Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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A Paixão de Madalena – Capítulo 4

A Paixão de Madalena

Livro I – A Paixão de Madalena

4.-Florence!
-Presente!
-Jacques!
-Presente!
-Louis!
-Presente!
-Madelaine!
-…
-Madelaine! Não há uma Madelaine aqui?
-Não.
-E tu, quem és?
-Eu sou a Madalena.
-A Madelaine, portanto!
-Não. A Madalena. Como saberá, os nomes não se traduzem.
-E tu és a engraçadinha, portanto.
-Não, eu sou a Madalena
-Madaléna?
-Não se pronuncia assim, mas terá de servir.
-E que livro é esse em cima da tua secretária?
-“Orgulho e Preconceito” é da…
-Eu sei bem de quem é! É uma das minhas autoras preferidas e esse é um dos meu livros favoritos.
-Quer então dizer que tem mais jeito para escolher livros do que para pronunciar nomes…
-Tu és atrevida!
-Só quando me provocam.
Quando disse isto, Madalena ruborizou completamente e, aquela que teria sido uma frase de vitória, foi um dar de flanco. Acontece que Kyle não tirou partido disso. Reconheceu-lhe a inusitada coragem, a maioria não teria ido tão longe, mas sabia que estava em posição de vantagem e não quis abusar disso. Ficou intrigado, contudo, com aquela mescla de pureza e atrevimento. Fizeram-se as apresentações, estabeleceram-se as regras de funcionamento da disciplina de Inglês e na hora da saída, Kyle fez um gesto a Madalena pedindo-lhe que ficasse.
-Estou intrigado…
-Com o quê?
-Diz aqui na tua identificação que és portuguesa.
-E sou! Genebra está repleta deles.
-Sim, mas o que faz uma portuguesa em Genebra a ler um livro inglês traduzido em francês… O natural seria estares a ler uma tradução em português…
-Eu quase não sei português. Só o básico, Bom dia, Boa Tarde, e frases curtas e utilitárias…
-E como veio isso a suceder?
-É a história da minha vida, mas acho que não lhe diz respeito. Digamos que vim para cá muito pequenina…
-De Portugal.
-Não. De Londres e antes disso do Quénia e antes disso de Macau, mas, sinceramente, não me apetece falar disso… quase não o conheço.
-Correto. Mas…
-Sim…
-Tens idade para ler esse livro?
-Ha ha ha ha…
-Porque te ris?
-Pela sua presunção! É para aí a quarta vez que leio este livro e só estou a relê-lo porque não consigo comprar mais…
-Tens a biblioteca.
-Estive lá ontem. Não há lá nada que valha a pena ser lido que eu não tenha devorado já!
-Exagero!
-Teste-me!
-Guerra e Paz?
-Fácil, Tolstoi.
-Crime e Castigo?
-Outra fácil, Dostoievski.
-O Senhor das Moscas?
-Mais rebuscado, Golding.
-Cem Anos de Solidão?
-Garcia Marquez… isso não vai ficar um bocadinho mais difícil?
-O Jardim das Quimeras?
-Sim, esse não é para qualquer um, mas adorei… Marguerite Yourcenar. Agora é a minha vez…
-Venha…
-Pavel Pavlovitch?
-Hummm… isso traz água no bico… como autor não conheço… como título também não… apanhaste-me… ou fizeste batota!
-É a personagem principal de “O Eterno Marido” do seu Dostoievski…
-Batoteira, mudaste as regras do jogo. Gosto desse livro… e do autor. Como sabias que eu gostava do Fiodor?
-Básico, a primeira obra que perguntou era dele…
-Poderia ser casual…
-O professor não é um homem de casualidades!
-Mas afinal quantos anos tens tu?
-Catorze.
-És tão novinha!
-Não sou nada. Novinhas são as minhas colegas de turma que só têm catorze anos! Enfim, aquela dos risinhos tem quinze e é ainda mais nova do que as outras!
-Hummm… isto vai ser giro…
-Senhor Mckenzie?
-Sim…
-Porque é que está triste?
-Não estou. Já chega, reunião terminada, podes ir embora Madalénade Portugal que não fala português e andou a correr mundo antes de me aterrar em cima!
-Madalena!

Não saberemos nunca, se no momento de expirar-se a última gota de água no nosso planeta, um ser humano estará no local para presenciar o evento, quem sabe, cheio de sede, sacudindo o fundo de um cantil e recebendo essa gota nos lábios saciando-lhes, pela última vez, um resquício dessa mesma sede. Provavelmente, quando vier a acontecer tal desgraça, já não haverá seres humanos. E, contudo, passamos os dias da nossa vida usando expressões como “até à última gota” sendo que, não saberemos o que será, nem como será essa gota. Vale a expressão, não pela última gota, mas pelo valor dado ao inestimável e indispensável líquido que nos sustenta a vida. Este encontro com Madalena reabriu o espírito de Kyle Mckenzie e, mesmo que o não saiba ainda, há de devolver-lhe a esperança e há de fazê-lo querer sorver a vida até à última gota.

