Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


8 comentários

Da Essência

Já não meço o tempo.
Já não conto os dias,
Nem as semanas,
Nem os meses,
Nem os anos…
Já não conto as pessoas que passam,
Nem peso as palavras nas frases.
Já não me detenho pelo comum,
Nem faço vénias à ignorância,
Embora também já não a corrija…
Já não quero tudo,
Nem muito,
Nem pouco.
Quero só o que quero.
Seleciono.
Separo.
Deixo passar, livres,
Os rios de lama,
E sorrio
À sua desventura.
Como cheguei aqui
Importa pouco.
Sou um estilhaço de nada.
Trouxe algumas pessoas,
Um punhado de memórias.
Árvores de errância plantadas
E livros escritos ao sabor do acaso.
Não sou escritor.
Desenho coisas com palavras
Escolhidas sem critério.
Não sou professor.
Ensino a vida
A vidas que me hão de sobreviver.
Não sou pai.
Sou filho de meu pai
E de meu filho também.
Não sou marido.
Sou imensamente amado
Por um raio de luz
Que me colheu de surpresa.
Não sou nada…
Talvez nunca tenha sido.
Talvez nunca tenha querido ser.
Amo a brisa
E os beijos escaldantes da musa
Com quem partilho a cama
E o olhar.
Amo o filho, a filha, os netos…
Fontes de todos os afetos…
Amo estar.
Amo observar.
Amo as palavras
E o sentido que dão
Às coisas sem sentido.
Amo.
Já não desejo que acreditem
Em mim.
Nem, tão pouco, que gostem de mim.
Fico-me pela breve partilha
De um tinto,
De uma conversa casual e vadia,
De uma roda de amigos
À volta de um lume crepitante.
Recolho-me no canto de um sofá
E na penumbra de uma árvore
De pensamentos que rego
Em silêncio.
E depois,
No fim de todas estas
Indispensabilidades,
Sobra muito pouco desta vida
E desta idade.
E o que fica
É uma qualquer ideia
Indefinida e essencial.

jpv


Deixe um comentário

SEM TEMPO

Tenho hoje por vizinhos
Os telhados altos
Do casario antigo
Dessas ruas escusas
Onde não chegam os carros.
Ruas do tempo
Em que os não havia.
Cheira a café
Pela manhã
E a um delicioso
E persistente refogado
À hora do almoço.
E circula um sussurro
De vozes afagadas
E músicas longínquas,
Lá, onde as gentes se encontram.
O castelo, já sem nobres,
Mas com a nobreza
Da idade antiga,
Ameaça histórias
E acorda-me memórias
Do que não vivi.
O fresco da noite
E as palavras
Prendem-me aqui,
Como se sempre, aqui,
Tivesse estado.
O corpo abandonado
Ao prazer de sentir
O tempo preso entre os dedos
Da contemplação.
Nem me apetece dormir.
Dormir é uma doença
Que nos impede de viver.
Quero só sentir.
Sentir tudo.
Até esta mentira
Que é sentir
Que não vou morrer.
Vai estar aqui,
Para toda a eternidade,
Este lugar
De olhar a paisagem
E sentir o universo
Suspenso no tempo.
Sem passado
Nem presente
Nem futuro…
Só esta existência
Absorta de toda a vida
E isenta de qualquer morte.
Estranha ilusão,
Benigna sorte.


2 comentários

Quatro Meses sem Feicebuque

De Rerum Natura
Quatro Meses sem Feicebuque

Há quatro meses atrás, decidi, consciente e deliberadamente, encerrar todas as minhas contas em redes sociais. Twitter, Instagram, Facebook e outras. Claro que esta última era que me tomava mais tempo e atenção.

Escrevo este texto para vos dizer que estou vivo, não me deu nenhum ataque de nada, nenhuma crise de coisa nenhuma, a desabituação não foi nem um bocadinho difícil e a minha qualidade de vida melhorou assombrosamente. Vou já explicar porquê, mas, por agora, quero só ousar dar-vos um conselho: deixem o FB e, já agora, as outras todas.

