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Inovação Tecnológica
Afinal, Havia um Coelho Escondido na Cartola Grega
Motorcycle Chronicles – Harley’s Yard

Harley’s Yard
Esta história é sobre a democracia. Não o conceito. Nem será uma história acerca dos sistemas de governação. Será, só, sobre a democracia em exercício que mais não é do que a humanidade que nos atravessa a todos.
James Major Philips, também conhecido por Jimmy Philips e, ainda, em circunstâncias que apreciaremos mais adiante, por Snake, é um homem que está para além de rico. É poderoso. Quer isto dizer que a sua fortuna já não se mede pela quantia de dinheiro que conseguiu juntar, mas pela quantidade que consegue fazer circular com um telefonema, uma reunião, um negócio, uma fusão. Acorda cedo, veste um fato de seda, faz o nó da gravata, toma um pequeno-almoço frugal, beija a mulher nos lábios e sai para o trabalho. O senhor Philips não tem filhos. Precisa, mas não tem. Um dia tratará desse assunto. Ainda na limusina, atende telefonemas, faz telefonemas, consulta sites na Internet sobre finança e alguns jornais, vende uma fábrica, coloca não se sabe quantas famílias na miséria, mas abre outra e dá emprego a uns milhares de almas perdidas na geografia das nossas passadas. Na sala oval do grupo de empresas, reúne o Conselho de Administração e quando abre o período de votações, após aceso debate, o senhor Philips já sabe o que vai acontecer. Já sabe quem vai votar o quê e como. Sabe, mesmo, quem vai reclamar e deixar-se convencer.
Dois domingos em cada mês, Jimmy Philips transfigura-se. Deixa cair as roupas de seda, veste gangas e cabedais, calça botas da tropa, coloca uns anéis largos, um brinco numa orelha, um lenço, um capacete e sai, sozinho, numa das motos mais caras e rápidas que o dinheiro pode comprar. Vai para a autoestrada e dá tudo o que tem para dar, a velocidade de cruzeiro são os 200km/h. Daí em diante começa a verdadeira aventura. A que envolve risco. Mas faz mais do que isso. Sai da autoestrada e na nacional aproxima-se dos camiões a 150 km/h., faz duas reduções, retoma a aceleração e ultrapassa-os com o cabedal do blusão a rasar a estrutura do camião. Por vezes, faz a ultrapassagem com um carro ou outro camião de frente, sente a adrenalina a subir e passa entre os dois. Completada a manobra olha para trás como que a ver onde poderia ter ficado a sua vida. Quando chega a um bar sombrio chamado Harley’s Yard, tira o blusão e fica com uma camisola preta colada ao corpo, pede uma caneca de cerveja e ao arregaçar as mangas para beber mais à vontade, exibe uma tatuagem fabulosa de uma serpente cuspindo fogo no seu braço. É por essa razão que, nesse meio, o conhecem por Snake. Ninguém desconfia, sequer, que há um Jimmy Philips. Snake fala alto, não é contido, dá palmadas nas costas dos outros motards, joga snooker e três vezes por ano participa em concentrações motards dormindo no chão de tendas mal fechadas ouvindo heavy metal, e assistindo aos tão famosos quanto desejados concursos de Miss T-Shirt Molhada. Nem Jimmy pertence ao mundo de Snake, nem Snake sobreviveria a uma reunião com o Conselho de Administração. Acontece que vida nenhuma, porque essa é a condição da própria vida, é completamente estanque. Não podemos calcular a amplitude das nossas ações e não podemos saber sempre com quem nos vamos cruzar. Snake é discreto, mas não se esconde. Limita-se a evitar que o relacionem com o senhor Philips.
Há vários anos, contudo, que entre Jimmy Philips e Snake existe um ponto de ligação. Chama-se Edward e limpa as janelas do edifício onde o senhor Philips preside ao Conselho de Administração. Edward é um rapaz de pele escura, esguio e trabalhador. Vive para a moto. Tem uma boa moto. Fruto de anos de poupanças e costuma rolar ao fim-de-semana na zona do Harley’s Yard. Já mais do que uma vez identificara o patrão em aventuras arriscadas de alta velocidade. Tem um fascínio de morte pela moto dele. Numa segunda-feira, quando o senhor Philips entrou no seu gabinete no 33º andar, Edward ainda estava por ali. Ia a sair. Olhou-o nos olhos e disse, Olá! O senhor Philips não lhe respondeu, deixou-o o sair e depois mandou-o chamar, fechou-se com ele no escritório e, considerando-o um perigo para o seu anonimato de riscos, decidiu mantê-lo por perto para melhor o controlar:
– Tu não me diriges a palavra, percebeste? Nunca! Tu não me conheces e não sabes nada de mim. A pessoa que eu sou lá fora não tem nada a ver com o homem cá dentro. Sabes o que me custa pôr-te na rua? Nada! Um telefonema e já eras. Se queres manter o teu miserável emprego, não me conheces!
Edward não respondeu. Não havia nada a fazer. Só acatar. Quando o encontrava na estrada, mantinha-se ao lado dele. A sua forma de mostrar-lhe lealdade, de retribuir-lhe o emprego, era estar atento aos seus movimentos. Quem sabe o que poderia acontecer?
