Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Cenas Esquisitas – A Noia das Listas

Cenas Esquisitas – A Noia das Listas

Como muitas pessoas, eu gosto de fazer listas. Não tanto listas de supermercado com coisas para comprar. Mais listas de tarefas. Faço listas de objetivos anuais e faço listas de deveres ou atividades mensais e faço listas de tarefas semanais.

Se eu gosto de fazer listas? Nem por isso. Mas adoro riscar itens nas listas. Há lá prazer comparável ao da realização de uma tarefa para poder riscar um item de uma lista? Naaaa… Aposto que o próprio Criador tinha listas. Assim uma coisa do género:

Fazer as ávores.
Criar os rios.
Encher os oceanos de água.
Não esquecer a camada de ozono.
Muito Importante: dar o livre arbítrio para não me culparem de tudo.

E é esta a Cena esquisita que tenho para vos revelar? Não. O esquisito vem já a seguir. É que por vezes esqueço-me de adicionar uma tarefa à lista, mas não me esqueço de a realizar, vá-se lá saber como! E depois, à socapa de mim mesmo, vou à lista, acrescento a tarefa e faço-lhe um risco por cima!

Ok, pronto, internem-me!

jpv


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Crónicas de Maledicência – A Contas com a Lei

Crónicas de Maledicência – A Contas com a Lei

Antes que sejam apanhados de surpresa, é preciso que os meus familiares, amigos, leitores, colegas de trabalho, enfim, todos aqueles que possam ter alguma espécie de relacionamento comigo, saibam que estou a contas com a Lei. E, como é sabido, com a Lei não se brinca.

E o mais grave é que eu não transgredi a Lei uma vez só. Fui transgredindo ao longo dos anos e vai daí devo ter um acumulado de coimas acima das minhas possibilidades. Além disso, por despudor, que assumo, transgredi a Lei publicamente exibindo e ostentando orgulho naquilo que fazia. 

Como sabem, estou em Moçambique e venho revelar-vos que não sei se alguma vez mais voltarei a Portugal, porquanto a gravidade das sucessivas infrações deve ter como pena, além das coimas e do tempo de cadeia, alguma espécie de exílio para que fique impedido de reincidir como vem sendo meu nefasto hábito.

Peço desculpa àqueles que acreditaram em mim e se associaram comigo e me deram a honra de ser meus amigos. Peço desculpa se os envergonho. E peço desculpa a Portugal por tão séria e continuada prevaricação.

A verdade é que eu tenho três, não um, nem dois, mas três cães! Não satisfeito, resolvi regozijar-me com a posse de uma pónei, quatro cabrinhas anãs e três tanques carregados de peixes, assim, horror dos horrores, a perder a conta. Os cães estão distribuídos da seguinte forma. Dois ficam na cama do meu filho que dorme no tapete. Eu sei, é a desgraça total! Mas o rapaz não gosta de dormir na cama. Diz que lhe doem as costas. Um dorme aos pés da minha cama, numa alcofa de esponja forrada a veludo. Eu sei, não deveria tratá-lo com semelhante crueldade e ele, coitadinho, com medo de mim, dorme toda a noite enroscado. E sim, assumo, já fui visto a passear o cão! Shame on me! Mas há mais. A pónei vive na banheira da casa de banho e quando queremos tomar banho, o que felizmente acontece pouco porque somos pessoas asseadinhas e lavamos-se raramente, ela espera no sofá da sala. Se eu puser uma cassete com desenhos animados, ela aguenta bem o tempo de uma chuveirada. Tenho duas cabrinhas na cozinha a fazer uma espécie de compostagem. Eu deito os restos num balde e elas morfam. As outras duas estão no quarto de hóspedes porque já não havia mais lugar na casa. E, como devem calcular, tenho imensos problemas com os vizinhos. Eles não se importam nada com os animais, mas não me toleram. Ou é porque grito muito alto os golos do Benfica, ou é porque ponho os Cêdês do Tony Carreira no máximo do volume, quer dizer, também não é bem no máximo, é ali mesmo antes do som começar a destrocer! Ou é porque estou até altas horas a ver combates de boxe e sempre vou gritando dá-lhe, dá-lhe, toma, toma! Eu desfazer-me deles, queria ver se não, mas também não me apetece ir morar pró canil como sugeriu o vizinho do 5º esquerdo. Esse sim, um verdadeiro animal, uma autêntica cavalgadura, que eu bem o oiço zurrar todos os domingos de manhã ali entre as 10h e as 10:15. Aqui para nós aquilo no 5º esquerdo deve ser só alimárias de pasto. É que a essa hora está a senhora dele a relinchar se Deus a deixa. Mas, enfim, eles fazem o barulho e eu é que levo com a ordem de despejo. Acho que deve ser isso porque chegou uma carta da Cambra a mandar despejar as bostas dos animais no contentor mais próximo. 

