Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Creta 2010 – Diário de Bordo – 1

29/7/2010 – 06:06h. – Aeroporto de Lisboa
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Estar num aeroporto é sempre estranho. Desta vez, ainda mais estranha se tornou a sensação porque fizemos o ceck-in às 5:30h. e quando chegámos à zona comercial de acesso às portas de embarque, estava tudo fechado. Bem, não estava exactamente tudo fechado. O Harrods estava aberto. Juntámos sumo de laranja e café a uma sandes de queijo fresco em pão de cereais. Foi nesse momento que escrevi estas linhas. Estou confortavelmente sentado numa cadeira branca. À minha frente está um sinal dos tempos. Um homem que claramente não é português, a avaliar pelos traços e pela roupa, tem, junto aos despojos do pequeno-almoço, três computadores portáteis! Eu, que fujo agora de tudo isso, percebo a nossa escravidão. Nem come descansado. O trabalho vai consigo para todo o lado. É um escravo do conforto e das condições.
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Aos poucos foi aumentando o ruído. Um restolhar de chávenas e pires. Um copo que se parte, as máquinas que acordam e exalam vapores, as luzes que se acendem, as pessoas que lutam contra a ruína da Babel expressando-se em português com e sem sotaque sul-americano, em inglês, em alemão, em francês, em espanhol. Acorda o monstro do seu sono breve e isto agora já parece um aeroporto. Ainda bem, o embarque é daqui a uma hora.
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Aeroporto de Lisboa – Harrods


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Creta 2010 – Diário de Bordo – Introdução

Depois de alguns anos a pensar no assunto e a fazer umas poupanças, decidimos fazer umas férias em Creta. A ideia era, como sempre tentamos, conjugar o descanso, a paisagem natural e o aspecto cultural.

Nunca pensei escrever nada sobre as férias porque, para mim, seriam uma boas férias mas só mais umas.

Não foram. Tive o pressentimento de que poderiam não ser e, ainda no aeroporto de Lisboa, comecei a escrever um “Diário de Bordo”. Assim ao jeito de quem fotografa com as palavras. Esses textos ficariam para mim e mais nada. Acontece que as férias-visita revelaram-se de tal forma interessantes numa perspectiva cultural, gastronómica, paisagística, e outros que agora não me ocorrem que resolvi publicar aqui os textos antes de começar a postagem dos muitos capítulos que escrevi de “De Negro Vestida”.

Não há nesta publicação nenhuma espécie de vaidade. Há só a intenção de partilhar as coisas que vi e senti, as experiências por que passei. Sempre que as tiver juntarei imagens feitas por nós a acompanhar o texto.

“Gramvousa – Creta”


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Este Blogue vai de Férias

Caros amigos, este blogue vai de férias!

Com a facilidade de meios que hoje existe, seria fácil fazer a manutenção durante as próximas três semanas, acontece que eu também preciso ir de férias, desligar computadores, telemóveis, conversar, dormir, passear, e ler. Ler pelo prazer puro e simples de ler.

Foi um ano intenso. Mails para a minha Irmã evoluiu e afirmou-se, para além dos mails, através da ficção. Como sabem, adoro escrever. Escrevo só porque sim, mas é muito melhor com a vossa companhia, com o vosso incentivo, conselho, crítica. Não somos muitos mas somos assíduos e estamos a crescer. Quando começámos éramos cerca de 20 por dia. Hoje, somos cerca de oitenta e muitas vezes superamos as cem leituras por dia. É motivante.

“De Negro Vestida” terá uma evolução interessante. Está prestes a mudar o rumo da narrativa e, quando tal acontecer, a recuperar uma escrita mais pessoalizada. Aquela que fez com que tantos de vós ficassem leitores do blogue.

E haverá, durante o próximo ano, para além da ficção, novos Mails para a minha Irmã! Está dito, está dito!

Desejo-vos umas boas férias e um bom descanso, sendo caso disso. Não sendo, desejo-vos um bom trabalho.

Até daqui a uns dias.