O que poderia acontecer, aconteceu. A adrenalina torna-se viciante e o risco, a sensação de desafiar a morte, cola-se a nós como uma segunda pele. Iam cinco, colados uns aos outros, revezando-se na frente. Snake é o segundo da fila neste momento, Edward o terceiro. Deslizam numa reta da nacional a 180km/h., pretendem passar os cinco por um carro pesado antes da curva à direita que acompanha a ravina, solta-se uma peça da moto da frente, atinge Snake no peito, este desequilibra-se quando já ia tombado para a direita a entrar na curva, com o camião há muito para trás de si, cai e desliza com o cabedal pelo chão por mais de 50 metros, sai da estrada e encaminha-se para o precipício. Edward conseguiu ficar na moto, equilibrou-se, reduziu bruscamente, travou, acelerou de novo e ultrapassou o corpo de Snake pela sua direita enquanto este deslizava. Edward atira a moto para a frente, projeta-se para o chão e desliza sobre a sua barriga. Junto ao precipício, estanca o próprio corpo com os pés numas rochas e quando o corpo inanimado de Snake se aproxima, ele impede a queda fatal e segura-o, as rochas cedem, Edward escorrega mas não chega a cair, está preso ao corpo de Snake. Ficou com um braço preso debaixo dele e sangra abundantemente. A fivela do cinto de Snake golpeou-o fundo. Outros motards vieram em socorro. Edward evitou que chamassem ajuda médica, alegou que estava tudo bem, tinha sido maior o susto, era apenas um arranhão. Quando Snake acordou, perguntou-lhe se queria ir ao hospital, ele disse que não. Foram para o Harley’s Yard e beberam uns Jack Daniels. Snake sentou-se num velho sofá de pele a um canto sombrio do bar enquanto lhe contavam o que tinha acontecido e faziam uma ligadura no braço de Edward, Isto devia ser cosido, pá. Nem penses! No meio dos relatos e das opiniões diversas sobre o sucedido, alguém disse uma frase que Snake não poderia esquecer nunca, vestisse a roupa que vestisse:
– Deves-lhe a vida, meu!
Os anos foram passando, os passeios de moto a cada dois domingos mantiveram-se regulares, a presença de Snake nas concentrações continuou a ser testemunhada pelos companheiros de risco. Do incidente ficou só uma leve memória por vezes invocada à volta de uma mesa cheia de canecas vazias. Edward cobriu a cicatriz no braço com roupas. Essa, seria a sua recordação íntima dos acontecimentos. Nunca mencionou o episódio, nem com os companheiros do Harley’s Yard, nem, muito menos, no local de trabalho.
A crise financeira assola o país, as manifestações, os protestos e as greves multiplicam-se. As falências são muitas em todos os setores. Os industriais e os comerciantes veem-se forçados a cortar nas despesas, há fusões, lay-off, despedimentos em massa e a razão invocada é quase sempre a mesma. Extinção do posto de trabalho. O senhor Philips enfrenta uma onda de protestos. Prepara-se para encerrar e vender a capital nipónico uma unidade de montagem de veículos automóveis que será desmantelada e reativada noutro país. Os jornais especulam acerca dos motivos e do processo uma vez que a unidade sempre apresentara lucros. O senhor Philips recebeu diversas propostas para que o negócio não se realizasse. Nunca aceitou. Exerceram-se pressões e influências políticas e financeiras para que travasse o processo. Nunca cedeu. Havia quem contasse, sem jurar, que ele dissera no final de uma reunião do Conselho de Administração que quando uma venda envolvia tantos zeros à direita, havia que ser pragmático.
O dia amanheceu chuvoso. Não uma chuva aberta e forte, mas aquela água pequenina e certeira que nos vai empapando com o tempo. Philips está na sala oval sozinho. Lá fora, milhares de trabalhadores perfilam-se à porta do edifício com cartazes na mão e palavras de ordem. Quase toda a família de Edward está ali. O pai, a mãe, o irmão mais velho. Só a irmã mais nova trabalha noutro local. Quis vir por solidariedade, mas resolveu não faltar. É muita, a pressão. Philips pediu mais uns momentos sozinho. Por vezes fazia isto, entregava-se aos seus pensamentos e à estratégia para a reunião. Era uma forma de encontrar-se consigo e com os seus objetivos. Nesse dia Edward entrou na sala, não disse uma palavra, foi limpando. O senhor Philips viu-o, esteve quase para o mandar sair, mas conteve-se. Quando estava já perto do senhor Philips, Edward levantou os braços para limpar mais alto, as mangas descaíram um pouco para trás deixando a cicatriz visível. Edward olhou-a. Depois olhou o senhor Philips. No seu olhar não havia um pedido de clemência, não havia um pedido de um favor, pelo contrário, emanava certa altivez, algo que parecia dizer-lhe, É a tua vez!