E prontus, agora tenho de ir porque as cabrinhas estão a chamar por mim. Deve ser para as ir deitar, coitadinhas…

jpv

Material Incriminatório


Ó pró ar criminoso dele, até estou a pensar colocar um catrimpázio na porta a dizer:

“Cuidado com o Cão! Não o Pise!
Não sei se sabem quem é a Drª Mónica? É a vetrinária desta fera. Cada vez que o vê entrar pela porta adentro, foge a sete pés, a Drª e o cetafe todo!
Eu sei que não parece, mas ele nesta foto está com pensamentos malévolos, assim coisas do tipo, estou a aqui, estou-ma ir a ti!


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Sermão de São Paulo às Acácias


Sermão de São Paulo às Acácias

Exórdio

Sabei, Acácias minhas vizinhas, que muito do mal que vem ao mundo vem por vós. Os homens pretendem pouco da vida e veio isto a ser assim por mister do Criador e duas outras ordens de razões. Uma é que sendo ignorantes, não sabem para mais e a outra, mais rebuscada razão, é que não sabem querer o que desejam. Iludem-se os ramos de vossos troncos e as folhas de vossos ramos e as flores de vossas folhas pensando que os homens são ambiciosos e lutam por ambição. Ambição seria querer estender esta vida para a outra, ambição seria querer conquistar o tempo eterno no pouco que lhes é dado nesta passagem. O que os homens são tem um nome desde os tempos mais antigos: gananciosos. A ganância de reter o tempo no aspeto do corpo que forçosamente irá a apodrecer, a ganância de conquistar a matéria que dentro de poucos sóis deixarão para trás, a ganância de se mostrarem superiores uns aos outros quando a mais crua das verdades é que nascem todos, independentemente de origens, etnias, credos ou posições, da mesma forma, vivem padecendo das mesmas enfermidades e morrem apodrecendo das mesmas maleitas. E nada levam consigo para o Além. Ou melhor, levam uma única e singular coisa: as ações que praticaram nesta passagem. 

Argumentação

E perguntais, de frente para a minha janela, que tendes vós a ver com isto, genericamente e, mais grave, como podeis ser causadoras de tal enfermidade? É simples e, contudo, não o vedes. Não o vedes porque almejais o Céu, cresceis bordejando os andares dos edifícios e olhais unicamente para cima e para cima projetais vossa florida copa. E o que deixais para baixo, Acácias minhas vizinhas? Deixais a sombra. A doce sombra, proteção dos calores e das ardências que emanam do grande astro amarelo. Cresceis para o Céu e deixais para trás a semente do ócio, a raiz do conforto, o bálsamo para o sofrimento, quando é consabido que, o que o Homem mais precisa é de sofrer. Sofrer para aprender, sofrer para macerar o ânimo intempestivo e belicista, sofrer para aprender a resistir. O Homem precisa de Sol no lombo. Para sentir a agressividade e perceber que o seu semelhante a sofre também. Para que se não contente com a vossa sombra e a ofereça a um irmão, para que, quem sabe, venha a acolhê-lo na sua sombra ou a lutar por ele e com ele no direito por uma sombra igual. Escolhamos uma profissão ao acaso. Um homem anónimo. Desempenha-a o melhor que pode e sabe e tem a ambição de servir bem ou a ganância de prosperar sozinho e secar, à sua volta, todo o crescimento para sobressair, não entre árvores crescidas e frondosas, como é o vosso caso, mas entre um mato seco e rasteiro? É fácil perceber se o orienta a saudável ambição ou a nefasta ganância. Ponde a seu lado um outro homem. Um que ele não conhecesse, com quem não privasse e observai como o recebe, como reage à presença de um seu semelhante. É acolhedor ou hostil? Apoia-o ou mina-lhe o caminho? Saúda-o ou ignora-o? Auxilia-o ou larga-o à sua sorte? Incorpora-o ou expurga-o? E aqui entrais vós, Acácias minhas vizinhas, e vossa nefasta sombra. Se não tivessem o fresco da vossa sombra e da brisa que circula sob as vossas copas, estes homens estariam procurando abrigo juntos, uniriam forças, ver-se-iam forçados a um sofrimento comum em prol de um bem comungável. Acontece que a existência de sombra, por si só, sempre fará com que um deles a queira só para si com medo de perder o conforto e o outro venha procurar abrigar-se nela em busca do mesmo. O problema não é haver sombra, Acácias minhas vizinhas, o problema é a sombra pré-existir aos homens. O problema é ter de partilhar e gerir algo que já existia sem ser forçado a criá-lo desde a sua radicular fundação. O problema é agarrarem-se os homens às sombras como se as fossem levar consigo para o Além sendo irónico, Acácias minhas vizinhas, que os seus corpos partirão para uma sombra eterna e as suas almas, a merecerem-no, estarão em jardins onde delas não haverá falta.

