Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


Deixe um comentário

De Negro Vestida – XXXIV

 

Despertar – VIII

Veremos em breve em que palavras, em que emoções e em que gestos vai desembocar esta noite. Se tiver de ser em corpos entregues às conversas da sedução, dos suores gemidos e afagados pela doçura dos gestos, então será. Serão a noite a as pessoas nela a ditá-lo que nós não inventamos estórias, limitamo-nos a contá-las tal como aconteceram.
António Pedro foi como só sabia ser. Absolutamente natural, confrangedoramente franco na atitude e aberto nas palavras. Falou como se nada tivesse a esconder, como se a conhecesse há muitos anos e com ela pudesse partilhar tudo. Falou-lhe do seu trabalho, do que gostava nele e do que nele lhe desagradava, mostrou-lhe as suas ambições, os pontos fortes do seu carácter e falou-lhe também dos fracos, fazendo uma inflexão de voz, tornando-a mais grave e pausada como que a querer que ela acreditasse nele, sobretudo nas fraquezas. Maria de Lurdes estava espantada com aquela abertura e com aquela naturalidade e pensava de si para consigo Este homem não precisa proteger-se? e estava entre este pensamento e a tentativa de o acompanhar no discurso quando foi de novo surpreendida. Ele falou-lhe da família. Da mulher que amava, dos filhos, três, que eram a razão da sua existência.

————————————————–

O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

————————————————–


Deixe um comentário

De Negro Vestida – XXXIII

 

Despertar – VII

É um problema de perspectiva. De atitude. De sensibilidade. Querendo um homem conquistar uma mulher, confunde frequentemente este conquistar com sexo. Constrói para ela um conjunto de dicas, de expressões indirectas do seu desejo, de sugestões, de brincadeiras e até de elogios que, em menos de nada convertem o sexo no centro da questão, o objectivo em si, o tema de conversa recorrente. Este homem ainda não percebeu. Não percebeu que não é assim. Não percebeu a mulher que tem na frente e, de facto, não percebeu nada. Para uma mulher, o sexo não é, nunca, o centro da questão e do processo. Não é menos importante por isso. Pelo contrário. O sexo é, para as mulheres, de suma importância e é por isso que não pode ser imediato.

————————————————–

O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

————————————————–


Deixe um comentário

"De Negro Vestida" está de volta!

Caros leitores e amigos,
depois das férias e da publicação do Diário de Bordo que delas resultou, retomarei a publicação de “De Negro Vestida”.
–
O romance evoluiu bastante e traz muitas novidades quer no conteúdo quer na forma e ritmo de narração. Acontece que as férias sempre fazem esquecer um pouco as coisas e por isso mesmo venho dar-vos três informações relacionadas com a continuidade do texto.
–
1) Aqui por baixo republico, para que possam reler sem ter de procurar, o último capítulo publicado em Julho.
2) À vossa direita colocarei um índice do romance que passará a estar por cima do arquivo do blogue. Assim, a busca de capítulos anteriores tornar-se-á mais fácil.
3) Entre hoje e amanhã, retomarei a publicação de novos capítulos, fresquinhos e, espero, surpreendentes.
–
Faço votos de que gostem e deixem sempre os vossos comentários seja aqui, seja via mail.
Um abraço,
João Paulo
–

