dos “Destemidos”. Mas aconteceu algo de mais grave, verdadeiramente desrespeitoso e desonesto. O tal Betão não anunciou o hino vencedor. Num desrespeito total por todos os votantes que gastaram dinheiro para votar num processo supostamente honesto e num total desrespeito pelas regras do concurso anunciou os hinos vencedores e cantou, além do hino dos “Destemidos”, um dos outros cinco finalistas que não ganhou. Aliás, dedicou mais tempo à interpretação desse tema do que do tema vencedor! Ignorou que dezenas de pais e encarregados de educação se deslocaram a Lisboa para ver os seus filhos receberem a recompensa do seu esforço e aquilo que viram foi um hino português, da Seleção Portuguesa, interpretado por um Betão brasileiro à mistura com um hino não vencedor. 

Mas há mais, a claque da Académica, Mancha Negra, desde 30 de maio que tem na sua página do Facebook a mensagem de que “foi escolhida para gravar um vídeo de apoio à Selecção Nacional!!” E que vídeo é esse? Como os próprios revelam, é o “Seremos Campeões” dos “Destemidos”. Qual a relação da Mancha Negra com os “Destemidos”? Nenhuma! Sei lá, a Lousã dista 40 km de Coimbra… é esse o mérito da claque para agora interpretar um hino que não tem nada a ver consigo nem com a sua cultura.

Se a RTP podia fazer isto? Sim e Não. Leia-se o regulamento aqui. Sim, porque é detentora dos direitos da canção e pode divulgá-la como quiser. Não, porque não pode adulterá-la e ao dá-la a outrem para ser interpretada de forma diferente e numa língua diferente está a adulterar o cântico. E Não, também, porque a RTP é uma televisão pública e, como tal, deve constituir um exemplo de ética e deve ter uma atitude didática para com todos os portugueses, crianças, em particular. Se não vejamos, o que aprenderam os jovens com isto? Que vale tudo. Que não interessa nada o que prometemos porque podemos sempre não respeitar o prometido, que as regras não têm valor algum, que vale tudo menos tirar olhos! Foi este o exemplo que a televisão pública deu. Claro que está protegida pelo contrato assinado, mas  a desonestidade não passa a honestidade só por ser legal! Amanhã vai haver um jovem marginal que vai cometer um crime porque nunca teve exemplos sociais sólidos de práticas adequadas e honestas. E que fará a RTP? Uma reportagem a condenar a “sociedade” e o “sistema”, mas não se condenará a si pelos sedimentos que vem colocando nesta forma errónea de construir o caráter dos mais jovens!

Por fim, uma palavra sobre as figuras públicas envolvidas. Será que, quando o Nilton, o Carlos Daniel e a Filomena Cautela, enquanto jurados dos castings, escolheram o cântico “Seremos Campeões” dos Destemidos, essa escolha foi alheia, entre outras virtudes, ao facto de ser uma canção criada entre alunos e professores, em solidariedade, união e espírito nacional? Ou, para estes jurados, foi indiferente terem sido os “Destemidos”, a Mancha Negra ou o Betão brasileiro a entoar o cântico? É, sequer, o mesmo cântico quando interpretado por outrem? Como cidadão, gostava de saber o que pensam deste desvirtuar… como gostava de saber o que pensa a Direção de Programas daquela estação televisiva e mesmo a Alta Autoridade para a Comunicação Social e ainda a Sociedade Portuguesa de Autores!

Leitores e Amigos, isto não tem muita importância. Não lha dou. Sei que não a tem. Mas hoje, quando pensamos na nossa crise e em como chegámos a ela, em vez de culparmos a Angela Merkl e outros, talvez devêssemos olhar para uma cultura de pouco rigor, de desonestidade, de falta de sentido ético, de corrupção intelectual que tem passado absolutamente impune no nosso país ao longo dos últimos anos. Em direto!

Basta!

Tenho dito.
jpv.


