Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Grão a grão…

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Devagarinho, “Mails para a minha Irmã” vai fazendo o seu percurso, contando as suas estórias e construindo a sua história. Hoje completámos 2000 visitas! Bonito número. Grato a todos os que por aqui passam alguns dos seus minutos.

João Paulo Videira


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Da entrevista a Isabel Alçada.

É possível ter uma visão poética sobre todas as coisas? O impulso é dizer que sim. Tudo tem poesia. Mas há obstáculos. Sei lá, assim de repente, onde está a poesia daquele pedacinho de plástico que colocam nas pontas dos atacadores para que se não desfiem? Onde está a poesia do motor de ignição de um carro? Onde está a poesia do composto químico do conteúdo das pilhas? Onde está a poesia de uma entrevista à nova Ministra da Educação?

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Trazias um sorriso inseguro e uma voz trémula, a espaços entrecortada pela força da determinação. Sabias o que querias mas não como querias e por isso o discurso saíu-te confuso. Mas as hostes, excepção feita aos cépticos de sempre, gostaram de ouvir-te. Fizesses o que fizesses, mostrasses as incertezas todas, e todas as dúvidas. Hesitasses, errasses, mesmo, e estaria tudo perdoado por via de um gesto só: colocaste-te ao lado dos injuriados, foste uma de nós. Sem soberba, com simplicidade e até alguma poesia. Atacaste as perguntas e os desafios pela perspectiva abandonada no passado. E veio-te daí a fraqueza e a força também. E olhaste o futuro com brilho nos olhos e um sorriso. Um sorriso. Há quanto tempo não víamos um sorriso.

Sabes, eu estou céptico. Não por ti. Pelos contornos que conheço ao problema. Pelos agentes. Pelas circunstâncias em que vieste a ser quem és. Pelas pedrinhas todas que vão colocar-te na engrenagem. Pelas forças que não controlas, algumas até desconheces. Tão acima de ti! Podem sufocar-te como já me fizeram. Sabes, há moinhos atrás dos moinhos de Quixote e há monstros escondidos na sombra do Adamastor. E há, haverá sempre, a cortina da dúvida pairando entre a tua vontade e a tua autonomia, entre a sinceridade com que te colocaste ao nosso lado e a possibilidade de não ter sido sinceridade nenhuma. Esta mediação não é da tua responsabilidade. É uma herança. Uma herança de desentendimento. Sabes, eu não quero dar-te conselhos. Não sou ninguém nem tenho nada comigo que me autorize a tal. Mas tenho o atrevimento. Simplifica. Não fujas para a frente, não vás atrás da enxurrada da complexificação do que não ganha nada com a complexidade porque tem uma matriz de simplicidade. Ser professor é dar. Dá! Ser professor é dedicar. Dedica! Ser professor é conquistar. Conquista! Ser professor é ceder. Cede! Ser professor é trabalhar. Trabalha! Ser professor é amar. Ama! Concentra-te no cerne, concentra-te no essencial e corta a facadas pujantes e decididas as excrescências, os excessos. Sabes, eu vivo um paradoxo desde que me conheci. Acho que é um paradoxo português. É que sou céptico mas gosto de acreditar. Hoje acreditei.


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Efeméride

Não há já o fulgor e há quem diga que é normal. Que o fogo esvanece. Que a energia fenece. Que a entrega enfraquece e se encosta à rotina, com a idade. Mas eu quero ainda o o fogo, a energia, a entrega e o pueril vigor que me dizem não ser da minha idade ainda cá mora. Dancei nas curvas do teu corpo agarrado a ele projectando sombras no chão, silhuetas da aventura de sermos um só na mesma loucura. E, entretanto, entrou aqui algures, por entre os espaços que os corpos sempre abrem entre si essa ideia da idade. A idade do corpo. Então e a outra? E pergunto-me, será que alguém sabe a idade de alguém? Conhece alguém a sua própria idade? Ou a idade é o que fazemos com o tempo e a vida. São as virtudes e os pecados. Só não consta da nossa idade o que não vivemos. E isso não se deixa, só, de contar: desconta-se! E o teu corpo, outrora visita constante é hoje mais um irmão do que um amante. Está presente mas não me invade. Sinto-lhe o calor mas não o fogo. Eu sou mais uma presença a que te habituaste do que a África quente, harmoniosa e sensual que exploraste. Deixámos há muito de pecar! E faz falta à pureza de um amor inflamado, o sabor picante e vivo do pecado.


