Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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De Rerum Natura

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De Rerum Natura

Eu não sou aos 47 o homem que queria ser aos 17.
E não há nisso mal algum, nada de errado. Só desilusão. Toda a que foi nascendo de meus gestos e toda aquela imensa desilusão que nasce em mim só por ver os outros. O Homem é o animal que mais me desilude. Aquele de quem espero menos. O meu cão dá-me mais motivos de esperança do que a generalidade dos homens. Creio, firmemente, que a Humanidade está condenada. Não há ninguém de que não tenhamos de nos defender. O Homem move-se, unica e exclusivamente, pelos seus próprios interesses. Mesquinhos e egotistas. E disfarça. E cria máscaras. E engana. E acredita que está bem assim. Há pouca nobreza de caráter e nenhuma pureza de alma. A Humanidade é um lodaçal. É o estrume apodrecido dos seus próprios gestos. A hipocrisia medra, viçosa, adubada pelos jogos de ludibriar e pelas efémeras e ilusórias conquistas. Os vitoriosos são, normalmente, os melhores neste jogo. Aqueles cujo caráter apodreceu há mais tempo. Os derrotados não aceitam as derrotas e consomem-se em retomas de pelejas perdidas e vinganças a quente e a frio e a morno. Para mim, há em cada gesto humano um motivo de suspeição.

Aos 17, eu queria salvar o mundo e queria-o porque era possível. Quanta ingenuidade! O mundo esteve sempre irremediavelmente condenado. Aos 17, eu tinha ideais e planos. Os homens corromperam-nos todos. Envolveram-nos na sua teia de jogos de interesses, serviram-se da minha energia e eu acabei desviando-me do que queria ser. Uma vida desperdiçada. Com crueldade. Passo a passo. Momento a momento. Batalha a batalha. E hoje consigo orgulhar-me do que sou, de algumas coisas que tenho comigo, no meu peito, na minha mente, mas admito, dolorosamente, que me desviei do meu próprio caminho. Eu não sou aos 47 o homem que queria ser aos 17.

jpv


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Poesia das Palavras Indizíveis – Demasiadas Sombras, Senhor Grey.

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Poesia das Palavras Indizíveis

Demasiadas Sombras, Senhor Grey.

Foi na tela.
Ele batendo nela.
Mas poderia ter sido em casa.
Um braço no ar,
Um grito a rasgar o silêncio.
Um gesto que arrasa…
A existência.

Foi na tela.
Ele batendo nela.
Mas poderia ter sido no carro.
Um pé no travão.
Um som de pneus a deslizar.
Um braço no ar.
Uma boca a cuspir sangue.
Uma mulher que baixa os olhos e espera…
Mais.

Foi na tela.
Ele batendo nela.
Mas poderia ter sido no jardim.
Um braço no ar.
Minutos que não chegam ao fim.
O negro do sangue pisado.
Um olho disforme.
Assim…
Ornamentado.

Quando ele levanta o braço
Para ela,
Não interessa se foi ou não
Na tela.
O que se vê,
É ele a bater nela…
Por amor!

Não há erotismo
Nem sexo
Na violência
E no excesso
De uma mulher agredida.

Há só um crime…
Contra a vida!

jpv


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Poesia das Palavras Indizíveis – Pediatria

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Poesia das Palavras Indizíveis

Pediatria

Era negra, a menina.
Era negro, o destino.
Era negro e franzino
O gajo atrás do vidro.

E desfalecia, a menina.
Desfalecia, a vida
No vórtex da indiferença
De uma fila comprida.

Tempo de desespero,
A mãe com a criança
Entre os braços.
Estreitam-se ainda mais
Os já muito estreitados laços.
Um olhar triste.
Um olhar conformado.
Um olhar sem revolta
Na revolta de um olhar molhado.

E uma espera.
Uma noite longa e quente.
Um corpo pequenino e indefeso.
Um homem distante e ausente.

Sem piedade,
A urbe adormece,
Embalando nos seus braços
As teias que a vida tece.
E há dor.
E há vida e luz.
E há destinos de outra gente.
Gente que a gente produz…

E abandona às trevas da morte.

jpv


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O Ofício da Memória – 3

oficio-da-memoria-3-logoO Ofício da Memória – 3 O Livro

Há uma altura das nossas vidas em que tudo parece estar relacionado com a escola. Quase como se ela fosse a fonte de toda a vida, o mar onde todos os rios de afetos vão desaguar. Esta história nasce na escola, vive na escola e adormece com a escola.

