Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXX)

Noite Fria (XXX)

Tem a humana natureza particularidades que vamos assinalando por interesse e curiosidade ao longo desta estória. Uma delas, que agora nos ocorre, tem a ver com atribuirmos tempo errados a acontecimentos e fenómenos, assumindo uma soma e não descontando os intervalos. Como vai o discurso complexo, sente o autor necessidade de exemplificar. Por exemplo, pode uma pessoa dizer Demorei três meses a ler este livro, quando, na verdade, terá demorado umas noventa e seis horas que não são mais do que quatro dias. Acontece isto porque aquele livro andou fazendo parte das suas vivências ao longo dos três meses mas muitas horas foram passadas no banco de trás do carro, debaixo do braço, em cima da mesa-de-cabeceira, adormecido no sofá da sala, dentro de uma pasta. O importante foi a centralidade que teve na nossa vida e não o tempo efectivo que estivemos folheando e saboreando o folhear, amando as personagens, repreendendo-as, rindo com elas e com elas chorando e despedindo-nos no fim, umas vezes com saudade, outras, com alívio, outras ainda, com indiferença. Vem isto a propósito do último dia em que os amantes das palavras, com as palavras, pelas palavras estiveram juntos no jardim. Ela, porque o não podia ter inteiro, retalhado e dividido o não quis que não se retalha o amor. E disse o que tinha a dizer que era o que lhe ia na razão porque no coração outras razões moravam. E deixou-o entregue às suas opções sentado num banco de jardim enquanto se afastava chorando. Foram essas lágrimas que, como o livro do exemplo, lhe andaram bailando nos olhos e escorrendo pela face noites seguidas, dias inteiros, meses a fio. Descontando os referidos intervalos. Os das lágrimas que o sofrer, esse, não conseguiu ela intervalá-lo. Esta mulher não viveu. Arrastou-se. Sofreu dessa doença maligna a que andam dando nomes complicados e receitando drogas e terapias diversas e a que podiam só chamar de solidão e tratar com partilha e comunhão. E sentiu vezes múltiplas em ocasiões diversas o impulso natural de falar com ele, telefonar-lhe, mas sentiu sempre que isso já fizera uma vez e recordou-se da humilhação por que passara e relembrou-se a si mesma que era agora a vez dele fazer algo se algo quisesse fazer. E conteve-se. E por estas alturas andava ele lutando pela condição de poder tê-la com dignidade reconhecida em papéis. E por isso mesmo, por se querer apresentar livre e pronto para a amar, não lhe foi dizendo nada também. E assim se mata um amor. Não amando. Sim, que amar não é gostar e calar. Um amor silenciado é um amor que não viu a luz do dia nem dos olhos de quem se ama. Como diz a canção: Silence like a cancer grows. E cresceu. E foi emudecendo um amor que havia gritado bem alto a sua vontade de existir. E os olhos dela que andavam fechados para o mundo, porque o mundo se não arreda de onde está, foram-se reabrindo lentamente para ele. Primeiro, não querendo ver, depois, espreitando e finalmente olhando de novo a vida a ser vivida.