De Negro Vestida – XXXII
–
Despertar – VI

Maria de Lurdes regressou à sua mesa no passo mais firme que conseguiu. Ainda não sabe mas o encontro com António Pedro não terminou. Assim que chegar junto das colegas fará um ricochete, um caprichoso arco de bumerangue e regressará à promissora conversa com um sorriso nos lábios.
Que estás aqui a fazer Lurdinhas? Pareceu-nos que a conversa estava agradável ali com o jeitoso do fato azul. E estava, mas seria incapaz de deixar-vos. Afinal de contas este jantar é uma simpatia vossa em minha homenagem. Olha, Lurdinhas, em primeiro lugar, este jantar era para veres gente. Agora que viste, não faz sentido estares aqui. Em segundo lugar, nem compreendemos como é que trocas o jeitoso por nós. Nenhuma de nós hesitaria em fazer a troca ao contrário. E, por fim, deixa-me dizer-te uma coisa. Estamos curiosíssimas em relação àquela conversinha que tiveste ali, mas preferimos ouvir amanhã uma estória inteira do que ouvir já só meia estória… Então vocês não se importariam… É que ele de facto convidou-me para tomar café… Lurdinhas, não vivas a vida pela metade. Senta-te. Acaba o jantar. E corre para o desconhecido. Neste caso o desconhecido tem muito boa figura!
E foi isso que fez. Quando se sentou, piscou o olho por instinto na direcção da mesa do homem de fato azul que respondeu com um sorriso. Estava combinado. Palavras não foram precisas. E continuaram a não ser precisas quando se levantou para cobrar a promessa de café e as outras todas que vinham embaladas no olhar e no sorrir. Ele percebeu e levantou-se também. Não a quis a atravessar a sala sozinha pela segunda vez. E veio ao seu encontro. E a meio do caminho se encontraram.
– Então, Maria de Lurdes do olhar brilhante, já tomou café?
– Ainda não, António Pedro do sorriso promissor. Prometeu-me um café, venho cobrá-lo.
– E as suas colegas?
– As minhas colegas quase querem mais do que eu que tome café consigo.
– Muito simpáticas. Merecem uma recompensa.
António Pedro chamou o empregado de mesa e disse-lhe, tratando-o pelo nome, que oferecesse um café e um porto às senhoras.
Por cima do olhar, António Pedro tinha uma cabeleira farta e encaracolada que lhe dava um ar de certa irreverência e lhe tirava anos ao aspecto. As mãos eram largas e a voz grave. E foi com ela que sugeriu tomassem o café na esplanada. Era uma estrutura assoalhada em ripas de madeira tratada, delimitada por cabos de aço atravessando prumos inox de dois em dois metros. Ficava nas traseiras do restaurante e dela se via uma parte da cidade iluminada salpicando de luz o breu da noite.
Começaram conversando de pé, junto ao gradeamento que o não era. Só uns cabos de aço pós-moderno. E ficaram trocando as primeiras palavras, aquelas que sempre surgem desbloqueando os silêncios atrevidos que incomodam nestes momentos. Incomodam porque são uma ameaça à continuidade do que quer continuar-se. Seria terrível duas pessoas sentirem-se atraídas e não conseguirem conversar. E falaram da coincidência de estarem na mesma sala, de estarem em mesas frontais, de olharem na direcção um do outro. E desenvolveram a teoria que os amantes sempre desenvolvem das forças superiores que unem quem querem unir sem perguntas nem preparações. E falaram assumindo à partida a sua consonância, a sua coragem. E recordaram os momentos que os trouxeram ali, as dúvidas, as incertezas e os impulsos. Maria de Lurdes perguntou-lhe como é que, estando ele de costas, soubera quando virar-se para a cumprimentar. Pedi ao colega que estava de frente para mim que me avisasse. E avançaram algumas frases começadas por eu… Anunciando características pessoais, comportamentos previsíveis, gostos, como que recolhendo aprovações, dando a conhecer virtudes e defeitos porque um e outro queriam que, o que quer que se aproximasse, viesse com clareza e transparência. Fundamentos sólidos na fraca estrutura dos relacionamentos humanos.
Expostos os primeiros argumentos, traçadas as primeiras linhas de entendimento, conquistada a seara quente da harmonia atravessada pela brisa das palavras e, não menos importante, chegados os cafés, mais uma água com gás para ela e um uísque sem gelo para ele, puderam finalmente sentar-se. Olhar-se de frente. Conversar com os olhos, com os sorrisos, com as expressões, com o volume e a forma que o corpo dá às palavras. O momento adivinhava-se perfeito. Temperatura amena, breu cortado pela lua gorda, brisa apropriada, um pouco antes de vento, local a pedir conversa e conversa a pedir para acontecer. E aconteceu.


Deixe um comentário

Creta 2010 – Diário de Bordo – Conclusão

20/8/2010 – 23:45h. – Zibreira
–
Pequeno almoço e almoço em Atenas, lanche em Genebra e jantar na Zibreira. Andamos mesmo a superar barreiras e a quebrar fronteiras, inclusive as do tempo.