Era um miúdo bem disposto. Um tanto inconsciente. A inconsciência própria da idade. E queria poucas coisas naquela altura. Salvar o mundo, amar todas as mulheres e ser poeta. A descoberta das palavras e do poder delas traziam-no encantado. Deixou-se entusiasmar, até porque era de entusiasmos fáceis, com as palavras que a professora escolhera para apresentar aquele livro. Um livro sobre a Liberdade. E lá foi à procura do livro, carteira de cabedal no bolso com o B.I., uma nota de vinte escudos, um bilhete de elétrico e o cartão de leitor da Biblioteca Municipal. Como sempre fazia, passou as mãos no imenso balcão de madeira maciça a sentir-lhe o toque e o odor a lenha e a livros. Estendeu o cartão de leitor e o papelinho da requisição onde já ia escrita a quota do livro para que pudesse ser encontrado com facilidade. Muito requisitado devia ser o livro porque a senhora demorou poucos segundos a trazê-lo. Era pequeno, pintado de negro como a vida das pessoas nele, uma estrela de David em rosa forte a ocupar o centro da capa, o título e o autor. “O Judeu”. Bernardo Santareno.

Ainda bem que leu o livro todo. Se não o fizesse, esta história não teria acontecido. Gostava de ler na sala da biblioteca. Fazia-o sentir-se importante, como se tivesse acesso a um clube restrito de privilegiados, e gostava da sensação de ler um livro rodeado de livros antigos, amarelecidos pelo tempo e desgastados pelo uso. Até que foi surpreendido. Ia algures pelo meio do livro, e sempre há aquelas páginas que ficam em branco porque acabou um capítulo ou, neste caso, uma cena, um ato, e nessa página em branco alguém tinha escrito um poema. Ocupava toda a página. Estava escrito à mão, com uma caligrafia ímpar, ornada de voltas retorcidas a começar e a acabar as letras e, sendo complexa, havia nessa complexidade certa harmonia. Era belíssima.

Preocupou-se. Era um texto muito bem construído, mas perturbante. Falava do aprisionamento da alma, de lobos e unhas sangrentas e anunciava um fim. Um suicídio. Será que acontecera? Teria aquela alma perturbada entregado o livro à mesma senhora que lho dera a ele e partido a cumprir o destino que escrevera? Custou-lhe separar-se daquele texto. Não conseguiu. Decidiu fazer uma requisição domiciliária e saiu da biblioteca com “O Judeu” debaixo do braço. Versão aumentada com um poema que obliterara a luta e o destino do António José da Silva.

Trabalho de Grupo

Desde que me conheço, sei, por experiência, que tudo, ou quase tudo, seja bom ou mau, é culpa dos professores. Enfim, substitua-se culpa por responsabilidade e a versão fica mais intrigante e… polida. A professora queria um trabalho de grupo sobre “O Judeu” de Bernardo Santareno e teve a impertinência de pré-selecionar os grupos de trabalho. Como sempre, o moço de que aqui se fala estava entusiasmado e queria saber quem lhe calharia em sortes. Eram grupos de três ou quatro que começavam a dispor-se na sala com o burburinho animado de quem se prepara para trabalhar em conjunto. Foi isto no tempo em que uma aula com trabalho de grupo era diferente. Para seu espanto, a professora distribuiu-os todos até que restaram só eles. Mais ninguém. Só os dois. Ele nem tinha bem a certeza de que dois poderia ser um grupo. Um ajuntamento não era, por certo, desde que Salazar definira que para haver um eram precisas três ou mais pessoas. Era uma moça discreta. Participava pouco. Preferia o silêncio das palavras. Parecia ter uma maturidade superior à generalidade dos colegas. O cabelo farto a emoldurar a face oblonga donde emergiam uns olhos redondos e enormes, marejados de curiosidade e, descobriria mais tarde, atrevimento. Um semblante triste de onde despontava de quando em vez a luz de um sorriso. Não reparou de imediato noutros atributos. Seria ela a acordá-lo para eles. Chamava-se C. Começaram por reler o livro, pelo menos, as partes mais importantes. Ele trazia consigo há vários dias o exemplar da biblioteca e o seu misterioso poema de sangue e morte anunciada. Ela tinha fotocópias. Depois, discutiram as ideias. A rapariga inteligente e sensível por trás da máscara da colega tímida e contida começou a revelar-se. Era contundente nas palavras e agarrava-se às suas opiniões como se as não quisesse largar. E debateram um debate aceso e entusiasmado, discordante e concordante, e acertaram no caminho a dar ao trabalho. Quando decidiram escrever, ela puxou de uma caneta, começou a tomar notas e ele fez o que  nunca fizera antes na sua vida de estudante. Pediu para ir à casa de banho.