Acontece, pois, outra particularidade que andamos observando no comportamento dos humanos que é conseguirem adiar as coisas importantes e os importantes gestos e viverem presos dos pequenos, incapazes de os adiar. Adia-se a solidariedade. Não se adia uma reunião importantíssima de condóminos. Adia-se a educação. Não se adia a inadiável visita ao centro comercial. Adia-se o pensar. Não se adia o comer. Adia-se o ser. Não se adia o existir. E foi por via de um inadiável pequeno-almoço que ela entrou na pastelaria. Daquelas tradicionais, com o balcão envidraçado de forma arredondada, máquina de café com dourados, mesas diversas, empregadas com uma bata às risquinhas verticais brancas e cor-de-rosa e um enorme vidro com três mesinhas de dois lugares a permitir uma bica e um pastel de nata acompanhados da luz e da vista para o passar urbano das gentes. Nenhuma das três mesas estava ocupada, tão jovem era o dia e fresca a manhã. Ela sentou-se na mesinha mais distante da porta e nem sequer foi para evitar o frio do abre-e-fecha. Foi só para distanciar-se um pouco mais de qualquer encontro com um conhecido que estivesse obrigada a cumprimentar. E aconteceu o que tantas vezes acontece mas nem sempre com as repercussões que aqui relataremos. Entraram mais pessoas, já ela estava no fim da meia torrada e com o galão ao fim a chegar. E foram ocupando as mesas e as cadeiras que, em falindo os outros negócios todos, este do comer e do beber, por pouco que renda, sempre há-de resistir dada a sua natureza. E entrou também um homem com calças de bombazine, uma camisa de flanela mal passada e um casaco castanho de sebo, assim chamado. Transportava um ar dócil e o corpo curvado para a frente como quem carrega os problemas todos do mundo às costas. E mesmo que não sejam todos os do mundo, pode ser que sejam só os seus mas estarem esses a pesar-lhe demasiado. E pediu ele ao balcão a bica e o pastel de nata a que nos referimos há pouco. Pagou. Pegou na bica pelo pires com uma mão e com a outra trazia o pastel de nata num pratinho igual. Procurou com o olhar uma das três mesinhas junto ao imenso vidro transparente e curioso. Pareceu mesmo olhar um pouco mais para a mesinha mais distante da porta. Estavam todas ocupadas. Levantou o queixo observando toda a sala mas os lugares estavam tomados. Fez o que é natural fazer-se nestas circunstâncias. Voltou-se para o balcão a quem planeava devolver os pires e comer de pé. Ia a meio da rotação de regresso quando ouviu uma voz feminina de tom suave e doce:
– Sente-se aqui.
Ele não imaginou que fosse para si que falavam mas olhou, como olhamos sempre que se fala num tom acima do burburinho do espaço em que estamos, na direcção da voz e reparou com agrado que era consigo que a mulher bonita e triste falava.
– Sim, sente-se aqui. Eu só ocupo uma cadeira.
– Calculei que esperasse alguém.
– Não espero. Há muito que deixei de esperar. Só não sabia. Na minha vida há muito tempo que não entra ninguém nem creio que volte a entrar.
Enganou-se ela porque tinha acabado de acontecer o contrário das palavras que proferira e ainda pairavam no ar denso da pastelaria.
– Peço desculpa. Eu não quero incomodá-la.
– Quem lhe pede desculpa sou eu. Primeiro ofereço-lhe um lugar na minha mesa e depois destilo as minhas desavenças com a vida. Sente-se. Esta mesa é a melhor.
– Pois é, costumo sentar-me aqui. Gosto dos cantinhos. São mais acolhedores.
– Exactamente. Recomecemos. Bom dia! Quer fazer-me companhia? Tenho um lugar vago nesta mesa.
– É muito gentil da sua parte, a oferta. Vou aceitá-la. Muito bom dia! O meu nome é José António.


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Calma, calma, é já a seguir!

Caros leitores,
muitos de vós têm enviado mensagens de correio electrónico a perguntar quando é que publico o capítulo seguinte de “Estórias ao Acaso: Noite Fria” e se, eventualmente, já teria acabado a narrativa.

Por partes.
Não acabou ainda. Estamos na fase final mas ainda com algumas surpresas que incluem, por exemplo, personagens novas!!! Acontece que a vida pessoal e, sobretudo, a profissional deste autor tem estado muito atarefada neste arranque de ano civil e segundo período lectivo o que dificulta o processo de escrita que requer imensa concentração. Por outro lado, o atraso também se deve ao esforço extra que exige o “atar das pontas” no final da narrativa para tudo bater certinho…

Digamos que, nas próximas 48 horas surge o próximo capítulo.

Aproveito para agradecer todas as mensagens de motivação e incentivo que me vão dando por mail ou pessoalmente.

Um abraço e um excelente 2010… com tudo de bom incluindo muitas leituras.

João Paulo Videira


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Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXIX)

Noite Fria (XXIX)

Há coisas que vêm de dentro. Há estados de alma que nos habitam e contaminam o que nos circunda. O dia é de sol enfeitado por uma brisa suave. Não fosse o calendário ser de dias curtos e frios e julgaríamos estar na Primavera. Mas este dia poderia ser de chuva miúda, de águas torrenciais, de ventos ciclónicos, granizo, neve, cinzento e sombrio ou qualquer outra manifestação climatérica que a Natureza decidisse que, à volta de Maria de Fátima, haveria sempre luz e sol e brilho.

