Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Água

Quando não quero saber

Quanto te aproximas de mim

E trazes esse cheiro de cerejas

Pendurado na tua face.

Tu vais às cerejas

Quando já ninguém as vê

Quanto ninguém lhes chega.

É um ato de fingimento

Assim como quem se queixa.

Esta rota azul

Que me afasto

E de que me aproximo,

Enfim, como deixando correr,

Sentisse menos tranquilo.

jpv


2 comentários

Cânone Lírico

A alegria não inspira poemas.
E, mesmo que inspire escritos,
Não são poemas.
São erupções falaciosas
De um estado de alma
Que não existe.
Mera ilusão.
A poesia não vive do chão,
Nem de certezas,
E menos ainda de conquistas.

A poesia a sério,
A que se lê nas sessões públicas
E ganha prémios,
É grave e melancólica.
Sofre e faz sofrer.
Vive da dor
E do que faz doer.

A poesia, a ser mesmo poesia,
Alimenta-se da dúvida
E da insatisfação.
Da incompletude,
Da doença mental.
Da do corpo, não.
As doenças do corpo
São mesquinhas e surdas
Às verdadeiras razões
Por que se deve sofrer.

Um não querer ser-se
Quem se é
E querer-se ser
Quem se não é.
Um estar deslocado
De onde se queria estar
E sentir-se desacompanhado
Onde se está.

A solidão.
Sim, a solidão é poesia.
E a autoanálise obsessiva também.
O amor incorrespondido de alguém.
Os amores felizes
Não são poesia.
São invejas
De quem queria
E não tem.

A verdadeira poesia,
A de qualidade,
A poesia dos anfiteatros e dos salões
E das mais belas edições,
Não se escreve
Nem se lê.
Sente-se…
Um sentir puro e contínuo,
E, supremo pecado,
Não se explica.
Frui-se!

Eu cá, não sou poeta.
Eu acho graça
Às flores na Primavera,
Às manhãs luminosas
E aos regatos de água cristalina
Sob o chilreio fresco dos passarinhos.
Eu acho graça
Aos amantes de mão dada
Trocando beijos na rua,
À descarada.

De poesia, não sei nada.

jpv


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Batel

Tão perto.
Tão aqui.
Tão na minha mão…
E tão distante
Como lágrimas
Num chão
Sem chão.

Tão fácil.
Tão simples.
Tão sob a minha pele…
E tão complexo
Como um papel
Sobre outro papel.

Tão louco.
Tão inesperado.
Tão diferente de tudo.
E tão igual
A um grito mudo
Depois de um grito mudo.

Tão entregue.
Tão dado
Tão vivo.
E tão perecível…
Como um batel perdido
Encostado a outro batel perdido.

Tão calado.
Tão sem palavras.
Tão longe da noite e do dia.
E tão inesperado
Como a luz que matou a poesia.

Tão perto.
Tão em cima da meta.
E tão longe
Como a palavra
Que matou o poeta.

jpv


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Génese

Não é a palavra sentida.
Não é sentida.
Não é palavra.
É um rumor de existência,
Uma coisa que cresce e lavra
No peito do homem morto.
Não é religião, nem teoria, nem ciência.
Não é progresso,
Nem decadência.
Um pulsar.
Um pressentimento.
Uma coisa fechada.
Outra coisa lá dentro.
E cresce.
Não é o corpo que nasce,
Não é o homem que fenece.
Imagem sem sentido,
Explode e aparece.
Génese da coisa que não finda.
Não se vê.
E porque não se vê,
Sabe-se que é linda.
Precisão do impreciso,
Juiz sem juízo
E louco sem loucura.
Vazio.
Doce deleite
E penosa tortura.
Ideia.
Carreira.
Correria.
Luz na noite.
Sombra do dia.
Planície a percorrer
E precipício.
Coisa do fim.
Impulso do início.

