Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Aprender, sempre!

Parabéns, João Sabino!

É fantástica a vontade de aprender. A perseverança. A capacidade de ir mais além. São aspetos que não têm idade. Aprender não tem idade.

Sinto, como português cada vez mais mergulhado no cinzentismo da crise, que há, na notícia da sua conclusão do processo de RVCC aos 91 anos, uma luz intensa, um brilho e uma cor de esperança. Sinto que, em Portugal, ainda há pessoas extraordinárias e processos meritórios.

E, claro, àqueles que sempre criticam perguntando “Quanto é que isto custou ao nosso país?”, eu respondo de duas maneiras. Em primeiro lugar, a Educação e a Formação são sempre uma aposta ganha, são um sinal inequívoco da evolução de uma sociedade em termos culturais e estruturais. Em segundo lugar, digo que, custe o que tenha custado, o senhor João “Sabino” já, de certo, pagou a sua parte com décadas de descontos.

Excelente notícia! Excelente motivo de orgulho! Renovadas felicitações, senhor João “Sabino”.



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Mar Revolto

Mar Revolto

Andam ondinhas
Revolvendo meu coração,
São esperanças minhas
No poder da emoção.

E consigo senti-lo, por vezes,
Bravio, Selvagem e solto,
Arranca-me à alma o choro
Com a força de um mar revolto.

E fica, traçada, nesta contemplação,
A linha e a jogada,
A teimosia
E a razão.
O que quero
E controlo.
O que desejo
E me escapa.
O sentido
E o desnorte.
O Azar
E a sorte.
E ficam as pessoas,
As coisas más
E as boas.
A esperança
E o desespero.
O descuido
E o esmero.
E fico eu,
Sozinho, despido e nu,
Sem terra nem céu,
Sempre que me faltas tu!

jpv


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A DÚVIDA – CAPÍTULO IX

Caros leitores,

Dulce Morais acabou de publicar o Capítulo IX de “A Dúvida” no Crazy 40 Blog.

Cabe-nos agora continuar a história, o que faremos em breve.


Boas leituras!


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A Estação Inverno-Primavera

Por aqui, por bandas da Quinta de Sant’Iago, vive-se uma estranha estação a que chamo Inverno-Primavera. E não tem nada a ver com a falta de chuva. Todos os anos, mesmo quando chove muito, esta estação acontece. É verdade que a falta de chuva se está a tornar preocupante, mas a Natureza segue o seu curso. Os homens aprenderam a olhar o Sol e a medir-lhe e a contar-lhe as voltas. E é por isso que vieram a ter a arrogância de marcar datas para as estações. Agora termina o Inverno. Agora começa a Primavera. Pois, na Quinta de Sant’Iago, depois do Inverno e antes da Primavera há a estação Inverno-Primavera. Ainda aquele não terminou e já esta se nota no despontar esplendoroso da vida.

A folhagem dos limoeiros está amarelecida e o próprio fruto deixou de ter aquela cor clarinha e vigorosa e está agora pintado de um amarelo forte e carregado. As amendoeiras florescem como noivas saindo da igreja. Há-as, até, que, para além da flor, já mostram a folha verdejante. E a cabrinha, filha da mítica Gulosa, já pariu seu rebento. Fartou-se de estar prenhe. Não tem a experiência da mãe que aturou muito partos, mas tem o mesmo cuidado e o mesmo carinho. Para primeira vez, portou-se muito bem. E tem uma paciência notável. O pequenote, negro como o carvão, espinoteia como se quisesse saltar o Universo inteiro e caminha célere dando saltos com as quatro patas. É enérgico até quando mama. Como não gosta de esperar que o leite escorra lentamente das tetas, marra com força no úbere da mãe.

Sim. Ainda cá está o Inverno. As suas geadas e o lume crepitando na lareira. Sim. Já cá está a Primavera florindo amendoeiras e parindo cabritinhos irrequietos! É essa fantástica estação: Inverno-Primavera.

Amendoeiras em flor, com folha.
Amendoeiras em flor, sem folha.
 Limões de fim de Inverno
 Duas semanas de vida e já tanta energia. 
Assim, no colo, só uns segundinhos.