Após estes quatro meses sem redes sociais, aquilo que posso dizer-vos com grande certeza é que as redes sociais são, efetivamente, redes antissociais.

Vamos a aspetos práticos…

  • Quando comecei a usar as redes sociais e, em particular, o Facebook, foi para promover a minha escrita através da divulgação das publicações do meu blogue, Mails para a minha Irmã. Ora, volvidos quatro meses sem FB, posso dizer-vos que o número de visitas e leitores no blogue não diminuiu, pelo contrário, aumentou ligeiramente.
  • A minha vida social, por exemplo, eventos em grupo, deixou de estar dependente da selfie perfeita ou da validação de que tinha acontecido através de uma publicação. Os eventos tornaram-se mais tranquilos e genuínos e valem por si mesmos uma vez que desapareceu o espectro da publicação.
  • Ganhei mais tempo para mim. Faço tudo com mais calma. Dedico-me às pessoas e às tarefas com muito mais tranquilidade.
  • Deixei de ser incomodado por notificações de amigos, de amigos de amigos e de amigos de amigos de amigos, normalmente a chamarem a atenção para publicações com nada de útil ou interessante. O tempo é meu, não é dos outros.
  • Socializo mais. Muito mais. Saio com amigos, almoço com amigos, janto com amigos e, durante estes momentos, não interrompo nem sou interrompido por novidades fantásticas que não são novidade e nada têm de extraordinário.
  • Não perco tempo a dar, nem a receber, os parabéns a pessoas que não conheço. Hoje em dia, quando dou os parabéns a alguém é pela relevância que essa pessoa tem para mim e não porque o Facebook me lembrou.
  • Não leio “da-mos” nem “hadem”
  • Não tenho de aturar como doutos, muito sabedores, e até especialistas de ocasião, pessoas que são só ignorantes sem mais nada para fazer ao tempo do que repassar imagens com frases lamechas e imprecisas e citações de autores que nunca disseram aquilo que lhes é imputado. Até cheguei a encontrar a mesma citação atribuída a autores diferentes. Se o Einstein, o Obama, o Dalai Lama, o Fernando Pessoa, a Clarisse Lispector, o José Saramago e o Mia Couto soubessem as frases que lhes foram imputadas, refaziam as suas obras e duplicavam as publicações.
  • Sou eu quem seleciona a informação e as notícias que considero úteis e relevantes.
  • Deixei de receber como importantes e urgentes, notícias, comunicados e diplomas legais, com vários anos e até revogados.
  • Deixei de me ver envolvido em conversas futebolísticas irracionais e virulentas onde o recurso ao insulto pessoal era o nível mais civilizado da coisa.
  • Agora, quando chamo amigo a um amigo, sei que é mesmo meu amigo.
  • A minha privacidade é, efetivamente, minha e privada.
  • Deixei de ser alvo de mal-entendidos inadvertidos ou propositados.
  • Uso de maior rigor e critério na seleção do que leio na Internet.
  • Estou a descobrir uma Internet, até aqui oculta sob as redes sociais, que se tem revelado bem interessante e com muita qualidade.
  • Já ninguém faz juízos de valor acerca do que penso, como, bebo, os locais onde vou, quando e porque vou e com quem vou.
  • Já não sou vítima de fake news nem tenho de me chatear com ninguém por ter revelado que uma certa notícia era falsa.
  • Deixei de sofrer daquela antecipaçãozinha de saber quantos vão ver ou ler uma publicação e quantos “gostos” vai ter o que trouxe muita paz à minha vida.
  • Sou mais igual a mim mesmo e menos permeável à opinião, à ação e às chatices de terceiros.
  • Os senhores do FB, e todos os outros, deixaram de poder fazer juízos de valor acerca de mim e das minhas opções de vida.
  • E, finalmente, não podia esquecer, deixei de ser ameaçado com 100 anos de azar e desgraças por não repassar um powerpoint manhoso por 15 “amigos”! E, claro está, deixei também de ser ameaçado com o pagamento súbito do FB ou mesmo o seu encerramento repentino se eu não mudasse uma certa configuração. O Facebook não me encerrou. Eu é que encerrei o Facebook!