As negociações duraram três dias. Quando o quarto dia amanheceu, os jornais anunciavam que o grupo empresarial de Philips mantinha a linha de montagem automóvel em funcionamento. Falavam também de incentivos fiscais concedidos pelo Governo da Nação. Nem Snake, nem Edward chegaram a ver o jornal. Saíram para a rua antes dos primeiros raios de sol. Circulam lado a lado na autoestrada a 220km/h., uma patrulha da polícia aproxima-se de carro, liga as sirenes e as luzes intermitentes, os dois homens olham-se nos olhos através dos capacetes, sorriem, mantêm-se lado a lado, aceleram a fundo e desaparecem no horizonte.
jpv
Motorcycle Chronicles – The Flight

The Flight
Dizem que, quando morremos, deixamos cá tudo, dizem que a morte é o fim de todas as coisas e há também quem diga que há vida para além da morte. Esta história não vai dizer nada disso. Vai dizer, só, que há casos em que a vida e a morte são um contínuo. Uma só e a mesma coisa.
Cartwright desliza a uma velocidade considerável na sua moto de alta potência. Vai engolindo o asfalto da serra propositadamente sem capacete. Agarrada a ele, fazendo no seu tronco toda a força que consegue com o anel dos seus braços, Judy sorve o ar fresco da manhã e cai-lhe uma lágrima porque também não usa capacete. Quando Cartwright chega ao miradouro, no cimo da serra, faz duas reduções com a caixa de velocidades, sai para o terreiro que serve de escapatória, é terra batida, trava, faz meio peão e quando estaca a moto está paralelo ao precipício de uma ravina com mais de 200 metros de altura. Ao lado deles um verde de cortar a respiração e um silêncio cheio de paz e promessas. Ficam uns momentos abraçados sem dizer uma palavra e completamente imóveis contemplando o esplendor da paisagem até que ela diz, Adoro a subida contigo, sabe-me a vida, adoro esta paisagem contigo, sabe-me a vida. Cartwright vira-se, fica sentado na moto de costas para o guiador, de frente para ela e diz-lhe, Adoro a vida contigo. E beijam-se longamente, profundamente, até se sentirem saciados. Depois, Cartwright volta a ligar a moto e descem tranquilamente. Agora já não lhes interessa a adrenalina da subida e do risco. Só o prazer de estarem juntos a deslizar pela consciência da partilha.
Richie Cartwright herdou do pai o gosto por motos de alta velocidade e mulheres generosas de formas. Desde pequeno que sabe conduzi-las, às motos, repará-las, fazer-lhes a manutenção. Passou manhãs e tardes infinitas à procura do trabalhar certinho, perfeito. Hoje, uma moto destas não lhe oferece dificuldades nem surpresas. Conhece-lhes os sons, os ruídos, as manhas e adivinha-lhes os problemas. Conhece-lhes os corpos melhor do que o seu. Fazem parte da sua vida no lazer e no trabalho porque escolheu trabalhar comprando, vendendo, reparando e recuperando motos de alta velocidade. As mais modernas, as mais antigas, as vintage e as peças de museu. Todas com seus segredos, seus encantos e suas maleitas típicas. Todas dignas da sua atenção, da sua dedicação, do seu carinho. É mais do que o seu trabalho, é a sua vida.
Quando Cartwright conheceu Judy, era ainda um jovem, mas soube logo que aquela era a mulher da sua vida. Tinha as ancas largas e roliças e os seios redondos e generosos, a cara pálida e arredondada e os olhos muito azuis e circulares a quererem ver a vida toda num só olhar. Falava muito, dançava com ele e vivia bem com a sua imagem e a ideia que tinha de si. Era expansiva e alegre. Cartwright gostou disto tudo, em particular da generosidade das formas, mas o que mais o cativou foi ter gostado de andar na sua moto. Mostrou-se logo confiante, quis experimentar, Não mostrou medo nem se fez esquisita. Avançou para a moto, avançou para Cartwright e ele recebeu-a nos braços e no assento à velocidade de uma vida.
Passaram-se duas décadas. Cartwright e Judy fizeram milhares de quilómetros juntos, fizeram dois filhos e uma vida partilhada e têm o mesmo e antigo gosto pelo vento frio na face a lembrar-lhes que estão vivos. O seu passeio preferido é ao miradouro no alto da serra. Ficam parados a ver o voo das aves de rapina. Segue sempre uma um pouco mais à frente e outra mais atrás e ligeiramente acima como que vigiando a primeira.
– Gostava de voar assim contigo, Richie.
– Gostava de voar assim contigo, Judy.
Um dia Cartwright chegou a casa, agarrou nos miúdos, beijou-lhes as faces, atirou a mais nova ao ar, beijou longamente Judy e disse, Como foi o teu dia meu amor? Tinhas uns exames… Tinha, Richie, tinha… As lágrimas rolaram-lhe pela face, fez um silêncio longo abraçada a ele e quando recuperou as forças, desabafou, Estou a morrer, meu amor. Não é cancro, tanto que eu temi o cancro, é uma doença degenerativa. Dão-me dois anos, no máximo. Pediram que fosses lá, querem que autorizes comigo uma série de exames, vão aproveitar para estudar e querem dar-te instruções para me acompanhares.