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A DÚVIDA – CAPÍTULO VIII

A DÚVIDA
CAPÍTULO VIII

Nunca pensei chegar a isto. Eu não duvido só do que ela me diz. Eu duvido dos meus próprios sentimentos. Dos meus próprios pensamentos. Por exemplo, esta coisa dela digitalizar o diário e me mandar como uma espécie de prova da verdade dos seus sentimentos, normalmente eu acreditaria nisto, mas não consigo deixar de pensar até que ponto aquilo é mesmo honesto e até que ponto é uma manobra para reconquistar a minha confiança e reconstruir a confiança do casal. Até que ponto aquelas palavras refletem a minha Bela e até que ponto são uma estratégia da Bela que me vasculha o telemóvel e a carteira para recuperar o clima de confiança.

Acusa-me de estar sempre a trabalhar e não ter tempo e não lhe dar atenção… mas como é que aquela alma acha que nós sustentamos o estilo de vida que temos? Casa, carros, roupas, almoços, jantares… nós temos padrões de vida muito acima da média. É quase um crime pensar isto, mas a verdade é que nem temos sentido muito a crise.

Pareceu-me honesta quanto ao Sebastião, aquele paspalho. Que raio de gajo a minha cunhada foi desencantar. Merecia bem melhor. Espero que seja verdade o que ela escreveu, mas, mais uma vez, pode só ser uma forma de me trazer descansado. Não sei que pense. Esta mulher está a dar comigo em doido. Preciso esclarecer e sistematizar as minhas ideias para saber o que fazer. Ora, deixa cá ver…

Trabalho: Acha que eu trabalho demasiado. Vive um profundo ressentimento pelos sacrifícios que fez. Ou seja, trabalho igual a ressentimento.

Filhos: Parece ser a grande questão da Bela. Eu pensei sempre que tinha sido uma decisão assumida pelos dois, mas agora percebo que não. Arrependimento é o que ela sente. Profundo! Ou seja, filhos igual a ressentimento.

Sexo: Um desencontro total. Eu quero, ela não. Ela diz que sim, eu acho que não. O sexo não é mau, pelo contrário. Mas quase nunca é! Estamos desencontrados. Ou seja, sexo igual a desencontro.

A nossa relação: Acho que ela se referiu a nós como se sentindo num atoleiro. Por mais que me ame, e é preciso ter em consideração esse amor, a Bela sente uma profunda e indisfarçável mágoa em relação a mim. E, se quiser ser honesto com os meus botões, eu também sinto essa mágoa em relação a ela. Ou seja, a nossa relação é igual a mágoa.

E tem estado entre nós a dúvida. E acho que esta dúvida nasce nestes aspetos todos. Repara, Mário, se a tua mulher sente por ti ressentimento, arrependimento, mágoa e… qual era a outra? Ah, já sei, desencontro sexual, em que é que tudo isto dá? Dá num clima de dúvida em que cada pequeno gesto ou pormenor pode ser mal interpretado. E depois, andamos desnecessariamente à defesa. Estou-me a lembrar dos recibos do hotel. Andei eu preocupado e afanosamente a gastar energias a esconder uns recibos de hotel que eram do aluguer de uma sala de reuniões. Desnecessário. E porquê? Por causa desta puta desta dúvida. O pior é que não sei se é só dúvida ou se tem fundamento.

Acho que nenhuma relação resiste a este clima. Eu sou um tipo pragmático e não convivo com estas situações. Vou mesmo conversar com ela. Tentarei ser meigo e delicado, mas não há dúvida que não acredito neste casamento, sobretudo, no ponto a que isto chegou. Amanhã, peço-lhe o divórcio. Tem de ser. É melhor uma má situação, mas definida do que o prolongamento da indefinição.

