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Mar Revolto

Mar Revolto
Andam ondinhas
Revolvendo meu coração,
São esperanças minhas
No poder da emoção.
E consigo senti-lo, por vezes,
Bravio, Selvagem e solto,
Arranca-me à alma o choro
Com a força de um mar revolto.
E fica, traçada, nesta contemplação,
A linha e a jogada,
A teimosia
E a razão.
O que quero
E controlo.
O que desejo
E me escapa.
O sentido
E o desnorte.
O Azar
E a sorte.
E ficam as pessoas,
As coisas más
E as boas.
A esperança
E o desespero.
O descuido
E o esmero.
E fico eu,
Sozinho, despido e nu,
Sem terra nem céu,
Sempre que me faltas tu!
jpv
A DÚVIDA – CAPÍTULO IX
A Estação Inverno-Primavera
A DÚVIDA – CAPÍTULO VIII

A DÚVIDA
CAPÍTULO VIII
Nunca pensei chegar a isto. Eu não duvido só do que ela me diz. Eu duvido dos meus próprios sentimentos. Dos meus próprios pensamentos. Por exemplo, esta coisa dela digitalizar o diário e me mandar como uma espécie de prova da verdade dos seus sentimentos, normalmente eu acreditaria nisto, mas não consigo deixar de pensar até que ponto aquilo é mesmo honesto e até que ponto é uma manobra para reconquistar a minha confiança e reconstruir a confiança do casal. Até que ponto aquelas palavras refletem a minha Bela e até que ponto são uma estratégia da Bela que me vasculha o telemóvel e a carteira para recuperar o clima de confiança.
Acusa-me de estar sempre a trabalhar e não ter tempo e não lhe dar atenção… mas como é que aquela alma acha que nós sustentamos o estilo de vida que temos? Casa, carros, roupas, almoços, jantares… nós temos padrões de vida muito acima da média. É quase um crime pensar isto, mas a verdade é que nem temos sentido muito a crise.
Pareceu-me honesta quanto ao Sebastião, aquele paspalho. Que raio de gajo a minha cunhada foi desencantar. Merecia bem melhor. Espero que seja verdade o que ela escreveu, mas, mais uma vez, pode só ser uma forma de me trazer descansado. Não sei que pense. Esta mulher está a dar comigo em doido. Preciso esclarecer e sistematizar as minhas ideias para saber o que fazer. Ora, deixa cá ver…
Trabalho: Acha que eu trabalho demasiado. Vive um profundo ressentimento pelos sacrifícios que fez. Ou seja, trabalho igual a ressentimento.
Filhos: Parece ser a grande questão da Bela. Eu pensei sempre que tinha sido uma decisão assumida pelos dois, mas agora percebo que não. Arrependimento é o que ela sente. Profundo! Ou seja, filhos igual a ressentimento.
Sexo: Um desencontro total. Eu quero, ela não. Ela diz que sim, eu acho que não. O sexo não é mau, pelo contrário. Mas quase nunca é! Estamos desencontrados. Ou seja, sexo igual a desencontro.
A nossa relação: Acho que ela se referiu a nós como se sentindo num atoleiro. Por mais que me ame, e é preciso ter em consideração esse amor, a Bela sente uma profunda e indisfarçável mágoa em relação a mim. E, se quiser ser honesto com os meus botões, eu também sinto essa mágoa em relação a ela. Ou seja, a nossa relação é igual a mágoa.
E tem estado entre nós a dúvida. E acho que esta dúvida nasce nestes aspetos todos. Repara, Mário, se a tua mulher sente por ti ressentimento, arrependimento, mágoa e… qual era a outra? Ah, já sei, desencontro sexual, em que é que tudo isto dá? Dá num clima de dúvida em que cada pequeno gesto ou pormenor pode ser mal interpretado. E depois, andamos desnecessariamente à defesa. Estou-me a lembrar dos recibos do hotel. Andei eu preocupado e afanosamente a gastar energias a esconder uns recibos de hotel que eram do aluguer de uma sala de reuniões. Desnecessário. E porquê? Por causa desta puta desta dúvida. O pior é que não sei se é só dúvida ou se tem fundamento.
