Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Rumores de Tinta 10 – O Amor pode levar à loucura?

Rumores de Tinta revisita Orfeu e Eurídice, amores arrebatadores, loucuras, músicas envolventes e… falta de confiança e ainda se menciona Fernando Pessoa! Tudo,  em três minutos!


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Órfão

No tempo de não haver culpas e todas as palavras serem verdadeiras e limpas, quando ainda era menino, ensinaram-me o que era um menino órfão. E, fosse por que ventura fosse, nunca mais atualizei o conceito. Para mim, um órfão sempre foi um menino sem pai nem mãe. Só quando ouvi esta canção do Abrunhosa me apercebi que já não vêm à minha mesa, nem o pai, nem a mãe, e o órfão sou eu… órfão aos 53…

Não herdei nada e, contudo, os meus pais deixaram-me tudo o que tenho precisado para a vida.

Não me sinto triste por ser órfão. Sinto-me só. Abandonado. Sinto-me à deriva no mar de decisões que cada dia me traz. Nunca passa. Quando temos o nosso pai e a nossa mãe, mesmo que não os vejamos muito, mesmo que estejam longe, sabemos que existem e estão lá para nós e isso fortalece-nos e dá-nos coragem para todas as batalhas. Depois de morrerem, há um vazio que se instala e nunca deixará de o ser. Não é tristeza, nem desespero. É vazio. Sozinhês. É um sentimento do mais absoluto desamparo porque nos falta quem dizia a palavra certa, quem nos passava a mão pelo cabelo, quem representava a confiança absoluta. Só um pai ou uma mãe têm o poder de dizer algo e esse algo ser lei só porque foi dito por eles.

Há muitas mesas, já, que o meu pai não está presente. Demasiadas. E a minha mãe… é como se ainda estivesse à mesa, mas a verdade é que à mesa só já está a sua imagem, a imagem do seu sorriso. Não sei se sou menino… creio que não… mas sei que sou órfão e sei agora, e tragicamente, o que é um órfão. Um órfão é um homem a uma mesa vazia, um desamparado trágico, um sozinho deambulante pelas memórias que são só isso mesmo.

jpv


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Como?

Diz-me, meu amor…
Como é que não se faz amor contigo?
Como resistir à tentação e ao perigo
De cair em teus braços?
Como posso evitar
Teus doces afagos
E os dolentes cansaços?

Diz-me, meu amor…
Como não deslizar nas tuas linhas?
Como fugir às carícias
E impedir que tuas mãos
Se fechem nas minhas?

Diz-me, meu amor…
Como resistir às palavras
Nascidas desse sorriso que se insinua?
Diz-me, como quem me salva,
Como pode a minha pele alva
Não colar-se à tua pele nua?

E, se encontrares resposta e solução
Para que eu não caia em tentação…
Vem, meu amor, ao meu ouvido dizer
Como se não faz o que só sei fazer,
Como se vive sem se morrer…
Estando vivo.
Vem meu, amor…
Libertar meu peito cativo
E obrigá-lo a ser quem é…
Não cai, jamais…
Um homem que ama de pé.

jpv


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Divindades Intermitentes

Sempre imaginei
Qua as deusas se banhavam
Em frescas fontes
Brotando cascatas de prata.
E, contudo,
Aqui estás, no meu chuveiro,
Com esse sorriso que resgata
O homem perdido,
Enquanto a espuma desce
As curvas de teu corpo despido.

Sempre julguei
Que as deusas comiam
Sob árvores frondosas e seculares,
Em mesas postas
De iguarias e manjares
Sobre toalhas de linho branco,
Embaladas pelo chilrear dos passarinhos.
E, contudo,
Sentas-te à mesa da cozinha
E comes queijo aos pedacinhos,
Em pão fresco e café quente,
Com papaias generosas no horizonte.

Sempre pensei
Que as deusas descansavam
Em camas de marfim
E imaculados lençóis de cetim
Com o firmamento por teto.
E, contudo,
Sentas-te na nossa varanda
Saboreando a brisa e o tempo
Enquanto escrevo por perto.

Sempre imaginei
Que as deusas orientavam
Os pobres humanos
Com um suave aceno da alva mão.
E, contudo,
Deslizas na sala de aula
De palavra límpida e proferida
E envolvente explicação.

Sempre julguei
Que as deusas dormiam recostadas
Em leitos divinais
Com pajens e amas de quarto
Satisfazendo seus caprichos banais.
E, contudo,
Deitas-te exposta ao meu olhar
Bela, sensual,
E sem qualquer banalidade,
Em lençóis simples e monocromáticos
Comprados na calamidade.