Revelações

Enquanto lavava a cara com água fria, vários pensamentos lhe cruzavam e baralhavam a mente. Seria impressão sua ou, efetivamente, a caligrafia da C era a do poema com lobos e desespero nas páginas intermédias de “O Judeu”? Se fosse, o que fazer com essa informação? Como agir? Dizer-lhe? Não lhe dizer? E, por fim, o que mais o perturbava era o significado daquela imensa coincidência. Tantas escolas na cidade, tantos livros na bilbioteca e nas livrarias, tantas turmas naquela escola, tantos alunos naquela turma… tinham de ser dois leitores da mesma biblioteca a quem calhou o mesmo exemplar, que andavam na mesma escola, ficaram na mesma turma e foram unidos pela professora num inusitado grupo de dois! Dois e um livro. Dois e um poema. Talvez, afinal de contas, fossem um ajuntamento.

-Essa letra é tua, certo? – Hã?! Sim, é. – Fazes sempre a mesma letra? – Sim faço. Avançamos nisto? – Claro. Mas preciso mostrar-te uma coisa. Foste tu que escreveste isto? – Fui. Estava num dia mau. – Isto é muito bom. Escreves muito bem. – Achas? – Tenho a certeza. – Eu não acho. – É triste… – Pois… – Pensaste mesmo… – Estou sempre a pensar. Não é que o vá fazer, mas penso nisso. A escrita é um desabafo.

O trabalho fez-se. Apresentou-se, entregou-se, não me lembro da nota que tivemos nele. Lembro-me do olhar dela, sorrindo na minha direção enquanto eu o apresentava. E lembro-me de que a professora também sorria. Lembro-me que continuámos a conversar e a debater ideias. Lembro-me de que gastávamos todo o tempo livre nisso. E lembro-me, neste delicioso ofício da memória, de que não acordei para ela de outra forma. Foi ela que fez a gentileza de despertar-me. À bruta! Talvez por eu ter o sono pesado.

O A e a R andavam a acercar-se um do outro. Devagarinho. E convidaram-me para um baile temático numa paróquia da cidade. Perdoai-nos, Senhor, se for pecado, o que estamos prestes a fazer esta noite. Eu fui. E quando lá cheguei, encontrei a C, sentada a um canto, mais entediada que as coisas entediadas. Soube depois que ela estava ali para fazer o jeito à avó. Assim que pude, despachei o A e a R, ou foram eles que me despacharam a mim, já não sei, e fui ter com ela. Pedi-lhe para dançar. Era o que se fazia naquele tempo, mas em abono da verdade, nenhum de nós fazia muita justiça ao verbo. Estávamos às voltas na pista, agarrados um ao outro, mais conversando do que dançando, quando ela perguntou sem mais avisos nem rodeios:

– JP, tu és potente?

O moço ficou ali parado, quase engasgado, engolindo em seco e pensando se a pergunta teria alguma coisa a ver com carros. Era óbvio que não tinha. Naquele caso, o motor era outro. E sentiu-se dividido entre a obrigatoriedade máscula de dizer que sim e a honestidade de não saber a resposta para aquela pergunta. Sabia lá se era potente! Sabia lá o que era ser potente! Nunca ninguém se queixara, mas não sabia, sequer, que isso se media ou que a questão podia colocar-se assim. E também não sabia se nunca ninguém se queixara por satisfação ou pudor crítico. E, isto lembro com precisão, a resposta saiu-lhe o mais honesta possível sem que, contudo, criasse barreiras ao que parecia anunciar-se.

– Quer dizer, não sou nenhum super-homem, mas cumpro a minha parte. – Está bem, mas quantas?

Ele refugiara-se numa formulação genérica, à laia de um descritor impreciso de boas práticas, mas ela avançava pelos objetivos específicos dentro com a mania da mensurabilidade. Não ficou sem resposta.