Depois de um percurso intermitente e deambulante pelo mundo, que contaremos com pormenor chegada a altura de o fazer, que, também nós, escritores, temos os nossos caprichos, Madalena veio instalar-se em Genebra com Albertina, mãe de sua mãe, e sua mãe desde tenra idade. Dizemos por vezes que ser avó é ser mãe duas vezes, pois no caso de Albertina, ser avó de Madalena foi ser sua mãe pois que muito cedo lhe foi entregue e a seu cuidado ficou. Agradecida está Madalena por ter tido essa proteção e o Universo, em seus misteriosos desígnios, lhe há de pedir que devolva a generosidade o que ela fará com dedicação e amor. Por agora, importa saber que Madalena está há dois anos em Genebra, é fluente em inglês e em francês e está, desde que chegou à cidade das neves, pela primeira vez, numa escola pública. Tem tido excelentes resultados, mas quase não tem amigos. Chega à escola, vai às aulas, regressa a casa, e nos intervalos de tempo que possa ter, dedica-se à maior das suas paixões: lê. Albertina, a avó-mãe, não só nunca lhe cerceou o ímpeto e o gosto, como lho fomentou e lho alimentou sempre que pode. Aos oito anos já lia alguns dos clássicos da literatura mundial e sempre que lhe surgiam dúvidas, fossem vocabulares, fossem das intrincadas razões das pessoas para serem pessoas, Albertina explicava-lhe com simplicidade e com naturalidade as coisas tal como a vida lhas ensinara.