Saíu há pouco do hotel e ainda sente o toque do rapaz musculado na sua carne, ainda ouve o seu murmurar sensual, ainda sente a sua respiração junto ao pescoço e, contudo, já o esqueceu. Caminha feliz e inconsciente pela rua. Está entregue só a si, às suas opções e aos seus caprichos e vive confortável com isso. É estranha esta felicidade de quem se limita a vivê-la sem saber de onde vem e porque vem. Ou a única. Cremos mesmo que, no momento em que soubesse por que era feliz, Maria de Fátima deixaria de sê-lo. Reside na espontaneidade do que sente não interrogado nem perscrutado pela consciência este caminhar ditoso pela rua. Há no rosto de Maria de Fátima uma alegria específica e definida. A alegria da liberdade que veio até si. Maria de Fátima conhece bem o seu corpo e os desejos dele e, mais do que isso, sabe como satisfazê-lo. Assume a sua condição e vive a verdade dela. Em si nunca haverá uma luta entre o corpo e a mente porque estará esta sempre servindo aquele. Sem remorsos. As suas opções são simples. Usufrui da vida como ela se lhe apresenta e afasta o complexo de si como quem afasta um mau presságio.

As mentes mais elaboradas e a habituadas a esquadrinhar no comportamento humano os pecados e os castigos para eles, distantes, por natureza, da matriz de Maria de Fátima, encontram-lhe com facilidade o vício e a imoralidade triunfando sobre o caminho difícil da virtude moral. Acontece, porém, que não haverá, nunca, culpa nem imoralidade onde vive a inconsciência e a inocência. Esta mulher é promíscua mas não o sabe. Apenas conhece de si que é como é, que gosta do que gosta, que vive como sabe. Essa é a sua verdade e a sua religião e vive de acordo com elas. Se há crime nesta mulher, não pode haver castigo para ele porque é um crime sem culpa. Maria de Fátima tem a coragem dos seus defeitos e das suas virtudes e é genuína nos seus gestos. Teve a força e a clarividência de mostrar a José António que a sua vida em conjunto não era o caminho de nenhum dos dois. Mostrou-lhe o dele e assumiu o seu. Decidiu bem porque decidiu abraçar a vida em harmonia com a sua natureza.

Maria de Fátima tinha um compromisso. Foi com os filhos ao cinema. Eram desenhos animados, pipocas e coca-cola. Foi a tarde perfeita para as crianças e a mãe delas. Hoje é dia de jantarem os miúdos com José António. Maria de Fátima entrega-os ao pai ao fim da tarde, sem rancor, cumprindo o estipulado e depois irá jantar com um amigo. Não sabe no que dará a noite mas não perde tempo a pensar nisso. Será o que for. Dará o que der. Não teme nem hesita. A vida é bela, é única, é sua e está só à espera de ser vivida…

Quando Maria de Fátima mergulha na noite, pode ser a mais inconsciente das criaturas que a habitam mas é também a mais segura.


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Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXVIII)

Noite Fria (XXVIII)

Uma cama de hotel digno mas sem luxos. Um utilitário. Lençóis brancos. Ar aquecido. Roupa masculina e feminina serpenteando o chão e os móveis deixando-nos saber que a entrada no quarto fora arfada e fugosa. Um corpo viril e suado, com claros sinais de estar em boa forma adquirida no ginásio está deitado na cama com as mãos presas à cabeceira com um par de algemas. O rapaz geme de prazer como se quisesse conter a explosão que vai seguir-se mas não fosse capaz. Em cima de si balança-se, em ritmo certo e crescente, um corpo feminino esguio e, contudo, sólido. Está encaixada no sexo erecto dele, projecta para a frente um braço e assenta a mão no peito dele e deixa para trás o outro braço cuja mão assenta numa coxa musculada do jovem suado. E movimenta-se em cima dele provocando e esperando a alegria da explosão quente que acolherá dentro de si.

O que tinha de acontecer, aconteceu e ela tomba a cabeça para trás e fica saboreando o momento de prazer. Maria de Fátima está saciada e tem um compromisso. Levanta-se devagar e deixa o seu jovem musculado companheiro algemado à cama.
– Não vais deixar-me aqui, pois não?
– Por acaso vou.
– ‘Tás maluca?!
– Calma, não é para sempre. É só enquanto tomo um duche.
– Tu és louca?!
– Não. Apenas não quero que me agarres com as tuas tentadoras mãos porque tenho de estar a horas noutro local…

O duche foi rápido. Cumpriu a higiénica função e mais não lhe foi exigido. Maria de Fátima vem saindo da casa-de-banho envolta numa toalha branca justa ao corpo, presa por cima dos seios, realçando-lhe as formas e sacode os cabelos molhados com uma mão enquanto agita a cabeça. O rapaz está dormitando na letargia que sempre ataca quem acabou de dar o suor e o sémen. O corpo escorregou e estendeu-se totalmente e os braços ficaram pendurados das algemas. Ela veste-se, rápida. Não veste as cuecas pretas e deposita-lhas no ventre. Como que a não querer entranhar-se do suor dele, beija-o na testa e abre-lhe as algemas. Ele pressente-a e pergunta:
– Amas-me?
– Amo. Muito.