jpv


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Simplicidade

De Rerum Natura
Simplicidade

A letra desta canção, um belíssimo poema de Agepê, nome artístico de Antônio Gilson Porfírio, um belíssimo letrista brasileiro, sempre me impressionou pela sua simplicidade. São palavras comuns, do quotidiano, despojadas da ambição de outros vocabulários envoltos em dissimulação, cagança imperial sem sustento intelectual e ético. O poema é tão singelo e, sobretudo, tão despojado que se torna intenso precisamente por isso. A simplicidade, não o simplismo, do pensamento e da atitude é, hoje em dia, uma surpresa, quase um choque. Transporta consigo a limpidez de raciocínio e a clareza de caráter próprias dos justos e serenos. Vivemos num mundo de rodeios e supostas importâncias, de justificação do injustificável, de licitação do crime que é o triunfo da ignorância sobre todos os valores, sobre todo o mérito e nobreza. Vivemos num universo de valorização do zero, de coisa nenhuma, da insignificância e parecemos esquecer a nossa igualdade e equidade supremas: somos todos um pouco de pó, somos todos pateticamente perecíveis, somos todos pouco mais do que nada. Parecemos esquecer que o que nos define não é o ter, mas o ser. Parecemos esquecer que não somos definidos pelo carro que temos, o modelo do telemóvel, a casa onde vivemos, o cargo que ocupamos, o título que ostentamos. Aquilo que nos define são os pequenos gestos. A compaixão, a nobreza de caráter, a frontalidade, a capacidade de sermos felizes e fazermos alguém feliz. O que nos define é a tenacidade e a determinação em sermos melhor do que somos. E tudo isto se oblitera numa nuvem de argumentos e razões e justificações que mais não são do que a criação de uma confusão generalizada e lamacenta da qual os nobres de caráter se afastam para poderem respirar e na qual a ignorância maledicente e mal intencionada triunfa. Vivemos uma gigantesca e universal batalha de palavras de complexidade porque não somos capazes da simplicidade desarmante com que Agepê nos brinda neste poema tão sublimemente interpretado pela inimitável Simone. “Na beleza desse teu olhar, eu quero estar o tempo inteiro.” O problema é que há já muito poucos olhares de beleza genuína e verdadeira e há, menos ainda, quem reconheça essa simplicidade e saiba viver nela como quem navega em águas calmas. Se todos conseguíssemos ser assim tão simples… seríamos todos tão mais profundos… e felizes! Tenho dito.


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“O Livro do Leitor” em vídeo…

Muito obrigado, Emporium Editora. O filme está muito simples e com extremo bom gosto.

“O Livro do Leitor” adquire-se aqui: https://emporiumeditora.com/collections/ebooks/products/o-livro-do-leitor


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Onde comprar “O Livro do Leitor”

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Já disponível para venda aqui:
https://emporiumeditora.com/collections/ebooks/products/o-livro-do-leitor

A partir de fevereiro também disponível:
Nas livrarias WOOK, BERTRAND e FNAC online.


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O Livro do Leitor e dos… Afetos!

Amigos,
Não foi só o lançamento de “O Livro do Leitor – Leve Passada”, foi um encontro de amigos repleto de emoções, pleno de intensidade e afetos.

Houve sorrisos, risos, lágrimas, abraços, leituras diversas, muitas interpretações, algumas perguntas e broinhas torrejanas.

Como referi no local, este livro não é meu, é nosso. Do autor e dos leitores seus co-construtores.

Uma palavra de agradecimento à Emporium Editora, à Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Torres Novas, a minha querida amiga Elvira Sequeira, e a toda a sua equipa, ao Armindo Gameiro, companheiro de muitas jornadas, pela fantástica apresentação que fez do livro, à Paula Carvalho e à Sandra Carvalho pelo apoio constante na organização do evento e não só, ao Luís faria e ao Fernando Pena por serem os fotógrafos de serviço e, sobretudo, uma palavra de GRATIDÃO para todos os amigos, familiares e leitores que tiraram um pouco do fim de semana às suas famílias para virem celebrar comigo a escrita, a leitura e as sensações à flor da pele…

Para todos aqueles que não puderam estar ou que, simplesmente, querem ler o livro, disponibilizarei, em breve, os pontos de venda físicos e online.

Muito obrigado a todos.

João Paulo Videira


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Lá Longe

amor

Lá longe.
Lá, onde o olhar não chega,
Do outro lado do Mundo,
Há um peito
Onde habita meu coração
A bater profundo.

Lá longe.
Lá, onde os rios correm ao contrário,
Bate a descompasso
E sem horário
Um relógio de amar.

Lá longe.
Lá, onde estou, mas não chego,
Aguarda-me esse inigualável sossego
De teus braços a abraçar.

Lá longe.
Lá, nessas ruas desertas de mim,
Onde deambulam teus passos, assim
Como quem me inaugura o desejo…
Lá, onde estou e te não vejo,
Mas te amo com devoção.

Lá longe.
Lá, onde me falta o chão
E me sobra o caminho.
Lá, onde piso devagarinho
E me aproximo sem chegar
A esse apetecível altar
De rezas e súplicas imploradas.
Lá, onde está teu ser
E meu ser desejava estar
Ao cair da noite
E nas auroras anunciadas.

Lá longe…

jpv


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Bíblia

casal2

As tuas palavras
Anunciam desejos.
Os teus lábios
Prometem beijos.
As tuas mãos
Semeiam carícias.
As tuas ancas
Conjuram delícias.

Se não for o anúncio falso
E a promessa vã,
Se não for a sementeira estéril
E a conjuração improcedente,
Nascerá uma nova manhã
De odores citrinos e inaugurais.
Manhã ímpar e fresca
De gestos simples e fundamentais.

Um mundo renovado
E uma nova religião,
O credo do pastor amado
E a prece da paixão.
Reescrevo versículos
Com a cabeça abandonada
Em tuas nádegas desnudas.
Se soubesses
O quanto mudas
Só por estar aqui.
Tenho uma nova Bíblia,
Repleta de orações,
Que nasceu em ti.
E esse livro,
Sagrado e controverso,
Desenha um ato de amor
Em cada singelo verso.

jpv