Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Vermelho Direto – O Ouro da Bola

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Capa do jornal A Bola de 13 de janeiro de 2015 (o destaque é nosso).

Vermelho Direto – O Ouro da Bola

Esta crónica não é sobre futebol. Não é sobre a bola de ouro. É sobre o ouro da bola.

Se fosse sobre futebol, seria uma qualquer análise acerca do atual momento futebolístico, mas isso arruma-se em três penachadas. Penachada Primeira: toda a gente merecia ir em primeiro, mas quem vai é o SLB. Ou seja, mais do mesmo. No campo, que é bom, perdem pontos. Nos jornais e nas redes sociais são os campeões da conversa da treta. Penachada Segunda: A taça, ou vai para o SCP ou para o SCB. Ou seja, este ano o troféu será entregue a um daqueles clubes que, briosamente, costuma ser o primeiro ou o segundo dos últimos. Penachada Terceira: A taça da liga é uma incógnita e a Europa não vai dar em nada. Antes desse.

Se fosse sobre a bola de ouro, seria um corropio de elogios ao CR7, que muito admiro na sua profissão. Leva tudo a sério, prepara-se como ninguém, é ambicioso, mas mantém a humildade dos nobres. Eu penso que não se deve cair na tentação de comparar o CR7 com Messi. São universos diferentes, matérias diferentes. CR7 é todo profissionalismo. Messi é mais circo e vedetismo.

A crónica de hoje é sobre o ouro da bola. Essa filigrana de valores tantas vezes esquecida. Por baixo da merecidíssima primeira página que o jornal A Bola dedicou à conquista de CR7, surge, em letras pequeninas, uma notícia sem importância quase nenhuma para quase toda a gente, mas que mudará a vida de milhares de crianças. A Fundação Benfica vai construir em Cabo Verde, terra recentemente assolada pela catástrofe natural, uma escola com capacidade para 600 crianças! Há os que dizem que ganham tudo, há os que dizem que mereciam ter ganho tudo, há os que dizem que têm as melhores equipas, há os que dizem que formam os melhores jogadores, e depois há o Benfica. No meio de todas as competições, atingido, como todos, pelas condições financeiras débeis da conjuntura mundial, o SLB consegue olhar para o lado e desempenhar um trabalho humanitário, solidário, em prol do futuro dos jovens a quem o futuro parece não sorrir, e dedicar-se a uma causa tão nobre que, essa sim, merecia primeira página. Mas não teve. E nós, benfiquistas, não nos incomodamos nada com isso. A história do SLB não é feita só de primeiras páginas. É feita da nobreza das páginas todas. Obrigado Benfica!

jpv


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Saudação

A vida não nos dá tudo o que desejamos. Há que aceitar essa contingência da condição humana. Bem vistas as coisas, essa até deve ser uma situação desejável. Assim, mantém-se acesa a chama do desejo, motor precioso de vida.

Viemos por pouco tempo. Estivemos com alguns familiares e amigos. Poucos.

A todos os amigos e familiares que não foi possível dar um abraço aqui fica uma palavra de amizade e afeto. Não é possível estar com todos mas todos estão nos nossos corações e nas nossas preces.

Até breve.

jpv


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A Idade do Reumático

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 A minha avó, que era uma santa, tinha uma dor num braço e quando eu lhe perguntava porque é que lhe doía, ela dizia, entre o desespero e a conformação, que não havia nada a fazer, É o reumático, filho.

Amanhã iniciamos de novo a viagem de cruzar meio mundo, mudar de continente, saltar de hemisfério. E é precisa coragem e energia. Juventude! E, contudo, olha para nós. Estamos sentados na cama ainda a noite mal entrou. Tu lês uma revista com óculos de ver ao perto, queixas-te dos dentes e tomas dois ou três comprimidos antes de ires dormir. Eu esfrego pomada Voltaren no joelho que me dói sempre por causa do mesmo reumático da minha avó, coloco uma meia elástica e antes de ir dormir tomo dois ou três comprimidos. São diferentes dos teus, mas querem dizer a mesma coisa. O tempo. Estamos sós aos quase cinquenta. Lado a lado, dois companheiros do passado e para o futuro. Dois companheiros do reumático e dos óculos e das dores que surgem só porque sim. Tu tens brancas que pintas. Não precisavas. Ficas bem com as tuas brancas. E eu não tenho brancas porque me falta um requisito fundamental: o cabelo.

