Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Creta 2010 – Diário de Bordo – 11

2/8/2010 – 14:47h. – Georgioupoli
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Hora da sesta. Definitivamente.
A Dona Antónia esteve cá hoje para fazer a limpeza e trocar lençóis e toalhas. Faz isto dia sim, dia não. Hoje cruzámo-nos e ela esteve simpática e conversadora como sempre. Queixou-se da exploração que os gregos vivem por parte dos seus próprios políticos e por parte do governo da senhora Merkl. Não gostam dela na Grécia.
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Depois, a propósito dos alemães, a conversa voou para a 2ª guerra mundial. Nessa altura, o avô dela, um homem novo, fugiu para as montanhas com toda a população quando os alemães invadiram Georgioupoli e deixaram-nos sozinhos sem ninguém para combater. Um dia, às seis da tarde, desceram à vila de surpresa e roubaram uma enorme panela de latão que estava cheia de comida para os soldados. Dona Antónia diz com ironia que tem a panela no jardim com flores e quando a senhora Merkl vier cobrar as dívidas aos gregos, ela paga-lhe a sua parte devolvendo a panela! Relembrou, a este propósito, que a Grécia foi o único país envolvido na 2ª guerra mundial que não foi indemnizado. “É hora de começar a descontar nessa dívida dos alemães”, diz.
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Contou, com o brilho no olhar, que a mãe dela tinha cerca de 17 anos na altura da guerra e queria casar mas não tinha vestido. Certo dia, em que os alemães largaram pára-quedistas, a população foi abatê-los a tiro antes de chegarem ao chão. Depois, com burros, trouxeram as botas dos mortos e os pára-quedas que tinham muito que se aproveitasse. Como eram feitos de seda pura e branca, o vestido de noiva da mãe dela foi feito com seda de pára-quedas.
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Dois irmãos da mãe foram defender um aeroporto que estava a ser atacado e foram feitos prisioneiros. Os alemães cortaram-lhes longitudinalmente as solas dos pés com facas para eles não poderem andar e, como tal, fugir. A mãe dela pediu aos alemães para lhes levar roupa lavada. Foi autorizada. Quando ela chegou à prisão, eles vieram ter com ela de joelhos e a rastejar porque não podiam andar. Vestiram a roupa lavada, envolveram os pés com a roupa suja e fugiram para as montanhas correndo e cambaleando.
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Como íamos almoçar, deixámos a Dona Antónia a acabar a limpeza. Quando regressámos, para além do apartamento limpo, estava na mesa da cozinha um pratinho com três fatias de bolo de chocolate que ela fizera. São assim, estes cretenses, uma simpatia e uma alegria de viver a emergir do sofrimento ainda vivo.
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Nota: hoje escrevi um capítulo de “De Negro Vestida”.
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Georgioupoli
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Georgioupoli
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Georgioupoli


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Creta 2010 – Diário de Bordo – 10

1/8/2010 – 22:53h. – Georgioupoli–Preparo-me para dormir. E escrevo na cama. Isto de escrever está a tornar-se um vício. Hoje não estava para fazê-lo, mas ao fim da tarde fomos a pé até à capelinha branca no meio do mar e quis registar isso. A capela é dedicada São Nicolau (Agios Nicolaus) que é o padroeiro da ilha. O caminho é curto, cerca de trezentos metros, mas relativamente difícil porque é feito sobre rochas que não estão niveladas como se fosse preciso sofrer para lá chegar. Às vezes falam-me das águas marinhas das Caraíbas e do pacífico como sendo inigualáveis em cristalino e transparência. Afinal na nossa Europa também há disso. Há água do mar é tão cristalina que se vê o fundo com nitidez e os peixes e os caranguejos e os ouriços-do-mar.
–Dentro da capelinha há umas imagens do santo que toda agente beija para depois se benzer. O benzer dos ortodoxos é um pouco diferente. Fazem um gesto cruzado, na diagonal, à frente do peito e ao terminar fazem um movimento como se atirassem alguma coisa para trás das costas.
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O que achei interessante foi o fervor dos jovens. Aqui em Creta, os adolescentes e as crianças assumem os rituais com devoção e fervor. Não têm nenhuma espécie de vergonha dos seus rituais, bem pelo contrário. Incorporam-nos no seu quotidiano. Por exemplo, não há qualquer espécie de relação entre ser-se jovem e não ligar às coisas da igreja “porque isso é para velhos”. Bem pelo contrário. É muito frequente ver-se uma moça jovem, muito arranjada com roupa próprias da sua idade, ou um rapaz com um ar mais “metálico” ou “dread”, ou um grupo de jovens a passar na rua todos na galhofa e, ao passarem por uma igreja benzem-se de forma séria e depois continuam como se nada fosse, alguns entram beijam o santo e seguem à vidinha. Isto não é uma coisa pontual. Presencio isto a toda hora aqui na ilha e já era assim em Atenas. Eles são desinibidos e ostensivos na forma como assumem os seus rituais.
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Quero registar outro aspecto. A genuína e exuberante simpatia dos cretenses. Não é uma coisa forçada, para turista ver. Eles são mesmo simpáticos e calorosos e desinibidamente tácteis. Já hoje, por duas vezes, pessoas que eu não conhecia de lado nenhum me deram uma palmada nas costas como forma de saudação e riram-se comigo. Eu sou assim e integrar-me-ia bem com esta gente, mas sei bem, por exemplo, o quanto me estranham em Portugal. Nós somos boa gente mas mais prudentes a ver no que a coisa dá, a dar tempo de conhecer as pessoas. Estes são mais espontâneos. Eu gosto das pessoas de riso fácil e franco. Os cretenses são assim.