Acho que nenhuma relação resiste a este clima. Eu sou um tipo pragmático e não convivo com estas situações. Vou mesmo conversar com ela. Tentarei ser meigo e delicado, mas não há dúvida que não acredito neste casamento, sobretudo, no ponto a que isto chegou. Amanhã, peço-lhe o divórcio. Tem de ser. É melhor uma má situação, mas definida do que o prolongamento da indefinição.
Só preciso esclarecer uma coisinha de mim para comigo. É que eu acho que ainda amo esta mulher… ou não? Não sei… preciso de um banho. Frio, de preferência!
jpv
O Clã do Comboio – Um Companheiro Tolerável

Um Companheiro Tolerável
Desde que viajo em comboios regionais, tenho reparado num pormenor interessante. São muito mais concorridos. Estão sempre cheios. É como se houvesse sempre duas multidões. Uma a querer ir para Lisboa e outra a querer sair de Lisboa. A toda a hora!
O que isto tem de menos bom é que se torna um bocadinho mais desconfortável viajar como sardinha enlatada. O positivo é que a fauna é muito mais profusa e diversa. E presta-se a um jogo. Sempre que regresso a casa, entro em Sta. Apolónia onde o comboio não fica cheio mas, seis minutos depois, no Oriente, atafulha. Leva sempre gente em pé. Ora, isto cria uma certeza. Sei sempre que alguém vai sentar-se ao meu lado. O jogo é tentar adivinhar quem. Será a velha conversadeira que não se cala até que eu saia em Riachos? Será o velho gordo que me entala contra a janela? Será a mãe de família que telefona para a cresce, o marido, a mãe dela ou a sogra, e põe tudo a mexer mesmo antes de chegar a casa? Serão aquelas duas amigas que vêm juntas do trabalho e fazem as fofocas todas no comboio? Será o tipo magro e circunspecto que abre o computador e vai o caminho todo a trabalhar? Será a senhora de meia-idade que não para de ler? A solteirona que ouve música pelo auricular? Ou serão os dois militares que vão a pôr em dia as promoções lá do serviço… quando as houver?
Se, por ventura, o amável leitor imagina que enumerei as tipologias todas de passageiros, desengane-se. Ainda falta o jovem alternativo com roupas largas e sujas, rastas no cabelo e faixa de lã na cabeça, a segurar o cabelo, com as cores da Jamaica. O tipo andrajoso com cheiro insuportável e um carrinho de transportar compras cheio tralha. As adolescentes em manada, aos gritinhos e aos sms e essa raríssima espécie que é a miúda gira. Sorri, dá as boas-tardes e segue compenetrada e bela nas suas roupas distintas exalando um inebriante perfume.
Enfim, agora estão quase todos. Mesmo assim, um dia destes, sentou-se ao meu lado o mais improvável dos companheiros de viagem. Um saco da tropa! Não. Não foi um tropa. Foi um saco da tropa.
Eu explico. À minha frente, três lugares. O do meio, vazio. Os das extremidades, ocupados pela mãe de família e pela senhora de meia-idade que lê. Eu, junto à janela. Ao meu lado, nada. Na ponta oposta à minha, a solteirona que ouve música pelo auricular. Entra um jovem. Jovem no aspeto e na atitude. Traz consigo uma mochila de tamanho considerável e um enorme saco da tropa. Repara que vamos quatro para seis lugares e repara que os lugares vagos são frente a frente, ao meio. Não está com meias medidas:
– Com licença.
Sentou-se entre a mãe de família e a senhora que lê, colocou a mochila entre as pernas e, claro, toda a gente pensou Onde é que ele vai enfiar o saco? e ele respondeu com gestos. Atirou-o para cima do outro banco vago.
E lá fui eu até Riachos entre uma janela e um saco da tropa. Não cheirava mal, não se meteu comigo, deixou-me escrever…revelou-se um companheiro bastante tolerável, tendo em conta que no dia anterior fui ao pé de 4 sogras e 1 velho.
Nunca mais me calha a miúda gira…
jpv
O Clã do Comboio – 4 Sogras e 1 Velho

4 Sogras e 1 Velho
O dia fora intenso. Eu estava exausto. Regressei num comboio tardio. Regional. Pedi a Deus que não tivesse companhia ou que, a ter, fosse silenciosa. De preferência, que evitasse sentar ao pé de mim faladores como eu ou gente ao telemóvel com a vida a ficar-se toda a saber de ponta a ponta da carruagem. Deus anda com problemas de audição. Não me ouviu. Mas isso eu compreendo. Só acho que não era necessário mandar-me 4 sogras e 1 velho.