Cartwright e Judy debateram-se com a ideia durante três semanas. Ele foi ao hospital com ela e ouviu os médicos e informou-se e percebeu o caminho de decadência que os esperava. No regresso chorou e fingiu que eram lágrimas provocadas pela deslocação do ar. Decidiu fazer o que fosse preciso. Decidiu, primeiro, decidir o que era preciso. De Judy, só ouviu um pedido, Não me deixes sofrer, meu amor, não deixes que me roubem a dignidade, quero sempre ser livre e altiva como as aves de rapina na serra.
O dia nasceu brilhante e cristalino. A manhã está fresca e gloriosa. Boa para voar. Cartwright acelera pela serra acima, o vento fustiga-lhe a face, faz as curvas com algum risco mas a experiência permite-lhe manter a segurança. Judy agarra-se a ele com mais força ainda do que é habitual, encosta a face às costas dele e fecha os olhos. Cartwright faz uma redução, a máquina ganha força, o som do escape é poderoso, ele desfaz a curva que dá para o terreiro do miradouro, acelera tudo o que a moto tem para dar e ao aproximar-se do precipício da ravina não hesita… voa. No ar, a vida e a morte unem-se. Esta é a continuidade daquela. Um silêncio absoluto envolve a suspensão momentânea do trio alado. Pouco depois, duas aves de rapina, ao longe, ouvem um estrondo e levantam voo. O silêncio retorna e envolve de novo o Universo. As aves planam uma por cima da outra. Cartwright e Judy sorriem-lhes mas desta vez já conhecem a sensação. Do voo.
jpv
O Clã do Comboio – Operação Coirato Feliz

Operação Coirato Feliz
A ideia, justiça lhe seja feita, foi do VM. Um belo dia, entra no comboio pela manhã e diz com aquela natural lata que o caracteriza, Um dia destes podíamos sair em Vila Franca e ir aos coiratos. Àquela hora pareceu indigesto mas não impossível. Para o Clã não há impossíveis. Acertou-se logo ali o dia. Traçou-se um plano. A ideia era apanhar o interregional das 18:18 de regresso a casa, sair em Vila Franca de Xira, ir aos coiratos e apanhar o regional seguinte, o que sai de Lisboa às 18:48. Meu dito, meu feito.
Quando chegámos a Vila Franca, saímos do comboio e fomos ao encontro do VM que já tinha ido desbravar terreno com o JJ para a Taberna dos Coiratos. Ia o Escritor, o Rapaz do Fato Cinzento, a Rapariga do Riso Fácil e a PL. O Rapaz do Fato Cinzento não largava o telemóvel. Soubemos mais tarde porquê. Quando encontrámos o VM, ele estava esquisito, tinha um sorriso engraçado, os olhos muito pequeninos e vermelhinhos e o passo a cinco e três oito. Veio-nos buscar à estação e lá explicou que já tinha estado nos coiratos e nos tintinhos com o JJ. Não parava de dizer, Vocês vão detestar aquilo, mas é típico. Quando lá chegámos, o Rapaz do Fato Cinzento saiu a correr. Achámos que ele estava a ficar tontinho, mas percebemos tudo quando ele regressou trazendo consigo a Senhora da Revista de Culinária. Foi uma surpresa fantástica. Ela tinha perdido o interregional, mas apanhou o intercidades e foi aos coiratos connosco.
A Taberna é surreal e muito típica. Uma porta velha, um corredor muito comprido e escuro que vai dar para o que em tempos foi um pátio e que agora está coberto. Um balcão ao fundo de frente a toda a largura da casa onde só se servem copos de vinho e cervejas. Nada que envolva máquinas, nem imperiais, nem cafés. Há cartazes de touradas antigas, mesas diversas, dois frascos de piri-piri. Ou melhor, um frasco e umagalhetacomo lhe chamou o senhor que estava a servir copos. Um ambiente rural e ribatejano, com velhotes e gente nova de volta dos coiratos. A um canto, um pequeno fogão separado de nós por um vidro com um buraco para se fazer o pedido. Fazer o pedido é simples. Lá não se serve mais nada. Só coiratos. Então uma pessoa aproxima-se do vidro e diz um número: 3, 4, 5. O número que disser é o número de sandes que leva. O homem que cozinha os coiratos, muito bons, de resto, sua abundantemente para cima deles, mas acho que eles nem sabiam tão bem se não fosse assim. Uma sandes e um copo de vinho custam 1,5€. O VM pagou as primeiras sandes com o copo de vinho. A PL quis pagar a rodada seguinte, mas o Escritor adiantou-se, depois a PL foi ao balcão e teimou que queria pagar uma rodada. É mulher danada, disse o homem atrás do balcão. E ela pagou. E depois foi a vez do Rapaz do Fato Cinzento e depois da Rapariga do Riso Fácil. Quando abandonámos o local, a nossa mesa estava cheia de guardanapos daqueles pequeninos e cheios de goma que, em vez de limparem, espalham a gordura pela cara, rodelas de vinho e copos vazios. Fizemos vários brindes e a PL surpreendeu-nos a todos com um penalti à moda antiga. O Escritor, de cada vez que bebia, batia com o copo na mesa e fazia, Ahhhh! O VM, à saída, virou-se para umas pessoas e falando de nós disse, Desculpem lá, há aí tanta mesa de camponês tão limpinha e logo estes intelectuais é que parecem uns animais! Noutra altura tínhamos-lhe dado uma coça, naquele dia limitámo-nos a rir.
