Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Cores de Um Dia à Beira Índico


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Vertigem

Na vertigem da palavra indizível,
A hesitação sobrepõe-se
E estende-se o manto do silêncio.
Impossibilidade. Mudez.
Eco da dor que atormenta.
Navegação à vista
Quando a procela aumenta.
Perdido. Como louco.
Indagando a melhor opção
À falta de poder nenhuma.
Reinventei os passos.
Cresci.
E, depois,
Já navegando outros índicos mares,
Outras sossegadas águas
e outros vagares,
Então me lembrei,
Como se sempre
Fora óbvio,
Límpido e sem engano:
Bastara dizer-te
Que te amo.

jpv


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Dar e Receber


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Medo

Um dia sonhei
Que te beijaria.
Não que te tivesse
Na minha cama.
Somente que te beijaria
Os lábios.
E esse dia chegou.
Então, passei a sonhar
Que faria amor contigo.
Não que partilhasse
A minha cama todas as noites
Contigo.
Só que faríamos amor.
E esse dia chegou.
Depois sonhei
Que virias deitar-te
Na minha cama todas
As noites,
E seria o teu rosto
A minha última visão
Antes de dormir.
E esse dia chegou.

E foi então
Que comecei a sentir medo.


jpv


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Cores de África

É preciso voltar
Aos locais
Onde já estivemos.
É preciso sentir
Os odores
Que já nos marcaram.
E é preciso
Mergulhar nas cores
Que já nos embriagaram.
Um raio de luz.
Um pano suspenso.
Um mar imenso.
Portais da memória
Para viver de novo
A mesma história
Noutra história.
O hábito assassina
A novidade em cada esquina.
Mas a maravilha da primeira vez
Nunca se vai.
Continua ali,
Olhando o olhar esquecido
E habituado,
Esperando o meu sorriso
E o meu coração bater.
A maravilha da primeira vez
Adormece, mas não sabe morrer.

jpv


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Calamity Chic

Calamity Chic
By Appointment
Cláudia Videira – 855 371 528
Maputo


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SE…

De Rerum Natura
SE…

Lembro-me, imagem vívida, do teu último sorriso para mim, em pessoa. Seguravas-me as mãos. As tuas mãos eram sempre quentes e acolhedoras. Estávamos de pé, no campo de basquete junto à casa. O teu olhar iluminou-se de alegria por aquele momento a sós comigo, pela cumplicidade contida nele. Mas tinha aquela pontinha de melancolia que aperta o coração de quem se despede do amor de uma vida. E sorriste um meio sorriso que me deixava partir para as minhas aventuras e ao mesmo tempo chorava por dentro por não poder reter-me. Não foste capaz, nunca, de recriminar-me pelas minhas opções, de criticar-me pelas escolhas que nos afastavam. O máximo que conseguias era pedir-me que regressasse e tinha de ser eu a decidir se te referias a um regresso temporário, de férias, ou a um regresso definitivo para os teus braços. Eu soube sempre, mamã, que me querias junto a ti, que ansiavas o meu regresso definitivo para me acolheres no teu seio, para me preparares uma refeição deliciosa, com todos os cuidados e repleta de tudo o que eu mais gostava, para me tratares como a pessoa mais especial do Universo. Nunca me abandonaste. Fui eu que te abandonei. Que te deixei para trás. E guardo o teu último olhar para mim e o teu último sorriso para mim como os tesouros mais preciosos que a vida me deu. Quando estavas assim comigo, em cumplicidade, colocavas o pronome antes do verbo.

– Te cuida. Te amo.

– Também te amo muito mãezinha.

Se eu soubesse que exatamente quinze dias depois deixarias de estar entre nós, tinha-te segurado as mãos para nunca mais as largar.

Se…

jpv


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O Mar Reclamou

As aves em migração
Desviam-se da rota,
Perdem o Norte do voo
E desencontram o lugar.
E as flores florescem prematuras,
Coloridas de êxtase,
Ao sentir-te passar.
As nuvens buscam outros céus
E chovem as chuvas desencontradas
Dos solos férteis,
E vão beijar as areias
Escaldantes do deserto.
Hesita na passada
A mulher que deambula
E vira-se, para olhar,
O homem que passa perto.
Estas diferenças
O Mundo não notou.
Mas o mar… o mar reclamou.
Certo rio desviou-se de seu curso
Por te seguir.
Galgou rochas secas a fugir
E inaugurou rotas
Por onde passavas.
Procurava tocar-te,
Perseguia teu odor
E a luz do teu sorriso.
E a água do seu caudal
Não aportou
Na rebentação do mar salgado
Que reclamou.

E o rio reencaminhou-se.
E as mulheres e os homens
Voltaram às suas rotinas.
E as chuvas caíram de novo
Onde era suposto caírem.
E as nuvens reagruparam
Na rota certa.
E voltaram a florir e a perfumar
As flores onde se esperava que o fizessem.
E as aves retomaram seus percursos,
Os longos e os escassos,
Para que pudesses, ó mulher,
Regressar a meus braços.

jpv


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E é isto!

Com a mesma emoção de sempre. Com a mesma verdade. Que nem tudo seja novo, mas que possa tudo ser renovado! Feliz tudo e tudo e tudo!


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Ndzhaka!

Não é um cão.
Nas palavras sábias da Tina, Ndzhaka é pessoa que não fala. São 80kg de ternura, de carinho, de dedicação e de uma inquestionável lealdade. E é uma pessoa que não nasceu para falar, mas nasceu para proteger. Eu não sei como é que ele distingue quem pode entrar e quem não pode entrar no perímetro da casa, mas garanto-vos que acerta sempre. Claro que traz desvantagens. Destrói tudo o que apanha, acarta TODAS as pedras do quintal para dentro de casa, mesmo que pesem 3 ou 4 kg, e quando está deitado debaixo da mesa do pequeno almoço, se ouve um ruído suspeito, pode fazer um poderoso arranque e arrastar consigo…. todo o pequeno almoço! E claro que há os banhos de baba… Ndzhaka pode beber um ou dois litros de água cada vez que bebe e depois vem agradecer a água e a única saída são duas: ou fugimos, ou vamos diretos para o duche. Ndzhaka come 2 a 3 kg de alimento por dia e dá abraços… quando Ndzhaka dá um abraço, o melhor é termos uma parede por trás!
Fala com o olhar. Sorri. Corre porque sim. Ama chuva. Quando cai uma chuva intensa e todos se abrigam, Ndzhaka espinoteia no ar e investe contra a água de boca aberta e rebola-se no chão sob a bátega.


Ndzhaka não é um cão, é pessoa que não fala.

jpv