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Parabéns aos "Destemidos"


Caros/as Leitores/as,

“Os Destemidos”, grupo de 61 alunos e 11 professores do Concelho da Lousã, venceu ontem o concurso “Canta Portugal” da RTP.

Desta forma, os jovens artistas e seus professores têm a honra de ser os autores do hino oficial de apoio à Seleção Portuguesa de Futebol pois a iniciativa, sendo da RTP, é a única com a chancela da Federação Portuguesa de Futebol.

Como a Mana deste bolgue é uma dos onze setôres, a alegria é redobrada. Importa agradecer a todos os que votaram e importa felicitar os jovens autores e cantores, bem como os seus professores, pelo sucesso alcançado. Uma palavra também de apreço à Câmara Municipal da Lousã pelo investimento feito e a todos os Pais e Encarregados de Educação pelo seu envolvimento.



Aqui fica o refrão:

Seremos campeões entre todas as nações, Poooortugal!

Destemidos corações em jogos de emoções, Poooortugal!




E o clip de vídeo para poderem decorar:

PS: já a seguir, o vergonhoso comportamento da RTP para com os jovens “Destemidos” em mais uma “Crónica de Maledicência”.


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Paisagem Fraterna

Paisagem Fraterna

A perfeição
Do teu olhar
Estava naquilo que vias.
O brilho
Da paisagem
Morava no que sentias.
E eras criança
Na forma como cruzavas as mãos.
E tinhas esperança
Na verdade de sermos irmãos.
E tinhas uma paisagem
Entrecortada de luz
E escuridão.
Uma suave miragem
Semeada, fundo,
No teu coração.
Não te salvei.
Trouxe-te
E perdi-te.

E ainda hoje damos
As mãos no vazio
E as preenchemos
Uma com a outra.
À procura do calor
E do arrepio
Da palavra sã
E da saudade louca.

Relembro-te inocente.
Inocente te vejo.
A tua mão fechada na minha
A carícia fraterna de um beijo.

Tremi por ti.
Por ti temi.
Mas foi a tua existência pequenina
Que me não deixou perder
De mim.
Fui teu guia.
Teu Universo
Circunscrito
E seguro.
Foste meu farol,
Minha razão.
Só soube que existia
Quando senti na minha
A tua mão.

jpv


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Carícia Certa e Valerosa

Carícia Certa e Valerosa

É precisamente
Por ser o dia da criança
Que recordo emocionado
Essa breve e suave dança
Das brincadeiras
E das obrigações.
Era a liberdade.
A maior de todas.
A da inconsciência.
Eu era livre
Sem estudo nem ciência.
Sem lógica nem tratado.
E não dava explicações.
E as que dava,
Estavam claramente
Estabelecidas.
Entre brincadeiras e corridas
Chegava ao ninho para lanchar,
À escola para estudar e…
Brincar!
E isso não era crime.
Era natural
E aceitável
Que uma criança
Brincasse,
E dormisse,
E estudasse,
E obedecesse,
E risse
E corresse.
Eu era livre
Sem estudo nem ciência.
E tinham comigo
A paciência
Dos joelhos esfolados,
Dos calções rasgados,
Da face ruborizada
Escorrendo suor,
E a vida
Era a coisa maior.
Eu era livre
Sem estudo nem ciência.
E tinha em mim a urgência
De conquistar o Universo,
Galgar planícies e montanhas,
Voar os céus,
Arrebatar donzelas com véus
E lantejoulas,
Cruzar campos floridos
De papoulas,
Erguer uma espada,
Romper a alvorada
Em meu cavalo alazão,
Imaginário
E invencível.

Esse, fui eu
Até trinta e um de maio.
E depois morri.
E em um de junho
Renasci.
E era já outro.
O homenzinho.
O rapazinho.
O rapaz.
O moçoilo.
O homem.
O homem.
O homem.
O menos livre
De todos quantos fui.
Aquele que sabe que não se vive,
Apenas o tempo flui.
E as regras.
E as razões.
E os protocolos.
E as convenções.
E as assinaturas.
E as notícias suaves
E as mais duras,
Mesmo as graves.
E a palavra que se deu.
E a recebida.
E a palavra que se recebeu.
E a perdida.
E os valores.
E as escalas de valores.
E essa incontornável
E singular verdade
Que, afinal,
Tinha plural.
E os princípios
Assassinados pelos fins.
Os homens sérios
E os que dobram.
E os que cobram.
E os afins.
E os desonestos.
E os lentos.
E os lestos.
E os que conheci.
E os que não quis conhecer.