Georgioupoli – Capela de São Nicolau
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Georgioupoli – Capela de São Nicolau
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Georgioupoli vista da Capela de São Nicolau


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Creta 2010 – Diário de Bordo – 9

31/7/2010 – 20:04h. – Georgioupoli–Estamos na praia, Sim, eu trago o caderninho para todo o lado. Até para a praia. Não tinha a intenção de escrever, mas experimentei agora um fenómeno que me obriga a uma nota. Acabei de sair do mar. Georgioupoli tem uma capelinha branca de formas arredondadas construída a uns trezentos metros da costa. À sua direita ficam as praias orientais, de água morna. À sua esquerda fica a praia ocidental. É nesta que estou.
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A praia é grande e tem a particularidade de ter em cada extremidade um rio. Os dois desaguam aqui. A fauna é extraordinária e a pesca um modo de vida. Há pouco estivemos a conversar com um pelicano que estava na margem de um dos rios que é também a beira da estrada que dá para a praia. Até deixou fazer festinhas. Fingiu que reclamou mas não se mexeu de onde estava.
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Vamos à curiosidade desta praia. A água do mar é quente por baixo, de um quente chuveiro, ou seja, mesmo muito quente, e fria, mesmo muito fria, por cima! Por outro lado, em baixo é muito salgada, até faz arder os olhos e por cima é doce, bebe-se como se fosse água de garrafa.
–A mulher e o filho, que são os inteligentes da família, lá foram explicando cientificamente o fenómeno. Não me interessam muito as razões. Sei que é extraordinário boiar e ficar gelado, mergulhar e ficar completamente aquecido. É possível mergulhar e, a meio do caminho entre o topo frio e o fundo quente, parar, abrir os braços e as pernas e ficar a “planar” como os tipos que saltam dos aviões antes de abrirem os pára-quedas. Não se vai para baixo porque a água salgada e quente empurra para cima e não se vai para cima porque a água fria e doce empurra para baixo.
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Ainda agora cheguei e a Natureza de Creta já me fez uma surpresa.

Georgioupoli – o azul intenso e cristalino da praia “quente e frio”
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Georgioupoli – praia ocidental ou praia “quente e frio”
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Georgioupoli – praia ocidental ou praia “quente e frio”
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O pelicano de Georgioupoli e seu inseparável amigo, o cisne.
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Creta 2010 – Diário de Bordo – 8

