Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


Deixe um comentário

Súbdito

Ó pobre de mim!
Abandonado
E torturado, assim,
Na tua presença
E na ausência tua.
Teu corpo vestido,
Tua alma nua.
Quisera preencher-te a alma,
Despir-te o corpo,
Libertá-lo dessas amarras
E preenchê-lo também,
Com ganas e garras,
Nesse deleitoso ritual
Que me faz refém.
E, no momento da rendição,
Entregar-te meu coração
Para o abandonares de novo.
Tu és a rainha
E eu sou o povo.
Proletário dos afetos,
Errante mendigo de teu corpo.

jpv


Deixe um comentário

O Amor

amor

A causa de todas as coisas é o Amor.
Todo o Amor.

Não só o desejo
De percorrer a linha
Do horizonte do teu corpo,
Mas também o amor,
Que me deixa comovido
E absorto,
De uma criança sorrindo ao Destino
Sem ter Destino algum.
O amor, vulgar e comum,
Do velho agricultor,
De face sulcada,
Pelo cheiro da terra arada
E uma semente a espreitar.

Não só o amor
De percorrer a linha fina
De teus lábios
Com a minha língua molhada,
Mas também esse amor
Que têm os homens sábios
Por quase tudo
E por quase nada:
O voo irregular da borboleta,
O mendigo dormindo na valeta
Envolto em cartões,
E o olhar húmido
E repleto de emoções
De uma mãe que vê
A imagem do filho que regressa,
Amor de décadas de espera,
Sem excitação nem pressa.

Não só o amor
Pelo timbre da tua voz
Incendiando fogos em nós
E semeando um desejo antigo
E profundo,
Mas também esse amor
Pelos crentes
E pelos céticos do mundo,
Criaturas finitas
E infinitas
E iguais
Na diferença e na Fé.
Um amor obsessivo
Pelos que caem de pé
E não vendem a dignidade.
A causa de um gesto nobre
Não tem idade,
Nem cultura,
Nem carimbo,
Nem face.

O amor não se pede,
Dá-se.

É uma mão estendida,
Um sorrir a um sorriso,
Uma mão noutra mão,
Um amparo
Em vez de um empurrão.
Um abraço,
Divino laço
Entre humanos.

Com o Amor,
Não há enganos
Nem justificações.
Há só isso,
e a Paz que fica.
E essa Paz
É a coisa mais bonita.

jpv


Deixe um comentário

Neblina no Caminho

sta-carolina

Já eras
A diáfana imagem
Da perfeição
Quando te conheci.
Já eras o amor
E a sedução
Quando me apaixonei
Por ti.
Róseo seio,
Delicada pétala,
Flor sem fruto
Na inocência da idade.
És memória,
E és saudade.

Já eras
Um mar encapelado,
Um vento revoltado,
No olhar
E nos cabelos.
Eras a graça,
O beijo inaugural,
O primeiro corpo
Sob o meu.
Tinhas um perfume
Adocicado e experimental,
A tua nudez,
A minha pele arrepiada
E o corpo tremendo.
Tinha medo de estragar-te.
Queria amar-te
Para sempre
E não sabia
Quanto era isso.
Paixão,
Amor,
Feitiço…
O sal do mar
Sabia melhor
Na tua boca.

Já eras
O caminho
E a caminhada louca.
Já vivia em ti,
Sozinho,
A minha solidão.
Feitiço,
Amor,
Paixão…

jpv


2 comentários

Limiar

Limiar

Não há mais palavras
Nem vontade,
Nem desejo.
Há só a calma aceitação
Do que sinto
E do que vejo.

Era tão bom
Quando ainda me importava.
Quando havia luxúria no meu corpo.
Quando a energia me arrepiava as carnes
E o cheiro do teu corpo
Bloqueava os outros sentidos.
E o sentido era único.

Já não quero a eternidade.
Não me diz nada o tempo todo.
Tinha uma só vida…
E adiei-a.

Tinha uma só voz
E poupei-a.

Tinha um só corpo
E preservei-o.

E nada me resta mais
Que a condição miserável
De morrer conservado
E saudável.

Bebam o álcool todo!
Fumem todo o tabaco!
A vida é um barco
E não há terra.
Deleitem-se com todos os corpos,
Possuam todos os sexos!
E caminhem nus pela praia da vida
Na aurora de cada dia.
Nada mais existe do que o momento.
Cada momento
É todo o tempo
Que temos.
Cada dia é a hora de ser vivido.
Amanhã é tempo perdido.

E quando olhardes para trás,
Contemplai
Um lastro de vida vivida,
Um rasto de experiência
E desperdício.
Os verdadeiros despojos
Do exercício
De sentir-se único e vivo.

E pagai para ver!
Correi todos os riscos!
Só no limiar do azar
Abunda a sorte.
A vida inteira e única
Só se conhece nas fronteiras da morte.

jpv


2 comentários

Deus ou o Diabo

fccc1-sexy-red-dressDeus ou o Diabo

Essa cristã dicotomia.
Esse excelso apartar.
Essa terrível chaga
De por cada um no seu lugar.
Esse prémio e esse castigo,
A salvação do justo
E a condenação do iníquo.
Essa opção um dia,
Todos os dias.
Esse se
Pendendo sobre o que farias.

O meu suor na tua cama,
Outro corpo suado que me chama.
O meu corpo sobre o teu
E a sombra de outro
Desenhada no meu.
Uma visita furtiva
E um pouco de amor no regaço.
Palavras incendiadas de prazer
E outro prazer no meu espaço.
O sexo e a tentação.
As horas que passo
Em teus domínios.
E logo me chamando
Outras vozes
E outros desígnios.

Há um céu e um inferno
Um gesto brusco e outro terno.
Há um chegar e um partir.
Há uma fuga de mim
E um perseguir
O sonho de querer-te,
Ser feliz…
Rotina de paixão sem fim.

E há uma oração
Em teu corpo nu e ajoelhado
Traçando com precisão
A distância entre Deus e o Diabo.

jpv