–
Quando se planeiam umas férias nunca se sabe o que vai acontecer. Espera-se o melhor. E foi o melhor que aconteceu. Seja porque descansámos, seja porque quebrámos as rotinas quotidianas do trabalho e até as familiares, seja pelo contacto com outras gentes, seja pela descoberta de novos espaços.

–

Creta foi uma surpresa esplêndida pela forma como se conserva genuína e autêntica, pela forma como as suas gentes são acolhedoras e simpáticas, pela forma como a sua Natureza nos surpreende.

–

Este Diário de Bordo nunca esteve planeado. Aconteceu espontaneamente porque o caderno estava ali e eu não tinha nada o que fazer senão esperar. Depois cresceu com entusiasmo dia a dia, registo a registo e acabou por resultar em algo que nem eu esperava. Um relato circunstanciado e o mais vivo possível de uma vivência. Acho que nunca tirei fotografias tão boas como aquelas que captei desta vez com as palavras. Por isso decidi, a meio da sua produção, publicá-lo. Por isso e pela partilha.
–
Aos leitores e aos amigos, ambos me conhecendo bem, ficará a honesta e humilde intenção de partilhar. Nada mais.
–
Todas as fotos foram feitas por nós nos locais visitados. Todas as histórias e personagens são verdadeiras. Ir de férias e usufruir desse merecido tempo de pausa tem de ser mais do que passá-lo, tem de ser a reinvenção da vida.
–
O trabalho está aí aguardando, vai sendo tempo de pegar-lhe e sonhar com outros diários de bordo! Boas Férias, sempre!
————————-
Números curiosos
–
Total de dias em viagem: 25.
Número de viajantes: 3.
Euros gastos: menos do que em 15 dias no Algarve.
Viagens de avião: 4.
Viagens de barco: 3.
Viagens de autocarro: 9.
Viagens de comboio: 2.
Km percorridos a pé: mais de 60 por pessoa. Mais de 100 no caso do Iago.
Número de rakis bebidos: 1 para a senhora, cerca de 6 para cada homem.
Fotografias tiradas: 1168.
km conduzidos em automóvel: 1537.
Banhos de mar: sem conta.
Banhos em cursos de água doce: sem conta.
Número de cafés bebidos: cerca de 160 pelos três.
Número de sumos de laranja bebidos: cerca de 100 pelos três.
Localidades visitadas: 37.
Kg ganhos: 5 no meu caso!
Praias visitadas: 14.
Alimentos ingeridos com mais frequência por ordem decrescente: água, café, sumo de laranja, uvas, tzatziki, carne, melancia, tomate, pimentos e raki.
Amizades feitas: uma mão cheia.
Palavrões aprendidos em grego: 3, dos impronunciáveis.
Museus visitados: 3.
Conjuntos de interesse arqueológico visitados: 6.
Mosteiros visitados: 2.
Igrejas e capelas visitadas: 19.
Pessoas desconhecidas com que metemos conversa só porque sim: 92.
Discussões: 0
Chatices: 0
Miúdas giras que fotografámos sem autorização das mesmas: 17.
Miúdas giras que fotografámos com autorização das mesmas: 1.
T-shirts adquiridas: 6.
Número de pelicanos a que fizemos festinhas: 1.
Capítulos de “De Negro Vestida” redigidos na íntegra: 12.
————————-
Fonecem-se outros dados a quem os solicitar via comentários. Hihihihi.


Deixe um comentário

Creta 2010 – Diário de Bordo – 27

20/8/2010 – 20:15h. – No avião (Genebra – Lisboa)–Em Portugal é menos uma hora. Já sinto a ansiedade de chegar a casa. Finalmente, ao fim de vinte e cinco dias, ouvimos falar português. A nossa Língua é tão bonita e acolhedora! Claro que somos mais “fechados” que os gregos, em particular os cretenses, mas somos um excelente povo. Gente muito boa.
–Vi Veneza e Verona do avião no voo anterior, mas o mais espectacular não foi isso. O aeroporto de Genebra fica ao lado de um lago imenso. A aproximação à pista foi feita por cima do lago e a aterragem ao lado dele. Foi belíssimo. Agora viajamos num AirBus da TAP chamado Francisco D’Ollanda. Já lanchámos.
–
Devido à diferença no fuso horário (duas horas entre Atenas e Lisboa), hoje vamos viver um dia de 26 horas! Interessante, isto do tempo. O certo é que nunca pára. Hoje só volto a escrever na Zibreira.


