12/8/2010 – 17:30h. – Paxia Ammos
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A viagem de regresso correu bem. Ainda não vimos um único acidente em Creta.
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12/8/2010 – 17:30h. – Paxia Ammos
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A viagem de regresso correu bem. Ainda não vimos um único acidente em Creta.
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11/8/2010 – 21:45h. – Georgioupoli
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Em 1866, a invasão da Grécia pelos turcos vivia momentos de grande confrontação em terras de Creta. A violência era desmedida, as baixas múltiplas de ambos os lados. Num mosteiro denominado Moni Arkadi, os monges resistiram dentro dos muros do mosteiro com a ajuda de populares. A ofensiva turca foi de tal forma violenta que conseguiram penetrar no mosteiro. As várias dezenas de pessoas que aí se encontravam refugiaram-se na adega onde guardavam a pólvora e, para não serem torturados nem morrerem às mãos do invasor, detonaram a pólvora. A abóboda da adega ficou completamente desfeita. Não houve sobreviventes. Também morreram muitos turcos na explosão. Hoje, estive nessa adega. O mosteiro é austero mas muito aprazível. A adega nunca foi reconstruída e continua sem abóboda como forma de lembrar os que se sacrificaram por Creta.
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Depois visitámos Anogeia, uma terrinha junto ao Monte Idi que é o centro da produção artesanal de bordados. Foi aqui fundada a 1ª cooperativa de mulheres de Creta e quase toda a população trabalha em bordados.
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Depois de almoço, dedicámos a tarde a visitar o Vale de Amari e as suas aldeias “entaladas” na serra. Começámos por Marguerites, uma aldeia onde toda a população se dedica à produção de objectos de cerâmica pintados em cores muito garridas. Depois fomos a Gerakari onde produz artesanalmente doce e licor de cereja e raki (aguardente típica). Entrei com o Iago numa taverna dessa aldeia serrana e pedimos dois rakis. A senhora trouxe dois cálices de raki, um pepino descascado e cortado aos bocadinhos e um prato com ameixas. Quando lhe pedi a conta, ela disse, com um sorriso nos lábios: “1 euro”. Eu bem digo que estes tipos não existem. Ela só cobrou o que eu pedi. O resto foi uma simpatia dela. Paguei-lhe 1€ e esqueci-me de uma moeda de 2 em cima da mesa.
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Todo o vale de Amari é lindíssimo, nele visitámos duas capelas do Séc. XIII, Agia Ana e Agios Ioannis. A primeira ainda tem frescos. São os mais antigos frescos cristãos na ilha. A segunda está em ruínas mas, mesmo assim, colocaram lá um altar pequenino, improvisado em madeira e mantêm o culto vivo.
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De todo o vale, gostei especialmente de Anogeia e Gerakari. O vale não é sobre comprido como estamos habituados a ver. Tem uma forma ovalada e é rodeado pela montanha em toda a volta.
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Nota rodoviária e não só: Eu, que sou professor, não consigo deixar de me interrogar como é que as crianças daqui vão para a escola. Seja porque as aldeias são em locais inóspitos, seja porque as estradas são terríveis. Muito íngremes, muitas curvas e muito estreitas. Uma distância de 10km pode levar entre 30 a 40 minutos a fazer.
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Nota cultural nº1: desde que estou em Creta, tenho reparado em algo que não sabia se devia escrever e como escreveria se o fizesse. Penso que o melhor é ser claro. Os cretenses nutrem e não escondem uma clara insatisfação ou, se quisermos, uma clara repulsa pela Alemanha da senhora Merkl. Não é nada com os alemães em geral, é mesmo circunscrito ao corpo político. Lembrei-me de escrever isto porque eu ando a dizer, meio a brincar, meio a sério, que precisamos de outra revolução em Portugal e, um dia destes, um cretense disse a frase “Precisamos de uma revolução”. O contexto era o de uma reacção enérgica à pressão política colocada pelo governo de Merkl.
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Nota rodoviária: não escrevi isto logo no primeiro dia em que conduzi na ilha porque nnão sabia se era uma coincidência ou um hábito. Escrevo agora porque já percebi que é um hábito. Os cretenses, nas estradas onde há bermas, inventam uma terceira faixa de rodagem. Os condutores mais lentos andam com metade do carro na berma e os outros circulam no centro da estrada. Numa estrada com duas faixas de rodagem, estão frequentemente 3 carros lado a lado e chegam a estar 4. Por isso é que escrevi há dois dias que eles conduziam de frente para mim, é que toda a gente pressupõe que quem vai devagar (menos de 100km/h.) segue pela berma. Ou seja, eles vinham de frente para mim porque eu, na minha mão, estava errado!