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A canção do pastor

De mãos unidas
e ungidas de Deus
e joelhos colados
ao chão,
o silêncio é o lugar
onde o pastor
ouve
a sua própria canção.
Os verdes campos
são uma porta fechada
pelo lado de dentro
e a liberdade
é um grito
que emudece
quando o pastor adormece
nas mulheres
com que se deita…

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Hoje estou com veia divulgadora.
Este texto veio daqui: http://arcadehistorias.blogspot.com/


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De pequenino…

Olá mana,
por estes dias, finalmente tristes, de Inverno, um sol houve que brilhou na seara da minha esperança: os miúdos fizeram um blogue.

Ao que parece a zona é complexa, mas, como sempre, os miúdos encaram a vida com alegria e galhardia e aquilo que entre os adultos poderiam ser problemas complexos, discussões, litígios, para eles são só o dia-a-dia.

E depois, há no meio disto tudo um professor, o Manuel, que acredita, efectivamente, no que faz e faz bem.

Estão por isso reunidas as condições para que a vida aconteça. E no espaço de um apoio, criam-se blogues, visitam-se blogues, pesquisa-se, intervem-se, aprende-se!

Como sabes, tenho sido um defensor prudente das novas tecnologias nos ambientes educativos. Defendo-as, sim, mas com critério, com acompanhamento para que o crescimento seja sustentado. Acontece, contudo, que a vida acontece e irrompe para além das nossas ânsias e mesmo para além das nossas capacidades de controlo. E mesmo com o acompanhamento do Manuel, os miúdos inscreveram-se na esfera cibernética e agora a vida é deles e acontecerá como tiver de acontecer. Resta-nos estar atentos.

Não farei o texto muito longo porque eles não gostam, mas queria usar este espaço que é, por norma, teu para divulgar o trabalho e o orgulho destes miúdos que de resto me lembram a tua fibra e o brilho do teu olhar quando tinhas feito alguma…

Sejam muito bem-vindos, amigos, a este mundo paralelo do outro e que ele vos traga as alegrias todas.

Aos leitores de “Mails para a minha Irmã” sugiro uma visitinha a:

Beijo,
mano.


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Parabéns mana!

Doce mana,

já em tempos escrevi um texto sobre o dia em que nasceste daí que tentarei felicitar-te sem repetir o caminho de magia que foi, para mim, o dia em que nasceste.

O texto será breve porque no que respeita à tua chegada, à tua existência, à tua vida, ao teu nascimento e ao teu aniversário, as coisas que sinto são de tal forma avassaladoras que me compactam os sentidos e tolhem as palavras. Todas me parecem de menos, pequenas, limitadas e aquém do turbilhão com que lido desde o dia 4 de Novembro de 1972.
É como se não fosses “só” minha irmã, mas o milagre de toda uma vida. É como se a minha existência se tivesse iluminado a partir do dia em que te vi, rosada, pela primeira vez.

O engraçado é que eu acho que tu sempre pensaste que eu era um exemplo a seguir e em surdina, num silêncio respeitoso de quem deixa passar a vida, eu seguia o teu exemplo. A bravura, o brilho malandro no olhar dedicado, o dente cerrado aquando da defesa das tuas posições e o carinho…

Não sei, não saberei nunca se fui um bom irmão. Não me interessa isso muito. Não é o tipo de mensurabilidade que eu ache que possa alguma vez ser justa. Sei, contudo, que devo ter sido um irmão aquém de ti porque tu mereces sempre mais. Sei, também, numa avaliação muito subjectiva mas que considero que é pertinente porque é a minha, que foste a melhor irmã que alguém poderia ter tido. Foste tudo o que sonhei no dia em que desejei um mano. E foste muito mais do que isso tudo.

Já uma vez to disse e agora repito: a palavra “irmã” faz sentido porque tu existes.

Parabéns, mana. Do fundo mais honesto e genuíno que o teu irmão encontra em si emana este voto, assim, cristalizado nesta palavra “parabéns”.

Gosto muito de ti e quero ver-te viver até que a Parca corte a corda. E peço à Parca que corte a minha primeiro!

Beijo, mano.