Deixe um comentário

Creta 2010 – Diário de Bordo – 26

20/8/2010 – 16:17h. – No avião (Atenas – Genebra)
–
Deixámos Atenas há 20 minutos. A descolagem foi suave. É um AirBus da SwissAir.
–
Lembrei-me de escrever só para registar que adoro aeroportos. E não tem nada a ver com estar de férias ou andar de avião ou o que quer que seja. Tem a ver com a multiplicidade cultural que aí se encontra. Estar num aeroporto é como não estar em país nenhum e estar em todos os países ao mesmo tempo. Almoçámos no aeroporto de Atenas. Foi muito interessante, mais uma vez, ouvir tanto linguajar diferente, tanto costume diferente. Nas roupas, nos gestos, nas malas, na forma como se espera, na ansiedade com que se pretende embarcar, na cor da pele, do cabelo, dos olhos. Se tudo correr bem, hoje durmo na minha cama. Na Zibreira! Acho que hoje até os cães vão dormir dentro de casa! Devem ter muito para contar. E nós também.
————————
–
Nota de vôo: nas diversas viagens que tenho feito, nunca me aconteceu isto. O comandante informou que o tempo estava de tal forma bom que quase todo o vôo, excepto a partir dos Alpes, seria feito com visibilidade para a terra. Estamos a 11000m de altitude e é possível ver o esquadrinhado das casas, das estradas, o verde dos lagos, o percurso irregular dos rios, o azul intenso do mar e as ilhas dispersas e perdidas nele. Sempre sem nuvens. O poeta tinha razão. Para além da nossa pequenez existencial, também fisicamente somos um “bicho da terra tão pequeno”.


Deixe um comentário

Creta 2010 – Diário de Bordo – 25

19/8/2010 – 21:36h. – Atenas
–
Hoje foi dia de Acrópole. Estou no hotel e descanso.
Chegámos de Creta muito cedo, pelas 6h da manhã, largámos as malas no hotel, tomámos o pequeno-almoço e fomos revisitar a cidade sagrada. Logo às 8h. assistimos ao hastear da bandeira grega na Acrópole. É feito por oito soldados que a protegem armados até aos dentes. Quando terminam o processo, por volta das 8:30h, viram costas à bandeira e gritam “Bom-dia Atenas, bom-dia Grécia!”
–
Sempre que lá volto reencontro o mesmo poder, a mesma magnificência e encontro aspectos novos. É um conjunto arqueológico invulgar, com uma história invulgar, quer pelo aspecto que mantém, quer pela civilização que invoca. A visita ocupou-nos toda a manhã.
–
Passeámos toda a tarde e noite pelas ruas da cidade antiga. Não sei como é que isto acontece, mas no fim das férias as malas estão sempre mais cheias. Não sei como é que vai lá caber tudo. Será precisa muita engenharia de arrumação!
–
Tenho saudades de casa e… dos meus cães!


Deixe um comentário

Creta 2010 – Diário de Bordo – 24

18/8/2010 – 22:01h. – A bordo do Lato
–
Já estamos a bordo do Lato no percurso de 8 horas de Creta para Atenas. Curiosamente, o mesmo navio que nos trouxe, vai levar-nos de volta.
–
O dia foi muito agradável. Pequeno-almoço memorável. Depois fizemos as malas e deixámo-las guardadas com a D. Antonia e passámos todo o dia na praia “quente e frio”. A água que chega das montanhas é mesmo gelada. Tão gelada quanto revigorante. Alugámos um chapéu e umas cadeiras de recostar mas não foram muito usados. Andámos todo o dia no mar. Escrevi imenso. Gosto de escrever de frente para o mar. Bem vistas as coisas, de frente para o mar tudo é melhor.
–
Como tínhamos comprado bilhetes com quarto, deixaram-nos entrar duas horas antes da partida, ou seja, às 19h. Foi óptimo porque pudemos tomar um banho retemperador, vestir roupas lavadas e ir lá acima ao exterior comprar jantar e ficar a comer numa mesinha de frente para o mar.
–
Agora só penso em descansar porque amanhã é dia de revisitar a Acrópole o que é sempre tão interessante quanto cansativo e, como tal, não me apetece ainda fazer balanços que deixarei para o fim. Mas, à medida que a ilha fica para trás, não posso deixar de reparar que um pouco de mim fica com ela. Não posso deixar de lembrar dois aspectos que emergem de todos os outros, que só por si teriam valido a pena: a extraordinária beleza Natural de Creta e as fabulosas pessoas que nela habitam. Penso voltar um dia, se conseguir. É quase como se fosse um tributo.
—————————-
–
Pormenor de atendimento: fomos ao restaurante dos grelhados no barco e pedimos três gyros. Aconteceu um diálogo tão hilariante quanto curioso:

– Desejamos três gyros, por favor.
– No pão ou no prato?
– No pão.
– No pão não temos, só no prato!


Deixe um comentário

Creta 2010 – Diário de Bordo – 23

18/8/2010 – 8:03h. – Georgioupoli
–
O sol já resplandece em toda a ilha desde a montanha ao mar. Faz um calor envolvente mas não agressivo que vem das serras e é cortado a espaços por uma brisa fresca que vem do mar. Estamos a tomar o pequeno-almoço no nosso local favorito. Iogurte com mel e nozes, sumo de laranja, café, pão fresco, ovos cozidos, estrelados, bacon, doces e biscoitos. Coisa ligeira, portanto!
–Não tenho escrito porque os últimos dias foram exclusivamente dedicados a descansar. Da cama para a mesa, da mesa para o mar, do mar para a mesa, da mesa para a cama, da cama para o mar, do mar para a mesa, da mesa para a cama. Tem sido este o círculo dos dias. Meu Deus, como precisava descansar! Tenho escrito imenso. “De Negro Vestida” avança a olhos vistos, em bom ritmo.
–
Ontem à noite jantámos de novo no restaurante Nostos. Foi o local onde fizemos mais refeições, quase diariamente. Tem uma qualidade soberba, pessoas de uma simpatia extrema e não é nada caro para aquilo que oferece. Ontem jantámos tzatziki com pão tostado, soutzoukakia, bolognesa cretense, gemistá (muito melhor do que a de Xaniá), duas coca-colas, uma água e uma garrafa de vinho retzina, No fim pediram-nos 28€. Quando acabei de pagar, trouxeram-nos um quarto de melancia partida aos bocadinhos, um prato com figos e três cálices de raki, um para mim, outro para o Iago e outro para o dono da casa! Ele bebe com todos os clientes. Não sei como aguenta! No fim vieram desejar-nos boa viagem para hoje com abraços e beijos e ofereceram-nos uma garrafa de água de litro e meio cheia de raki caseiro. O dono do restaurante e pai da família disse que o raki faz bem aos homens e fez um gesto com o braço bem conhecido de todos a indicar uma erecção. Fiquei a saber que além de uma aguardente que não arde, o raki também é um produto com efeitos terapêuticos! Ele que é careca e muito gorducho está sempre a dizer “O meu nome é Adonis, o deus da beleza” e faz um gesto para si mesmo como que para comprovarmos a dita beleza! Depois desata numa gargalhada e bebe mais um raki. Quando trouxe os figos perguntou-me se gostava. Eu disse que nem por isso mas que a minha mulher e o meu filho adoravam. Ele disse que aqueles figos eram das árvores deles e vai daí descascou um com as suas próprias mãos e foi com elas que mo enfiou pela boca abaixo. Eu comi e depois bebi mais um raki!
–Hoje é dia de fazer as malas, usufruir da praia uma vez mais e apanhar o barco para Atenas ao princípio da noite.
———————–
–
Nota hospitaleira: Nesta ilha fomos tratados um bocadinho além de turistas. Fomos verdadeiramente acolhidos e acarinhados. O Nostos é um exemplo disso. É um restaurante familiar onde trabalha o pai, Adonis, a mãe, Atena, a filha, Maria e o filho, Giorgis. Merecem ser visitados por quem venha a Creta. Também alugam quartos e têm um site que mora em http://www.river-side.gr
–
A Maria faz 18 anos em Outubro e vai para a universidade em Atenas estudar Fashion Design. Passa os verões no Nostos a servir à mesa com humildade e simpatia não obstante os seus sonhos. Tentou ensinar-nos mais algum grego… não sei se conseguimos aprender, ainda assim, cá vai: kalitichi, Maria! (felicidades, Maria!).
–
Nota Luís Lobo: tenho tentado não me lembrar do trabalho nem de nada, nem de ninguém relacionado com ele, mas não me esqueci de ir pedindo um pacote de açúcar a mais sempre que bebia café. São para a tua colecção. Só já falta a viagem de regresso e o avião não cair, hihihi!