Sai do quarto composta, fecha a porta nas suas costas, ergue os ombros e olha a vida em frente e quando começa a atravessar o corredor em direcção ao elevador diz alto para poder ouvir-se a si própria:
– A ti, e a todos os outros!


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Homenagem

Aqui se interrompe a narração de “Estórias ao Acaso: Noite Fria” para, em palavras breves, se prestar uma singela e sentida homenagem.Faz hoje onze anos que morreu um homem que faria amanhã 76 anos.
Foi o mais extraordinário homem que conheci até hoje. Na sensibilidade, na honestidade, na educação e no respeito pelo próximo. No amor pela sua família. Na arte com que criou os filhos e os ensinou a superar as dificuldades da vida.

Obrigado Pai.
És insubstituível e viverás para sempre na nossa memória e nos nossos corações.

O teu rapaz.


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Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXVII)

Noite Fria (XXVII)

A casa onde mora o desiludido amante das palavras, com as palavras, pelas palavras, está impecavelmente arrumada. Como se este homem estivesse à espera de alguém para jantar. A sala onde o vemos agora junto a uma janela contemplando o exterior tem um aspecto austero. Móveis, só os necessários. Objectos em cima deles, ainda menos do que isso e os que se vêem estão organizados como se houvesse uma ordem geométrica a presidir à sua disposição. A noite cai fria e, se há um convidado esta noite, não deve estar atrasado porque não dá este homem quaisquer sinais de impaciência ou, sequer, de uma espera mais sofrida. Está de pé, olhando a rua com as mãos atrás das costas. Está só. Por fora e por dentro. Sente a solidão profunda de quem caminhou um caminho sozinho e não encontrou o que procurava. Só um beco sem saída. Só o desengano. Só o desespero. O desespero de quem se perde para a vida sem, ao menos, ter a desculpa de ter sido enganado no percurso a seguir. Nada disso. Cada passada fora dada com a força das suas convicções, com a fé e o crer de quem ama e crê que é amado. E deixou um rasto de sofrimento e erros que o envergonham. Como pôde enganar-se daquela forma? Desperdiçou uma família em busca de uma quimera e quando lá chegou não encontrou uma nem outra. Só o desespero e a solidão dos seus erros. Só uma vida errada. Percebe, agora, a sua ambição, o excesso dela. Percebe agora que desafiou os deuses mais do que poderia suportar. Quis mais, além do muito que tinha ainda que não se apercebesse o quanto esse muito significava. Quis viver duas vidas no espaço de uma. Quis poder o que os homens não podem. E foi amado. Pelos filhos. Pela mulher. Por ela. Mas à vida, não nos cabe controlá-la. Só vivê-la. Uma vez. E o seu excesso, a sua “hybris” fora castigada. E sabe que não se assumem responsabilidades só porque alguém diz Eu assumo as responsabilidades. Assumem-se quando alguém paga o preço dos seus actos e sofre as consequências deles. Não conhece este homem o preço a pagar pela família que destruíu mas descobri-lo-á em si.

A neblina que há uns dias lhe toldava o olhar e o pensamento foi-se desvanecendo aos poucos e na medida exacta da compreensão dos seus actos e da amplitude das consequências deles. Está tranquilo e tem no olhar essa calma e essa serenidade que invadem os homens que encontraram em si a solução para os problemas por si causados. Já não é tempo de tragédia que tragédia foi o desmoronar das vidas que o rodeavam. Já não é tempo de sentir-se encurralado nem envergonhado porque encontrou, já, a saída e a forma de resgatar a sua honra e a sua dignidade.

Volta as costas à janela por onde olhava a rua sem a ver, só para entreter a vista enquanto pensava, e dirige-se para este sofá de um lugar só. É aqui que costuma ler. É aqui que costuma entregar-se ao pensamento e à televisão, agora desligada, e é aqui que tantas vezes costuma adormecer. Enterra-se no sofá e deixa-se absorver pelo seu conforto como se nada mais houvesse na vida que valesse a pena ser vivido.

A convidada da noite entrou na casa. Veio silenciosa e fria. Não necessitou bater à porta nem que lha abrissem e não quis ser apresentada. Nem precisava. A esta casa não veio porque assim o tivesse decidido. Veio porque fora convidada.

