Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Ressurreição

Do chão folhado
E inerte,
A flor sobe ao céu
E adverte
O espírito do falecido.
Da água estagnada
E apodrecida,
Um movimento,
Uma suspeita de vida.
E do breu silencioso
Se ergue
O astro luminoso
Do olhar.
Da palavra por dizer,
A palavra dita.
E da paisagem monótona,
A tela mais bonita.

Levantou-se e andou,
Caminhou por entre as gentes
E amou.
Fez-se homem,
Foi viver
E morrer de novo
Nos braços de uma mulher,
Na fé do Povo.
Na herança
Da coisa herdada,
Há muito de tudo
E muito pouco
De quase nada.
Mas o homem ergueu-se
E andou.
E da história anónima
E misteriosa
Pouco se sabe
Para além do que amou!

jpv


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Maré

É como uma maré,
Gigantesca e impossível,
Onde desliza, serena,
A nau invisível.
E os nautas
Encostam-se à amurada
Prenhes de si
E de mão dada.
E há dor,
E há sacrifícios,
E há homens valentes
Que se jogam ao mar.
E há ventos contrários
E procelas terríveis
E os nautas navegam
Serenos e devagar
Vendo-se, no horizonte,
Amantes e impassíveis.
E chegam fogos,
E ondas de engolir,
E estes nautas
Não sabem fugir
E desconhecem os jogos
Da palavra arremessada.
Fica só uma mão na outra
Junto d’amurada.
É como um mar,
Revolto e encapelado,
O curso da felicidade.
Quem não morra de saudade,
Quem não sofra de medo,
É como se não tivesse amado.
No fim da borrasca,
No fim da poeira no caminho
E da nau atormentada,
Fica o nauta sozinho
E os amantes n’amurada…
De mão dada.

jpv


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Heaven

Heaven is a place
In your eyes
And that’s
Where happiness lies.
You gave no reasons,
Nor said how or why.
You just took my heart
By the end of July.
A godess coming from above
To teach me
The very fine art
Of lust and love.

jpv


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Horizonte

Não há mais tempo.
Não há tempo
Nem para não haver tempo.
Nada mais restará
Após a hora
E o prazo marcado.
Um homem vive hoje e agora
O tempo condenado.
Para cada regra,
Uma rutura,
Para cada tempo,
Um tempo de atraso.
Para cada hóstia sagrada
Uma mão impura.
Mas há essa linha
Onde nasce toda a força ausente,
Enganoso destino,
Certa e verdadeira fonte.
Aí descansam os olhos do menino…
Distante e atrasado horizonte.

jpv


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Limite

No limite da palavra
E no limite do gesto.
No limite da carícia
E no limite do funesto.
No limite da tentação
E no limite da conjura.
No limite da revelação
Da atitude mais impura.
A nau naufragou
Porque tinha de naufragar,
Não há não quem navegue
Onde não haja mar.
E ficam nautas suspensos
E outros afundando.
Todos têm destino,
Seja prazeroso
Ou nefando.
Uns se erguem
E cruzam a rebentação
A poder de braços.
Outros olham o horizonte
E veem metros escassos…
No limite da coragem
E no limite da lucidez.
No limite da voragem,
A grandeza ou a pequenez.

jpv


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Servo

Pintura de Rui Tadeu, Moçambique.

A memória do corpo no corpo,
A memória da mão na mão.
A memória da palavra certa
E a memória da intenção.
Gravada foi na tua pele,
Gravada está na minha mente,
A força que nos impele,
A paixão que o peito sente.
Não quero esperar por ti
E por ti espero resiliente,
Assaltado por esse amor violento
Que sujuga a vontade da gente.
Já fui senhor, já,
E agora sirvo com submissão,
Servo das forças que trazem
Encantado meu coração…

jpv


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Manhã

Um gesto intencional
E resoluto.
Um cadáver sem vigília
Nem luto.
E a imensidão do mar.
O amor todo do Mundo
Preso num olhar.
A entrega vulnerável
Da vida
Nas tuas mãos…
Em rituais sagrados
E desejos pagãos.
Não sou eu, já.
E, contudo, nunca fui tanto eu.
Até ver a manhã doirada,
Um homem tem de palmilhar
Muita noite de breu.

jpv


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A Vela, o Barqueiro e o Leme

Quando o barqueiro treme,
De medo ou sugestão,
A água acaricia o leme
Preso em sua mão.
Inunda-lhe o peito
Uma tortura e um temor
Que o trazem sojugado
A ventanias de Amor.
Enfrenta sozinho
As ondas medonhas
E a tremenda procela.
Segura o leme com força
E acaricia as falhas na vela.
O pano enche-se da brisa
Que passa e desliza
Na fronte do homem só.
Ainda agora era carne carne viva
E resta um pouco de pó.
O barqueiro e o leme e a vela
Ensaiam uma estranha dança,
Embalados na música da morte
Traçam passos de esperança.

jpv


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“A Vida Delas Importa”

Hoje, um aluno de há muitos, muitos anos, publicou um texto que considero oportuno, incisivo e de uma grande lucidez.
O aluno, o Ricardo Rodrigues, menciona-me no seu texto. Não senti orgulho. Ou melhor, senti, mas não foi isso o mais importante.

O que realmente senti foi a responsabilidade do que é ser educador e professor. Nas outras profissões, dão-se respostas imediatas com resultados imediatamente observáveis. Na docência, nada é imediato, mas tudo é estrutural e fundamental.
Naturalmente, este antigo aluno era já, por contexto familiar e dotação pessoal, um jovem com valores e princípios muito bons, contudo, foi o professor, naquele momento, que moldou um traço do pensamento. Algo quer viria a ser importante na construção do pensamento futuro. Os professores fazem isso, moldam o pensamento e constroem a massa crítica das sociedades.

É nestas situações que se vê claramente a relevância de uma profissão muito sacrificada, muito maltratada e muito desvalorizada na nossa sociedade.

O texto do Ricardo Rodrigues vale muito a pena ser lido. Por isso mesmo deixo aqui a ligação!

jpv

Leia o texto do Ricardo aqui:
https://saudeefraternidade.blogs.sapo.pt/a-vida-delas-importa-12841


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Sapatilhas

Na dádiva
E na entrega
Uma súplica
E uma prece.
Uma mão estendida
E um cuidar
Quando tudo acontece.
Fortes e determinadas
São as passadas
Do desejo.
Vai já vencida
A tormenta.
É a luz que penetra,
A sombra que se ausenta.
E sobra um gesto,
Um encantamento,
Talvez ilusão.
Um sopro de vida,
Um grito mudo
No silêncio
E na solidão.
Toma, oferece.
Aceito, recebe.
Na generosidade
Da oferta,
O egoísmo
Da salvação.
Ergue-se,
Poderoso e invencível,
O Senhor da submissão.

jpv