   


Peroração

Abri os braços, Acácias minhas vizinhas, e deixai passar lancinantes e incomodativos raios dessa luz que nos alimenta e consome e tereis homens provando a insuficiente sombra e, na incapacidade de alargá-la sozinho, cada um por si, esforços hão de unir por abrigo comum. Não deis tudo, tão só mostrai. E aqueles que em conjunto sofrerem, será em conjunto que hão de conquistar e superar e encontrar a sombra que os proteja e a brisa que os acaricie. Vede quão fácil se assemelha a tarefa que tendes pela frente. Deixar passar a luz. A que permite ver e a que incomoda. Dizei a vossos troncos que subam, as vossas folhas que se dispersem, a vossas flores que sigam as folhas e não olheis para cima, antes para baixo, orientando a luz e a sombra de modo a que sempre haja desta mas nunca seja suficiente. É inquieto, o espírito dos homens, Acácias minhas vizinhas, porquanto não tendes outra solução que deixá-lo ocupar-se das suas buscas. Pois que busquem onde não há porque, em havendo, deixarão de buscar e concentrarão iníquos esforços na preservação do que lhes não pertence e do que não poderão conservar além de sua efémera existência. E fazei isto para todo o sempre pois que a humana natureza não é permeável à mudança.


In “Livro dos Homens Podres”
jpv


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Conversas Vadias – Skype Moment

Conversas Vadias – Skype Moment

– Tudo bem?
– Tudo. Eh pá, tens lá em casa enxames de peixes nos tanques!
– Olha, cuidado porque ao pé da escada em caracol costuma estar um cardume de abelhas!

jpv
Extraído de conversa no Skype


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As Cores da Capulana – Nkombela, Por Favor!

Nkombela, Por Favor!

Uma bandeira branca,
Uma mão no ar,
Uma marcha que arranca
Uma só voz a cantar.
E uma gente que pede,
Nkombela, por favor,
Milhares de almas gritam
Um povo farto de dor.
E vês passar, na televisão,
E parece longe e distante,
Súbito te agarram pelo coração
E entras na turba gritante.

Não é de guerra
A gente que trabalha.
Não é de morte
A gente que sacrifica.
Não é de ódio
A gente que sorri.
Não merecia dor,
Por um dia que fosse,
A gente que te acolhe
Com um olhar terno e doce.

Não sei as palavras complicadas,
Não tenho as soluções complexas,
Nem as influências acertadas.
Tenho só a humildade da palavra
Que também leva vontade e fulgor:
Libertai a Paz em Moçambique,
Nkombela, por favor!

jpv


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Cansaço

Cansaço

Estou cansado
Das pessoas.
São demasiado más
As coisas menos boas.
Estou cansado
Das palavras.
São demasiado amaras
As menos doces.
Estou cansado
Dos gestos.
São demasiado agressivos
Os mais brandos.
Estou cansado
Desta mesquinhice
Sempre alerta,
A espada da língua
Sempre desperta.
Não há originalidade possível,
Não há limpeza viável,
A virgindade morreu virgem
E putrefacta,
Devassada por homens educados
E mulheres dignas.