Só preciso esclarecer uma coisinha de mim para comigo. É que eu acho que ainda amo esta mulher… ou não? Não sei… preciso de um banho. Frio, de preferência!

jpv


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O Clã do Comboio – Um Companheiro Tolerável

Um Companheiro Tolerável

Desde que viajo em comboios regionais, tenho reparado num pormenor interessante. São muito mais concorridos. Estão sempre cheios. É como se houvesse sempre duas multidões. Uma a querer ir para Lisboa e outra a querer sair de Lisboa. A toda a hora!
O que isto tem de menos bom é que se torna um bocadinho mais desconfortável viajar como sardinha enlatada. O positivo é que a fauna é muito mais profusa e diversa. E presta-se a um jogo. Sempre que regresso a casa, entro em Sta. Apolónia onde o comboio não fica cheio mas, seis minutos depois, no Oriente, atafulha. Leva sempre gente em pé. Ora, isto cria uma certeza. Sei sempre que alguém vai sentar-se ao meu lado. O jogo é tentar adivinhar quem. Será a velha conversadeira que não se cala até que eu saia em Riachos? Será o velho gordo que me entala contra a janela? Será a mãe de família que telefona para a cresce, o marido, a mãe dela ou a sogra, e põe tudo a mexer mesmo antes de chegar a casa? Serão aquelas duas amigas que vêm juntas do trabalho e fazem as fofocas todas no comboio? Será o tipo magro e circunspecto que abre o computador e vai o caminho todo a trabalhar? Será a senhora de meia-idade que não para de ler? A solteirona que ouve música pelo auricular? Ou serão os dois militares que vão a pôr em dia as promoções lá do serviço… quando as houver?

Se, por ventura, o amável leitor imagina que enumerei as tipologias todas de passageiros, desengane-se. Ainda falta o jovem alternativo com roupas largas e sujas, rastas no cabelo e faixa de lã na cabeça, a segurar o cabelo, com as cores da Jamaica. O tipo andrajoso com cheiro insuportável e um carrinho de transportar compras cheio tralha. As adolescentes em manada, aos gritinhos e aos sms e essa raríssima espécie que é a miúda gira. Sorri, dá as boas-tardes e segue compenetrada e bela nas suas roupas distintas exalando um inebriante perfume.

Enfim, agora estão quase todos. Mesmo assim, um dia destes, sentou-se ao meu lado o mais improvável dos companheiros de viagem. Um saco da tropa! Não. Não foi um tropa. Foi um saco da tropa.

Eu explico. À minha frente, três lugares. O do meio, vazio. Os das extremidades, ocupados pela mãe de família e pela senhora de meia-idade que lê. Eu, junto à janela. Ao meu lado, nada. Na ponta oposta à minha, a solteirona que ouve música pelo auricular. Entra um jovem. Jovem no aspeto e na atitude. Traz consigo uma mochila de tamanho considerável e um enorme saco da tropa. Repara que vamos quatro para seis lugares e repara que os lugares vagos são frente a frente, ao meio. Não está com meias medidas:

– Com licença.

Sentou-se entre a mãe de família e a senhora que lê, colocou a mochila entre as pernas e, claro, toda a gente pensou Onde é que ele vai enfiar o saco? e ele respondeu com gestos. Atirou-o para cima do outro banco vago.

E lá fui eu até Riachos entre uma janela e um saco da tropa. Não cheirava mal, não se meteu comigo, deixou-me escrever…revelou-se um companheiro bastante tolerável, tendo em conta que no dia anterior fui ao pé de 4 sogras e 1 velho.

Nunca mais me calha a miúda gira…

jpv


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O Clã do Comboio – 4 Sogras e 1 Velho

4 Sogras e 1 Velho

O dia fora intenso. Eu estava exausto. Regressei num comboio tardio. Regional. Pedi a Deus que não tivesse companhia ou que, a ter, fosse silenciosa. De preferência, que evitasse sentar ao pé de mim faladores como eu ou gente ao telemóvel com a vida a ficar-se toda a saber de ponta a ponta da carruagem. Deus anda com problemas de audição. Não me ouviu. Mas isso eu compreendo. Só acho que não era necessário mandar-me 4 sogras e 1 velho.