Fomos apanhar o regional seguinte onde sabíamos que vinha a Rapariga com Brinco de Pérola. Quando o comboio chegou, o Rapaz do Fato Cinzento irrompeu por ele a dentro a gritar o nome da Rapariga com Brinco de Pérola muito alto. Logo atrás dele ia o Escritor a fazer o mesmo. Ela ficou mais do que corada. As pessoas estavam um tanto incrédulas. Tentámos correr com as pessoas dos bancos para nos sentarmos, mas não resultou. Então resolvemos ir todos em pé a conversar. E assim foi… e, no entretanto, fomos distribuindo cartões de visita do blogue enquanto o Rapaz do Fato Cinzento dizia, Hoje sinto-me tão desinibida. A Senhora da Revista de Culinária tirava fotos e chorava de riso. Acabámos por nos conseguir sentar. O VM ia encostado ao vidro, com um ar alucinado e o cabelo todo despenteado. Parecia o ALF. O VM e o Rapaz do Fato Cinzento começaram a gozar com a Rapariga com Brinco de Pérola por causa dela falar francês. Perguntaram se ela tinha trazido avalise de carton e se erasadomasô(com tentativa de pronúncia francesa) e foi nesta altura que ela aplicou uma das suas famosas caneladas no Rapaz do Fato Cinzento que ficou marcado para todo o sempre. A Rapariga do Riso Fácil resolveu desinibir-se e vai daí esticou as pernas e assentou os pés no colo do Rapaz do Fato Cinzento. Este por sua vez meteu-se com o Picas e o seu anel e perguntou-lhe se ele era motoqueiro. A resposta não se fez esperar: Motoqueiro não, Motard! Ao fundo ia a brigada da laca chefiada por uma velhinha que se partia toda a rir até que aconteceu um momento inesquecível de entre todas as inesquecíveis loucuras desse dia.
O Escritor e o Rapaz do Fato Cinzento repararam numa moça toda jeitosa que ia uns bancos mais à frente sentada ao comprido com as pernas esticadas por cima dos bancos. Como não conseguiam vê-la bem porque estavam sentados, começaram a fazer exercícios de ginástica do tipo levantar e sentar, 1, 2, 3, para cima. 1, 2, 3 para baixo. Claro que enquanto estavam em cima miravam alarvemente a rapariga que se ia rindo deles e das lindas figuras que estavam a fazer.
Saímos em loucura do comboio com a PL e o Escritor a contarem anedotas. O Rapaz do Fato Cinzento chamava por uma desconhecida, Vanessa! Raquel!… e ela nada. A Rapariga do Riso Fácil desinibiu-se de vez e disse-lhe, Olha lá, eu sou gira, não sou?
A Rapariga com Brinco de Pérola teve uma grande demonstração de carinho da nossa parte e, ao mesmo tempo, deve ter passado uma das maiores vergonhas da sua vida.
Eu acho que o VM teve uma excelente ideia e acho também que, depois de um dia de trabalho intenso, umas quantas graçolas e brincadeiras inofensivas fazem bem à alma e ajudam a aproximar as pessoas. E isso é bom porque nós, humanos, nascemos sozinhos, morremos sozinhos e passamos grande parte das nossas vidas sozinhos ou envolvidos em problemas. Esta solidariedade do Clã do Comboio, além de todas as outras vantagens é absoluta e miraculosamente libertadora e… como diziam os gregos, catártica!
jpv
O Clã do Comboio – Tristeza
Agenda
Fábula da Cigarra Enquanto a Formiga Dormia

Fábula da Cigarra Enquanto a Formiga Dormia
Foi na primavera dos teus braços, enquanto a luz da vida despontava, que encontrei esse bosque de carícias e afagos a retemperar uma alma perdida e ansiosa e capaz de amar. E foi no florir sumptuoso de cores e emoções que bebi a tua água por entre sussurros e palpitações. E os passarinhos cantavam nesta história e ao fundo, num simulacro de efeitos especiais, Julie Andrews cantava a música do meu coração. E houve vivas e saudações, sombras frondosas e naturezas presentes, e houve todo o pólen, toda a magia na fábula da cigarra enquanto a formiga dormia. Adensou-se o bosque. Cresceram as árvores guindando-se aos céus e perderam-se os limites, os teus e os meus. Um lago imenso, calmo e tranquilo, reflete a luz e o caminho. Um trilho de terra com pequeninos malmequeres que não atravesso sozinho. Há um casalinho de mão dada. Ele de calções. Ela de saia rodada. E sem saber-se porquê, magia de certo, passa um duende por perto que sorri e pula. Não há sobressaltos. Só dois corações pulsando, as borboletas o ar cruzando, uma leve brisa deixando as ervas altas e as flores em breve dança. E a luz. Sim, essa diáfana luz forçando a densidade do bosque e banhando de claridade a penumbra onde o amor se fez verdade. E lei. A única lei. Sem papel nem escrita. Só a sua explanação, o seu viver num bater de coração, numa mão entregue, numa cena bonita. E há uma árvore alta e idosa a caminhar para os céus que tem na base uma loca onde vive a cigarra e os seus. Sentiu passos e veio ver o amor. E quando lhe perguntaram, as crianças, aconchegadas no lar acolhedor, o que passava, ela respondeu, quase desinteressada, como que não importunando, É a Primavera do amor. E chegaram, sem desdar as mãos, a uma clareira toda rodeada de canas. Era circular o espaço e tinha uma abertura em arco na vegetação, um convite que aceitaram sempre mão na mão.