Não gosto de ti, nem de ti,
Nem de ti,
E de ti também não.
Para cada pronome
Há um nome,
Uma figura
E uma configuração.

Jorro o fel
Para me não sufocar nele.
O único mel
Tem agora uma fina camada de bolor.
Essa crosta da ferida,
Depois do sangue
E da dor.

Já desisti das tentativas todas.
Já não quero a hipocrisia das festas e das bodas,
Já rejeito todas as palavras suaves,
Amo as duras e graves,
E tomo por certa a hostilidade.
Já morreu o meu crer,
Morreu de cancro e excesso de idade!

Era uma vez um menino…
Fez-se homem,
Desiludiu-se
E morreu.
E, mais tarde, quando veio a falecer
Já nada tinha de seu.
Desse âmago verdadeiro e inexplorado,
Desse solo fértil de esperança,
Resta um mato escasso e queimado
E reina miséria
Onde houve abastança.

Chega já a noite doce e funesta
Cantam e silvam em rituais de festa
Os seres do além.
Uma alma mais se aproxima,
Vazia e fustigada.
Ouvi, anjos e demónios,
Finalmente morreu Ninguém!

jpv


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Conversas Vadias – Sem Pecado Não Dá!

Conversas Vadias – Sem Pecado Não Dá!

– Ó boss, compras uns cigarros?
– Não fumo, Obrigado.
– Ó boss tenho aqui umas garrafas de uísque…
– Também não bebo, obrigado.
– ‘Tá maaal! Ó boss, ’tá na hora de começar a pecar!

jpv
Maputo, conversa real junto ao Piri-piri.


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Hoje vi um escritor

Hoje vi um escritor. Às vezes vejo publicadores. Normalmente, os publicadores auto-intitulam-se de escritores e quando o fazem, nós percebemos que o não são. Era uma sessão solene com homenagens e figuras públicas e institucionais a emoldurarem o cenário onde se desenrolou a mesa redonda que nem reparei se era redonda mesmo ou só no nome. E os fatos e as gravatas e os perfumes e as palmas e os apertos de mão e as mãos no ar a pedir a palavra e as perguntas e as respostas a persegui-las. E o escritor, de sorriso cândido e palavra genuína disse Eu estou num processo de aprendizagem, na busca de um provável escritor em mim. E calou-se. E eu vi o escritor nele. E depois retomou a palavra e disse outros espantos, que tinha decalcado muitos textos dos outros, do José Craveirinha, dizia ele, lia os textos e decalcava a ver se ficava como ele e confessava o plágio e eu lembrava-me a mim mesmo que os romanos incentivavam isso, fomentavam o plágio dos bons autores como arte de aprender. E era a hora das receitas e eu com medo. Se ele me vem dizer em que posição se escreve um romance, quantas páginas se deve escrever por dia, com que braço, com que caderno, a que velocidade, eu levanto-me daqui e vou perder o tempo para outro lado, quem sabe, comer uma omeleta no Piri-piri. Mas ele calou-me a intenção. O escritor. Jovem. Humilde. Sabedor. E disse como quem se escusa de ensinar, ensinando, Às vezes aprendemos as técnicas inconscientemente. Como é verdade, jovem escritor. Como é verdade que tantas vezes é a escrita que nos ensina a escrever, que nos mostra a vida e o caminho das palavras. Como é verdade que às vezes acordamos para as palavras e elas já lá estão. Eu vejo o escritor como um parasita que se alimenta de leituras. Tens razão. E de gente. E movimentos. E de palavras ditas. E de vida e de tudo o que seja observável. Sabes, escritor, às vezes vou no carro a conduzir e a companheira vai falando, falando, desenhando a vida, planeando os gestos e depois pergunta-me a opinião e eu Hã?! e ela se zangando porque eu não estava a ouvir. Em que vais a pensar? Quer saber. Vou a escrever. E escrevo sem caneta nem papel, na cabeça, enquanto remexo no que vi, observei, em última análise, no que li. E tinhas de falar das técnicas e dos rituais. Pediram-te. E tu que não queres nada disso, tudo o que queres é escrever, disseste a outra verdade, Cada escritor inventa os seus rituais. Pois é. Uns andam de braço dado com a boémia, outros se levantam de madrugada, outros são obesos e sedentários, outros ainda correm e suam no ginásio, outros é quando chove, outros é nas férias, havia um que era de pé e outro que era nas costas desnudadas das amantes saciadas. E de ti sabemos o essencial proferido com as palavras simples e exatas. Sem receitas. Sem truques nem artifícios. Escrevo sob o signo da surpresa, da subversão e da loucura. E eu bebia-te as palavras, a simplicidade da presença afável e humilde em lições jovens de vida e de estar. Hoje vi um escritor, a metamorfose constante do homem que regurgita a vida para os outros e lha oferece limpa de si, cristalina e depurada. Crua.
jpv
Hoje, numa sessão do xxv Curso de Literatura em Língua Portuguesa promovido pelo Instituto Camões e pela Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, ouvi e bebi as palavras de um jovem e promissor escritor moçambicano: Lucílio Manjate. A não perder o escritor que aí vem.

