Crónicas de Maledicência – O Patrocinador de Platini
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Rescaldo
Alada
Alada
Na clássica e sugestiva pose
Em que o corpo se estende
Na chaise longue
Assim como se nos chamasse,
Tu te entregavas ao sono.
A cabeça recostada,
Uma perna sobre a outra deitada,
Ao abandono.
Curvilínea e sensual,
A nádega.
A face, gentil.
O olhar, perdido
E sonolento
Como se não percebesses o momento.
A juventude alva
Da perna estendida
A desafiar os perigos
Da vida.
Da tua,
Que minha não navega, já, esses rios.
São maiores os frios
Da alma
Que as excitações.
Para mim, és só um quadro
A despertar emoções.
Um desvario contido.
Um louco amor imaginado
Para não ser vivido.
Lembras-me a escultura
Da donzela recostada.
És mais donzela
Do que ela,
Tua libido não foi inaugurada,
Ou não te recostavas assim,
Oferecendo-me, a mim,
E à minha pobre vista gasta,
A emoção estendida
E vasta
De teu corpo
Usando dois bancos
Na carruagem
Onde fizemos esta viagem.
A tua, semi-nua,
corpórea e adormecida.
A minha, mais alada,
Etérea e imaginada.
jpv
Despertar a Noite
Despertar a Noite
São lisos, os cabelos
E fartas, as sobrancelhas.
São finos, os lábios
E contidos, os seios.
É elegante, a pose
E generosa, a nádega.
São longas, as pernas,
E evocativas, as sandálias.
Estão fechadas, as mãos
E cerrados, os olhos.
São curtos, os calções
E fortes, as emoções.
Que despertam.
Que acordam.
Que inauguram o coração e a vida.
Assim vais,
Recostada e estendida,
Em pose sensual.
E meu coração, a bater bem e…
A passar mal.
Ah, doce despertar!
Lá fora
Desponta a aurora.
Cá dentro
Vence o luar.
Da minha noite.
jpv
Força Portugal!
O Clã do Comboio – Terra de Ninguém

Terra de Ninguém
Fim de tarde. Viagem animada.
Com a Rapariga do Brinco de Pérola, a Senhora da Revista de Culinária, a Senhora das Caralhotas e o Escritor. A discussão começou com aquela história do bispo argentino que foi fotografado a banhos com uma amiga de infância que afinal era uma amante da meia-idade. Pormenores. O Escritor mais cauteloso e conservador nos juízos, a Senhora da Revista de Culinária, mais resoluta na mudança, apostava na liberalização da instituição do matrimónio e seu alargamento ao guias espirituais. Vai daí, começou-se interessante debate sobre o sentido do celibato, a vocação, a concentração na família espiritual, sem distrações nem perturbações, as perturbações diversas, como sejam, a participação regular em programas de televisão, concertos, eventos, etc e tal e tudo o que não vinha no jornal.
Íamos nesta elevação discursiva quando, em Azambuja, entra a Senhora das Caralhotas e deu uma volta à conversa como só ela sabe. Acabámos a falar da feira da Azambuja e dum tipo em quem ela quis bater nessa feira. Claro que abriu o livro da vida privada de certo padre que ela conhece e sua tendência para participar em eventos pagãos, contar anedotas picantes e, eventualmente, e provavelmente falsa, a sua tendência para chegar tardiamente à Casa do Senhor depois de demorados e fortuitos encontros com as Madalenas deste mundo.

E foi então que chegámos à Terra de Ninguém. Ali entre Mato de Miranda e Riachos, onde eu saio, a senhora do altifalante anunciou Riachos. O comboio parou e a CP deu mais uma demonstração de como, em pleno século XXI, era das tecnologias e do controlo das nossas vidas ao segundo, a empresa continua a controlar muito pouco e, tirando a simpatia dos seus revisores, a dar mostras de um serviço de qualidade sofrível e questionável. Parou. Olhei pela janela. E a estação que vi foi aquela que a imagem documenta. A Terra de Ninguém. Ninguém entrou. Ninguém saiu. Ninguém estava lá. Nada estava lá, a não ser o caniçal e o mato e o arvoredo ao fundo. E ali ficámos, até que a mesma voz que anunciara Riachos ecoou de novo para dizer que, devido a uma avaria nas linhas, estávamos atrasados. Pois… era óbvio. Devíamos estar a andar. Estávamos parados. O atraso é a consequência natural, física e cronológica expectável.
Volvidos uns minutos, arrancou. Levou-nos a nós e ao atraso. E agora fica-me a curiosidade de verificar se nas próximas viagens paramos entre Mato de Miranda e Riachos nessa bela localidade que a CP serve: a Terra de Ninguém
jpv
Haicai – Autobiografia
Vendo o meu Land Rover Defender
Necessidades e Estados de Alma
Porque há imagens que não precisam de palavras.
Encarnado
Encarnado
Não eram cerejas
Escarlate,
Nem morangos
Carmim.
Eram uma provocação
Que me deixou assim:
A olhar-te.
Nesse sangue
Encarnado
E vivo
De desejo,
Nesse tom desenhado
A marcar-te a presença.
Para ti, só unhas.
Para mim, uma sentença!
Entras, simpática e gentil,
Saúdas a manhã,
E fico com este ar frustrado,
Servo e escravo
De teu incandescente
Encarnado!
jpv


