E aqui sentados lado a lado sob as mantas e as maleitas, nem parece que amanhã vamos cruzar meio mundo, conquistar novos horizontes, demandar outros futuros. A idade do reumático não é o fim. É só mais uma etapa deste caminho a dois.

jpv


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Feliz Ano Novo

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MPMI deseja a todos os amigos, leitores e familiares um fantástico ano de 2015!


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Gritos – O Silêncio

2014-12-28 23.54.13

O silêncio não é de ouro.

É uma mordaça.

E o que guarda o verdadeiro tesouro

São as palavras na boca da moça que passa.

Não te cales, grita!

Não cedas, ocupa!

Ergue a voz e o braço,

Dá um passo e luta!

Não cales, nunca, a palavra.

Não recolhas, nunca, o ato.

O texto é um arado que lavra.

Não dês espaço à ignorância,

Zurze e castiga os néscios.

Confina-os ao redil

Da sua própria imbecilidade.

Pisa e esmaga

A palavra assim proferida.

Ganha terreno ao silêncio

E, pelo verbo,

Conquista a vida.

jpv/dezembro 2014


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Gritos – O Mandato

2014-12-28 23.54.13

Hoje, não sou cordato.

Sou o decreto e o mandato

Do caos e da desordem.

Hoje, tenho unhas que ferem

E dentes que mordem.

jpv/dezembro 2014


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Gritos – O Abjeto

2014-12-28 23.54.13

O abjeto entrou em mim,

Corroeu-me

E transformou-me.

O abjeto não sou eu,

Mas matou-me.

Uma palavra.

Um engano.

Uma ilusão.

O abjeto teve cirúrgica e precisa mão.

jpv/dezembro 2014


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Gritos – A Carga

2014-12-28 23.54.13

Trago arrependimentos

No porão da minha existência.

Trago desilusões arrancadas

À minha essência.

Trago insultos por cuspir.

Trago palavras de não deixar mentir

A mentira.

E trago esta pobre e desgastada lira

Por arma e companheira.

Trago palavras por dizer

E corpos por amar

E outros amados em pecado.

Trago a raiva no peito

E um murro na mesa

Solitário e adiado.

Já só resta o eco.

Trago pudores enjeitados,

Coisas que não são de mim,

Trago dias de não me conhecer,

Caminhos vedados sem preço,

Ilusões… sem fim.

E arrasto tudo isto,

Todo este peso,

Toda esta lama

E este sangue

Que me turva a vista

E barra o caminho.

Trago este fardo sozinho

E não sei quem sou.

jpv/dezembro 2014


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Gritos – O Sentido

2014-12-28 23.54.13

Jogar pelo seguro

É uma merda.

A vida não se prende

Nem se herda

Nem se entrega

Para viver.

Suga-se.

Usa-se.

Gasta-se em cada palavra irrefletida

E em cada gesto inesperado.

Tudo o resto é mentira.

Adiar inevitável do fim.

Na vida,

Há só uma e única maravilha,

A consciência de que cada instante

Tem de ser vivido

Em êxtase

E frenesim.

Qualquer plano

É um plano a mais.

O único caminho

É atravessar os pinhais,

Voar os céus,

Mergulhar no mar bem fundo

E acordar do outro lado do mundo

Com um par de botas gastas,

Um pouco de nada na algibeira

E a consciência intacta

E inteira

De não ter prometido nada,

De não ter cumprido nada,

De não ter falhado nada.

De ter vivido tudo.

Não querer, não ter,

Não possuir.

Viver cada dia

Com o sentido único

De usufruir.

E tu, alma errante e indecisa,

Não te arrependas do que deixaste  por fazer.

Não havia nada para fazer!

A segurança é uma prisão,

Uma alma agrilhoada.

Um velho decrépito

Que acumulou tudo

E agora não tem nada.

Preserva um olhar,

Um momento contemplando o horizonte,

Guarda um abraço,

Um sol por cima do monte,

E o recorte dos sobreiros.

E guarda um beijo

Desenhado em lábios de desejo.

E um corpo oferecido e nu.

Guarda para ti, sempre,

O único e irrepetível sentido

De seres tu!

jpv/dezembro 2014