Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Clã do Comboio – A Grande Família

A Grande Família.
Depois de um pequeno texto que escrevi e aqui coloquei sobre uma conversa que se passou no comboio e como tenho vindo a coligir informação sobre este extraordinário manancial de vida, venho hoje trazer-vos um texto que apresenta, na generalidade, este clã. Quem são, que hábitos têm, como se comportam. Faço-o como homenagem aos passageiros diários do comboio. Não o usam para férias, nem esporadicamente para ir ao médico ou ao teatro ou à bola. Usam-no todos os dias para ir trabalhar. Importa, desde já, esclarecer de que percurso se trata. O clã de que vou falar-vos viaja todos os dias entre Entroncamento e Lisboa, seja Oriente, seja Santa Apolónia. Mais para a frente mostrar-vos-ei algumas personagens individuais. Para já, fica uma fotografia de grupo da grande família.
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Qual comboio?
Aqui começa a seriação. Quem precisa estar muito cedo na capital, apanha o das 6:18h, quem pode estar um pouco antes das 9h, usa o das 7:18h. A hora não é tão dura e continua a ser um interregional, ou seja, só faz duas paragens entre o Entroncamento e Lisboa. Também há o das 7:40h, mas esse é regional e ir no regional significa parar em todas as capelinhas e chegar muito tarde. Cheguei a experimentá-lo. Leva muita gente, é lento e chega tarde. Definitivamente, o meu clã, a minha família é a do interregional das 7:18h na linha 5.
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Onde?
Onde se espera? Onde se entra? Onde se senta? Onde se sai?
É interessante, o homem é mesmo um animal de rituais. A maioria das pessoas deste clã espera todos os dias no mesmo sítio, entra todos os dias na mesma carruagem, senta-se todos os dias na mesma zona dela e sai todos os dias no mesmo local. O comboio é longo. São nove ou dez carruagens a entrar pela estação dentro e a parar mais ou menos no mesmo local. Ao metro! O mais engraçado é que há pessoas que vão esperá-lo lá à frente, outras ficam cá atrás, outras esperam-no frente ao bar, outras frente ao quiosque, outras junto ao relógio e até as há que se sentam todos os dias no mesmo banco de espera. Há pessoas que são amigas e conversam antes do comboio chegar, algumas trabalham juntas, mas quando a grande lagarta metálica chega, separam-se porque cada um vai para a “sua” carruagem. Por exemplo, ultimamente comecei a cumprimentar um senhor porque todos os dias esperamos o comboio exactamente no mesmo sítio, de frente um para o outro, em lados opostos da linha. Lá dentro, há quem fique junto às portas, ao centro da carruagem, há os que escolhem o fundo da mesma, há os que se sentam em bancos de dois lugares e os que se sentam em bancos de três. Tudo isto seria muito menos interessante não fosse o facto de serem quase sempre os mesmos a sentarem-se na mesma zona. É como sair. Os que escolhem as portas da frente da carruagem são, geralmente, os mesmos, tal como os que escolhem as portas mais recuadas. Do mesmo modo, há pessoas que se chegam às portas muito antes do comboio parar, como as há que ficam sentadas para serem as últimas a sair. E também estes não variam. São invariavelmente os mesmos.
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Moda.
A moda do clã é, fundamentalmente, a moda do trabalho. A variedade aqui é determinada pela idade, pelo gosto pessoal, mas, sobretudo, pelo tipo de trabalho que se exerce. Nos homens, a coisa é mais formatada. Da calça de ganga ao fato e gravata, a moda varia pouco. Já a moda feminina entra e sai do comboio ao ritmo da mudança das estações, das cores que se usam, das peças que estão em voga. Curiosamente, tenho reparado que a maioria das mulheres, mesmo as que seguem a modinha, não brinca com o calçado. Vistam lá o que vestirem, em 90% dos casos optam pelo conforto, primeiro e pela estética, depois.
O meu grande destaque, em sede de moda, vai para o pessoal da bicicleta. Há passageiros que trazem uma bicicleta para o comboio e uma mochila. Quando chegam a Lisboa, não usam transportes, andam de duas rodas. A mochila leva a roupa de trabalho que vestem à chegada ao mesmo. Estes andam de fato de treino e até de calções de licra.
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Grupos.
Esta malta junta-se, normalmente, em três grupos. Os espontâneos que se formam num dia e nele se desfazem. Os que se juntam informalmente porque se sentam mais ou menos no mesmo local do comboio e os que se juntam porque trabalham no mesmo local. Em todo o caso, seja qual for o grupo, quando chegam à estação para apanhar o comboio, ou quando se sentam e se procuram com o olhar é como se estivessem verificando se está tudo bem com o universo. A crise é má? Chove muito? Há problemas sociais? Há falta de emprego? O Benfica perdeu? Nada disto importa quando aquela pessoa que não conhecemos de lado nenhum entra na “nossa” carruagem e se senta. Isso quer dizer que, afinal, o fim do mundo não foi hoje!
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Conversas.