– Sei lá, duas, três… também depende da outra pessoa.

Nunca soube o que a C pensou da resposta, mas lembro com clareza o que ela disse a seguir:

– Vamos embora daqui? – Vamos.

E não fomos para longe. Os beijos apaixonados e as carícias voluptuosas começaram no jardim atrás da igreja, prolongaram-se calçada acima e vieram a fazer-se mais confortáveis no que restava de um mosteiro abandonado. Foi toda uma descoberta, todo um desvendar, toda uma volúpia e uma sedução. Não havia dúvidas, aquela pessoa desfolhava-o a uma velocidade impressionante e ensinava-o a ser melhor do que sabia. E ele fez-se generoso na entrega e na investidura e perdeu o conto às contas que planeara fazer.

– Amanhã é domingo, a minha mãe não está. Queres ir passar a tarde lá a casa?

Ele andava há muito a preparar-se para o Académica-Sporting do dia seguinte e homem que é adolescente não falta a esses compromissos. Demorou um segundo a decidir-se.

– Quero. Claro que sim.

Quando se despediram, ele voltou ao salão de baile, encontrou o A, estendeu-lhe o cartão de sócio da Briosa e disse, Toma, vai tu ver o jogo! Então, já não vais? Não, surgiu uma coisa mais interessante. O A era parecido na fisionomia consigo e tinha-lhe pedido o cartão de sócio para ir ver o jogo sem pagar. Ficou com um sorriso nos lábios. Não sei o resultado. Sei que disse em casa que ia ao jogo, não porque costumasse mentir, só para evitar perguntas, e quando regressei dos meus jogos com a C perguntei o resultado final a alguém na rua não fosse a pergunta ser-me atirada em casa…

Foi uma das mais memoráveis tardes da minha vida. Todo um dar, todo um receber, toda uma diversão e um despudor. Ter o tempo todo do mundo para descobrir aquele mundo todo. Aconteceram outras tardes, manhãs, noites, conforme a oportunidade se nos apresentava. Às vezes conversávamos, vasculhávamos as gavetas da mãe da C à procura de anticoncetivos, quaisquer que fossem, e usávamos tudo. E olhávamo-nos nos olhos. E ríamo-nos. Lembro-me das manhãs tórridas de terça-feira, cada segundo contava, cada loucura parecia querer estender-se para além do tempo possível. E eu ficava até ao limite dos segundos necessários para estar a horas na aula de Grego, pelas catorze. E chegava suado dela e do elétrico, atrasado, claro, e sentava-me e cheirava a prazer e a sexo e a minha mente não entrava comigo. O professor olhava-me curioso assim como quem se pergunta, Mas donde é que este saiu? E só eu sabia de onde tinha saído… e era para lá que queria regressar o quanto antes.

Nunca poderei agradecer o suficiente à C por aquele abrir de olhos, por aquela passagem do missionarismo à descoberta plena do corpo e do prazer. Um dia levei comigo um objeto dela. Era um skate. Meses mais tarde devolvi-lho. Beijámo-nos. Dissemos adeus como tínhamos dito olá. Vi a C na faculdade. Poucas vezes. Depois disso, nunca mais. E, contudo, a memória desses dias une para sempre o menino à rapariga dos olhos grandes.

A Troca

Chegou o tempo da C fazer anos. Claro que queria dar-lhe um presente bonito e com significado. Fazíamos isso, naquele tempo, construíamos os presentes, mais do que os comprávamos. Fui à Livraria 115, comprei “O Judeu” de Bernardo Santareno, escrevi uma carta à Biblioteca Municipal dizendo que pretendia trocar um livro velho por um novo e prontifiquei-me a oferecer o novo. A troca foi aceite com um obrigado e o poema voltou à sua origem, à sua criadora. Reuniu-se com a poetisa. Ela desembrulhou o livro, fez um sorriso, agradeceu-me e beijou-me nos lábios. Às vezes, tenho a sensação de ainda ver esse sorriso a esboçar-se sob o olhar redondo e grande onde uma lágrima viera espreitar. Às vezes, neste complexo e conturbado ofício da memória, já não sei bem o que aconteceu e o que fui eu que inventei, mas sei sempre que a memória da C é quente e acolhedora e repleta de gratidão e revelações.