Entrei em Sta Apolónia e sentei-me numa zona de seis lugares, três frente a frente. Primeiro entrou a sogra pacata. Sentou-se à minha frente em silêncio. Era baixinha, cabelo arranjado e óculos de lente fumada com aros amarelos. Depois entrou a sogra esperta e sentenciosa. Cabelo curto, mas farto, puxado para trás e preso com uma bandolete. Óculos retangulares, casaco verde. Com ela vinha um velhote de barriga redonda e larga, nariz farto e vermelhusco e um ar complacente e tranquilo. Arrancámos em silêncio. No Oriente sentaram-se ao pé de nós a sogra faladora, esguia, com o cabelo ralo e uns brincos de ouro, e a sogra nova, uma mulher de cabelo encaracolado, perna roliça, estatura alta e larga. Não tinha cinquenta anos. Longe disso. E foi por causa dela que tudo começou. A sogra faladora com os brincos de ouro era mãe da sogra nova e disse alto e bom som a frase enigmática:
– Sabes, ela ainda não se apercebeu de que é nora, mas um dia também vai ser sogra!

A sogra esperta e sentenciosa não deixou escapar a oportunidade e disse para a sogra faladora com brincos de ouro:
– É uma nora sua…
– Não! É dela!
– Dela?! Mas ela não tem idade para ser sogra!
– Mas é!
– Pois então, deixe-me dar-lhe um conselho: tenha cuidado! Tenha muito cuidado!

E a sogra nova falou pela primeira vez:
– É melhor é… mas eu não lhe fiz mal nenhum.
– Nem é preciso. Você é sogra dela. Elas acham que conhecem os nossos filhos melhor do que nós.

E a sogra faladora com brincos de ouro acrescentou:
– Mas nós é que somos as mães deles!

E foi então que a sogra pacata falou. Olhou por cima dos óculos e disse baixinho como se o que ia dizer fosse muito importante:
– As mães e as mulheres!

As outras entre-olharam-se em silêncio a confirmar se o que a outra tinha dito era verdade, se todas eram sogras e noras ao mesmo tempo, ou seja, as vítimas dos males e a causa deles, e devia ser porque elas calaram-se sem resposta e aí a sogra pacata atacou na sua versão de nora extremosa:
– Nunca tive razão de queixa da minha sogra. Era uma santa de uma senhora. Sempre nos demos bem.

A sogra esperta e sentenciosa não aguentou e disse:
– Pois, ele há sempre exceções.

E virou-se outra vez para a sogra nova acrescentando:
– Tenha cuidado. Tenha muito cuidado!

O velho ia a ouvir aquilo tudo com paciência de santo. Notava-se que estava um bocadinho constrangido, mas interessado. Ia olhando para o exterior e para o interior não querendo mostrar muito interesse no assunto. E foi então que a sogra faladora com brincos de ouro disse para a sogra esperta e sentenciosa:
– O seu marido não fala muito, pois não!
– Os homens não se metem nas conversas das mulheres.
– Pois não. Têm medo de entrar e sair mal tratados.
– Chamuscados!

E largaram as quatro a rir. Quando terminaram, a sogra pacata acrescentou olhando para mim:
– E vamos a aborrecer este senhor…
– Não vamos nada, ele tem cara de boa pessoa!

O velho fixou definitivamente o olhar no exterior. Eu sorri, saquei do meu caderno e vim escrever a história das 4 sogras e 1 velho.

jpv


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Acordar

Acordar

A luz é ténue.
O ambiente é calmo.
Nem um só ramo se move,
Nem uma só folha ondula.
Os pássaros não vieram,
Ainda,
Entoar a música linda
Com que embalam as tarefas
E o afã
De nos acordar a manhã.
E todo o Universo que conhecemos
Está mergulhado no silêncio
E na imobilidade
Até que se revela a verdade
Da luz.
Um raio de sol desponta
E rompe,
Entra-nos na carne
E aquece as ervas
Hirtas da geada
E anuncia em pezinhos de lã
Que terminou a madrugada
E começou a manhã!

Continua quieta e tranquila
A vida, do dia, menina,
Mas agora,
Já germina.

jpv


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A DÚVIDA – CAPÍTULO VII

Caros leitores,

Dulce Morais acabou de publicar o Capítulo VII de “A Dúvida” no Crazy 40 Blog.

Cabe-nos agora continuar a história, o que faremos em breve.


Boas leituras!


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O Humor Também é um Sinal dos Tempos