31/7/2010 – 14:17h. – Georgioupoli
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Estamos no apartamento que alugámos pela Internet. Eu dizia, meio a brincar, meio a sério, que o tipo tinha ficado com o sinal do aluguer mas nem ele nem a casa existiam. Quando chegámos. Identificámos a casa pela foto mas não estava ninguém nem ninguém atendeu o telefone. Nada de entrar em pânico, afinal eram sete da manhã. Fomos tomar o pequeno-almoço, café, pão de cereais, queijo fetá, pimentos, pepinos, tomate, sumo de laranja. Depois caminhámos pela praia e vimos que o mar é um caldo morno.
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Quando contactámos o homem que alugou a casa, reparámos que ele não estava lá. Ele só coloca os anúncio na Internet e é genro da proprietária e gestora do apartamento, a Dona Antónia. É uma senhora muito simpática e hospitaleira. Fez questão de nos instalar bem, ofereceu-nos bolo que ela própria fizera e contou logo pormenores de toda a família, parentescos, datas de casamento e o facto de se considerarem uma família de malucos por serem fanáticos por futebol. O marido e o filho jogam em equipas diferentes, em Creta, e quando jogam um contra o outro não vão junto no mesmo carro e nesse dia não se falam. Quando a Grécia ganhou o campeonato europeu de futebol em Portugal, o filho foi a Lisboa ver a final e a Dona Antónia e o marido convidaram familiares e fizeram um petisco para verem o jogo da final. No fim, como ganharam, atiraram com a loiça toda pela janela fora. No dia seguinte, contou ela, teve de ir comprar pratos e copos porque não tinha nenhuns. A filha casou em Outubro passado e marcou a data do casamento de acordo com o calendário de jogos do Barcelona e claro a lua de mel foi nessa cidade e incluiu assistirem a dois jogos do Barça em Camp Nou.
–O apartamento é muito confortável. Tem uma varanda e um jardim frondoso à volta e ouvem-se as cigarras pela hora do calor como é agora o caso.
–Fomos ao supermercado. Comparámos preços e costumes e percebemos que os cretenses não estão tão formatados pelas regras da União europeia como nós. Não há grandes supermercados nem centros comerciais. Tudo são pequenos e médios comércios familiares e tradicionais a fazer lembrar o nosso país na década de setenta. Como acontecia em Portugal há uns anos, quando compramos pão, agarram nele com as mãos sem preconceitos nem pudores, sem luvas nem pinças, e sem estar o pão embalado. Não consta que andem a morrer por isso. Como disse a Paula, “Aqui ainda não chegou a ASAE!”
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Pormenor cretense nº1: fomos ver preços de alugueres de carros para andarmos pela ilha com mais mobilidade. Reparámos que o senhor estava muito simpático a fazer um grande desconto, mais concretamente, os preços da época baixa. Começámos a indagar porquê até porque ele foi muito prestável e ofereceu-se para arranjar UM(!) depósito de gasolina. Viemos a descobrir que seria a ÚNICA (!!!) gasolina a que teríamos direito porque há uma greve de camionistas e Creta está sem combustíveis!
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Pormenor cretense nº2: Tal como aparecia na Internet, o apartamento é asseadíssimo, muito confortável e tem ar condicionado. O ar condicionado paga-se à parte! Seja. Vou dormir a sesta.

Georgioupoli
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Georgioupoli
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Georgioupoli
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Georgioupoli
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Georgioupoli
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Creta 2010 – Diário de Bordo – 7