—————————– jpv ————————-


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O Corpo do Jovem

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Nesse sinuoso caminho,
Trilhado com dor e sangue
Jaz morto e frio,
O corpo do jovem, exangue.
Tombou lá longe, sozinho.
Não tinha nada de seu,
De seu não tinha nada.
Só a alma envolta no breu,
E a carne, a golpes, dilacerada.
E vive exultante em meu peito,
Neste fogo de paixão que me consome.
Esse menino que morreu lá longe,
Viveu e fez-se homem.
Por cada golpe
E por cada ferida que dói,
Morre mais o menino
E cresce, em mim, o herói.

E tenho esta visão,
Este conforto de assistir
À grande revolução
Que é ver-te partir.

 jpv


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Crónicas de África – Miúdos de Rua

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Crónicas de África – Miúdos de Rua

Maputo, 1 de março de 2015

Em Maputo, cada miúdo de rua é uma surpresa. Surpresas de sorrir, de chorar, de sofrer, de entender, de não perceber nada. Conto hoje a história de três miúdos de rua que se cruzaram comigo.

JQ

Quando conheci o J, ele ainda era um adolescente. Tinha dezassete anos e vendia capulanas e panos com animais selvagens pintados à mão para se pendurarem numa parede ou colocarem numa mesa, numa cama. Corria ao lado dos carros quando o trânsito estava lento e dizia às pessoas que elas precisavam muito do que ele tinha para vender, até porque ele só tinha coisas boas para vender. Gostava de regatear e quando o preço chegava ao limite do que ele estava autorizado a baixar, ligava para o boss dele e ficávamos a negociar os três, sendo ele o intermediário e tradutor das conversas. Comprei-lhe diversos panos por aquela altura, em dias diferentes, e por isso nos marcámos. Não lhe esqueci a face, nem ele a minha. Estranhou, um dia, quando lhe perguntei o nome e quis saber o meu de volta. Só vim a saber que ele não o esquecera quase três anos depois, quando nos reencontrámos. Eu, ainda professor, mas muito mais africano. Ele já deixara de passar os dias deitado na areia ou a correr ao lado dos carros. Agora, era segurança. Eu entrava para um restaurante, quando senti uma mão tocar-me no ombro, virei-me e lá estava o sorriso inconfundível do J.

– Patrão João, lembra-se de mim?
– Claro! Tu és o J.
– Lembra!

Abriu mais o sorriso e deu-me um aperto de mão à moçambicano. Tinha sido pai há somente quinze dias, mas a criança falecera há três noites atrás. Mas sorriu ao ver-me porque rever uma pessoa que se lembra do nosso nome é uma coisa boa mesmo quando a alma anda triste.

– A criança caiu bem. Nasceu lá no Hospital Central e nos mandaram para casa. Estava a comer bem. Uma noite, a minha esposa levantou-se para ir na casa de banho e ele já não se mexia. Levámos para o hospital. Já não voltou.

As ruas de Maputo fazem homens de muitas maneiras. Há os que casam e vão ser pais e há os que ficam órfãos dos seus filhos e nos sorriem como se o sol tivesse acabado de nascer.

FR

Em Maputo, um trabalho não precisa estar reconhecido como profissão para ser exercido e ter uma remuneração. Quando alguém se consegue fazer útil por algum meio, tem um trabalho e faz-se pagar por isso. Quando conheci o F, ele trabalhava no mercado. Acartava os sacos de compras das pessoas. Tinha onze anos. Hoje, tem catorze e ainda faz o mesmo trabalho. Ao fim de semana. O Mercado Central de Maputo está repleto destes miúdos que esperam pelas pessoas e se oferecem para andar com os sacos das compras. Seguem os clientes do mercado aliviando-os do peso e quando as compras terminam, acompanham as pessoas ao carro e esperam por uma moeda. A maioria destes miúdos é atrevida, persistente, e a sua vida resume-se a pouco mais do que ao dia a dia no mercado. O F afeiçoou-se à senhora e ao cãozinho e pergunta sempre por eles, mesmo sabendo que é comigo, e só comigo, que trabalha. E informou desde cedo que ia à escola. Interessei-me por ele, entre outras coisas, por este pormenor de ir à escola.

– Então estás aqui todos os dias?
– Não. Só venho ao fim de semana. Durante a semana, ando na escola.
– Estás em que classe?
– Quase a acabar a sétima.

