Cenas Esquisitas – A Noia das Listas
Como muitas pessoas, eu gosto de fazer listas. Não tanto listas de supermercado com coisas para comprar. Mais listas de tarefas. Faço listas de objetivos anuais e faço listas de deveres ou atividades mensais e faço listas de tarefas semanais.
Se eu gosto de fazer listas? Nem por isso. Mas adoro riscar itens nas listas. Há lá prazer comparável ao da realização de uma tarefa para poder riscar um item de uma lista? Naaaa… Aposto que o próprio Criador tinha listas. Assim uma coisa do género:
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Crónicas de Maledicência – A Contas com a Lei
Antes que sejam apanhados de surpresa, é preciso que os meus familiares, amigos, leitores, colegas de trabalho, enfim, todos aqueles que possam ter alguma espécie de relacionamento comigo, saibam que estou a contas com a Lei. E, como é sabido, com a Lei não se brinca.
Ó pró ar criminoso dele, até estou a pensar colocar um catrimpázio na porta a dizer:
Não sei se sabem quem é a Drª Mónica? É a vetrinária desta fera. Cada vez que o vê entrar pela porta adentro, foge a sete pés, a Drª e o cetafe todo!
Sermão de São Paulo às Acácias
Sermão de São Paulo às Acácias
Exórdio
Sabei, Acácias minhas vizinhas, que muito do mal que vem ao mundo vem por vós. Os homens pretendem pouco da vida e veio isto a ser assim por mister do Criador e duas outras ordens de razões. Uma é que sendo ignorantes, não sabem para mais e a outra, mais rebuscada razão, é que não sabem querer o que desejam. Iludem-se os ramos de vossos troncos e as folhas de vossos ramos e as flores de vossas folhas pensando que os homens são ambiciosos e lutam por ambição. Ambição seria querer estender esta vida para a outra, ambição seria querer conquistar o tempo eterno no pouco que lhes é dado nesta passagem. O que os homens são tem um nome desde os tempos mais antigos: gananciosos. A ganância de reter o tempo no aspeto do corpo que forçosamente irá a apodrecer, a ganância de conquistar a matéria que dentro de poucos sóis deixarão para trás, a ganância de se mostrarem superiores uns aos outros quando a mais crua das verdades é que nascem todos, independentemente de origens, etnias, credos ou posições, da mesma forma, vivem padecendo das mesmas enfermidades e morrem apodrecendo das mesmas maleitas. E nada levam consigo para o Além. Ou melhor, levam uma única e singular coisa: as ações que praticaram nesta passagem.
Argumentação
E perguntais, de frente para a minha janela, que tendes vós a ver com isto, genericamente e, mais grave, como podeis ser causadoras de tal enfermidade? É simples e, contudo, não o vedes. Não o vedes porque almejais o Céu, cresceis bordejando os andares dos edifícios e olhais unicamente para cima e para cima projetais vossa florida copa. E o que deixais para baixo, Acácias minhas vizinhas? Deixais a sombra. A doce sombra, proteção dos calores e das ardências que emanam do grande astro amarelo. Cresceis para o Céu e deixais para trás a semente do ócio, a raiz do conforto, o bálsamo para o sofrimento, quando é consabido que, o que o Homem mais precisa é de sofrer. Sofrer para aprender, sofrer para macerar o ânimo intempestivo e belicista, sofrer para aprender a resistir. O Homem precisa de Sol no lombo. Para sentir a agressividade e perceber que o seu semelhante a sofre também. Para que se não contente com a vossa sombra e a ofereça a um irmão, para que, quem sabe, venha a acolhê-lo na sua sombra ou a lutar por ele e com ele no direito por uma sombra igual. Escolhamos uma profissão ao acaso. Um homem anónimo. Desempenha-a o melhor que pode e sabe e tem a ambição de servir bem ou a ganância de prosperar sozinho e secar, à sua volta, todo o crescimento para sobressair, não entre árvores crescidas e frondosas, como é o vosso caso, mas entre um mato seco e rasteiro? É fácil perceber se o orienta a saudável ambição ou a nefasta ganância. Ponde a seu lado um outro homem. Um que ele não conhecesse, com quem não privasse e observai como o recebe, como reage à presença de um seu semelhante. É acolhedor ou hostil? Apoia-o ou mina-lhe o caminho? Saúda-o ou ignora-o? Auxilia-o ou larga-o à sua sorte? Incorpora-o ou expurga-o? E aqui entrais vós, Acácias minhas vizinhas, e vossa nefasta sombra. Se não tivessem o fresco da vossa sombra e da brisa que circula sob as vossas copas, estes homens estariam procurando abrigo juntos, uniriam forças, ver-se-iam forçados a um sofrimento comum em prol de um bem comungável. Acontece que a existência de sombra, por si só, sempre fará com que um deles a queira só para si com medo de perder o conforto e o outro venha procurar abrigar-se nela em busca do mesmo. O problema não é haver sombra, Acácias minhas vizinhas, o problema é a sombra pré-existir aos homens. O problema é ter de partilhar e gerir algo que já existia sem ser forçado a criá-lo desde a sua radicular fundação. O problema é agarrarem-se os homens às sombras como se as fossem levar consigo para o Além sendo irónico, Acácias minhas vizinhas, que os seus corpos partirão para uma sombra eterna e as suas almas, a merecerem-no, estarão em jardins onde delas não haverá falta.