Era o Verão. A amplitude do espaço e do tempo, searas dançando, aromas quentes no ar. Abriram os braços e afagaram a flor do trigo. Árvores pontuais a prover a sombra necessária para o coração descansar do ritmo quente e louco da paixão. E correram. E libertaram-se. E foram dando vivas às aves, à terra firme e ao céu azul e limpo. E via-se longe. E o mundo parecia não ter fim. Viviam um amor assim. Uma loucura consentida, uma centralidade perdida. Uma trepidação constante. E despiram-se. E fizeram amor. E sexo também. E viveram os dias como se não houvesse ninguém. E suaram o suor da descoberta na tarde caindo, a luz certa. Ao longe, uma ovelha branca balindo. E eles sorrindo. Amando sob o calor do Verão, dos corpos desnudados em paixão. E, pela primeira vez, entre eles, a semente de tudo, o princípio de todas as coisas: a palavra. A que cria e germina, a que alimenta e saceia, a que começa e termina, a que perde e norteia, a palavra que dá a vida e a morte, a mesma palavra que faz dos homens seres. A sorte. A palavra primeira que disseram foi Despertar, depois Encontro, depois Amar, depois disseram as palavras todas e uma vez gastas estas, reinventaram-nas. E disseram-nas todas outra vez. Assim como quem faz só porque fez. E gostou. E tudo se amou dentro dos limites seus. Só não disseram Adeus. Essa palavra doce e suave que queima. Guardaram-na para o Outono mesmo sem saber o que seria e quando viria se viesse. Quem olhasse a seara ao nível da altura do trigo, veria uma imensidão doirada banhada de sol sob o céu azul e deles, nem notícia, Mas a cigarra tem experiência e perícia e anunciou à filharada um passeio, um voo rasante sobre a seara doirada. E partiram de asa aberta e alma livre e repararam ali, a meio de lugar nenhum, sob o céu, sobre a terra, uma rodela de trigo que faltava como se estivesse pisado e amachucado por um transeunte descuidado. E estava! E eram dois os safados que rolaram em amores amados e deixaram circular marca na vegetação. A cigarra viu e entoou a canção do amor ali mesmo, sob o céu amplo e ao calor. E repetiram os filhos aquilo que ouviram e tendo cantado, logo partiram. E ao partir sentiu-se pequena aragem. E fria. Dona cigarra fez uma paragem, estendeu o dedo no ar e anunciou, Estão mudados os ventos, vêm aí novos tempos, vai mudar a sorte, sinto no horizonte um prenúncio de morte…
Rederam as mãos que tinham desdado para tatear os corpos, levantaram-se e correram a fugir da nuvem escura, da bátega de água certa, e enquanto a luz dura, caminham alerta em busca do bosque. Lá estava a abertura em arco nas canas e depois dela a clareira. Tudo igual e tudo diferente. Fosse ação natural ou de gente, algo havia mudado. Tudo.
As árvores choravam humidade e seus ramos despediam-se das folhas, os animais faziam escolhas de abrigos, a evitar os maiores perigos. Um tapete folhado e colorido cobria o chão de amarelos, laranjas e castanhos, e chegam ao bosque acolhedor habitantes que no Verão lhe são estranhos. Eles entraram e beberam. Olharam o lago e contemplaram o reflexo e estranharam não se terem visto na imagem refletida. Assim, com um misto de tranquilidade e tristeza, perceberam que já lá não estavam. Faltava só a partida. A despedida. E com o brilho e a lágrima no olhar, decidiram caminhar lado a lado, pelo frondoso bosque, agora inundado de silêncio. E num ponto do caminho, a estrada dividiu-se. Aí chegaram como se nunca lá tivessem estado. Ela imóvel. Ele parado. E duas coisas aconteceram, duas tragédias numa só. Juntamente com as plantas que feneceram, um gesto e uma palavra reduziram o amor a pó. Desderam as mãos em passos tranquilos. Foi o gesto. Ergueram os braços seus e pronunciaram em coro uníssono: Adeus!
Impassível ficou o bosque. Seguiram e levaram a memória do toque, do odor, das palavras, do olhar, do amor e das promessas e continuaram lado a lado, sem pressas, afastando-se um do outro. Não se sabe nesta história onde leva cada estrada. Sabe-se que uma conduz a tudo e outra ruma a nada. Só falta saber o mais sério que é se vão cruzar-se. Mas isso permanece mistério. Sendo certo que saberão amar-se na presença e na ausência. Agora e aqui, estão separando-se unidos. Vencedores e vencidos. Do corpo. E do coração.