Enfim, não sou melhor nem pior pessoa. Sou só mais igual a mim mesmo, mais genuíno e faço o que quero do meu tempo sem a interferência constante de terceiros. Não tenho nada contra quem tem Facebook, respeito a liberdade de opção das pessoas, mas não quero mais para mim aquilo que, agora vejo, ao cabo de simples 120 dias, era pernicioso para a minha vida, nada acrescentava e muito retirava. Não sofro a tentação de voltar. A Liberdade é assim, quando se experimenta, não se quer mais nada. E agora sou livre.

jpv


Deixe um comentário

Pôr-do-Sol

pordosol

Tens a liberdade que foi minha,
Tens a canção e o gesto acertado,
Tens o tempo e a opção.
Vives cada passada
Como quem caminha
Em estrada de ilusão.

E sorris ao perigo
E ao desafio.
Tentas sem risco
Nem cálculo,
E corres desenfreado como o rio
Que sabe onde fica o mar.

E tens o amor
Em passadeira estendido.
Tens essa ousadia,
E esse fulgor
De quem não vive arrependido.

Não contas os dias,
Não precisas do tempo,
Não queres o exemplo,
Com que me desafias…

E vives.
E desvives-me os conceitos
E as emoções.
Despregas-me as mãos da Cruz
E lambes-me os rasgões
Na carne
Como se pudesses…
Como se nada mais fizesses…

É já o Sol a por-se.
É já o declínio do dia,
Uma luz amarga e fugidia
Pinta as tardes.
E esse fogo que ardes
E foi em tempos meu
Deixou-me e morreu.

jpv


Deixe um comentário

Índica Paisagem

chongoene-mpmi

Um espetáculo de luz,
Uma emoção que conduz.
Uma ave que corta o ar.
E o mar!

Uma brisa suave,
Uma suave aragem.
Uma casinha na encosta
A desenhar a paisagem.

O poderoso Índico ao pés,
Uma baleia imensa a emergir,
E no centro do que és,
Um frémito mudo de sentir.

Uma glória e uma esperança.
Um olhar que não cansa.
Toma-te a paz dos tempos
De frente para o mar
Que ruge e dança.

És maior que o Mundo
À proa dos sentimentos.
Enfrentas chuvas e ventos
E sentes a alma saciada.

Aqui,
Comandas o mar e a vida
Debruçado n’amurada.

Ó Tempo infinito!
Ó Senhor do Universo!
Tirai-me do peito este grito
Que não cabe em tão singelo verso.

jpv


Deixe um comentário

Tempo

algemas

É o tempo que gastamos a libertar-nos que nos mantém presos.

jpv


Deixe um comentário

E Depois…

momento-lindo

Pois…
Houve um momento lindo
E depois
Perdeu-se a chama,
Perdeu-se toda a glória
E morreu à nascença
A nossa história.

Pois…
Houve um momento lindo
E depois
O meu coração batia
Do lado em que o teu fingia.
E a mim me faltou
O rumo e o remo,
A vela e a quilha,
E o barco naufragou.
E restei só eu
Preso e perdido
Na ilha.

Pois…
Houve um momento lindo
E depois
Quis mais do que podias dar-me,
Quis a ilusão e a promessa,
Quis o tempo e a tua mão.
Mas tu tinhas pressa.
Não te acompanhei,
E não há para a tua liberdade
Amor, nem prisão.

jpv


2 comentários

Chão de Vida

d832f-africa-paisagem-3

Chão de Vida

Estes são os meus dias,
As minhas cores,
Os meus pássaros,
Os meus animais selvagens,
Os meus ritmos,
As minhas manhãs,
Os meus perigos,
O meu peito cheio de esperança,
A minha paisagem,
A minha música
E a minha dança.