30/7/2010 – 20:16h. – Porto do Pireu, a bordo do LATO.
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O dia foi interessante e intenso. Claro que me apetece escrever já sobre o barco onde estou agora traçando estas linhas. Não por ser extraordinário, mas porque me surpreendeu. Afinal de contas trata-se de uma simples travessia… de 8 horas! Mas o dia não começou assim.
–Como já conhecíamos Atenas, pela manhã fomos simplesmente passear, misturarmo-nos com as pessoas. Beber um sumo de laranja. Desenferrujar o grego com empregados de mesa e comerciantes simpáticos. Este turismo sem agenda tem piada. ficamos um bocadinho menos turistas de ver as vistas e mais de conhecer as gentes. O almoço teve uma inevitável salada grega, azeitonas, pepino, pimento, tomate, queijo fetá, azeite e orégãos. Teve também uma coisa deliciosa chamada tzatziki. É uma espécie de iogurte muito fresco mas não doce, é avinagrado, tem pepino e alho migados e um pouco de azeite. E comemos souvlaki, uma espécie de espetadas com salada. E comemos moussaka que é como se fosse uma lasanha mas em vez de massa é feita com puré de batata, pão, beringelas, courgettes e cenouras, tudo cortado a fazer um empadão. Bebi cerveja grega. É mais leve e menos saborosa que a nossa. Não bebi café. O café bebe-se em casas específicas para o efeito. Beber café num restaurante é pouco prudente. Normalmente não presta.
–À tarde visitámos o novo museu da Acrópole. Já não é na Acrópole mas fica no bairro com esse nome e tem os achados da cidade sagrada. Está extraordinário. Foi concebido para simular o Partenon. A informação é acessível e não exaustiva, logo, não cansa. Tem muito vidro, no chão e nas paredes, por isso é muito luminoso. O chão de vidro no rés-do-chão permite ver as ruínas sobre as quais o museu foi construído. O vidro nos pisos superiores permite ver as pernas das incautas…
Desenharam uma varanda com esplanada o que faz do museu um espaço de estar mais do que de passar. É um museu confortável onde se pode beber um café com gelo!
–O barco partia às 21h. Check-in às 20h. Como tenho sempre medo de chegar atrasado aos transportes, chegámos às 19h. para levantar os bilhetes. A primeira coisa que descobri foi que o barco só partiria às 21:30h! As minhas expectativas eram baixas. Não sei porquê, ou sei, desconfio sempre um bocadinho dos mediterrânicos. Somos boa gente. Até a arranjar problemas. Tínhamos comprado os bilhetes pela Internet, mas devido à crise, eu desconfiava que a companhia já tivesse falido. Imaginava, por outras razões, próprias do meu imaginário, um quarto com vinte e quatro camas onde nós os três teríamos de passar a noite a levar com o suor dos outros e, claro, onde teríamos de partilhar a casa-de-banho. Isto se não tivessem colocado vinte e cinco passageiros num quarto para vinte e quatro.
–Ora, o atraso de meia hora e a imensa fila de gente à porta de um barco que por fora parecia um gigantesco e velho cacilheiro, não me faziam esperar um navio composto e muitíssimo confortável. Mas foi isso que encontrámos. Nunca a expressão “as aparências iludem” fez tanto sentido. Ao contrário!
–[22:30h.]
Fiz um intervalo na escrita para jantar. A esta hora já rolamos no alto mar. Por bilhetes relativamente baratos, as minhas expectativas foram excedidas e o meu receio de entrar num ambiente dickensiano dissipou-se. Deram-nos um quarto com camas para os três, completamente equipado e com casa-de-banho privativa onde a água quente jorra abundante do chuveiro. Toalhas à discrição e música ambiente. Tomámos duche, fomos jantar e conhecer a cidade sobre as ondas. Um restaurante com ementa, um self-service, dois restaurantes de grelhados, diversos bares, lojas, caixas multibanco, piscina, discoteca, áreas e lazer com e sem televisão, área de acesso à Internet, agora não, obrigado.
Normalmente, os navios têm isto tudo. Já tinha tido a experiência de viajar num. Mas lembro-me de ter pago bem mais e sobretudo, não me lembro de, por fora, parecer uma gigantesca lata velha. Há um enorme contraste entre o exterior e o interior do Lato.
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Nota sociológica: reparei que no barco não há a mesma multiplicidade cultural da Praça Monastiraki. Aqui há sobretudo turistas europeus e gregos. E há gregos que vão trabalhar para a ilha. Mas há uma curiosa estratificação socio-financeira. Os que viajam e dormem em bancos de madeira no exterior, os que viajam e dormem em salas de estar onde se refugiam do exterior, os que trazem sacos-cama e dormem pelos corredores, os que viajam e dormem em bancos como os de avião que fazem cama ao recostarem, os que viajam em quartos interiores (nós), os que viajam em quartos com janelinha e os que viajam em quartos exteriores com varanda. Nós somos, de facto, todos iguais e sinto esta coisa estranha mas verdadeira que é não querer ter menos do que conquistei mas, ao mesmo tempo, não gostar que haja quem tenha menos.
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Nota antes de dormir: estivemos um pedaço vendo e ouvindo o mar na noite. o branco da espuma cortando o breu. E o que me surpreendeu mais foi o vento da deslocação do barco que nos acariciava a face os corpos ser quente. Quente e acolhedor. Agora, enquanto escrevo e oiço uma musiquinha, sinto um suave balanço que embala mas não incomoda. Definitivamente, prefiro o barco ao avião! Isto é tão confortável que saí de casa há dois dias e só agora começo a relaxar. Acho que mereço. Amanhã acordamos em Creta. Boa noite.
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Entrada do museu da Acrópole
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Porto do Pireu
– A chaminé do Lato


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Creta 2010 – Diário de Bordo – 6

30/7/2010 – 07:43h. Atenas
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É um hotel de passagem. Limpo. Mas longe do luxo. contudo, foi um prémio acordar numa cama após uma noite bem dormida. De resto, acordar em Atenas é bom. É sempre bom.
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Agora vamos ao pequeno-almoço, ou seja, queijo fetá, pimentos, pepino, tomates, ovos cozidos, café e sumo de laranja.
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Temos um dia para estar na cidade dos deuses e o plano é simplesmente passear e usufruir. Às 21h. temos de apanhar o barco para o nosso destino: Creta.