Depois de ter sido
Criança,
A única carícia certa
E valerosa
É saber
Que vou morrer.

jpv


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Aniversário






Bom dia, Carlos Eduardo, e um feliz e fantástico aniversário!


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Maio.Mão.Mana.

Maio.Mão.Mana.

Era uma madrugada
De palavras em surdina,
Era um menino
E uma menina.
Era um amanhecer
De gestos rápidos
E vozes sussurradas.
Era o exemplo de como não deviam nascer
As madrugadas.
Era uma inocência,
Uma emoção e uma esperança,
Era o fim violento
Do meu tempo de criança.
E a tua mão solta
No ar
Entregue depois na minha
Anunciava que a desgraça viria
Mas tu não estarias sozinha.
Nem eu.
Teu pequeno guardião,
Homem para te segurar a mão
E cruzar os ares,
As geografias dos homens
E da violência.
E percorrer contigo
As emoções todas.
Quem nos quis separar
Uniu-nos.
E perdura inquebrantável
Esse laço,
Esse breve
Espaço,
Esse fundo
Traço
Da nossa união.
Porque um dia,
Quando quiseram separar-nos,
Demos a mão.
E dada ficou
Para sempre,
Por entre mundos
E gente,
Sucessos
E insucessos,
Mínguas
E excessos,
Os meus
E os teus.
E, afinal,
Aquilo que fora o fim
Foi, de facto,
Para ti e para mim,
O princípio
De todas as vidas.
Das esperanças perdidas,
Das derrotas
E das conquistas.
E as coisas,
Bem vistas,
Ficaram bem como estão.
Eu, no teu peito.
Tu, no meu coração.
E viemos a crescer
E a ser outra gente.
E, hoje,
Olhamos para trás
Lá, onde jaz
A nossa infância.
O início da errância
E o fim do amor,
Nessa madrugada
De medo e terror,
E sorrimos.
Ficaram só os teus olhos
Nos meus olhos,
As tuas mãos
Nas minhas mãos,
A tua presença
Na minha existência,
O teu sorriso
Na minha essência.
E nada teve importância,
Tendo a importância toda,
Porque, para além das leis dos homens,
Das armas, das balas e das guerras,
Amanhecemos outra vida,
Nascemos outras pessoas,
Crescemos nos braços
Um do outro
E hoje somos um.

Não foi a morte, afinal,
Que nos matou.
Não foi a vida, afinal,
Que nos viveu.
Foi o amor fundo
Do teu coração
Que fez bater o meu.
E há nessa cumplicidade
Um rasto estrelado de mistério,
O mano e a mana
São um caso sério
Do amor
Semeando imortalidade.

Era maio
E eu segurava a tua mão,
E tu eras a minha mana,
E contra essa força
E essa razão
Os homens não podiam nada.
Era noite,
Mas era também a alvorada
Do nosso perene amor.

jpv
À minha mana no 37º aniversário
do dia em que morremos e vivemos
juntos. Para sempre.


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O Clã do Comboio – Ao Engano

Ao Engano

Cheguei cedo a um comboio tardio. E quando ela entrou, eu já lá estava há um bocado. Tinha mais de setenta anos, um aspeto frágil, mas saudável. Saia abaixo do joelho como manda o decoro, blusa e casaquinho de malha por cima. O cabelo era uma neve penteada. Trazia consigo uma mala com rodas, enorme e de um peso brutal. Tiveram de ajudá-la a pôr aquele exagerado volume dentro da carruagem. Quando se sentou paralela a mim, do outro lado do corredor, ofereci-me para lhe colocar a mala no suporte junto ao teto:

– O senhor não pode.
– Posso, posso.
– E depois quem é que a tira?
– Para onde vai?
– Santarém.
– Tiro-lha eu que só saio em Riachos.
– Muito obrigada. É um anjo.
– Não sou nada. Os anjos têm aureola.
– Isso não lhe falta a si.