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Dia de Todos os Santos

Querida mana,

por mais complexos que possamos parecer ou queiramos assumir, a verdade é que, nós, os humanos, somos seres de síntese. Senão vejamos, há dias para este santo, para aquele santo, para algumas santas e há, depois, o dia de todos os santos. E, em síntese, colocamos os santos todos num mesmo saco que é o saco para onde vão os que se não destacaram por nada a não ser terem tido a coragem de atravessar o tenebroso rio.

Estava aqui a pensar nisto, donde se infere que sou um tipo esquisito, quando me lembrei que o pai, o avô Velez, a avó Ana, o avô Francisco, a avó Lectícia, a Mimi e mais uns quantos humanos que nos preencheram as vidas da juventude já são santos. O que não deixa de ser curioso porque entre estes admiráveis santos havia alguns que celebravam o dia com particular interesse.

Para nós tudo se resumia a um ritual que começava numa visita ao cemitério e terminava entre febras grelhadas na brasa e castanhas assadas nos pinhais de Santa Quitéria com fumos intensos de café de borra aquecido no lume perfumado das carumas.

Só hoje, à distância inultrapassável de umas quantas partidas definitivas, eu percebo o sentido dos rituais porque lhes sinto a falta. A verdade, mana, é que nada pode ser vivido antes do tempo. E é por isso que o dia de todos os santos teve uma altura em que era uma festa e tem, agora, um tempo em que é uma celebração. A celebração dos meus santinhos.

A celebração da dedicação com que o nosso pai nos conduzia até ao local perfeito, a celebração da sua voz moderadamente entusiasmada falando da feira e observando os seus pormenores de vida, a celebração da agitação genuína da Mimi, a celebração da insubstituível falta que me fazem os humanos, que, por serem os meus eleitos, são os meus santinhos, por mim beatificados e canonizados no altar da gratidão, do reconhecimento, do amor nascido de uma vida partilhada.

Se outras razões não houvesse, se outros santos o não justificassem, todos os meus santos de amar justificaram a noite de festa e febras e castanhas e água pé e vozes iluminadas pela companhia e pelo sentir que estamos vivos entre os vivos e, por isso, em condições de celebrar os vivos entre os mortos.

E foi assim que celebrei os meus santinhos, entre amigos, com todos os ingredientes, excepto o frio que muita falta fez por ser catalizador de conversas e por permitir aquele gesto que é uma pessoa agarrar numa chávena de café quente, encolher os ombros dentro da roupa e soprar o bafo à medida que vai comentado “está frio, não está?”…

Beijo,
mano.


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Operação Ilegal: putos de hoje, aulas de ontem!

Olá mana,
há já uns anos que escrevi um estudo que continha esta rábula que agora te envio. Sempre me pediram que a divulgasse e nunca aconteceu. Hoje, lembrei-me dela e cá vai. Só a rábula, o estudo envio a quem o solicitar.
Beijo,
mano
OPERAÇÃO ILEGAL
[putos d’hoje, aulas d’ontem]
08:29:00 – vinte e quatro jovens educados e compostos, calças vincadas, cabelos alinhados em silêncio respeitoso, de um respeito muito feito de temor aguardam, pacientes, o mestre.
08:29:30 – ao fundo do corredor surge o senhor professor. Alguns endireitam um pouco mais as costas, colocam expressões ainda mais respeitosas e o silêncio agora é total. Alguém importante vai passar.
08:30:00 – a aula, começa. O mestre usa um fato riscado de fazenda. Uma camisa branca e um gravata sóbria completam o ambiente de plena sobriedade que envolve o espaço. O mestre tem uma mala preta de cabedal. Todos os seus haveres estão metodicamente organizados e são só os suficientes, nem demais, nem de menos. O mestre expõe. O silêncio entrou na sala com os demais e veio para ficar. Ninguém tem dúvidas, ninguém ousa.
08:50:00 – paremos, por magia ou facilidade da escrita, a aula neste momento. Das cinco filas de seis carteiras vamos pousar o olhar sobre a terceira carteira da fila do meio. Ao lado de um figurante anónimo para esta história está o João (perdoem-me a originalidade no nome!). Que vê o João?