10/8/2010 – 17:44h. – Agia Gallini
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Em Creta, as coisas pordem acontecer assim. Um dia dedicado à cultura tem fim numa esplanada de praia. Estamos na esplanada da Taverna Stochos na praia de Agia Gallini, na costa sul da ilha. Acabámos de comer um tzatziki e uns calamares e agora vamos ao banho no mar para refrescar antes de fazer a viagem de regresso a Georgioupoli. O mar é, como em toda a ilha, intensamente azul e morno na temperatura.
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Saímos de manhã e visitámos as ruínas de Cnossos que ascendem à cultura minoica. Qualquer coisa como 70 séculos antes de Cristo. As ruínas, ou seja, as suas edificações e frescos, foram “completados”, isto é, reconstruídos por John Evans com uma técnica de restauro que tem sido polémica. O “completamento” é coerente e feito por analogia com o que ele encontrou, mas na verdade depende da interpretação que ele deu ao que encontrou. Um turista comum nem nota e gosta de ver as coisas “acabadas”. Um visitante mais atento não deixa de reparar que há coisas que não são originais. Em todo o caso, a visita vale a pena. É uma cidade imponente para a época a que reporta.
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Gortina
Spili
Placa de trânsito “baleada”
Placas de trânsito muiiito “baleadas”9/8/2010 – 18:22h. – Preveli
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Desfiladeiro de Samaria
Desfiladeiro de Samaria
Desfiladeiro de Samaria
Desfiladeiro de Samaria
Santuário de Pedra – Desfiladeiro de Samaria6/8/2010 – 18:14h. – Georgioupoli
–Este foi, até agora, o dia mais cansativo desde que estamos na ilha. Visitámos a capital, Eráclio. Saímos de autocarro às seis da manhã e acabámos de chegar. Pensávamos que a viagem seria de três horas mas o autocarro das seis da manhã não faz paragens o que nos colocou em Eráclio às sete e meia.
–A cidade decepcionou-me na medida em que, por ser a capital, é a mais descaracterizada. A única diferença entre estar ali e numa cidade portuguesa são os caracteres. Ainda assim, realço três aspectos: o porto veneziano, assim chamado porque rodeado a toda a volta por uma muralha veneziana, o museu de Cnossos onde finalmente pude ver ao vivo algumas das coisas que acompanharam a minha vida universitária há mais de vinte anos e, sobretudo, o mercado. Bem, há uma quarta que merece referência. A zona antiga e central da cidade tem alguns edifícios venezianos de uma beleza extraordinária.
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O mercado de Eráclio não é num edifício fechado. Estende-se ao longo de uma rua inteira com bancadas de carne, peixe, frutas, legumes, queijos, cafés e produtos tradicionais. A rua fica praticamente coberta porque os toldos de um lado e de outro chegam praticamente ao meio.
–Uma das paisagens mais interessantes da ilha vimo-la hoje. A uns cinco quilómetros da cidade, a meio de uma serra, vê-se toda a extensa baía de Eráclio e o casario que desce da montanha, pela costa, até ao mar.
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Pormenor cretense nº 1: Na ilha, só em Eráclio encontrámos um restaurante MacDonalds. Não usámos. Aqui não vale a pena porque é dos restaurantes mais caros que se encontra!
–Pormenor cretense nº 2: Tomámos um café gelado e um capuccino no Starbucks. Preferimos casas tradicionais, não formatadas, mas era tão cedo que o Starbucks era praticamente a única casa aberta. Por todo o mundo, o Starbucks tem uma pequena caixa junto à caixa de pagamento de onde as pessoas podem tirar livremente moedas se lhes faltar uns trocos para completar o pagamento. Do mesmo modo, quando recebem trocos podem deixar algumas moedas de menor valor. É um sistema de entreajuda. Não é uma gorjeta. Os ingleses chamam-lhe “take a penny, leave a penny” que pode traduzir-se por “sirva-se de uns trocos, deixe uns trocos”. Ora, os gregos de Eráclio não estiveram com meias medidas e converteram aquilo numa caixa de gorjetas e o que lá estava escrito era “leave a tip”, “deixe uma gorjeta!” Como diria o ribatejano: “Mai nada!”
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Pormenor cretense nº 3: Hoje tentei comprar em Eráclio uns cds para a máquina. Eu tenho uma dois em um. É uma máquina de filmar que grava em cd e, simultaneamente, uma máquina fotográfica que grava as fotos em cartão. Como não gosto de filmar, nunca trago cds, só cartões. Ora, o pessoal começou a dizer para eu comprar uns cds e filmar. Encontrei uma casa com um letreiro luminoso por cima da porta que tinha o símbolo da AGFA e dizia “Material Fotográfico”, também tinha um cartaz de colocar no chão com publicidade a produtos fotográficos. Quando lá entrei era… um supermercado que vendia tudo menos produtos fotográficos. A velhinha que lá estava explicou-me que compraram a loja assim, mudaram o negócio mas nunca tiraram os letreiros. E todos os dias põem o cartaz na rua!