É aqui que pertenço em vida.

Cada hora vivida,
Doce ou amarga,
De chegada
Ou de partida,
É aqui o seu tempo.

É aqui o Paraíso
E a falta dele.
A liberdade
E o medo.
A revelação
E o segredo.

São daqui os momentos
Que vale a pena viver.
A minha família é este chão.
Este sentir que há tempo
Para além do tempo.
Este ir e voltar,
Partir e regressar
Sob a pele marcado.
Minha vida é uma viagem
E este é o porto
Que vê chegar o nauta cansado.

jpv


2 comentários

Tempo

Tempo

Tempo

O verdadeiro Deus

É o Tempo.

Sempre certo,

Sempre isento.

De leis simples

E universais.

Sempre justas,

Sempre benévolas,

E sempre fatais.

Sem piedade, consome

O espírito e o corpo do homem.

E aceita uma única e singular

Oferenda de adoração

Em seu magnânimo altar:

Exige, em regime exclusivo e absoluto,

A entrega do crente

E o seu usufruto.

Não tem catedrais,

Nem mesquitas,

Nem sinagogas.

O templo do Tempo

É a praia

E a sombra generosa

De uma pinheira mansa.

É esta cadeira em que me sento

E a minha pele

Como palco da dança

Da brisa leve que me acaricia.

É o sorriso de uma criança,

E o olhar meigo

De um idoso

Que teve o que quis:

Morreu tranquilo e feliz

E primeiro que os seus.

A esta regra e a esta ordem

Obedecemos todos.

Até mesmo Deus,

Seja qual for o seu credo,

A sua fé,

Ou a sua raça,

Observa o tempo que passa

E curva-se ao seu passar.

Já foram os dias

De não ter consciência.

Já foram as horas

De conquistar a independência.

Já foi o tempo

Das impetuosidades todas.

Já foram as certezas.

Já quis consertar o mundo.

Já foi o tempo

De saber o que quero.

Agora, só e resignado,

Espero.

É o tempo de cada minuto.

É o tempo de descontar.

É o tempo

Do Tempo absoluto.

É o tempo

Do Tempo passar,

Cortante,

Por mim.

É o tempo das rugas.

São os dias do fim.

Não dobram, já, os joelhos,

Como costumavam.

As raparigas que passam,

Não olham

Como olhavam.

Estão mais longe, as distâncias,

Mais pequeninas, as letras impressas.

Não há razão para ter pressas.

Deixa-O passar… devagar.

Evitam-se os espelhos

Que nada têm para espelhar

Que não seja decadência.

Perdi a fé na Ciência

E no Homem também.

Recordo meu pai

E minha mãe

No tempo de antes de mim.

E sei

Que já nem eu

Sou assim.

Esta cadeira, de novo.

O papel.

A tinta deslizando

O desenho das palavras

Como um arado

A rasgar a terra.

Sou mais um capítulo

Que se encerra

Neste poço sem fundo.

Já pouco me resta.

Já só me falta

Erguer

E conquistar o Mundo.

jpv


6 comentários

Antes do Tempo

523d2-manos-2

Antes do Tempo

Antes da memória.
Antes da penumbra no olhar.
Antes da história
E de termos de explicar.
Antes de morrer a inocência.
Antes de termos cuidado.
Antes do nosso futuro
Não ter passado.
Antes de um dia aziago.
Antes de uma lágrima corrida.
Antes do ritual fúnebre
Que marcou a nossa vida.
Antes do tempo
Em que não havia tempo
Antes de quase tudo
Ser só um momento.
Antes desse tempo,
Tu eras menina
E bailava no teu olhar
O brilho de um sorriso.
Antes desse tempo,
Era um gesto conciso.
E absoluto.
Era das tuas palavras
Que eu bebia a vida,
Era da tua vida
Que eu marcava a partida.
E a chegada.
Antes desse tempo,
O tempo era tudo
E a fortuna era nada!

jpv
À minha Mana