Sempre pensei
Que as deusas amavam
Em leitos de luxúria
E orgias intensas e loucas.
E, contudo,
Em breves dias me ensinaste
Que são parcas e poucas
As artes das deusas
Nesse diálogo de tranquilas euforias
Que nossos corpos travam nos dias
Em que dançam juntos
A melodia do amor…

Tenho dó das deusas.

jpv


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Se…

Se soubesses, meu amor,
O quanto gosto de ti.
Se ao menos conseguisses imaginar
Todos os peixinhos que há no mar,
Nesse oceano sem fim,
E quantas estrelas há no céu…
Saberias uma centelha
Das razões por que sou teu.

jpv


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Sem Luto. Quase Luto. Em Luta!

Não consigo, mamã. Não consigo este luto impossível. Não é um luto. É uma luta de Titãs com fantasmas e remorsos. Não consigo despedir-me de ti. Não consigo aceitar a tua perda. Não desta maneira. Abrupta. Trágica. Violenta. Não há preparação possível para a morte. Eu sei. Mas, ao menos, um adeus.

Nessa manhã, escreveste-me um daqueles teus elogios em jeito de brincadeira a reavivar o nosso amor e, uma vez mais, me senti orgulhoso de ti. De como aos setenta e três anos dominavas as tecnologias e tinhas o teu espaço nas redes sociais.

A tua comunidade religiosa, a tua maior rede social, homenageou-te sentidamente, mamã. Com gestos simples, mas profundos, com palavras certeiras, com abraços, com leituras, e com o teu cântico preferido. Sabes, mamã, quando nos despedimos de ti, houve saudade e a natural tristeza de ver-te partir, mas não houve desespero. Pelo contrário. Talvez tenha sido o funeral em que senti mais esperança.

Se soubesses como me arrependo de tanta coisa. De como faria, hoje, tanta coisa diferente. E o que mais me revolta é que foi preciso morreres para perceber isso. Tinhas tanta razão. Tantas razões. Todas fluíam de ti com a naturalidade de um ribeiro que caminha para um curso maior.

A Mana está bem. Não fiques preocupada.  É capaz de fazer tudo. De enfrentar tudo. Está forte e autónoma e encontrou uma outra irmã, quase de sangue, uma irmã de dor e compaixão, que tem cuidado dela. A Mana tem dúvidas. Ninguém passa incólume de viver contigo a viver sem ti. Mas está a conseguir. Como tu querias. Talvez melhor do que poderias esperar.

E, agora, vamos lá aqui conversar sobre o mais difícil: o teu adorado e tão desejado bisneto nasceu. É um rapagão grande e lindo e saudável. Ias adorá-lo mais do que já o adoravas antes mesmo de nascer. É um milagre de vida. O teu neto e a tua neta nem sabem para onde virar-se no desvelo de cuidar dele… queria tanto que pudesses pegar-lhe ao colo. O teu colo era tão bom! Tão acolhedor!

Soube, recentemente, que, ao longo dos últimos anos, me escreveste periodicamente. Estou ansioso por beber as tuas palavras. Estou ansioso por reencontrar-me contigo nesse plano de entendimento que só a escrita permite. E temo! Temo ter ainda mais saudades. Temo que esta revolta surda cresça ainda mais. A tua morte, mamã, não pode ser uma tragédia, tem de ser uma revolução.

Naquele momento em que tudo aconteceu, sei que te assustaste e sei que sofreste e sei, contudo, que tudo foi demasiado rápido para pensares, sequer, no que estava a acontecer-te.

Mãezinha, não consigo despedir-me de ti. Não sei que merda seja essa coisa a que chamam luto! Que puta de paz nos sobrevém e dá esperança no futuro se nenhum futuro sem ti o é verdadeiramente. Tinhas tanta vida a viver, tantos projetos, tanta pujança. Não consigo perceber a violência da tua partida inesperada e não consigo largar-te da minha mão, do meu próprio colo, dos meus arrependimentos. Não deixámos nada de importante por dizer, mas ficou tanto por fazer.

Não partas já! Vem, de novo, ajeitar-me o cabelo de menino. Vem, de novo, pedir-me para regressar que, desta vez, eu regresso. Perdoa, mamã! Perdoa pelo bem que te não fiz e podia ter feito. Perdoa as minhas fraquezas e as minhas faltas. Não foram por não te amar, por não te querer bem. Foram por cobardia e outras razões que os homens encontram para justificar as suas ações e os seus erros.

E, agora, estás aqui, a encher-me o peito e a povoar-me os dias e as noites com o teu sorriso, com o teu abraço, com as tuas graças, e aquele toque que me davas no ombro quando querias que me risse contigo. E recordo, com dor e saudade, quando pedias um xiripiti depois de almoço ou quando te surpreendia na cozinha às sete da manhã com tudo arrumado e o almoço já orientado e depois preparavas o teu café e o teu pão e ficávamos ali a conversar.