Lucílio Manjate


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Na Margem do Saber

Na Margem do Saber

Morres na margem
Do saber.
E enquanto te esvais
Não sabes que estás a morrer.
Habitam em ti fantasmas,
Almas negras,
Medos do mar profundo.
Tudo em ti é superficial
E habita as orlas do mundo.
Afinal o teu mar era uma piscina,
A tua mulher, uma menina,
A tua vida, uma ilusão.
Agarras uma mão
Com a outra mão
E julgas-te agrilhoada.
A tua mente tem medo
De tudo…
E de nada.

Tens esse véu
A tolher-te a visão.
Tens só uma leve
E imprecisa sensação
De que é luz.
Mas não é.
É uma treva escura,
Uma cortina semi-cerrada,
Um obstáculo intransponível.
A tua visão é invisível
E tem nome.
Chama-se Ignorância.
E o limiar da dor
Não me vem daí.
Vem de não saberes,
Vem de ignorares os poderes
De pensar,
Vem de agires por selvagem instinto
Na margem desse
Inacessível recinto
A que chamo consciência.
Viver não é uma ciência.
É a pura e única verdade,
Viver é respeitares com a tua
A minha Liberdade!

jpv


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O Top da Publicidade Fantástica


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O Top da Publicidade Fantástica

A publicidade fantástica está cada vez mais apurada.
Ofereceram-me ontem este precioso exemplar do folheto SexPlus.

Reparem nos seguintes aspetos:

Já não é um professor ou um mestre com nome esquisito do tipo Karambá.
É um frasco milagroso à laia de lâmpada de Aladino.
Já não são papelinhos pequeninos ou a preto e branco. É um orgulhoso A5 em papel brilhante e lustroso.
Quase não tem erros ortográficos.
O título vem em Inglês, a língua da modernidade.
Algumas palavras, como “ereção”, já respeitam o acordo ortográfico.

E, finalmente, reparem nas seguintes preciosidades:

a) “Amplamente demonstrado”
Pois, como é que foram feitas as demonstrações é que não sabemos. Não seria “Amplamente testado”?

b) É delicioso e muito promissor o conceito de “ereção com sustentação”. E já fornecem o sustentáculo? Ou é pura levitação?

c) “Ele ajuda a parar a ejaculação rápida”. Desta, caros leitores, é que tenho muitas dúvidas. Há coisas que não se param. Sejam lentas ou rápidas!

d) Este produto descobriu uma das grandes cruzadas da ciência: o princípio do perpétuo movimento. Reparem, após uma ejaculação, nada melhor que estar pronto para outra e assim sucessivamente… irra!

e) Por fim, e a terminar o documento, um toque médico, aquilo a que eu chamo “o momento bata branca”: é que o SexPlus, além dos milagres performativos, também vai ao âmago da questão e repara o coração do motor da viatura.

Se virmos bem, sendo justos, isto é muito melhor que o Elixir da Vida Eterna. Pode não se viver para sempre, mas enquanto se vive é sempre a abrir…

No verso do documento estão os contactos para aquisição. Se alguém quiser, é só pedir!
jpv