Há dias em que não oiço música para ouvir as conversas e há uma coisa curiosíssima, ou melhor, duas. Uma é que o leque de assuntos é limitado. Outra é que ele evolui sempre da mesma forma ao longo da semana. Futebol e família são sempre no início da semana, sobretudo à segunda-feira. Depois, ao longo da semana fala-se de trabalho, de política e de saúde. De trabalho para contar pequenos episódios e dizer que vai bem ou mal. De política para dizer mal do Governo e apresentar todas as soluções para os males do país. Se eu fosse político e quisesse resolver os problemas da nação, passava a andar regularmente de comboio. De saúde para expor as maleitas próprias e, em muitos casos, as doenças esquisitas de que sofre a sogra ou um familiar distante.
Já assisti, em situações particulares, sobretudo no comboio de regresso, 17:18h ou 18.18h, a alguns grupos de homens olharem em volta, certificarem-se de que não há senhoras nas redondezas e falarem de miúdas. Nessas conversas costuma haver expressões como “avião”, “helicóptero”, “Ferrari” e “topo de gama”. Sim, estão a falar de miúdas!
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Telemóvel.
Não nos livramos desta estridência. Há dois tipos de toque no comboio. O discreto e o polifónico com um sucesso musical da época que acorda meia carruagem. Mas, o mais giro é a forma como se fala ao telefone. Neste aspecto não há “normais”. Só há dois grupos. Os que colocam a mão à frente da boca e tentam manter a conversa privada e os que gritam para o telefone como se estivessem a falar para a pessoa que está na outra ponta da carruagem. É deliciosamente embaraçoso. Embaraçoso porque ficamos todos constrangidos por ouvir o que não queríamos ou, pelo menos, não é nada connosco. Delicioso porque a malta fica a saber o que vai ser o jantar, qual é o código do cartão multibanco, em quanto é que aumentou a prestação da casa e quem é que vai buscar o puto à escola. Tudo isto salpicado com beijinhos e olás e a frase mais repetida de sempre ao telefone no comboio: “Repete lá isso outra vez, é que eu vou no comboio!”
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Leituras.
A malta lê e a malta é diversificada nas leituras. Há quem leia documentos do trabalho, há quem leia livros da mais reconhecida literatura, de Saramago a Tolstoi já vi de tudo, há quem leia revistas cor-de-rosa, estes são a maioria, há quem leia o jornal desportivo e depois há uns muito engraçados que trazem o livro, a revista ou o jornal mas nunca os lêem. É como se os trouxessem para um passeiozinho de comboio. Coisas!
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Música.
Eu não sei que música se ouve no comboio, mas sei que se ouve muita. Alguns dizem que é porque gostam de música, outros dizem que é para não ouvir o matraquear do comboio nos carris. Há três tipos de pessoas. Os que não ouvem música. Os que ouvem tapando os dois ouvidos mergulhando no mundo das melodias e aqueles que têm um olho no burro e outro no cigano em versão ouvido que é como quem diz, num ouvido levam a música e com o outro vão à espreita do que se diz. A música também tem modas em relação às formas de reprodução. Há os que trazem um computador portátil e ouvem a partir dele com auricular, há os que têm leitores de MP3 e há os modernaços que trazem a música no telemóvel e ouvem a partir daí. Também os auriculares davam uma tese. Brancos, pretos, cinzentos, metálicos, de enfiar no ouvido ou de tapar a orelha. Isso não interessa nada. Interessa é ir a curtir um som.
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Refeições.
Pois, se pensavam que a vida do clã do comboio é uma vida de barriga vazia, enganaram-se. Esta malta trata-se bem. As refeições têm, normalmente, três tipos e uma variação. Fruta, para a malta das dietas. Barras de cereais, para a malta das dietas a sério. E sandes de queijo com fiambre e alface para os alarves. A variação exige uma ginástica e um treino que não pode ser para principiantes. Vai um tipo muito bem, todo descansadinho, e há uma senhora, são sempre as senhoras, que abre a sua mala e de lá consegue tirar um iogurte, um pacote de açúcar, uma colher, um guardanapo e um saquinho de plástico. Eu sei, ela só tem duas mãos! Mas a verdade é que, com o comboio em movimento, abre o iogurte, desfaz-se da tampa, põe o açúcar, mistura, morfa-o, limpa-se ao guardanapo e coloca os despojos no saquinho de plástico. E, claro, volta tudo para a mala. Tudo, menos o conteúdo do iogurte!
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Conclusão.
A palavra que emerge de toda esta vida e de todos estes rituais é democraticidade. Aqui somos todos abençoadamente iguais. Pessoas à procura de um banco para irem confortáveis até ao trabalho. Eu gosto desta gente porque é gente de trabalho, porque faz uma viagem cansativa para ir trabalhar e outra para poder regressar e porque incorpora nos seus hábitos o facto de ter de fazer a deslocação partilhando o espaço e o ar que se respira. Este texto foi escrito com o comboio em movimento ao lado de uma pessoa que é exemplo de um outro grupo, um grupo que deixei para o fim de propósito, são aqueles que continuam aqui o que estavam fazendo na cama. Dormem que nem uns justos e não acordariam nem que viesse o comboio. Ainda assim, chegada a sua estação, abrem um olho, confirmam que acordaram no sítio certo e lá vão eles à vidinha. Olha, este que estava aqui ao meu lado a ressonar, já lá vai. Bom trabalho, amigo!