Este homem que aqui vemos enterrado no seu sofá, no universo da sua sala e da sua intimidade tem um braço sobre o colo e o outro descaído e abandonado para fora da poltrona. Adormeceu, já, pela última vez e dentro de momentos estará frio.

Ao lado do sofá confortável está uma mesinha de chá e em cima dela um frasco de comprimidos vazio do seu conteúdo. O frasco não está tombado, nem há comprimidos derramados o que pode induzir leituras diversas sendo a mais segura a convicção dos gestos de quem os praticou. Aqui há-de chegar um homem diplomado de médico e há-de escrever o óbito e a causa dele. E aí figurará a morte causada por ingestão indevida e excessiva de um químico não prescrito e cuja identificação em nada acrescenta a esta estória. Nada mais errado que andamos nós, pequenos humanos, atribuindo aos instrumentos as causas sendo estas de outra ordem. Mais certo estaria o médico que escrevesse no óbito Este homem morreu de amar e não ser amado, morreu de desgosto pungente, agonizou em desespero e vergonha pelos seus actos. Mas vemos isto, sabemos isto e continuamos a dizer que a causa da morte foram os comprimidos, o veneno, o laço na corda, no cinto, a ponta da faca, o comboio que passava… e teimamos no erro e sempre que o fazemos perdemos uma oportunidade de tentar perceber onde radica a causa. Que solidão é esta que nos traz morrendo a vida mergulhados em desespero?!

Os serviços fúnebres terminaram há momentos. O cemitério encontra-se quase deserto de lágrimas e sussuros. Restam alguns amigos mais íntimos que vão encolhendo os ombros, enfiando as mãos nos bolsos das calças e afastando-se lentamente do local onde o deixaram, só, para a eternidade. Outros abanam as cabeças em sinal negativo como que dizendo que não à inevitabilidade da morte. Junto à sepultura recente restam duas silhuetas femininas, de negro vestidas. Uma mulher informou outra e as duas estiveram presentes e aqui estão olhando o chão. Não se falaram que nada havia para dizer. Vieram ambas retribuir crisântemos. Flores que ele oferecia para as fazer sorrir e que agora marcam a sua despedida em silêncio. Tem este estranho poder a morte que é o de separar os mortos dos vivos e unir os vivos aos vivos. É como se o seu peso e a sua força exigisse que sejamos mais do que a nossa individualidade para podermos enfrentá-la.

Lá fora, José António espera no carro e quando ela chega e entra na viatura, ele faz-lhe uma festa terna na face e beija-a suavemente nos lábios.

– Gostavas muito deste teu amigo…
– Muito! Mesmo muito. Posso mesmo dizer que foi mais do que um amigo.


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Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXVI)

Noite Fria (XXVI)

É interessante como o mundo à nossa volta nunca é o que é mas somente como o vemos. Todas as vivências, todas as manhãs, todas as tardes e as noites todas, todas as paisagens, sejam rurais ou urbanas sejam, todas as gentes que passam e ficam, todos os edifícios, todas as árvores, o sol todo e toda a chuva, as ruas todas, os caminhos todos, os veículos e os animais todos não são, nunca, o que são. São sempre como os vemos. E vemo-los sempre como estamos vivendo, filtrados pelo olhar que temos nesse dia, nessa hora, nesse momento exacto.

Este homem que aqui vemos está cego. Não vê. Olha, mas não vê. Tem um telemóvel na mão. Os braços estão caídos. Ficou olhando o mesmo ponto inexacto que estava fitando enquanto falava ao telefone e não mais tirou de lá os olhos. Não que não queira. Só não consegue. E ficou, assim, inerte, olhando o vazio, mudo e quieto no meio da cidade que passa por si, que rodopia à sua volta. Ficou entre as vozes e os ruídos e as buzinas e as sirenes das ambulâncias que passam como se lá estivesse só o corpo vazio de si que o resto não sabemos nós nem o próprio onde pára.