Com o tempo e as conversas enquanto ele me ajudava com os sacos, o F tornou-se em algo mais do que o miúdo que me acarta os sacos. De resto, eu gosto de acartar os meus sacos. Partilho-os com ele. Ele trabalha ao fim de semana para ajudar a pagar os estudos. Começou por trazer-me uma foto com a farda da escola, depois o documento com as notas da oitava classe, e este ano trouxe-me toda a documentação da matrícula na nona. Guardou na senhora que vende ananás para me mostrar. Quando chegou ao carro, encontrou um saco com material escolar que eu lhe tinha levado. O F é um trabalhador estudante. Aos catorze anos. Respeito isso. Há muito que não lhe dou moedas. Dou-lhe notas e material escolar. E ele acarta-me os sacos, pergunta pela senhora e pelo cão e vai-me trazendo as folhas com as notas dos exames.

Nas ruas de Maputo, também há marginais da marginalidade. E esperança. E resiliência.

JL

Não conheço o J de lado nenhum. Não sei quem seja. Só o vi uma vez. O suficiente para lhe perguntar o nome e trazê-lo para esta crónica. Impressionou-me e pronto.

Tinha acabado de sair do supermercado, levei o carrinho das compras, que estava praticamente vazio, meia dúzia de coisas, e coloquei entre elas a minha caneta e a minha agenda, presas uma à outra. Abri o porta-bagagens, coloquei as compras nele e fui para o lugar do condutor. Já estava a sentar-me quando percebi que me tinha esquecido da agenda no carrinho das compras. Voltei atrás, mas não cheguei a dar dois passos. Ele vinha na minha direção com a agenda e a caneta na mão. O miúdo estava aterrado, o seu rosto espelhava medo. Vi que ele quis, a todo o custo, evitar um equívoco, uma acusação. Segurou a mão direita com a esquerda, estendeu-me a agenda e baixou a cabeça fitando o chão. Não foi capaz de me encarar.

– Obrigado.
– De nada.
– Como te chamas?
– J.
– Tens quantos anos?
– Onze.
– Fizeste uma boa ação, J. Obrigado.

A última frase era verdade, mas a verdade é que a disse mais para o tranquilizar do que outra coisa qualquer.

– Andas na escola?
– Ando.

A pergunta e a resposta era inúteis porque ele estava fardado. Num espaço de poucos segundos, enquanto ele se afastava, pensei que não devia dar-lhe nada porque o meu pai me ensinou que das boas ações não devemos esperar recompensa. E, no mesmo instante, pensei que estava em Maputo, que as coordenadas eram diferentes. Não tinha ali nenhum material escolar, peguei numa nota e chamei-o:

– J!

Ele virou-se, dirigiu-se para mim, quando levantei a nota, ele benzeu-se, estendeu a mão direita que segurou com a esquerda e colocou os olhos no chão.

– Fizeste uma boa ação. Compra uma coisa para ti.
– Obrigado.

Tive a sensação de que ele nem vira a nota e segundos depois a sensação confirmou-se. O J atravessou as quatro faixas da estrada e já estava do outro lado da rua quando levou a mão ao bolso e tirou a nota. Viu qual era. Voltou a guardá-la, benzeu-se de novo e fez-se ao caminho.

Nas ruas de Maputo, também crescem os valores e a fé. E o medo!

jpv

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Nota 1. O aperto de mão moçambicano consiste num movimento em três momentos. Mãos na horizontal, na vertical e de volta à horizontal. É uma senha que faz parte dos tempos da libertação. Os três movimentos correspondem a três valores. Liberdade. Igualdade. Fraternidade. Tenho reparado que a maioria dos moçambicanos já não sabe o seu significado, mas este aperto de mão é muito comum.

Nota 2. Segurar a mão direita com a esquerda é um gesto de respeito e humildade. A mão esquerda segura o pulso da mão direita mostrando à outra pessoa que aquilo que vai ser dado ou recebido está seguro.


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O Ofício da Memória 3 – Apresentação

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O Ofício da Memória 3 – Apresentação

Caros Amigos e Leitores,

A série de contos autobiográficos intitulada “O Ofício da Memória” terá muito em breve mais uma história narrada entre a certeza da vida e a ficção da memória.

Depois de conseguidas as autorizações necessárias à sua publicação, o terceiro conto desta série, escrito nas últimas 12 semanas, será em breve publicado.

