Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Parabéns a Você!

Se vires bem, contam-se os anos vividos de acordo com a lógica das voltas que a terra dá em torno do sol e sobre si mesma e, se quisermos ser honestos, os anos de vida tanto se poderiam contar assim como de outra forma qualquer e, nesse caso, talvez até nem se chamassem anos. Imagina, seria possível que um dia fosse um ano, como seria possível que dez anos fossem um ano. De resto, as pessoas raramente contam a sua vida pelo anos. Raramente dizem, “Isso foi quando eu tinha 34 anos…” Normalmente dizem “Isso foi no ano em que mudámos de casa”, “Isso foi no ano que o nosso filho nasceu”, “Isso foi quando comprámos o carro”, “Isso foi quando fizemos aquela viagem à Grécia”, “Isso foi quando o Faísca veio cá para casa”, “Isso foi quando o miúdo entrou para a escola”, “Isso foi quando o meu pai morreu”, “Isso foi …”
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E isto é importante. Importante porque não interessa nada quantos anos foram. Os anos de fora não têm nenhuma, mas mesmo nenhuma importância. O que tem importância são os marcos. E hoje que fazes os anos que fazes, venho dar-te os PARABÉNS, não pelos anos, mas pelos marcos e por um outro assinalável marco: é que na minha vida, assim como na tua, já há mais marcos em conjunto do que dos outros e, curiosamente, todos aqueles que escrevi ali em cima, à laia de exemplo, já nos aconteceram. Não faças anos. Colecciona marcos e ao coleccioná-los constroi uma história de vida.
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Todos te reconhecem a generosidade, a lealdade e o amor que pões nas coisas. Eu sou o tipo que tem tido a sorte de conviver com elas!
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Muitos Parabéns, sempre.

João Paulo


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O Clã do Comboio – Onde é que ela mete aquilo tudo?

Só por doença, meu Deus, só por doença.
Era uma ave de arribação, ou seja, não tinha passe. Passageira pontual, muito provavelmente de ir ao médico. Fica desde já esclarecido que não vou gozar com a pessoa. Longe de mim. Só escrevo sobre ela porque me impressionou. Um destes dias, sentou-se à minha frente uma senhora pequenina, tão pequenina que, sentada no banco do comboio, mal chegava com os pés ao chão. Ao lado dela, a filha tomou também seu lugar. A senhora tinha o olhar meio revirado. Coloquei a música nos ouvidos e pensei: “Sem história”. Enganei-me.
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Passados uns minutos, ainda o cheiro a Entroncamento devia ocupar o ar, ela começou a comer. Pacotes de açúcar. Não contei porque não estava à espera do que iria seguir-se mas, pelo baixo, engavetou aí uns dez! Ao mesmo tempo foi bebendo água. Quando pensei que a senhora tinha reposto os níveis de açúcar e tinha dado por terminada a “refeição”, atacou uma sandes de queijo que parecia maior do que as suas mãos conseguiam abarcar. Pronto, é de muito alimento, pensei. Só não sabia que ela ainda não ia a meio. Que me lembre e tentando repeitar a sequência, a senhora pequenina que bebia muita água ainda conseguiu engolir mais meia dúzia de pacotes de açúcar, um iogurte líquido, outra sandes XL e um saquinho de plástico cheio de rebuçados, caramelos e chocolates.
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Não sei, sinceramente, não sei como é que uma pessoa que não chega com os pés ao chão no banco do comboio consegue enfiar tanta coisa goela abaixo. Logo pela manhã! Quando chegámos, a filha perguntou-lhe, Queres mais alguma coisa?
E eu pensei, Mas onde é que ela mete aquilo tudo?


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O Clã do Comboio – O Treinador

Eu acho que o fenómeno José Mourinho é interessante no sentido de que vai para além do futebol e contagia as grandes massas. Ora, sendo o comboio o manancial de vida que é, não podia, de maneira nenhuma, ficar imune a esse facto. Ainda não se joga à bola no interregional das 7:18h mas já se operam transferências de treinadores e jogadores.
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O treinador é um tipo novo, nos seus trinta, moreno, alto e, pela expressão e pelas palavras que dela saem, diria que é um gozão ou, no mínimo, um tipo bem disposto.
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A revelação deu-se ao telefone. Íamos todos em silêncio, ouviu-se uma estridência polifónica, ele atendeu e, quando menos se esperava, ali mesmo fez a sua transferência de clube, pôs o interlocutor a par da situação profissional dos outros treinadores da região, descreveu o seu próprio perfil de treinador, sinalizou os miúdos que mais lhe interessavam para certas posições e quando desligou o telefone, o panorama regional do futebol juvenil estava completamente alterado. Ou seja, o interregional das 7:18h também é um centro de decisão. É no que dá termos cá o Mourinho dos comboios!