Há pessoas estudadas, com muitos anos de livros complexos repletos de gravuras legendadas que chamariam a este estado de choque. Não lhe chamaremos nós nada que não temos competência para tanto mas aspectos há em que somos os únicos habilitados a prestar informação qualificada. Sabemos, por exemplo, que estranhou ele os traseuntes olhando-o como se tivesse algo de errado. E tinha. E talvez por isso iniciou-se em si o despertar. Tão célere quanto doloroso. Vai despertando e os sons vão entrando em si e começa a reposicionar-se no universo. Onde está, como está, porque está. E, em simultâneo, é assaltado pela consciencialização do que acaba de acontecer-lhe. Cai em si. Reconhece, num vortex de sofrimento e incredulidade, a loucura que cometeu, a porta da desgraça que abriu. Como fora igénuo e, pior, muito pior, incauto. Interroga-se porque não a interrompeu, Que dizes tu? Estou livre para ser teu. Quero que sejas minha. Abandonei uma mulher que me ama e amo, um par de filhos, uma vida… tudo por ti e agora dizes-me que tens um companheiro tranquilo? Onde estão as tuas promessas de amor? Mas não disse nada e agora percebe as razões. Foi uma inacção que se apoderou de si porque fora apanhado de surpresa, porque não se espera da pessoa a quem se entrega a vida que nos diga que não a quer mais. É como se não tivesse acreditado no que ouvia. E foi um respeito e uma dignidade. Não se discute nem regateia a liberdade de outrém fazer as suas opções e escolher os seus caminhos quando vimos de fazer o mesmo. Não se determina para os outros a liberdade que se reclama para nós: a de amar.

Em meio desde acordar para a dor, em meio deste sofrimento profundo que ainda não percebe bem, só sente, cujas consequências ainda não consegue perceber, perguntou-se quem seria aquele José António tranquilo e dedicado que a fazia feliz e o matava a si por dentro, lhe destruía a vida sem saber… E como quase acontece sempre que perguntamos algo, este homem já a tinha a resposta consigo. E a resposta que encontrava em si é que não seria importante quem era o dedicado e gentil namorado dela mas quem ele próprio não conseguira ser ou deixara de ser. Não conseguira ser um amante dedicado e exclusivo, não conseguira entregar a sua existência à mulher que lha pedira e sonhara, erradamente, que o poderia fazer. Não conseguira ser um José António gentil e presente e abdicara de ser a única coisa que conseguira ser até ao momento: um marido e um pai. Deixara de ser o que aprendera a ser ao longo de uma vida. E em meio deste ser e não ser perdera as duas vidas. Uma, porque não era sua. A outra porque, sendo sua, a rejeitara.

A trágica ironia da existência oferecera-lhe duas vidas. Cegara-o. E fizera-o perder ambas. E sentia-se agora engolido por uma solidão súbita, uma sensação de estar já pagando o preço da sua imprudência e da sua ambição. E, num momento breve de clarividência, viu-se protagonista da tragédia humana. Uma certeza, ainda envolta na neblina incerta do choque e do pensamento, parecia crescer em si. Havia entrado neste palco pelo seu próprio pé e pela sua própria vontade e teriam de ser a sua própria vontade e o seu próprio pé a tirá-lo dele.


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Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXV)

Noite Fria (XXV)