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Correntes

“Às vezes, as correntes que nos impedem de sermos livres são mais mentais do que físicas.”

Anónimo


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Citação lírica

“Avidement toute ma peau
réclame
la caresse,
la chaleur,
la vigueur,
la douceur de l’eau,
sa purification même…”

TR


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De Negro Vestida – XLVIII

De Negro Vestida – XII

O ríspido e a agressividade latente das palavras manteve-se:
Então as pessoas que carregam os caixões e enterram os mortos não são os cangalheiros?
Uma menina com a sua formação e a sua vivência já deveria ter aprendido que não se chamam caixões, mas urnas, que não se enterram os mortos, mas se sepultam e que quem tem a difícil tarefa de o fazer são profissionais com experiência ou habilitação e, em muitos casos, com experiência e habilitação, que dão pelo nome de… deixe lá isso, fica como trabalho de casa, será a forma de retratar-se da sua indelicadeza. Perdoe-me Alberto.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Pensamento por causa de um cão

Um dia destes, na minha hora de almoço, caminhava junto ao rio onde há uma imensa zona pedonal e fui surpreendido por um rapaz que atirou um skate para o chão, saltou para cima dele e, de imediato, começou a rolar a boa e estável velocidade porque numa das mãos tinha uma trela que um cão rafeiro começou a puxar como se o futuro do universo dependesse disso.
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Quem me conhece, sabe que gosto muito de animais, em particular mamíferos. Os cães têm esta particularidade de darem tudo por nada ou só pelo gozo da coisa. De serem felizes com a felicidade dos outros. De viverem para realizar os desejos de quem os rodeia e serem felizes com isso.
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Este é um estágio do desenvolvimento a que nós, humanos, ditos os mais desenvolvidos, nem sempre chegamos.


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Citação

“Escreve o mundo enquanto ele gira!”
JP


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De Negro Vestida – XLVII

 

De Negro Vestida – XI

Maria de Lurdes não gostou dele. Reparou de imediato que estava perante um homem abjecto, sem modos nem maneiras, deseducado nos gestos e nas palavras, arrogante e, sobretudo, palavroso. Nem tão pouco lhe passou despercebido o seu carácter lascivo. Há coisas que se pressentem no primeiro contacto e quando José dos Santos Silva entrou na agência funerária, logo seguido do filho, Maria de Lurdes percebeu que o olhar do velho desafiava todos os limites.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Obrigado, mamã!

Bom dia mamã!

Lembras-te de quando eu era pequenino e te pedi para não ir à tropa porque tinha medo? Lembras-te de quando era pequenino e fiquei doente e não deixei que ninguém me tratasse antes de tu chegares?

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As razões porque a criança que veio a ser homem fez o que fez, sentiu o que sentiu e viu em ti a exclusividade da sua salvação ainda existem. Não interessam os cargos, nem a idade, nem as responsabilidades. Dentro de mim ainda habita a criança que te ama e te trata por mamã!
E é essa criança e o homem com ela que vem hoje dar-te os parabéns. Mas não são uns parabéns quaisquer. São de reconhecimento, são de amor.
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Sabes, mamã, tu como todas as outras pessoas, hás-de ter teus defeitos e hás-de ter cometido tuas faltas enquanto nos criaste e educaste, mas uma coisa foi miraculosamente constante em ti: o teu incondicional amor por nós! E foi esse amor que aprendemos e é esse amor que andamos distribuindo no mundo.
Obrigado, mamã! E parabéns!
Filhote


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“Qualquer pessoa que eu seja amanhã, amará quem tu és”
Anónimo


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Intempérie

Intempérie

Nos dias de chuva intensa,
Nas manhãs cristalinas de sol,
Junto ao mar bravio,
Em tardes quentes
E em dias dias frio.
Na montanha ventosa
Ou na planura serena,
À luz da prenhe lua
Ou no breu da noite fechada,
Há uma intempérie no meu peito
Que nasceu na tua alvorada.

jpv