– De onde está, o João vê a nuca do colega da frente erguer-se alva e ligeiramente inclinada sobre o escuro da fazenda do fato e, quando este se baixa, vê também a nuca do primeiro colega (primeiro em tudo, a localização geográfica no espaço da sala é sintomática, o que faz do nosso-joão-olhos-do-passado-com-funções-de-máquina-do-tempo um aluno mediano!). À sua direita vê, em visão periférica porque levantar muitos olhos, mostrar curiosidade, pode ser mal interpretado, as sombras das costas dos fatos escuros dos colegas. À sua esquerda mantém-se a monotonia simétrica do panorama. Ao fundo, em boca de cena, sobre o estrado, mais alto do que realmente é, está o mestre. Junto à secretária, não encostado a ela. Sóbrio. A secretária tem um aspecto sólido e por detrás um cadeirão. Na parede um Cristo ainda na cruz. Para a direita abre-se a imensidão negra do quadro. Chegar ali só por razões muito boas ou muito más. Mais à direita, ainda ao fundo, chegando ao canto oposto ao do professor um armário médio que guarda paralelepípedos entre outras coisas abafadas pelo pó e, menos poeirenta, a menina de cinco olhos. Por cima deste, uma foto em tons de cinzento e negro do Senhor Presidente do Conselho a quem Portugal está agradecido.
O João não vê mais nada além disto a não ser o seu material geometricamente disposto e organizado sobre o tampo impecável da mesa. Para ele, isto não é bom nem mau. É assim!

Meio século depois: sejamos francos, não mudámos tanto assim!
Adicionamos umas cores e uns sons à paisagem, somamos uma atitude mais ligeira aos intervenientes, trocamos alguns adereços e a essência mantém-se. As nucas e as costas dos da frente, carteira à esquerda, armário à direita, professor sóbrio pela frente, quadro negro, por vezes irritantemente verde, ainda muitos estrados e o professor expõe. Se tivéssemos mantido o João adormecido na sua sala e o acordássemos agora, estranharia pouco! MAS… mantenhamo-lo adormecido e vejamos como é este João de hoje que ocupa aquele mesmo lugar sem suspeitas da anterior presença de um homónimo.
No pulso, um Casio electrónico com lcd luminoso e não sei quantas teclas com quantas funções. Na sala de jantar tem uma mesinha com um suporte onde estão seis comandos a distância: tv, vídeo, vídeo para gravações, dvd, aparelhagem e ar condicionado. Depois dos Pokemons vai à net e tudo é colorido, tem movimento, cintila, é chamativo e responde.
– O trabalho de História? Fiz uma busca no Alta Vista e já ‘tá!
– Aquela coisa complicada para filosofia? Fui à diciopédia!
Regressa à sala e vai-se aos vídeos sobre vida animal. Hoje não teve tempo para a consola.
Na mesa-de-cabeceira um rádio despertador a despertar a horas diferentes em dias diferentes de acordo com as actividades e horários. Um painel lcd para dominar no micro-ondas antes do leite matinal. Entretanto, antes de sair vai imprimir um teste à mãe, faz dois resets e reinstala a impressora. Demora 15 minutos. Tem sucesso. Vê o pai digitar o número do alarme antes de saírem para o carro que o pai abre com um comando incorporado na chave. O computador de bordo avisa: CUIDADO CARBURANTE. Enquanto o pai conduz rapa do telemóvel, joga dois joguinhos da serpente e vê as mensagens visuais porno-obscenas que o pai importou à socapa da net na noite anterior. Muda-lhe o toque para chatear e quando chega à aula vai ocupar o lugar sombra do João que lá deixámos há cinquenta anos:
OPERAÇÃO ILEGAL!
Puto d’hoje, aula d’ontem!


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Corre louco

a85ed-passada

Corre louco

Corre louco e fugidio
Por ruas estreitas,
Fintando o casario
E levantando as saias às mulheres descuidadas.

Deixa para trás,
Em rodopio,
A cabeça dos homens
E o sussurrar do mulherio.
E foge, louco, às perseguições,
Sem querer saber de amizades,
Amores ou paixões.

Há no seu passar
Um pressentir de vertigem,
Uma alegria, Um medo,
Um arrepio!

Corre e passa e há quem o veja,
ou jure que o viu,
Mas não se avista nunca de onde partiu.

E segue indeferente
À vida e à morte,
Às mães e aos pais,
Aos filhos e às filhas,
percorre as terras todas,
As montanhas, os vales
E as ilhas!

E não há notícia da sua captura,
Nem em frasco, nem em saco,
Nem em câmara escura.

Quem o vir,
Deixe-o passar.
Deixe-o ir.
E recolha a lição
Que a missão
Do Tempo
É fugir!

jpv


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E quem liga o acordo ortográfico ao "productor"?