-Estou sim?
– Boa tarde meu amor!
– Olá, como estás?
– Estou bem, muito bem. Feliz. Sobretudo por estar a falar contigo.
– Bem… estás mesmo satisfeito. Nota-se no que dizes, como dizes. Fico muito feliz por ti. Mas a que se deve tão boa disposição?
– A muitas coisas… mas disso não queria falar já…
– Ah, não foi esse o motivo do teu telefonema?…
– Sim e não.
-Então?
– Sim… e podemos falar disso depois. Não, porque estou a telefonar-te para te convidar para jantarmos juntos. Podíamos escolher um local simpático, até já pensei onde poderia ser, tu conheces-me, sempre a preparar tudo, mas só se concordares, claro. Depois púnhamos a conversa em dia, retomávamos o fio à meada… afinal de contas tínhamos entre nós uma coisa tão bonita, não queria chamar-lhe relação, que foi interrompida de forma um tanto brusca e acho que isso não é justo. Quer dizer, eu compreendo tudo o que sentiste e disseste na altura mas era algo tão bonito e nada como um jantar, já sem ser a quente, com outra calma, para analisarmos a situação, para conversarmos, enfim, reatar alguns laços.
– É muito querido da tua parte o convite mas… sabes… tenho andado com a agenda um tanto preenchida. Quer dizer, entre nós não há essa coisa da agenda mas tenho andado bastante ocupada.
– Como assim?!
– Olha, vou ser honesta e sincera contigo porque sei que farias o mesmo comigo. Eu sofri muito com o que nos aconteceu…
– Claro…
– Sim, deixa-me continuar… e senti-me muito mal com o papel que desempenhei em toda esta situação. Não foi nada agradável para mim e, ao mesmo tempo, imaginei-me do outro lado da situação e não gostaria que mulher alguma me fizesse o mesmo. Não vou dizer que te esqueci. Nada disso. Bem tentei mas as coisas não são assim tão fáceis. Não consegui. Contentei-me com o meu quotidiano tranquilo e silenciosamente sofrido. O tempo foi passando, os meses… Meu Deus, como o tempo voa! Enfim, recentemente conheci um homem que não tem a tua energia, não tem a tua presença mas faz-me sentir muito bem, muito tranquila e, em certos momentos, até me faz sentir feliz. E sei que é meu. Às vezes chamo-lhe meu só para saborear a sensação. As coisas têm corrido bem… … … não dizes nada?
– Fico muito feliz por ti. Como sempre te disse, tu mereces o melhor do mundo. Eu quis dar-to!
– Eu sei. Mas não podes. Repara, tu tens a tua família, sempre tiveste, sempre a adoraste e eu não queria construir a minha felicidade sobre a infelicidade de outrém. Tu sabes… e depois este meu doce namorado é um excelente companheiro e estou certa de que descobriremos os caminhos do amor e do fulgor.
– Como é que ele se chama? Posso saber?
– Podes. Não é que não possas mas estava à espera que me perguntasses outras coisas sobre ele. Bem, eu conto-te na mesma, afinal é o que os amigos fazem uns com os outros… a menos que não queiras saber…
– Claro que quero!
– Cá vai: tem um trabalho humilde, é distribuidor de roupas de uma lavandaria, é muito diligente no trabalho, muito cumpridor. É divorciado. Recentemente divorciado. Sofreu imenso com o processo. Ele gostava imenso da ex-mulher mas não resultou. Acho que temos isso em comum: as feridas. É sereno, tranquilo. Quando falo, ouve-me de facto. É gentil e meigo. Vê lá tu que ainda é daqueles que me puxa a cadeira quando me levanto da mesa.
– Esses estão em extinção!
– Pois estão! E eu encontrei logo dois – tu também me puxavas a cadeira – mas este pode ser meu! Quanto ao que menos importa mas parece interessar-te, chama-se José António.
– Desejo-te muitas felicidades.
– Obrigada. E tu? Como vais? Olha a oferta para o jantar continua de pé? É que podemos jantar na mesma, os amigos jantam juntos, certo? Só que agora talvez não seja a melhor altura…
– Claro que podemos. Eu depois ligo-te. Eu vou indo bem, Senti saudades tuas, só isso.
– Também tenho pensado em ti mas estou a tentar ter uma vida… compreendes?
– Claro que sim. Espero que consigas e sejas feliz.
– O mesmo para ti. Gosto muito de ti.
– Eu também… um beijo.
– Beijo… e dá notícias…
– Darei.


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Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXIV)

Noite Fria (XXIV)

– Porque eu amo outra mulher!

Repetira firme e sincero no dia em que se separara da outra vida e da sua mulher para ganhar o direito a ser plenamente feliz. Sabia, com a ansiedade de uma criança que abre o embrulho para ver o brinquedo, que muito havia ainda a fazer e a viver até poder usufruir da felicidade que está construindo mas tinha esperado o tempo necessário para ganhar esse direito.

Tal como a sua mulher prometera, o processo não tinha sido nada fácil. Sempre dentro dos limites exigíveis da educação e até da cooperação mas lutado e suado cada cêntimo, cada dia com os filhos, cada obrigação e cada direito. Não o moviam as questões financeiras mas a sua mulher, ferida na dignidade e na desilusão de não poder lutar por ele nem pela sua vida, tornara-se exigente e até cruel na forma como disputaram o divórcio.

Por tudo isso, o processo fora longo, demorado e sofrido. Quase um ano passara desde o dia em que decidira cortar com a outa vida e anunciar tal decisão de peito aberto, franco e corajoso à mulher com que tinha vivido uma quase vida. Tudo para ser livre e viver pleno e inteiro de si. O dia dessa libertação chegou.

Sai do tribunal, passa pela colunata, atravessa o átrio exterior e assoma à escadaria imensa onde já vimos assomar outras personagens desta estória num dia de sol tépido. Os dias frios deram lugar aos amenos e estes aos quentes e estes de novo aos frios e hoje, sob uma chuva miúda e gelada, este homem que é amante das palavras pelas palavras com as palavras está livre para ser amante pleno de corpo e alma entregues àquela que o espera. Talvez por isso, talvez por ter-se sacrificado ao silêncio até ao momento em pudesse entregar-se a ela e recebê-la sem culpas nem desculpas nos seus braços, nunca se havia lembrado dela desta forma viva e profunda como a recorda agora, aqui, ao cimo da escadaria do tribunal que se prepara para descer e mergulhar no anonimato da vida.