Acrópole


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Creta 2010 – Diário de Bordo – 5

29/7/2010 – 20:03h. – Atenas
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Praça Monastiraki. Este momento tem de ser registado. Cristalizado. Tem demasiadas coisas interessantes para que se perca na bruma da memória. O dia começou com pequeno-almoço em Lisboa. Teve almoço em Zurique. E termina com jantar em Atenas. Sandes de pataniscas de bacalhau confeccionadas na Zibreira são jantar em Atenas. Água, Coca-Cola, sumo de laranja. Sumo de laranja em grego é fácil de decorar. Diz-se “portucali”.
–A Praça Monastiraki é o coração da cidade antiga. Está rodeada de ruas estreitinhas onde quase não se consegue passar por serem tantas as pessoas e por terem sido ocupadas pelos expositores dos comerciantes. Todas estas ruas e as gentes nelas desembocam na praça. Ouve-se falar português, espanhol, italiano, inglês, alemão, árabe, coisas que soam a nórdico e, sobretudo, ouve-se o doce e sibilino grego. Há brancos, pretos, amarelos, europeus, sul-americanos, indianos, africanos, libaneses, paquistaneses, cristãos católicos e ortodoxos e muçulmanos. Ainda agora passou aqui uma moça tão ocidental e europeia como qualquer rapariga de Torres Novas e atrás dela ia um homem antigo de barbas longas e longas vestes negras. A polícia ocupa o centro da praça e, num pacto tácito, retira-se e surgem os vendedores de lençol estendido no chão. Quando aqui chegámos, esbarrámos nas bancadas de fruta e comprámos uvas tintas e quentes como o ar de cá e jantámo-las com as sandes portuguesas.
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E, num toque supremo da mais absoluta promiscuidade entre o religioso e o pagão, a praça tem, como o nome indica, um mosteiro ortodoxo vigiado lá do alto pelos deuses que habitam a Acrópole. Há músicas no ar e há, sobretudo, cheiros e odores diversos. Assim, de repente, cheira-me a kebab, a carne grelhada, a especiarias, a moussaka, a um intenso caril e a café. Peço um café grego que é aquecido num recipiente metálico com um cabo longo mergulhado em areia ardente. As pessoas sentam-se pelos muretes da praça e depois dispersam-se pelas esplanadas.
E penso em casa. E penso que às vezes dizemos ou ouvimos dizer que quem usa a Internet é um cidadão do mundo, um ser global e não posso deixar de pensar que estar na Praça Monastiraki num fim de tarde quente de Verão é que é, efectivamente, ser-se um cidadão do mundo. É ver, sentir, cheirar e provar a vida a sério, a vida que havia antes da mentira digital e aquela que continuará depois dela. A vida das pessoas de verdade.
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Praça Monastiraki com Acrópole ao fundo
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Praça Monastiraki
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Cenas de violência em Atenas! – Praça Monastiraki
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Praça Monastiraki
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Ruas circundantes da Praça Monastiraki
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Diverisdade étnica e cultural na Monastiraki
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Diversidade étnica e cultural na Monastiraki
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Estação do metro na Monastiraki


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Creta 2010 – Diário de Bordo – 4