É ligeiramente mais curto que os outros contos da série, tem coincidências, verdades, mentiras, judeus, quase suicídios, amor e sexo, sexo e amor, e tem… o nobre e humilde ofício da memória como quem preserva a vida vivida e garante a vida a viver!

 

Até breve!

jpv


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Pré-História

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Pré-História

Mora, intacto, em mim,
O teu corpo.
Em tangências de luz e perfeição,
Ainda sinto a suavidade dos teus seios
Preenchendo-me a mão.
Ainda te arqueias e ofereces
Em movimentos lentos e sedutores,
Ainda me lembro das preces
Gemidas sem fronteiras nem pudores.
Ainda sorris convidando,
Ainda chamas empurrando,
Ainda te sacias em mim
Como num altar de promessas.
Ainda te encostas e te entregas,
Sem máscaras nem pressas.
Ainda é vívida a memória
Desses corpos abandonados
À luz da noite,
No tempo antes da história!

jpv


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Vermelho Direto – Je Suis Sagres

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Vermelho Direto – Je Suis Sagres

Era o que mais faltava. Censura a partir de um clube de futebol.
Toda a gente sabe que sou benfiquista e toda a gente sabe que, quando entendo, zurzo no Benfica. Tenho esse direito. O direito de me expressar. De zurzir em quem me apetece, de dizer o que me apetece dentro das regras do exercício da liberdade, de brincar, de criticar, de gozar e de aceitar com respeito as opiniões dos outros. E zurzo nos adversários do Benfica quando me apetece e a propósito do que me apetece. É só a minha opinião. Não peço a ninguém que concorde comigo, só que respeitem o que penso da mesma forma que respeito os outros.

Para mim, o Rui Patrício sempre foi uma mau guarda-redes, muito inseguro, sobretudo quando a pressão aumenta. Viu-se isso inúmeras vezes ao serviço da Seleção Nacional. No jogo do Sporting contra o Belenenses foi protagonista de duas jogadas caricatas e ridículas, próprias de um tipo que treme como varas verdes quando é precisa fibra.

E a Sagres fez um vídeo, onde nem sequer se vê o guarda-redes do Sporting, a brincar com as trapalhadas que ele fez no estádio do Restelo. Trata-de de alguém a preparar um frango no forno enquanto o jogo evolui e termina com um slogan do tipo Frango à Rui Patrício servido no Restelo.

O presidente do Sporting apressou-se a defender o seu jogador, o que é normal. O que já não é normal é exigir pedidos de desculpas e ameaçar com processos e exercer pressões para que o vídeo saísse de circulação. E saiu. A Sagres retirou o vídeo e pediu desculpas ao jogador. Ou seja, a pressão exercida por Bruno de Carvalho calou a opinião da Sagres, o seu direito a brincar e a gozar com uma situação caricata. A meu ver a Sagres errou. Mas não foi quando publicou o vídeo, foi quando o retirou da web.

Bruno de Carvalho agiu como os extremistas islâmicos: calou aqueles com que não concordava. Felizmente diferiu nos processos e nos meios, felizmente, a proporção do crime não é, nem de perto, a mesma. Mas o crime é o mesmo. O de silenciar aqueles com que não concordamos.

Eu não concordo nem um bocadinho com a linha editorial do “Charlie”, respeito mais os meus amigos islâmicos do que alguma vez respeitarei o semanário francês, mas também fui “Charlie” porque a liberdade de expressão é um pilar da vida social e da democracia. Fui “Charlie” porque não se pode matar em nome de nada, não se pode silenciar os outros só porque não se concorda com eles.

E é por isso que agora sou Sagres. Qualquer pessoa tem o direito de pensar e de expressar a sua opinião acerca da prestação de um jogador de futebol. E a brincar com isso. Ou de um político. Ou de um médico. Ou de um advogado. Ou de um empresário. Ou de um jornalista. Eu sou Sagres porque o que a Sagres fez foi uma brincadeira inofensiva que, naturalmente, incomoda os sportinguistas, mas amanhã poderá ser sobre outros. Ainda me lembro o que gozavam com o SLB quando tivemos como guarda-redes aquele espanhol alto e frangueiro. E também me lembro o que gozaram com o Nuno Espírito Santo quando, ao serviço do Porto, deixou entrar um monumental frango na final da Taça da Liga contra o Benfica. Não me lembro, nem do Benfica, nem do Porto, se terem armado em Prima Donna ofendida. O senhor Bruno de Carvalho há muito que perdeu o controlo do clube que dirige e a noção da realidade. É um homem perdido, à deriva, patético. E depois age desesperadamente tentando provar que é líder quando toda a gente, incluindo muitos sportinguistas, se envergonham com as figuras que ele faz. Mas conseguiu calar uma brincadeira. Conseguiu censurar. Conseguiu matar a liberdade de expressão de uma instituição. O senhor Bruno de Carvalho pode ser presidente do Sporting, mas não pode ser censor de coisa nenhuma.