Entrei em Sta Apolónia e sentei-me numa zona de seis lugares, três frente a frente. Primeiro entrou a sogra pacata. Sentou-se à minha frente em silêncio. Era baixinha, cabelo arranjado e óculos de lente fumada com aros amarelos. Depois entrou a sogra esperta e sentenciosa. Cabelo curto, mas farto, puxado para trás e preso com uma bandolete. Óculos retangulares, casaco verde. Com ela vinha um velhote de barriga redonda e larga, nariz farto e vermelhusco e um ar complacente e tranquilo. Arrancámos em silêncio. No Oriente sentaram-se ao pé de nós a sogra faladora, esguia, com o cabelo ralo e uns brincos de ouro, e a sogra nova, uma mulher de cabelo encaracolado, perna roliça, estatura alta e larga. Não tinha cinquenta anos. Longe disso. E foi por causa dela que tudo começou. A sogra faladora com os brincos de ouro era mãe da sogra nova e disse alto e bom som a frase enigmática:
– Sabes, ela ainda não se apercebeu de que é nora, mas um dia também vai ser sogra!
A sogra esperta e sentenciosa não deixou escapar a oportunidade e disse para a sogra faladora com brincos de ouro:
– É uma nora sua…
– Não! É dela!
– Dela?! Mas ela não tem idade para ser sogra!
– Mas é!
– Pois então, deixe-me dar-lhe um conselho: tenha cuidado! Tenha muito cuidado!
E a sogra nova falou pela primeira vez:
– É melhor é… mas eu não lhe fiz mal nenhum.
– Nem é preciso. Você é sogra dela. Elas acham que conhecem os nossos filhos melhor do que nós.
E a sogra faladora com brincos de ouro acrescentou:
– Mas nós é que somos as mães deles!
E foi então que a sogra pacata falou. Olhou por cima dos óculos e disse baixinho como se o que ia dizer fosse muito importante:
– As mães e as mulheres!
As outras entre-olharam-se em silêncio a confirmar se o que a outra tinha dito era verdade, se todas eram sogras e noras ao mesmo tempo, ou seja, as vítimas dos males e a causa deles, e devia ser porque elas calaram-se sem resposta e aí a sogra pacata atacou na sua versão de nora extremosa:
– Nunca tive razão de queixa da minha sogra. Era uma santa de uma senhora. Sempre nos demos bem.
A sogra esperta e sentenciosa não aguentou e disse:
– Pois, ele há sempre exceções.
E virou-se outra vez para a sogra nova acrescentando:
– Tenha cuidado. Tenha muito cuidado!
O velho ia a ouvir aquilo tudo com paciência de santo. Notava-se que estava um bocadinho constrangido, mas interessado. Ia olhando para o exterior e para o interior não querendo mostrar muito interesse no assunto. E foi então que a sogra faladora com brincos de ouro disse para a sogra esperta e sentenciosa:
– O seu marido não fala muito, pois não!
– Os homens não se metem nas conversas das mulheres.
– Pois não. Têm medo de entrar e sair mal tratados.
– Chamuscados!
E largaram as quatro a rir. Quando terminaram, a sogra pacata acrescentou olhando para mim:
– E vamos a aborrecer este senhor…
– Não vamos nada, ele tem cara de boa pessoa!
O velho fixou definitivamente o olhar no exterior. Eu sorri, saquei do meu caderno e vim escrever a história das 4 sogras e 1 velho.
jpv
Acordar
Acordar
A luz é ténue.
O ambiente é calmo.
Nem um só ramo se move,
Nem uma só folha ondula.
Os pássaros não vieram,
Ainda,
Entoar a música linda
Com que embalam as tarefas
E o afã
De nos acordar a manhã.
E todo o Universo que conhecemos
Está mergulhado no silêncio
E na imobilidade
Até que se revela a verdade
Da luz.
Um raio de sol desponta
E rompe,
Entra-nos na carne
E aquece as ervas
Hirtas da geada
E anuncia em pezinhos de lã
Que terminou a madrugada
E começou a manhã!
Continua quieta e tranquila
A vida, do dia, menina,
Mas agora,
Já germina.
jpv