A cigarra jaz morta de frio. Não lhe aprouve o canto no Verão. A formiga, que trabalhou no Estio, dorme quente no colchão. E acorda. Serena. E olha em volta e encontra-se. Estava perdida no sono e agora desperta para a vida sem saber que quem acorda no Outono, ainda que quente e aconchegado, sem ter visto o amor empolgado dos amantes na seara quente e no tempo absorto, não esteve dormindo, esteve morto. Ah formiga que vives com o corpo da cigarra tombado e inerte a poucos metros daí, se pudessem agora ver-te, os amantes teriam pena de ti. Tem mais vida esse cadáver vencido que sentiu a pujança do amor do que o teu corpo aquecido e gasto pelo suor cego do labor. Nunca saberás o voo sobre a seara, o sol amanhecendo paixão, nunca correste o risco que se exige ao mortal para que se liberte da eterna prisão. Vives adiada e ela morre saciada e há mais vida na sua morte do que na tua pobre e estéril sorte.
Nunca contarás aos teus filhos, como ela fazia, a fábula da cigarra enquanto a formiga dormia.
jpv
Motorcycle Chronicles – Put Your Head On My Shoulder

Put Your Head On My Shoulder
Na vida das pessoas há sempre assuntos por resolver. Às vezes, para os resolvermos, precisamos de uma longa conversa. Esta é a história do Senhor Nolan e da conversa que teve com a sua amada, M.
Quando se conheceram, o Senhor Nolan usava fato e gravata, era um executivo de uma empresa de comunicações, tinha três filhos, uma mulher prendada com quem praticava sexo sempre missionário, um carro cinzento escuro com quatro metros de comprimento e uma vivenda com dez assoalhadas numa zona proibitiva dos arredores da cidade. A ele, não lhe era vedada a zona, pela simples razão de que podia pagar o luxo. E a vida desenrolava-se entre reuniões, os problemas dos filhos e os orgasmos fugazes e fingidos. Fugazes, os dele…
Um dia, num desses dias em que a mente se questiona a si própria, nesses dias em que o trabalho lhe entorpecera o cérebro, num desses dias em que todos os problemas parecem combinar-se para o atormentar, bateu violentamente com a porta do escritório, disse, Foda-se para isto tudo, e saiu à rua. Caminhou. Sem pensar em nada a não ser no que via. Caminhou para fugir à vertigem de problemas acumulados e soluções por encontrar. Olhou as mulheres, os homens, as crianças, as lojas, os jovens em suas roupas despreocupadas, sentiu o sol, comprou um gelado, e caminhou, caminhou sempre, até que viu…
Vinham numa moto preta com cromados reluzentes. Ele segurava o guiador de braços abertos, tinha uns óculos escuros, um blusão de cabedal e botas como as da tropa. Ela ia atrás, agarrada a ele com um cachecol pelo pescoço em tiras castanhas alternadas com amarelo torrado e as pontas esvoaçantes, os cabelos soltos e um blusão de ganga. Nenhum levava capacete e os dois sorriam ao vento. Para o Senhor Nolan esta fora a visão da liberdade e da libertação, da felicidade e da harmonia. Estava naquela imagem passageira tudo o que lhe faltava. Por vezes, um breve instante na vida de um aprisionado é o suficiente para que pressinta o sabor da liberdade. Por vezes, um episódio insignificante na vida de outra pessoa, pode mudar a nossa. Foi o que aconteceu. Aquela imagem ficou a fazer-lhe comichão na mente, a inquietá-lo. Ponderou imenso. Pensou que estava senil e pensou depois que, se o estivesse, era porque tinha já conquistado esse direito. O Senhor Nolan decidiu mudar. Amadureceu todos os passos e momentos da sua vida. Os do passado e os do futuro.
Divorciou-se. Atravessou essa floresta de complicações e tensões. Meses se passaram. Um ano. E meio! Encontrou novos ritmos de estar consigo, de partilhar a vida com os filhos. Comprou uma casinha pequenina no campo, entalada entre choupos altos. Um carro pequeno e modesto. Entreteve-se na decoração nihilista onde figuravam abundantes velas de cheiro a serpentear a casa. Vivia bem consigo. Inscreveu-se numa escola de condução e tirou a carta de moto. Comprou roupas informais e habituou-se a sorver o tempo só pelo tempo. Um dia foi à Internet e comprou uma moto em segunda mão parecida com a da distante imagem reveladora. Longe no tempo, perto nas intenções. Começou por curtos e breves passeios à volta de casa e, a pouco e pouco, foi conquistando terreno, hábitos, habilidades, mecanismos, até ficar confortável naquela relação homem-máquina.
O Senhor Nolan está diferente. Só vive encarcerado no fato de executivo o tempo indispensável para exercer as suas funções. Todos os dias ao chegar a casa se entrega a si, às suas pequenas prioridades, aos seus pequenos rituais. E, mais extraordinário, quando habita o fato, há uma parte de si que não se deixa aprisionar. O coração do Senhor Nolan rebelou-se, tomou o gosto da liberdade e agora não há amarras nem prisões que o retenham. E os fins-de-semana? Os fins-de-semana são a liberdade em estado puro. Às vezes pára a moto para arrumar o capacete numa das malas laterais e anda uns quilómetros com o vento a fustigar-lhe a face e o cabelo ondulado e ralo. Só porque sim. Um dia parou de frente para o mar e lembrou-se de que algo lhe faltava no sonho de liberdade. Algo estava na imagem reveladora que não viera ainda para a sua. Era M. Lembrar-se-ia ela dele? Claro que sim! Mas o que sentiria? Precisava partilhar esta liberdade com a única mulher que conhecia capaz de a perceber sem a julgar. Precisava de uma longa conversa com M. Decidiu trazê-la para a sua vertigem.