João Paulo


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De Negro Vestida – XXXII

 

Despertar – VI

Maria de Lurdes regressou à sua mesa no passo mais firme que conseguiu. Ainda não sabe mas o encontro com António Pedro não terminou. Assim que chegar junto das colegas fará um ricochete, um caprichoso arco de bumerangue e regressará à promissora conversa com um sorriso nos lábios.
Que estás aqui a fazer Lurdinhas? Pareceu-nos que a conversa estava agradável ali com o jeitoso do fato azul. E estava, mas seria incapaz de deixar-vos. Afinal de contas este jantar é uma simpatia vossa em minha homenagem. Olha, Lurdinhas, em primeiro lugar, este jantar era para veres gente. Agora que viste, não faz sentido estares aqui. Em segundo lugar, nem compreendemos como é que trocas o jeitoso por nós. Nenhuma de nós hesitaria em fazer a troca ao contrário…

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Momento Feliz – 2

Afinal, o tipo das imperiais também lá estava. Foi preciso a Elsa ter levado a máquina e ter-se lembrado de enviar a foto. Tudo isto depois de termos incomodado um simpático transeunte: “Olhe, facha vôr, importa-se de tirar aqui uma foto?!”

E plim. Já está.


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Momento Feliz

Em cima da esq. p/ a dir.: David, Maria João, Maria José, Cristina, António, Teresa, Isabel, Clara, Belinha e Fátima
Em Baixo da esq. p/ a dir.: Elsa, Dulce, Cristina, Céu, Teresa e Helena.

Quinze educadores, um professor do 1º CEB, um professor do Secundário. Dezasseis formandos e um formador. Três homens e catorze mulheres!

Tardes de Julho em trabalho, em partilha, em cooperação, com dificuldades e com vitórias, com computadores mais “absorventes” que outros mas todos com a mesma energia e a mesma cumplicidade. A de sermos professores e educadores.

Trabalhámos a sério, hesitámos, superámos e no fim fomos ao Canelas aos morfes. Fica a foto de grupo. Com os nomes de todos!!! Só lá falta o “stôr” mas esse tipo ainda devia estar nas imperiais!!!

Um abraço e um obrigado a todos.

João Paulo


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Contos da Casa

Há pouco dias conheci uma educadora de infância, de seu nome Cristina Becho, que transpirava naturalidade e genuinidade. Pareceu-me daquelas pessoas que já não tem idade nem paciência para máscaras, fingimentos ou fretes. Tem uma coragem descarada na forma como encara a vida e o que esta tem para dar-lhe. Na circunstância em que a conheci, numa acção de formação, pareceu-me pessoa de palavras francas e pouco demoradas no apresentar do que pensa ou sente. E, mesmo à portinha da alma, vi-lhe meninos conversadeiros no olhar. Ou me enganava muito, ou aquela pessoa era de boas e longas conversas. Não me enganei.

Soube, pouco depois, que publicara um livro chamado Contos da Casa através da Chiado Editora. Como estava a vendê-los, vicissitudes dos autores do Séc. XXI, decidi comprar-lhe um. E aconteceu-me, então, algo que não me acontecia há muito tempo. Eu sou um leitor demorado, que volta atrás, relê, quer compreender bem e se compraz no deleite da leitura. Por isso mesmo, qualquer livro me leva semanas a terminar. Já não me lembro quando li um livro de um fôlego só. E foi isso que me aconteceu com Contos da Casa. Comecei num conto ao acaso lá para as páginas do meio, “A Louca”, terminei-o. Vim ao início e num fôlego de uma noite e uma madrugada consecutivas li o livro.

Tem uma profundidade no sentir, uma sensibilidade sensorialista, uma vida em voragem vertiginosa de personagens, cenários e situações, tem verdade e é genuíno como genuína me parecera a mulher que o escreveu. A sua escrita não se perde em rendilhados, é fluida, assim como quem vive e ler os contos de Cristina Becho é viver a vida com ela, pela mão dela. E, ao jeito dos contadores de histórias portugueses, tem seus mistérios e suas excentricidades. Tudo na medida certa. Quando terminei tive pena que tivesse acabado. Apetecia-me ficar por ali a viver um bocadinho mais com aquelas personagens, naqueles locais.
Obrigado, Cristina.

João Paulo


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Consequências de não pregamento e visões que não têm nada a ver com Las Vegas

Torres altas erguem-se em Londres Vitoriana que ardeu por três loucos que não a conseguiam ver a fritar em óleo às mãos do bandido da máscara e dos seus capitães, o doente e o cobarde. Pois se é verdade que as cores ácidas brilharam com a intensidade do meteoro de Jack London também é verdade que o bandido da máscara dançou. Dançou como um verdadeiro Deus dos lobos até o seu mestre, o magrinho rápido dos óculos ficar a bater palmas como um louco digno de conspirações e cantores engordurados e velhos. Ele era doente e sabia-o.