Querida mana,

quando uma manhã de sábado acorda brilhante e quente não há como resistir: sair de casa é a única solução. Um destes sábados, a manhã levantou-me da cama a ameaçar que se aí ficasse perdria um excelente dia.
Entre a pasta dos dentes, o pequeno-almoço e o entrar para o carro a coisa foi breve e lá partimos os três à descoberta dos recantos deste país que ainda são portugueses. Algures numa curva à esquerda, em plano inclinado, dou de caras com um letreiro todo janota, com uns cachos de uva pintados e cuja inscrição assim rezava: VINHO DO PRODUCTOR.
Aquele intrometido C atrás do T fez-me parar o carro e tirar uma foto, primeiro, depois começou a estorvar-me a tranquilidade da alma.
Não sei se te lembras, mas acredito que sim, aos sábados, a nossa mãe, antes de sair de casa para o trabalho, deixava sempre uma imensa lista de tarefas para cumprirmos quando acordássemos. Sempre achei, de resto, que era um contra-senso deixar-nos a dormir porque, se o fizéssemos, não tínhamos tempo para as tarefas todas e era o cabo dos trabalhos, ou não, consoante o humor. Nesses bilhetes, relembro com carinho alguns pormenores de escrita sendo que um sempre me ficou mais vivo na memória e me levou mesmo a interrogar alguns professores: “Ó setôr, como é que se escreve coêlho? É com acento não é?” E andei procurando pela juventude fora um professor que me dissesse que a mãe tinha razão, que ela é que escrevia bem. A razão desta procura é simples. A mãe era tão perfeita em tudo que eu não queria que ela falhasse na palavra coelho!? Nunca consegui essa tranquilidade até ao dia em que encontrei o PRODUCTOR.

Eu percebo o que se pretende com o acordo ortográfico. Unir povos. Unificar culturas. homogeneizar a grande diáspora portuguesa. Tudo isso está muito certo mas penso, por vezes, se não será inglório tentar homogeneizar o que não é homogeneizável. Eu vejo a Língua como um organismo vivo e percebo, por isso, que tem de evoluir mas não acredito que essa evolução deva ou possa ser artificial. Uma tal evolução deve seguir e respeitar o uso que os falantes fazem da Língua. E a verdade é que se os nossos irmãos brasileiros dizem fato em vez de facto ou diretor em vez de director e assim o escrevem, então devem ter liberdade para o fazer. Tal liberdade contudo não deve fazer tábua rasa de uma maior proximidade que nós, falantes do português de Portugal, temos em relação à origem desta nossa maravilhosa Língua: a cultura greco-romana.

Uma proximidade assim aduz um argumento que parecendo frágil pode revelar-se determinante: os nossos falantes quando dizem facto ou director sentem o C. É verdade mana, há sons que se sentem e outros que só se pressentem mas estão lá. Talvez não seja por isso que a mãe escrevia coêlho mas é de certo por isso que o produtor escreveu PRODUCTOR!

Sem querer aborrecer-te, ainda avanço um esclarecimento: produtor emana do verbo latino produco que tem o supino productum onde está o tal C. Quem escreveu o letreiro não conhecia estas minudências da etimologia mas sentiu o C! E isso é que é importante!

Eu penso, mana, que este acordo vai descaracterizar a Língua Portuguesa continental, penso que vai desbaratar uma importante herança cultural e penso, também, que causará o caos entre os aprendentes mais jovens. E é por isso que não concordo com ele.

Depois e não menos importante, se a mãe até há pouco tempo ainda escrevia coêlho e o senhor das vinhas ainda escreve PRODUCTOR, porque é que eu tenho de tirar o C ao facto?

A Língua há-de evoluir, como sempre aconteceu, mas essa evolução tem de ser determinada pelos falantes, os falantes é que são os soberanos da Língua! O que está a contecer é, a meu ver, a introdução espúria de alterações à regra que não respeitam a norma, é um processo artificial e o que é artificial, a humana mente costuma rejeitar. Já para não falar de outras motivações e complicações como, por exemplo, perceber critérios comerciais a antecipar os culturais.
E pergunto, se o acordo ortográfico é para ligar, unir, unificar, como é que se liga o productor ao acordo ortográfico?
Lembrei-me, a propósito disto, de um arrozinho de coêlho que a mãe costumava fazer…

Beijo,
mano.