Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Um domingo de sentimentos mistos…


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Mulher Moçambicana

És um alguidar de plástico
À cabeça,
Uma silhueta recortada
Na manhã que começa.
És uma criança
Nas costas amarrada,
És a vendedeira de peixe
Por trás da bancada.
És um sorriso límpido,
Sem igual,
És a voz que desperta
O sol inaugural.
És um corpo vergado
Na machamba dos afazeres,
És mãe de sete ou oito
E irmã de outras mulheres.
És o trabalho e a libertação,
És a marrabenta e a oração.
És uma calça de licra
Na marginal,
És a força e o poder,
A resiliência fundamental.
És uma vendedeira de amendoim
Na beira da estrada,
És um olhar de esperança em tudo
E uma mão cheia de quase nada.
És uma palavra meiga e carinhosa,
És o epicentro da força revoltosa.
E és a graça
Que desliza e passa
Cingida por uma capulana,
Mãe de África,
Mulher Moçambicana.

jpv


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Porto Aberto

O azul imenso
E a distância,
A felicidade toda
No olhar de uma criança.
Um só sorriso,
Um só momento,
Um só juízo,
E tudo nasce de novo.
Tu, a majestade.
Eu, a plebe súbdita,
O povo.
Tens por coroa
Uma gargalhada cristalina,
E por cetro
A palavra imprevista da menina
Que ousa e atreve
E comanda o gesto
Que o servo conteve.
Não há praias,
Nem ondas,
Nem mares,
Que te façam justiça.
Serei sempre um lenho imperfeito,
Em seco e sem destino,
Sem mastro
Nem o nauta que iça
A vela do desejo.
Até chegares
E me devolveres à vida
Com suave carícia,
Inaugural beijo.
E haverá, então,
Um rumo certo,
Um porto aberto,
Uma mão estendida
Onde se acolhe outra mão.

jpv


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Ulisses

Dão à costa,
Nesta praia,
Ondas de exceção
E sereias inusitadas,
De formas arredondadas,
A prender meu coração.
E tenho mastros
Erguidos ao céu
Nesta embarcação.
E tudo de meu
Tem amarras à volta.
E o vento e os rios
Correm como cavalos à solta
Na minha mente.
E depois,
O sol na pele
Da sereia,
O fogo no olhar
Da sereia,
A mulher no corpo
Da sereia,
E o canto nos lábios
Da sereia,
São só o traço,
A linha ínfima do horizonte,
Que norteia
O Ulisses dos medos,
Perdido e a monte.
No céu,
Uma estrelinha brilha
E segreda os segredos
Ao nauta amarrado.
Um mastro
Não é um pelourinho,
E um nauta
Não é um condenado.
E há-de voltar
À praia de areia dourada,
Abraçar a sereia amada.
Voltará a soprar a brisa
E, sentado na sombra,
Desenhará a forma precisa
Das gotas de água brilhando
Na pele salgada da mulher.
Tudo acontece
Quando Ulisses quer.

jpv


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Quadras Perfumadas

Esta inconstância
E este desespero
São filhos da distância
E do quanto te quero.

Mil corações à solta
Não conhecem a emoção
De uma só e simples volta
Do teu olhar no meu coração.

Por razões que tu sabes e eu desconheço,
Fazes breves e inquietantes silêncios.
Meu amor incógnito, atende ao que te peço,
Fala comigo ou morro num desses momentos.

A nossa história não tem história nenhuma,
Num parágrafo conciso e fulminante,
Se narra a mulher que perfuma
De amor e ilusão, o peito do poeta errante.

Esse travo adocicado e floral,
Com um toque de citrino,
Converte qualquer homem comum e normal
Em doce e vulnerável menino.

jpv


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Origami

Quando me tomas
Em tuas mãos,
E quando me recebes
Em teus lábios,
Quando me rodeias
E quando me envolves
Em tuas carícias aveludadas,
Nesse momento,
Nesse preciso e exato momento,
O Universo esconde-se,
Os astros perdem o alinhamento,
E todo o caos
E toda a desordem
Se conjugam noutra harmonia.
O sol, súbito, morre.
A noite faz-se dia.
As aves tombam inanimadas.
As viaturas deslizam nas faixas trocadas.
Os ventos sopram ao contrário.
O que era disperso se faz uno
E o que era uno se faz vário.
Os ponteiros do relógio,
Frios, inertes e incapazes.
Os miúdos de lábios pintados
E as raparigas parecendo rapazes.
E nesta ordem nova,
Neste estranho encantamento
Do Universo
Esconde-se a razão e a prova
De estar coeso e inquebrantável
O que fora frágil e disperso.

jpv


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Revolteio

De mãos vazias
Para amar-te,
A solidão dos dias
É não poder dar-te
O Olimpo da paixão.
E contudo, em meio
Desta loucura em dor,
Emerge teu sorriso de amor,
E tudo faz sentido de novo.
Vem cheirar-me de mansinho,
Traz-me esse néctar,
Esse cálice de vinho
Que ao vinho faz inveja.
Não sei já quem seja
Ou o que seja.
Sou o homem que tombou
E agora se reergue.
Sou a folha daquela árvore,
O coração que deseja.
E revolteio em suave dança
Desenhando curvas de ilusão,
Sou o homem que acordou,
A folha que toca o chão.

jpv


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Canção da Noite

Era uma canção
Dolente e triste,
Acerca de um amor
Que não existe.
Cantava a chegada,
Em letra suave e sentida,
E o poeta, na beira da estrada,
Escrevia sobre a partida.
Tinha longas espadas
Cravadas no coração,
Todas as palavras eram douradas,
E todas as rimas soavam em vão.

E o poeta morreu à espera,
Em dor mergulhado e absorto,
Um coração sangrando no peito,
E outro na mão, frio e morto.

jpv