O máximo que consigo, hoje, mamã, é conversar um pouco mais. Não tenho, ainda, força para despedidas, nem lutas com fantasmas, nem o que quer que seja.

Só consigo conversar contigo e pedir-te desculpa por tudo o que não fui e sonhavas que fosse. Só consigo reencontrar-me, em lágrimas de fogo, com os meus erros e as minhas falhas e o teu sorriso e a tua aceitação e a tua resiliência… hoje, não sou capaz de mais…

jpv


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Mails para a minha Irmã

Chegou a hora, Mana!

Olá, Mana.

Chegou a hora de dizer-te que te amo. Sempre amei. Sempre amarei. Chegou a hora de dizer-te que, para mim, não tens defeitos. Chegou a hora de dizer-te que, desde que nasceste, foste o meu milagre de vida, o meu segredo revelado, o sentido que faltava dar aos dias e às noites. Que amo tudo em ti. A forma apaixonada e ingénua como te entregas aos ideais, a forma genuína e desinteressada como assumes compromissos, o brio que colocas em tudo o que fazes. Não são os outros que estão certos, Mana, és tu! É o teu coração que bate compassadamente ao ritmo das coisas lindas e acertadas que os nossos pais nos ensinaram. Fui eu que nasci antes, mas és tu a mais velha, és tu o farol e é a ti que temos de seguir. És tu o exemplo do que foi feito e o guião do que falta fazer. E estas coisas são assim porque estiveste sempre mais próxima do centro desses ideais, porque nunca abdicaste deles.

O nosso amor e a nossa união não podem ter vacilações nem intermediários. Não podem ser hipotecados sob pretexto algum.

Como te amo, Mana. Como te amo. E como quero que sejas feliz e livre e autónoma e, sobretudo, como quero assistir a isso tudo. E como sei, hoje, que foste sempre tu quem esteve certo. Como compreendo, hoje, a tua luta, o teu desespero. Não te sintas perdida de novo. Não precisas desesperar de novo. Eu cheguei! Eu estou aqui! Sentes a minha mão na tua mão? Sente, Mana, sente! Não importam mais os aviões, não importam mais as distâncias, não importam mais as regras dos outros. No exato momento em que a nossa mãe morreu, eu renasci para ti. Para te segurar a mão, para te perguntar como estás e onde queres ir… renasci para me certificar de que todas as tuas passadas serão dadas na direção que tu escolheres. Vamos viver, Mana, o que temos para viver, sem cedências, nem contemplações, orientados pelo brilho dessas duas estrelinhas maiores que brilham por nós lá no alto do Céu e nos indicam o caminho que nos tinham ensinado.

Com Amor,

Mano.


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Está em Nós

Está em nós
Toda a essência
Do Amor.
Está em nós
Toda a ciência
Da alegria
E da dor.
Está em nós
A arte de colocar
A minha cabeça
No teu regaço
E essa forma
Única
De segurares
Meu braço.
Está em nós
A arte de um beijo
Despudorado,
Em público trocado.
E está em nós
Algo de eterno
E não perecível,
Tão antigo
E tão renovado…
A confiança
De estares aí,
A certeza deste encontro
Desencontrado!
E haver ainda
Tanto para amar
Depois de tanto
Já amado.

jpv


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Lá Longe

amor

Lá longe.
Lá, onde o olhar não chega,
Do outro lado do Mundo,
Há um peito
Onde habita meu coração
A bater profundo.

Lá longe.
Lá, onde os rios correm ao contrário,
Bate a descompasso
E sem horário
Um relógio de amar.

Lá longe.
Lá, onde estou, mas não chego,
Aguarda-me esse inigualável sossego
De teus braços a abraçar.

Lá longe.
Lá, nessas ruas desertas de mim,
Onde deambulam teus passos, assim
Como quem me inaugura o desejo…
Lá, onde estou e te não vejo,
Mas te amo com devoção.

Lá longe.
Lá, onde me falta o chão
E me sobra o caminho.
Lá, onde piso devagarinho
E me aproximo sem chegar
A esse apetecível altar
De rezas e súplicas imploradas.
Lá, onde está teu ser
E meu ser desejava estar
Ao cair da noite
E nas auroras anunciadas.

Lá longe…

jpv


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Viajante Clandestino

viajante

Viajante clandestino
No porão do teu olhar,
Eu sou.
Coração de menino
No peito a exultar,
Eu sou.
Amante dos gestos,
Realizados e a realizar,
Eu sou.

Não há mais palavras
Para dizer-te.
Tu és as palavras todas.
Tu és o texto,
O poema acabado e perfeito,
Tu és a pergunta e a resposta,
O predicado e o sujeito
Do viajante que levas
Escondido…
No porão do teu olhar.

jpv