À medida que vence a escadaria ajudado por todos os santos, sobe o ritmo no seu peito marcado pelo entusiasmo. Já sabe o que vai fazer. Vai entregar-se à mulher que verdadeiramente ama e com ela construir uma vida. A vida. Comove-se e uma lágrima surpreende-lhe a caminhada. Pode bem confundir-se com um pingo de chuva que tenha fintado o chapéu negro e largo, de varetas abertas e ponta metálica espetada para o céu. Não sabe como vai fazer e diverte-se escolhendo a melhor forma, a que lhe der mais prazer, a que a surpreender mais. Terá de ser mágica. Lembrou-se de repetir o jantar interrompido. O mesmo local, os mesmos adereços e um final diferente. Desistiu da ideia por lhe encontrar um vago sabor aziago, um vago pressentimento a desgraça. Pensou telefonar-lhe e contar-lhe tudo e surupreendeu-se sorrindo de si mesmo e da ideia de comunicar a grande viragem, a grande mudança de rumo, por telefone. Liga uma pessoa o aparelho e depois do Estou sim, quem fala? Sou eu. Ah, olá, como vais? Bem e tu? despejar através do metálico do aparelho com eventuais faltas de rede, quebras de bateria e outros inconvenientes que a tecnologia encontra para nos desorientar, as palavras mais importantes da vida de um homem, vem ser minha, já posso ser teu. Vem amar-me às claras, de face erguida perante o mundo sem contas a dar, sem nada a recear, pareceu-lhe pouco apropriado. A importância do momento e do que se lhe seguirá justificavam que fosse dito pelas palavras ao alcance do olhar porque, no dizer das gentes, o olhar não mente. Além disso haveria o tacto, dedos entrelaçados em mãos ávidas de amar. E haveria os perfumes, os jeitos e os trejeitos que o corpo encontra para enfeitar e explicar o que vai meio-dito nas palavras. Nada disso poderia ser feito pelo telefone. Telefonar-lhe-ia, sim, mas para convidá-la para jantar. Descartada a repetição da noite de amor interrompido por lhe parecer a ambiência romântica demasiado pesada e festiva para um jantar que marcava um tempo de silêncio e distância, decidiu-se por algo mais simples, um pouco austero, até. Um espaço e uma refeição que marcassem a tristeza da distância e da ausência que agora terminavam. Um espaço e uma refeição com a sobriedade de quem vem de estar só. E depois, então, revelar-lhe-ia o porquê do seu silêncio, as mudanças que fizera, a libertação da outra vida, a disponibilidade para estarem juntos e unidos num só percurso. O percurso de realizarem o seu amor nos pensamentos, nas palavras e nos actos. Já fizera, mesmo, projectos que lhe apresentaria para se entreterem conversando-os, decidindo-os, vivendo-os. Onde viverem, como viverem, que opções para a casa, para os rituais, para a partilha… seria, para o final da noite, a festa da entrega e da comunhão. Desta vez, por curioso que pareça ao leitor, este homem que aqui vemos a caminho de ser feliz não pensou em sexo. Não pensou na carne tão ocupado estava com as coisas do espírito.

À medida que o recorte imponente do tribunal desaparecia atrás de si e do entusiasmo que levava no peito, foi ficando mais seguro, com o rosto mais aberto e levava consigo, já, a felicidade que queria partilhar com ela. Foi automático o gesto de pegar no telemóvel e digitar o número a que resistira tantas vezes. Agora, contudo, não havia dúvidas que estas cederam o espaço à firmeza de um amor limpo. Alguns toques insuportáveis de chamar e depois, como por magia, a explosão da voz doce dela, do timbre meigo, e um festival de sentimentos dançou no seu peito, bailou no seu olhar e fê-lo acreditar que o mundo era um local bom para se estar. O melhor de todos.

– Estou sim?
– Boa tarde meu amor!


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FELIZ NATAL

Aqui se interrompe a narração de “Estórias ao Acaso: Noite Fria” para desejar a todos os leitores e frequentadores de “Mails para a minha Irmã” um santo e feliz Natal na companhia de amigos e familiares. Aproveito para agradecer todas as mensagens de motivação e incentivo.

Que a Amizade perdure.

“Noite Fria” segue dentro de momentos…

João Paulo Videira