29/7/2010 – 14:09 – No avião (Zurique-Atenas)
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Muito bem, é oficial. A tradição já não é o que era. Nem a precisão suíça. O avião partiu às 13:55h., ou seja, com uma hora de atraso. Ironia. partiu de Zurique e é um Air Bus da SwissAir.
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Há outra coisa oficial. Estou receoso. Pronto, confesso, completamente acagaçado. O tipo do altifalante e comandante da lata, que há-de ser tão humano e falível quanto eu, disse no melhor inglês que conseguiu que íamos encontrar alguma turbulência. Ora, alguma turbulência, no meu limitado vocabulário de acagaçado, não inclui solavancos de fazer saltar na cadeira nem latas a bater por todo o lado. Espero, sinceramente, ter oportunidade de um dia mostrar estas linhas a alguém. Era bom sinal. Como é que consigo escrever durante o episódio? Simples, isto sai tudo torto mas ajuda a esquecer um tudo-nada a lata aos saltos no vácuo.
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À medida que avançamos no tempo e na altitude, a coisa vai acalmando. Mas ainda não está sossegada. Outro distractor bem agradável: a mãe francesa de olho azul e cuequinha rendada aqui ao lado. Ainda bem que inventaram o cós baixo! O puto é que podia estar quieto. Já agora, Deus, se me ouves melhor porque estou mais perto, cala o cachopo grego que vai aqui à frente aos berros parece que o matam.
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Cá em cima, o sol tomou conta das nuvens que ficam por baixo. E lembro-me da minha poderosa Serra D’Aire e do meu Bronco. Tão fiável. Mas agora não é hora disso. É hora SwissAir. Atrasada e tudo.
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Dados da desgraça:
Altitude: 9600m.
Velocidade: 800km/hora.
Temperatura no exterior: -46ºC.
Mal por mal, cá dentro!
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Nota 1: assim que acabou a turbulência o puto francês adormeceu e passaram doze, DOZE pessoas para a casa-de-banho.
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Nota 2: Continuaram a passar pessoas para a casa-de-banho. Às tantas deixei de contar. Foi para aí um terço dos passageiros!
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Nota 3: vantagens de ter um filho a estudar medicina: perguntei porque é que passava tanta gente para a casa-de-banho. Ele disse que o stress liberta uma hormona chamada cortizol que, entre outros efeitos, estimula a diurese. É por isso que as pessoas na fila para andar na montanha russa têm vontade de fazer xi-xi. Já valeu as propinas do ano passado!
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Dados da desgraça: texto original manuscrito
– Sim filho, havia de valer de muito!–
Mãe francesa (com autorização da própria!)


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Creta 2010 – Diário de Bordo – 3

29/7/2010 – 12:44h. – Aeroporto de Zurique
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Em Zurique estão 15ºC. Menos de metade do que em Lisboa. Não há sol e chove.
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O vôo para Atenas está atrasado 20m. Nada de mais. Uma coca-cola e um café custaram 12€. Os avisos para os passageiros nem sempre são traduzidos, ao menos, para inglês. A esplanada está de frente para as portas do WC. As mulheres são altas e desajeitadas. Tudo isto me leva a perguntar “Afinal, quem é que quer viver nesta terra?” Eu sei, não se avalia uma nação pelo seu aeroporto. Acontece que até pode fazer-se esse exercício. É um bocadinho como conhecer a cozinha de uma casa.
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Os sons no ar deste aeroporto são diferentes dos de Lisboa. Menos doces. Mais ásperos. As pessoas aqui não falam, cospem as palavras.
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Estão a chamar-nos. É para já!

–Aeroporto de Zurique


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Creta 2010 – Diário de Bordo – 2

29/7/2010 – 08:31h. – No avião (Lisboa-Zurique).
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Quando escrevo estas linhas há uma pequena turbulência que me não preocupa mas relembra a impotência, a total impotência que é viajar de avião. Quando entrei, reparei que era um Air Bus A319 da TAP com o sugestivo nome de “Humberto Delgado”. Não viajo muitas vezes de avião mas o suficiente para dizer que, não sei bem porquê, viajar na TAP é diferente para melhor. Quase como se, no meio de tanta eficácia e tecnologia, houvesse um toque artesanal. Correndo tudo bem, esta coisa deve poisar daqui a duas horas e meia em Zurique.
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Andar de avião gera-me um sentimento contraditório. Primeiro, uma confiança e um orgulho enormes na Humanidade que voa como os pássaros, muito acima dos pássaros, encurta distâncias e atravessa fronteiras a velocidades incríveis. Duas horas e meia para fazer 1726km! Por outro lado, uma quase epidérmica e inevitável desconfiança. Nesta lata que voa, onde me mostram um filme com umas cenas de desporto e me servem uma refeição, há milhares de cabos, quilómetros deles, o mesmo com tubos, há turbinas, geradores, combustíveis, tudo pressurizado dentro de uma cápsula metálica a que chamam avião. Não consigo deixar de imaginar um desses cabos a falhar, um furinho minúsculo num tubo, uma turbina que diz “Não me apetece mais”. E é por isso que vou confiante e desconfiante. Acima dos pássaros, mais perto de Deus, a caminho de Zurique.
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Entre Lisboa e Zurique
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O original do texto aqui transcrito