Deixe um comentário

Creta 2010 – Diário de Bordo – 22

14/8/2010 – 00:25h. Georgioupoli
–
Chegámos agora ao apartamento.
Por muitos anos que viva , as coisas que hoje vi, dificilmente se desprenderão da minha memória.
Já é sábado, 14 de Agosto, mas tudo começou bem cedo pela manhã desta sexta-feira, 13 de Agosto. Não foi dia aziago, pelo contrário.
–
As pessoas daqui tinham-nos dito maravilhas de duas praias, coisas do tipo “Não podem perdê-las!” e por isso resolvemos visitá-las. Passámos a manhã na praia de Balos/Gramvousa e a tarde em Elafonissi.
–
Balos é um milagre da Natureza. Daquelas coisas que costumamos ver nos postais ilustrados e achamos que não existem. O acesso é feito por 7km de uma estrada pedregosa a exigir cautelas na condução. Uma vez lá chegados, há um parque de estacionamento onde as cabras selvagens dormem à sombra dos carros ou… em cima deles! Depois, uma descida de 30 minutos por um carreiro. Também se pode evitar este acesso e ir de barco mas a grande vantagem de ir de carro é poder chegar cedo à praia e vê-la antes de estar repleta de turistas.
–
Balos e Gramvousa são duas baías que ficam entre o continente e uma pequena ilha à qual se ligam por uma língua de areia. Dependendo dos locais, a água do mar pode dar-nos desde o tornozelo até à cintura durante centenas de metros. É quente. Há mesmo locais onde, por volta da uma hora da tarde, é difícil estar dentro de água porque queima. Os azuis são tantos que não consigo descrevê-los. É assim como se fosse um arco-íris de tons de azul espelhado no mar. E a areia é cor-de-rosa! Ou, pelo menos, rosada. Há aqui um fenómeno que faz com que a areia seja branca e fina como há em Portugal mas na zona em que o mar toca a terra há uma linha de areia rosada. Tentei segurar um pouco para ver o que era. Desconfiava que fossem conchas ou búzios mas não, pareceu-me mesmo só areia com pigmento rosado. É proibido trazer nem que seja um punhado. A areia está protegida por lei!
–
Ficámos entretidos e divididos entre tomar banho ou ficar simplesmente a contemplar o intenso azul cristalino do mar. Atrai o olhar e a atenção aquela cor. É um local paradisíaco.
–
Elafonissi é como Balos mas tem um acesso melhor. Também há areia rosada e há locais onde a areia são milhões de conchas e búzios minúsculos. Também esta praia é uma extensão de areia a ligar o continente, quer dizer, Creta, a uma pequena ilha.
–
Almocei voureki que é um empadão feito de camadas de batatas às rodelas, courgetes, alho francês, beringelas e cebola.
–
À noite fomos a Rethimno ver um espectáculo de folclore grego, o bracoforio, dentro da fortaleza da cidade. Era aberto ao público. Como disse o Iago, aquilo é qualquer coisa entre o folclore português e as danças russas. Tem uma musicalidade e um ritmo orientais e os protagonistas são, sobretudo, homens. Foi interessante mas é exasperante ouvir as pessoas falar e não perceber. O apresentador fazia longos discursos que deviam conter anedotas ou piadas porque toda a gente se ria e nós sem perceber nada! Ficou o interesse de ver a alegria com que eles participam. Durante o espectáculo o público não estava em silêncio. Conversavam, gritavam, falavam para o palco. Era uma algazarra a fazer lembrar o que estudámos sobre os gregos e os romanos quando iam assitir a comédias.
–
Foi o último dia com o carro alugado. Amanhã começa um período em que nos vamos dedicar, sobretudo, a descansar.
—————————–
–
Nota triste: a nossa máquina fotográfica avariou-se hoje ao fim do dia.

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa
–

Balos/Gramvousa