“Vírgulas e tentações” disse o Vaidoso que morreu algemado às mãos das suas indecisões e da sua retórica excelente magnífica soberba mais do que qualquer palhaço ou juiz. Mas o Vaidoso sabia, como o louco magrinho rápido dos óculos sabia, e como eu sei, e como sabia o Bonito e o Sátiro, que as torres tinham de arder, tinham de arder e cair até os Vilões das Montanhas do Quadrado decidirem que um lavatório de mármore é de facto algo por que morrer e matar, mais do que pelas galinhas e do que pela senhora Quicas que lá andava a fazer o melhor que podia ainda que o menino mimado e o operário não entendessem que esta senhora era imortal. Esta senhora viveu entre todos os lavatórios de mármore e todas as torres em chamas, e esta senhora viu os juízes sorrirem e os palhaços cantarem e os músicos ficarem invejosos às mãos do dono do macaco que tocava realejo.

Morte das velhas e pulgas saltitantes e desbotados doentes e magros que lêem nas suas águas furtadas estórias de juízes maus e palhaços bons. Este foi o ponto de interrogação que causou o mundo a ver o mundo às cores e não ter em conta que a velha não morre e não morre e não morre por mais que o bandido da máscara mate a sua filha e os pobres que só querem fritar em óleo porque julgam que os vai fazer mais modernos. Malditas pulgas, filhas da puta das pulgas, filhas da mãe, e eu sou uma delas.

A lição que se pode tirar desta história é que as sarjetas são a equação que rege tentações e assassinos quer estejam em desequilíbrio ou no topo do rochedo que está virado para o Mar dos Astronautas, enquanto todos os soldados do mundo sobem aos céus até os Deuses dizerem ” Não queremos mais, estamos fartos, agora vai-me buscar um copo de leite.” Sofrem invejosos como juízes e virtuosos como o sumo da maçã que ditou o futuro do mundo.

Eu tal como o Deus Dançante também pedi um copo de leite enquanto os nós dos meus dedos reluziam com sangue azul, mas eu aprendi a ver-me como o engordurado que juntava as mãos e dizia que não sabia o que fazer.

Ele via-me como algo muito belo que definha enquanto toda a beleza do mundo se esvai perante os seus olhos e todos os loucos reclamam o que é por direito seu e todos os Vilões das Montanhas do Quadrado se apercebem que são os Bebés do espaço e que todos os rolos em que se espalharão as motas do mundo os terão como protagonistas.

Eles sim são os protagonistas e não as pulgas construtoras dos seus tronos, e por mais que berrem nos seus leitos de azul como num sonho de cacos de vidros e uma casa em ruínas que eu tive, eu sei, assim como o Deus bebedor de leite sabe, e o magrinho rápido dos óculos sabia e o poeta loiro que dormia com a assassina receava e o Vaidoso morreu sem saber, que o novo centro de cidade terá às suas cavalitas os seus corações enquanto todos nós ficamos deitados ao pé da máscara amarela e do vaso de Júlio Verne, e todas essas iguarias que um dia apimentaram o meu prato de mármore.

Mas vós não tendes de deixar de pregar o que vos é devido pois o único dever da Londres Vitoriana que tendes de cumprir é de facto pintar o cabelo de roxo e lavar os dentes de galinhas, e gritar sobre as pontes que a doença do magrinho rápido dos óculos é na verdade a camisola que todos devemos vestir, e que as chamas fazem bem ao colesterol, e que duas pulgas amigas e roxas são mais dignas do que bigodes curtinhos e casacas azuis.

Eu cá gosto de casacas azuis e lavatórios de mármore, só os destruí com o martelo que veio das Montanhas do Quadrado e das pulgas porque estava a bocejar tal como o Vaidoso bocejava. Não me justifica mas também o juiz está com a senhora Quicas logo não sobrou ninguém para me julgar e de qualquer das formas, os cactos crescem sem que ninguém os regue.

Cumpri o vosso dever. Eu não o farei.

Iago Videira


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Surpresa

Ontem prometi postar uma surpresa.
A dita surpresa consta do próximo post.
Eu já desconfiava que podia acontecer, mas não imaginei que iria gostar tanto.

O próximo post contém um texto. Olhem só quem o assina…

Boas leituras.

João Paulo


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Como vai "De Negro Vestida"?

Perguntam-me pelo romance, se desisti… Nada disso, vai bem. Tenho escrito. Só não tenho tempo para passar os textos. Mas em breve aí estarão mais capítulos!

Também tenho uma surpresa para postar. Aguardem-me!

Um abraço,

João Paulo