Peroração
Abri os braços, Acácias minhas vizinhas, e deixai passar lancinantes e incomodativos raios dessa luz que nos alimenta e consome e tereis homens provando a insuficiente sombra e, na incapacidade de alargá-la sozinho, cada um por si, esforços hão de unir por abrigo comum. Não deis tudo, tão só mostrai. E aqueles que em conjunto sofrerem, será em conjunto que hão de conquistar e superar e encontrar a sombra que os proteja e a brisa que os acaricie. Vede quão fácil se assemelha a tarefa que tendes pela frente. Deixar passar a luz. A que permite ver e a que incomoda. Dizei a vossos troncos que subam, as vossas folhas que se dispersem, a vossas flores que sigam as folhas e não olheis para cima, antes para baixo, orientando a luz e a sombra de modo a que sempre haja desta mas nunca seja suficiente. É inquieto, o espírito dos homens, Acácias minhas vizinhas, porquanto não tendes outra solução que deixá-lo ocupar-se das suas buscas. Pois que busquem onde não há porque, em havendo, deixarão de buscar e concentrarão iníquos esforços na preservação do que lhes não pertence e do que não poderão conservar além de sua efémera existência. E fazei isto para todo o sempre pois que a humana natureza não é permeável à mudança.
Conversas Vadias – Skype Moment
As Cores da Capulana – Nkombela, Por Favor!
Nkombela, Por Favor!
Uma bandeira branca,
Uma mão no ar,
Uma marcha que arranca
Uma só voz a cantar.
E uma gente que pede,
Nkombela, por favor,
Milhares de almas gritam
Um povo farto de dor.
E vês passar, na televisão,
E parece longe e distante,
Súbito te agarram pelo coração
E entras na turba gritante.
Não é de guerra
A gente que trabalha.
Não é de morte
A gente que sacrifica.
Não é de ódio
A gente que sorri.
Não merecia dor,
Por um dia que fosse,
A gente que te acolhe
Com um olhar terno e doce.
Não sei as palavras complicadas,
Não tenho as soluções complexas,
Nem as influências acertadas.
Tenho só a humildade da palavra
Que também leva vontade e fulgor:
Libertai a Paz em Moçambique,
Nkombela, por favor!
Cansaço
Cansaço
Estou cansado
Das pessoas.
São demasiado más
As coisas menos boas.
Estou cansado
Das palavras.
São demasiado amaras
As menos doces.
Estou cansado
Dos gestos.
São demasiado agressivos
Os mais brandos.
Estou cansado
Desta mesquinhice
Sempre alerta,
A espada da língua
Sempre desperta.
Não há originalidade possível,
Não há limpeza viável,
A virgindade morreu virgem
E putrefacta,
Devassada por homens educados
E mulheres dignas.
Não gosto de ti, nem de ti,
Nem de ti,
E de ti também não.
Para cada pronome
Há um nome,
Uma figura
E uma configuração.
Jorro o fel
Para me não sufocar nele.
O único mel
Tem agora uma fina camada de bolor.
Essa crosta da ferida,
Depois do sangue
E da dor.
Já desisti das tentativas todas.
Já não quero a hipocrisia das festas e das bodas,
Já rejeito todas as palavras suaves,
Amo as duras e graves,
E tomo por certa a hostilidade.
Já morreu o meu crer,
Morreu de cancro e excesso de idade!
Era uma vez um menino…
Fez-se homem,
Desiludiu-se
E morreu.
E, mais tarde, quando veio a falecer
Já nada tinha de seu.
Desse âmago verdadeiro e inexplorado,
Desse solo fértil de esperança,
Resta um mato escasso e queimado
E reina miséria
Onde houve abastança.
Chega já a noite doce e funesta
Cantam e silvam em rituais de festa
Os seres do além.
Uma alma mais se aproxima,
Vazia e fustigada.
Ouvi, anjos e demónios,
Finalmente morreu Ninguém!
jpv
Conversas Vadias – Sem Pecado Não Dá!
Hoje vi um escritor
Na Margem do Saber
Na Margem do Saber
Morres na margem
Do saber.
E enquanto te esvais
Não sabes que estás a morrer.
Habitam em ti fantasmas,
Almas negras,
Medos do mar profundo.
Tudo em ti é superficial
E habita as orlas do mundo.
Afinal o teu mar era uma piscina,
A tua mulher, uma menina,
A tua vida, uma ilusão.
Agarras uma mão
Com a outra mão
E julgas-te agrilhoada.
A tua mente tem medo
De tudo…
E de nada.
Tens esse véu
A tolher-te a visão.
Tens só uma leve
E imprecisa sensação
De que é luz.
Mas não é.
É uma treva escura,
Uma cortina semi-cerrada,
Um obstáculo intransponível.
A tua visão é invisível
E tem nome.
Chama-se Ignorância.
E o limiar da dor
Não me vem daí.
Vem de não saberes,
Vem de ignorares os poderes
De pensar,
Vem de agires por selvagem instinto
Na margem desse
Inacessível recinto
A que chamo consciência.
Viver não é uma ciência.
É a pura e única verdade,
Viver é respeitares com a tua
A minha Liberdade!
jpv