–Nota gastronómica atrasada: A comida destes tipos é tão boa quanto eu estou a engordar a olhos vistos! Ontem, já depois de ter escrito o resumo da visita a Rethimno, fomos jantar aqui em Georgioupoli a um local onde já nos vão conhecendo. A comida é muito boa, caseira, e as pessoas são muito simpáticas. É o Nostos. Como já experimentámos a gastronomia mais conhecida em diversas versões, o “tzatziki”, o “giros”, a “moussaka”, o “souvlaki”, a “loukanika xoriatika” (salsichas picantes com ervas aromáticas), o “guémistá”, a salada grega e a cretense, resolvemos aventurar-nos por pratos menos conhecidos dos turistas. E vai daí comemos “soutzoukakia”, carne picada feita em bolas em forma de ovo que é temperada com ervas aromáticas e refogada com pimentos, tomate e muita cebola. Come-se com batata frita e tzatziki. E comemos também “imam baildi” que são beringelas recheadas com couve, cenoura, tomate, pimento, malaguetas, muita cebola e queijo fetá. Primeiro é refogado e depois vai ao forno. Come-se com quê? Pois claro, batata frita e tzatziki.
–Nota linguística humorada nº 1: como eu e a Paula somos formados em clássicas e estudámos grego antigo e literatura grega e como ainda leccionámos grego, servimo-nos de algumas semelhanças para facilitar a comunicação. Em primeiro lugar, não estranhamos o alfabeto o que é óptimo, em segundo lugar conhecemos muitas palavras e outras tiramos pelo sentido. Ora, tudo isto é muito lindo para ler instruções, menús, placas com nomes de localidades e outras coisas menores mas para a comunicação oral serve muito pouco porque as diferenças entre o grego antigo e o moderno são enormes. Por uma questão de respeito e também para nos integrarmos melhor, tentamos sempre falar grego.
–Ora, ontem ao jantar pedimos, entre outras coisas, no melhor grego que conseguimos arranjar, uma “Coca-Cola grande”. Ficámos um bocadinho admirados quando a moça que nos estava a atender fez uma cara de grande espanto. E foi tal o espanto que resolveu deixar-se de brincadeiras em grego com os turistas armados em espertos e partiu para o inglês. A conversa que agora traduzo passou-se, portanto, em inglês.
– Tem a certeza de que quer isso?
– Sim, tenho.
– E o que é que quer mesmo?
– Quero uma Coca-Cola grande.
– Bem me parecia que alguma coisa estava errada!
– Como assim?
– Sabe o que acabou de pedir-me?
– Uma Coca-Cola grande!
– Não! Uma Coca-Cola com leite!
Depois da gargalhada geral, tirámos a confusão a limpo escrevendo na toalha de mesa. Aqui fica a confusão:
Nós dissemos “mia Coca-Cola mê gala, parakaló”
Devíamos ter dito “mia Coca-Cola mégala, parakaló”
–Nota linguística humorada nº 2: um dia destes, estivemos a jantar num local onde gostamos de ir porque fazem um excelente “giros”. O Milos. Acontece que a moça que nos costuma atender, muito simpática, é búlgara, vive há dez anos em Creta para onde veio trabalhar mas não diz uma palavra em inglês. Ou melhor, diz três: “hello” e “thank you”. Nós, como já foi dito, lemos e percebemos algum grego mas falamos muito pouco. Quando lá vamos, abrimos a ementa e apontamos. Isso costuma resolver a coisa. Desta vez, contudo, precisávamos de dar uma ordem aos pratos. Este primeiro, aqueles depois. Foi exasperante e, ao mesmo tempo, cómico porque nem ela percebia o nosso inglês, nem nós o grego dela. Acontece que sempre que tentávamos dizer qual era o prato que queríamos primeiro, ela riscava-o da encomenda e perguntava com um gesto interrogativo qualquer coisa que devia ser “Então em vez deste vai ser qual?”
–Então, tínhamos de repetir todo o pedido que ela voltava a escrever e quando tentávamos mudar outra vez a ordem aos pratos, ela riscava o primeiro e voltava a perguntar “Então e em vez deste?”
–Parecia uma roda de malucos até que, no meio de explicações e contra-explicações, ouvimo-la dizer a palavra “proto”. E fez-se luz. A malta lembrou-se de proto-história e depois do significado de “proto” em grego: primeiro. Quando resolvemos isto, descobrimos que ainda faltava o resto do pedido! Vá de abrir ementas e apontar com o dedo que assim não falha.
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Nota que não tem nada a ver com nada: desde que estou em Georgioupoli (uma semana), escrevi quatro capítulos de “De Negro Vestida”. E eram importantes! Necessitavam tranquilidade e força mental. Acho que encontrei ambas aqui!






Restaurante “Nostos” em Georgioupoli



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