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O Clã do Comboio – A Rapariga que Veste um Sorriso

Tal como todos os outros, é uma pessoa de hábitos. Normalmente veste calças de ganga de cós baixo e um cinto preto ou castanho, largo, encima essas mesmas calças. É larga de ancas e volumosa mas está longe da obesidade. Traz sempre uns óculos escuros daqueles que ocupam a face toda e quando entra no interregional das 7:18h tira-os e deixa transparecer o olhar meigo e tranquilo dos seus olhos cor de amêndoa. Normalmente veste casacos cintados. O cabelo castanho cai-lhe por cima dos ombros e completa o quadro de uma moça jovem vestida de forma prática mas elegante para cada dia de trabalho. A vestir daquela forma deve haver umas dezenas no comboio pelo que não foi essa a razão por que me detive nela.
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A razão é simples.
É daquelas pessoas que acorda sempre feliz e sorridente e difunde essa luz e essa alegria à sua volta. Pela manhã, o clã tem a tendência para ir sossegado e quieto, excepto a rapariga que veste um sorriso. Cumprimenta quem se senta ao seu lado, fala com as pessoas, brinca com as crianças e, mais do que tudo, sorri.
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Ela é das pessoas que se senta ao fundo da carruagem. Eu, ao meio. Já equacionei um dia destes ir ao fundo para vê-la sorrir mais de perto, mas, sabem como é, ando a ficar como o clã, um tipo de rituais e faz-me falta a companhia dos meus desconhecidos. Há, contudo, esta marca matinal da rapariga que veste um sorriso. Vê-la é como se fosse uma mensagem de esperança para o dia a viver. E isso é precioso. Espero, sinceramente, que continue a viajar na “minha” carruagem. É que assim até os dias de chuva brilham um bocadinho.


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Conversa de surdos ou isso!

Esta conversa aconteceu mesmo e garanto que os intervenientes na dita perceberam tudinho. A nossa língua é uma maravilha. Não é preciso dizer muito para dizer tudo. Ora vejamos:
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– Então, tudo bem?
– Tudo bem.
– Já me viu isso?
– Eh pá ainda não vi isso.
– Eh pá não me diga que ainda não me viu isso?
– Eh pá não tive tempo de lhe ver isso.
– Olhe que estou preocupado com isso.
– Eu sei, eu também ando preocupado com isso.
– Eh pá, veja-me isso.
– ‘Tá bem, eu vejo-lhe isso.


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Auto-Citação

“Ler-te sobre mim é como ver-me ao espelho da alma!”
JP


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De Negro Vestida – XLIX

 

De Negro Vestida – XIII

Caro leitor, se chegou até aqui pare ou salte para o próximo capítulo. O que vai escrever-se a seguir não deveria ser escrito. O que está prestes a ler, não deveria ser lido.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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O Clã do Comboio – Lezíria com Bruma e Antena ao Fundo