Gargalhada geral. Suei para subir a mala, mas lá acabei por conseguir.

– Fui a Paris, visitar uma irmã.
– Muito bem.

E mergulhei na escrita enquanto ela colocava um enorme saco de mão no banco ao seu lado. E a coisa foi calma até ao Oriente. Acontece que a carruagem encheu e o lugar onde ela levava o saco foi preciso. Para ele.

Eu não sabia que ainda se podia ser marialva junto aos noventa anos, mas, pelos vistos, pode. A menos que se vá ao engano. Como foi o caso. Ele entrou. Aproximou-se do lugar onde estava o saco. Nem lhe pediu para o tirar, limitou-se a empurrá-lo e sentou-se no que sobrava do banco:

– Não se preocupe, deixe lá estar o saco, eu sou bom de arrumar. Estou assim magrinho porque já fiz vinte anos.

E riu-se. Era um sénior com bem mais de oitenta. Completamente calvo, olho muito azul e ligeiramente curvado para a frente. Calças de bombazina, camisa e casaco com cotoveleiras. Trazia um boné que tirou assim que entrou no comboio. Ela respondeu-lhe:

– Fez vinte anos? Então muitos parabéns!
– Muito obrigado. É a primeira vez que ando de comboio.
– Ah sim?
– Sim, tirando hoje, foi mais de setenta anos montado neles… deixe lá estar o saco, não me estorva.

E atirou-lhe uns olhares de irresistível malandro a que ela foi correspondendo com sorrisos que, segundo percebi, não eram de malandrice, embora pudessem ser de gozo com ele. Estranhei, mas esperei. E fiz bem. Tudo viria a esclarecer-se. Ele voltou à carga:

– Então e donde é a bela donzela? Com licença do atrevimento.
– Está licenciado. Sou de Santarém.
– Boa terra. Por acaso é uma boa terra. Dá de comer a quem passa, mas se não levar dinheiro na carteira, nem água bebe.
– Bebe, bebe!
– Não bebe nada. Santarém é uma boa terra, mas não tem uma única fonte. É que a gente procura e não há uma única fonte. E a gente vai pedir. E dão-nos. Mas cobram!
– Se o senhor for pedir um copo de água lá onde eu moro, dão-lho pela caridade.
– Ah sim? E onde é isso?
– É mesmo no centro da cidade…
– É lá que estão as moças mais bonitas!
– Devem estar, mas de moças percebo pouco.

E com esta se ficou. E ele deve ter desistido porque um homem, mesmo aos noventa, sabe quando não é desejado e, vai daí, calou-se. Ele saiu em Pontével. Fez um aceno de cortesia e despediu-se com um Boa tarde muito educado. Depois de uma série de invetivas, umas mais discretas que outras, depois de certo pavonear da sua existência, porque infrutífero, aceitou a estocada final e foi cavalheiro na despedida. Ela olhou para mim, sorriu, encolheu os ombros como que diz, Este não sabe da missa a metade, e calou-se. Não me deu uma única pista, embora tivesse percebido que eu e o resto da carruagem íamos atentos ao enamoramento. Quando chegámos a Santarém, agarrei na brutalidade que era aquela mala e levei-lha até à rua. Ajudei-a a sair da carruagem e só então lhe vi um sorriso malandro. Reveladoramente malandro:

– Muito obrigada. O senhor é muito simpático. Ainda há gente boa no nosso país.
– Não tem de quê. Um bom regresso.
– Muito obrigada. E olhe, se algum dia passar por Santarém e for com sede, vá ao lar das Carmelitas e pergunte pela Irmã Maria Rita. Terei muito prazer em oferecer-lhe um copo de água.

jpv