É curioso como por vezes se pensa que a atração entre duas pessoas é física. E como se pensa também que, não sendo física, é do foro das emoções, como o amor, por exemplo, tendo depois a sua concretização física. Em todo o caso, está a atração entre duas pessoas distanciada quase sempre, e na sua génese, das zonas racionais e inteletuais. Madalena e Kyle são prova de que este senso comum é falho de precisão. Para que duas pessoas se sintam atraídas, basta que se sintam atraídas. A causa da coisa pode bem ser do âmbito racional ou intelectual, como foi o caso. Madalena foi ficando mais vezes no final das aulas e depois mais vezes ainda e depois começaram a encontrar-se, ocasionalmente e sem qualquer arranjo, no refeitório e as suas conversas eram sobre literatura e livros e a interpretação das coisas escritas e do seu sentido na vida que nos é comum. E quando sucedia que, por qualquer razão alheia a ambos ou por propositada prudência de Kyle, não ficavam conversando uns minutos no fim da aula ou à hora do almoço, Madalena sentia-se como se algo lhe tivesse faltado naquele dia e Kyle sentia-se como se naquele dia algo lhe tivesse faltado. Discutiam questões de gosto, debatiam as intenções dos autores, analisavam estilos, esquadrinharam o romantismo de Lord Byron, Jane Austen e Victor Hugo, discutiram os realistas, os neo-realistas, os existencialistas, e aqueles que discutiram só porque quiseram discuti-los, só porque tinham gostado de um livro anónimo de um autor desconhecido. E o tempo e as conversas foram traçando caminhos de emoção no peito e na mente e, sabemos nós e saberá o leitor, em fazendo as contas que são de matemática simples, que havia entre a aluna e o professor vinte e cinco anos de diferença na idade que a cronologia dos dias marcou. E, no entanto, os seus corações não viam essa diferença, as suas mentes não sentiam essa assimetria de tão ocupados que estavam com o estímulo intelectual que cada um representava para o outro. E como sempre acontece quando as pessoas se revelam pelas palavras e pelo sentido que vai nelas, começaram a conhecer-se. Madalena percebeu que o professor de inglês, não era só um professor de inglês, havia um homem sensível e magoado e havia, não obstante o traço triste que sempre o acompanhava, um sonhador, um menino de olho azul que continuava a acreditar nas pessoas. Percebeu, também, que estava divorciado e percebeu que essa era uma ferida muito recente em que ele evitava tocar a todo o custo. Como quando levantamos um penso de uma ferida fresca e a pele vem agarrada. Este homem era, sobretudo, um espírito livre, um amante da vida e de viver, uma pessoa de mente aberta e mentalidade plural e, sendo muito mais velho, era charmoso. Um dia deu consigo a pensar na diferença entre bonito e charmoso. De facto, não podia dizer-se que o professor Kyle fosse bonito. Já o fora, por certo, mas demasiadas dores e algum tempo lhe haviam passado pelo corpo e pelo olhar. E gostava de mulheres, ai isso é que gostava, via-se bem na forma enlevada como falava da sua graciosidade e harmonia. E havia em si uma aura de magnética paz, de boa disposição e de entendimento que puxava. Apetecia estar com ele. A verdade é que Madalena se sentia atraída pelo professor de inglês e em pouco tempo, que estas coisas nunca levam muito, se apaixonou por ele. Só que não soube. Se soubesse talvez tivesse recuado por via de uma montanha de preconceitos que se avistava ao longe como as que cercam Genebra. Quando veio a saber, era já incapaz de recuar. Em abono da mesma verdade que ainda agora se invocou, as coisas não foram iguais na cabeça de Kyle. Foram conscientes, medidas, pesadas e calculadas desde o primeiro momento. Ele soube de imediato, logo naquela primeira chamada, que aquela miúda mexia consigo. Aquele misto de ingenuidade e atrevimento era condimento irresistível. Aquela miúda corava com uma facilidade inusitada e, ao mesmo tempo, debatia literatura e a vida com a maturidade de uma mulher crescida. Kyle sabia que se tratava somente de uma rapariga de catorze anos, mas sabia também que tinha na sua frente uma mulher com mais maturidade do que a maioria das mulheres que ele conhecera, de algumas das suas colegas de trabalho, por exemplo. Retraiu qualquer impulso afetivo que estivesse para além da comunhão das ideias que ambos procuravam e analisavam nos livros que liam, mas sabia que o impulso estava lá. Por vezes, sentia-se mal. Pensava na idade dela, Mas onde raio é que andas com a cabeça, irlandês casmurro, é só uma adolescente! Outras vezes pensava na maturidade dela e nas coisas que passara a vida a ensinar na faculdade e agora também a estes, que o amor não escolhe raça, género nem idade, acontece e pronto. E debatia-se entre aquilo que ensinava aos outros e a coragem de seguir o seu próprio impulso. Um dia marcaram-lhe um desses infindáveis e dolorosos exames. As coisas não correram como esperado e ficou duas semanas em casa acompanhado por uma enfermeira. Na escola disseram somente que o senhor McKenzie estava doente e seria substituído temporariamente por fulano de tal. Ele chorou na cama a sua sorte, quando o coração lhe pedia vida, o corpo negava-lha. E chorou a ausência de Madalena. A enfermeira, com aspeto muito frio e distante, surpreendeu-o, Por que chora, senhor Mckenkie? Está com dores? Não, não tenho dores! Calculei, um choro assim profundo e sentido não vem do corpo, vem da alma, o senhor está com dores de alma? Kyle olhou-a surpreendido e disse-lhe, Acho que sim, e contou-lhe tudo o que estava a passar. Senhor Kyle, estou habituada a ver corpos abertos, a sangrar, a deitar pus, homens de barba rija a gritarem como crianças, mas acho que nunca vi um coração assim dilacerado. A sua história é impressionante e ingénua e pura… Sabe, eu seguiria esse amor, se essa jovem soubesse no que se estava a meter, se a família soubesse no que ela se estava a meter, se o senhor não fosse mais professor dela… percebe… o problema, a meu ver, não é a idade, é o seu relacionamento profissional com a jovem.

-Está melhor?
-Eu não vou melhorar, mas por agora estou.
-Ainda bem. Gosto de saber isso. Não tinha mesmo como avisar?
-Avisar? Eu pedi que avisassem…
-Sim à turma em geral, disseram que estava doente, mas nós, quer dizer eu… pensei…
-Sim. Pensei em fazer-te chegar um recado só a ti a dizer que estava tudo bem, que eram só uns exames, mas… não sei… achei mais prudente não fazê-lo… porquê tratar de modo diferente uma aluna?
-Uma aluna?! É isso que sou para si?
-Que mais podes ser, Madaléna?
-Se não cabe mais nada na sua cabeça, então tem razão… que mais? Nada.
-Cabe na minha cabeça, cabe no meu coração, mas e os outros? Que dirão as pessoas? Tenho mais vinte e cinco anos do que tu e tu… por mais maturidade que tenhas, és só uma adolescente… não quero magoar-te, mas…
-Mas só ficou o preconceito. Já não há orgulho e amor talvez nunca tenha havido…
-Madaléna, imagina que assumíamos tudo o que houvesse para assumir, imagina que tudo era aceite, e não vai ser, imagina que tudo corria bem entre nós e à nossa volta, mesmo assim, eu tenho cancro Madaléna,isto vai matar-me em breve, não me resta muito tempo e o pouco que resta adivinha-se um tempo de sofrimento…
-E como tal, o melhor que encontra para fazer é negar a vida que lhe resta viver! É negar os sentimentos que nutre pelas pessoas que o rodeiam, é… enfim, é morrer antes de ter morrido! Eu estou a falar com o professor McKenzie ou com o cadáver dele?
-Cala-te miúda atrevida, não brinques com o que não conheces!
-Eu não estava a brincar…
-Cala-te!