M continuava no mesmo hospital pediátrico como enfermeira. Os mesmos hábitos e rituais. Depois do Senhor Nolan, não quis mais homens na sua vida. Nenhum a preenchia como ele soubera fazê-lo. Nenhum a magoaria tanto como ele o fez só por ter partido. Às vezes punha a música que eles costumavam ouvir juntos quando ele fugia do casamento para os seus braços por uma noite, um dia. E essa memória valia-lhe por uma vida vivida. M era uma mulher sensível e tranquila. Daquelas que sofrem a vida com estoicismo e são capazes de ser felizes com o canto de um pássaro, o ronronar de um gato. Era uma alma que esquecia com facilidade um grande feito mas nunca um pequeno pormenor de humanidade e sensibilidade. Falava com a expressão da face e com o olhar e guardava as palavras como tesouros pelo que dizia só o que tinha para dizer quando isso fosse significativo. Há três anos que M não sabia nada do Senhor Nolan e, por isso, e por todo o passado comum de emoções fortes, o seu coração sobressaltou-se quando abriu o e-mail e viu na caixa de entrada o nome dele em negrito.
“No próximo sábado apanho-te à porta de casa às oito da manhã. Veste-te de forma prática, botas de caminhar ou sapatilhas, calças de ganga e um blusão. Pode ser aquele teu blusão preto. Um lenço ao pescoço é opcional, mas vinha a calhar. Se puderes, nem precisas responder, nem sequer faças perguntas. Se não puderes basta que me respondas «Não posso.» Mais palavras não serão precisas.“
É sábado. O Senhor Nolan tem o coração cheio de emoção. Calçou as botas pretas, vestiu a roupa da liberdade, calças de ganga e um blusão de cabedal, colocou o capacete, um outro, suplente, na maleta lateral e dirigiu-se para casa de M. O ar frio fazia-o sentir-se livre, rijo, confiante e o sol entusiasmava-lhe a alma. Nem sequer sabia se ela lá estaria, mas o Senhor Nolan era já um homem feliz.
Quando se aproximou da casa de M, pensou mesmo que ela poderia lá não estar. Não se deteve no pensamento. Era impossível. E era. Há coisas que são como são porque são assim e não de outro modo e tentar explicá-las é rematada loucura. Ela lá estava, no passeio, a figura fina e insegura, o porte gentil e elegante mesmo na ganga. Não o reconheceu. Não o esperava numa moto. Não o esperava com aquele aspeto. Não o esperava. Ele parou junto a ela e só quando tirou o capacete, ela percebeu. Percebeu e sorriu. Ia para falar, mas não o fez. Ele também não. Os dois sabiam conversar sem palavras. Sempre haviam sido bons com o silêncio. O Senhor Nolan estendeu-lhe um capacete, ela sentou-se na moto, ele puxou-lhe os braços e colocou-lhos à volta do seu tronco mostrando-lhe onde se agarrar. Ele, querendo que ela visse o caminho, virou a cabeça para trás e disse:
– Put your head on my shoulder!
Deslizaram durante uma hora e meia, viram a paisagem mudar diversas vezes e conversaram. Sem palavras. Ela encostou-se a ele, sentiu o seu calor, o pulsar do seu peito, agarrou-lhe o tronco e ele sentiu-lhe a força e a vontade de estar ali. Segura a si. E seguiram conversando em silêncio. Chegaram junto do mar onde ele havia estado sozinho. Pararam. Ficaram longos minutos ouvindo o mar em silencio respeitoso, em comunhão. Abraçaram-se, ela encostou a cabeça no ombro dele. Nunca se disse uma palavra. Partiram. Pouco depois ele parou, tirou-lhe o capacete, tirou também o seu e seguiram rolando contra o frio revigorante do vento enquanto o sol alaranjava sobre o oceano. Quando ele decidiu rumar ao interior do território, voltaram a pôr os capacetes. Mais uma hora e meia, sempre conversando, sempre em silêncio. Caíra já a noite cúmplice quando chegaram a casa dela. Não houve palavras nem convites, nem justificações. Ela limitou-se a subir puxando pela mão dele. Fizeram amor puro e intenso toda a noite, em refluxos de entrega e paixão e ausência e presença. Adormeceram dentro um do outro.
No outro dia, quando acordaram, perceberam tudo. Reencontraram todos os motivos, todas as razões e os sentimentos todos. Relembraram o sentido e os sentidos. E foi então que a conversa terminou para que outra pudesse acontecer:
– Bom dia Nolan!
– Bom dia M!
– Amo-te Nolan!
– Amo-te M!
jpv