O interregional das 7:18h não é só virtudes. Às vezes pára. Pára e fica parado e não avisa quando vai retomar sua ruidosa rota. Os motivos são vários. Para passar outro comboio, para não se cruzar com outro comboio, por razões técnicas de diversa ordem, porque se apaga todo, vai abaixo e depois é o cabo dos trabalhos para retomar a marcha, e ainda por um outro e interessante motivo: pára sem sabermos o motivo!
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Por vezes pára ali um pouco antes de Vila Franca de Xira e eu não me importo muito. Vê-se a lezíria, a bruma matinal sobre ela, o sol espelhando-se no rio langoroso e, ao fundo, uma antena. Nunca soube porque é que pára ali, nem tenho grande interesse em saber. Já tinha reparado na beleza da paisagem com a antena fina, esguia e altíssima emergindo da bruma. Era bonito. Mas era uma paisagem sem história.
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Hoje ganhou vida.
O homem tinha, seguramente, mais de 60 anos. Forte. Com a barriga redonda e grande a denunciar petiscos bem comidos e melhor regados. A pele estava marcada pelo tempo e pelo trabalho e ele apoiava-se na bengala preta com a ponta de borracha e o cabo em forma de tê. De frente para ele sentou-se a esposa. Era a ruralidade em pessoa num banco de comboio. Não falavam. Nunca falaram ao longo da viagem excepto quando parámos junto à paisagem da lezíria com bruma e antena ao fundo. Ele olhou pela janela e tomou-lhe conta da face certa expressão saudosa de Não era bom mas quem dera lá voltar e ficou olhando, tamborilando os dedos no cabo da bengala e quando terminou de saciar a vista, disse num tom tranquilo de quem constata um facto e tem a missão cumprida:
– Quando foi o 25 de Abril, passei uma noite ao relento de guarda àquela antena.
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As coisas que herdamos e nem damos conta! O sofrimento que foi preciso sofrer para aqui chegarmos. A vida que as coisas têm ou adquirem. Naquele momento, para além do respeito que me conquistou, aquele senhor de aspecto humilde e gasto alterou para sempre a minha percepção da lezíria com bruma e antena ao fundo um pouquinho antes de Vila Franca.


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Histórias do Autocarro 28 – O Maluco

O Maluco

É jovem. Tem menos de 40 anos. É baixo, atarracado e forte. A proeminência que traz à sua frente e a que chama barriga quando lhe dá uma palmada a atestar que está cheia indica bons tratos e más escolhas. Veste um fato-de-treino azul com duas riscas brancas e nada disto faz dele maluco. Nem a forma como se movimenta porque anda pelo autocarro 28, da Portela para o Restelo ou ao contrário, como qualquer um de nós, os outros todos. Não fui eu que o baptizei de maluco do autocarro. A primeira vez que o vi estava eu a meio da viatura e, ainda ele entrava à porta, quando um passageiro ao meu lado disse em tom de desabafo:
– Lá vem o maluco do autocarro!
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O problema dele é quando abre a boca. Acontece que foi precisamente por ter aberto a boca que resolvi escrever este texto. O maluco do autocarro diz palavras impronunciáveis, interrompe as frases, volta ao início, salta para outras ideias sem acabar as primeiras, enfim, o caos discursivo total. A juntar a isto, mistura vocabulário regular com vocabulário erudito e rebuscado sem que as frases façam sentido e, para cúmulo, introduz obscenidades no discurso como se estivesse dizendo umas palavras como outras quaisquer. E até talvez sejam.

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Acontece que, no meio de um discurso imperceptível, faz parágrafos de perfeito inglês e quando digo perfeito, refiro-me à correcção vocabular e à estrutura frásica. Do mesmo modo, consegue também umas frases em português ou mistas, português e inglês, onde, no meio do caos, dos palavrões, da ausência de significados coerentes, produz um parágrafo correcto, uma ideia acertada. Ora, é uma dessas que aqui me traz hoje. É que não foi só um parágrafo acertado. Foi uma síntese de um complexo problema educacional que vivemos na sociedade moderna. O maluco do autocarro condensou num só parágrafo o que teses inteiras na área das ciências da educação ainda não conseguiram discernir.
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Ia no 28 um grupo de jovens entre os 15 e os 17 anos. Alguns beijavam-se afanosamente querendo gastar os beijos todos que vinham com o bilhete do autocarro, outros diziam parvoíces propositadamente audíveis em toda a viatura e, no conjunto, faziam aquele alarido próprio da idade da acne. O maluco do autocarro contemplou-os, tirou-lhes as medidas, fez-lhes a raiz quadrada e, depois de uma série de frases palavrosas e imperceptíveis, disse:
– Sabem qual é o problema da juventude? O problema deles é que só querem computers mas depois não sabem fritar um ovo! Teoria? A teoria tenho-a eu toda, home, o que é preciso é a prática, é quem saiba fazer. ‘Tá tudo f…

–
E pronto. Engavetei. Levei para casa e se um dia vier a fazer uma tese de doutoramento em Ciências da Educação, fica aqui prometido que arranjo maneira de citar o maluco do autocarro. Excepto a parte do f…, claro!

jpv


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Perguntas

Perguntas

Para as perguntas que me fizeste
Encontras a resposta em ti
E é por isso que não percebo
Porque mas fizeste a mim.

jpv