Eu sou Sagres! E o Rui Patrício é um frangueiro!

Tenho dito!
jpv


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Crónicas de África – A Boleia

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Crónicas de África – A Boleia

Dar boleias não é prudente. Nem aqui, nem em qualquer outro lugar. Este homem anunciava histórias interessantes. Era uma carrinha branca, agastada com a idade, a resmungar quilómetros e a revoltar-se contra a falta de combustível. E, junto a ela, um senhor de cabelos brancos, ar humilde e respeitável, um pequeno jerrican improvisado de uma lata de óleo do motor, o braço a fazer sinal, não como quem manda parar mas como quem pede ajuda.

E eu parei. Abri o vidro do lado dele:
– Então, há azar?
– Sim, pode chamar-se azar. Fiquei sem combustível. Ainda pensei que ela aguentasse, mas ela se negou. Não quer ir mais. Há um posto de combustível junto ao Game, não precisa levar-me até lá, posso apanhar uma ligação.
– Não há necessidade disso. Eu passo à frente do Game, deixo-o lá.
– Muito obrigado.
– Não tem de quê.
– Eu tenho tempo, sabe. Saí cedo de casa. Sou reformado do Estado há 4 anos.
– Posso saber a sua idade?
– Tenho 65.
– É um homem novo.
– Ainda sou novo, mas já fui mais novo. Sabe, às vezes bebo umas…
– Desde que não seja em excesso…
– Claro. O excesso faz-nos perder a responsabilidade. Eu bebo só o suficiente para abrir um sorriso. Por vezes, é preciso abrir um sorriso.
– E gosta da vida de reformado?
– Claro. As reformas do Estado são pobres, sabe, mas a vida privada tem muito valor. Não é incómodo ir até ao Game?
– Não, nada disso. Eu trabalho na Escola Portuguesa.
– É professor?
– Sou.
– Eu fui aluno, sabe. Fiz a sétima classe do Curso Industrial. Naquele tempo não havia energia. Estudávamos à luz das velas. A energia traz das suas. Quando estudávamos à luz das velas não chumbávamos. Quando veio a energia começámos a chumbar.
– Distrações…
– É… mas hoje ainda é pior. Eu vejo pelos meus netos. Na hora de estudar estão ali a ver a telenovela quando deviam estudar.
– Os tempos mudam, sabe.
– Mas não mudam sempre bem. Primeiro veio a liberdade, depois houve ali 10 anos que estivemos morrendo um bocadinho e depois levantámos a cabeça. É, nem tudo muda bem. No meu tempo não tínhamos dinheiro de lanche, mas nos divertíamos e brincávamos e poupávamos para ter um dinheirinho de lanche. Hoje, pai que não dá dinheiro de lanche parece que é criminoso. Isso está mal.
– Chegámos, senhor…
– Sibambo. Era para ter o nome do revolucionário, mas depois mudaram para Sibambo. Acho que tiveram medo.
– Tenha um bom dia senhor Sibambo.
– Muito obrigado, senhor professor.

Andamos nós gastando tempo à procura das causas do insucesso e elas aí estão. Energia e seus derivados. O senhor tinha uma dicção perfeita, falava pausadamente e não tinha dúvidas em relação às suas reflexões. Pensava e estatuía as ideias com as palavras serenas e firmes que encontrava. E nós podemos discorrer das dicotomias do empirismo e conhecimento construído, mas o certo é que o conhecimento do senhor Sibambo também é construído. Construído com as suas experiências e convicções, estudado à luz da vela, posto em prática ao serviço do Estado ao longo de 35 anos. Uma boleia para ele. Uma aula para mim.

jpv
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*Game: superfície comercial em Maputo, mais precisamente na Costa do Sol, ao longo da Marginal.
*Sibambo: nome semelhante ao do herói moçambicano Eduardo Chivambo Mondlane.