Durante essa semana não voltaram a falar-se. Ele entrava na sala, chamava os alunos, corrigia os trabalhos de casa em os havendo, dava a aula, fazia perguntas, a ela também, ela mostrava-se atenta, respondia quando alguma pergunta lhe era dirigida e saía da sala sem olhar para ele sabendo que ele estava ocupado a apagar o quadro ou a arrumar os cadernos e não olharia para ela também. E andaram os dois remoendo aquela conversa azeda e relembrando todas as outras interessantes e estimulantes na partilha e na troca de ideias. E outras semanas se passaram até que se digerisse o muito que havia para digerir. Até que se pensasse e pesasse o muito que havia para pensar e pesar. Até que a distância ajudasse a medir a proximidade. E os seus corações serenaram e as suas cabeças discerniram. E um dia, no final da aula, ela deixou-se ficar para trás e quando se dirigia para a porta perguntou:
-Professor McKenzie?
-Sim…
-Todos os irlandeses são assim casmurros ou o senhor é um caso particular?
-Há dois requisitos para se ser irlandês, ser casmurro, beber Guiness e amar portuguesas francófonas que correram meio mundo, amadureceram prematuramente e nos revoltaram o coração no fim da vida!
-A vida não tem fim, Kyle McKenzie.
-Isso é o que veremos, Madaléna…
-Mas… disse dois requisitos e enumerou três…
-Naaa… o terceiro é uma consequência dos dois primeiros!
-Safado!
Madalena deu os dois passos que os separavam e abraçou-se a ele. Kyle retribuiu o abraço com força e ternura e ficaram ali sentindo o imenso amor que os unia até que ele conseguiu dizer:
-Precisamos conversar, miúda.
-Está bem, velhote…
-E preciso conhecer a tua avó.
-Ela já te conhece e sabe as tuas intenções.
-Quais intenções?
-Amares-me para todo o sempre!
-Mas eu nunca disse isso!
-Nem foi preciso, estava escrito na tua cara, no teu corpo e vinha com as tuas palavras mesmo que elas não o dissessem abertamente.
-Safada!
-Sabes quando tive a certeza de que éramos namorados?
-Ai somos?
-Claro que sim, sabes que sim… quando nos zangámos… Eu fui rezingona como a Elizabeth Bennet e tu foste altivo como o Mr. Darcy.
-A vida não é um romance, Madaléna!
-Passas as aulas a dizer o contrário.
-Ainda bem que o ano letivo está quase no fim.
-Porquê?
-Para me livrar de ti e das tuas respostas impertinentes…
-Para te livrares de mim?
-Sim, como aluna. Vamos lá conhecer a avó Albertina!
Não se beijaram. Não era preciso. E também não deram as mãos. Ele acompanhou-a até ao portão e ficou combinado que no sábado de manhã a visitaria para conhecer Albertina. Continuava a achar que tudo aquilo era uma rematada loucura, mas corria-lhe no peito um Camowen de emoções e excitação. Por momentos, pensou mesmo que um dia venceria o cancro. Fantásticos poderes tem o amor. Cura doenças, traz a imortalidade dos amantes e une as pessoas improváveis em improváveis casais. Brota súbito e poderoso e corre para a morte prenhe de vida como os salmões no Strule.

————————– jpv ————————–


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Citação das Intrincadas Razões


“Aos oito anos já lia alguns dos clássicos da literatura mundial e sempre que lhe surgiam dúvidas, fossem vocabulares, fossem das intrincadas razões das pessoas para serem pessoas, Albertina explicava-lhe com simplicidade e com naturalidade as coisas tal como a vida lhas ensinara. “


João Paulo Videira 
in “A Paixão de Madalena”, Capítulo 4,
 a publicar em breve neste blogue. 
Foi só uma provocaçãozinha!


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Versatile Blogger – Agradecimento

Caros Leitores e  Amigos,

como é sabido, não gosto muito de participar neste tipo de atividade em cadeia, mas tenho alguns amigos blogueiros que o fazem e de vez em quando têm a simpatia de me oferecer estas distinções. 

Fica, por isso, o agradecimento às autoras dos blogues “Crazy 40 Blog” e “Confissionarium” pela generosidade e pelo carinho com que sempre me tratam.


Muito Obrigado

jpv


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Mão Divina

Mão Divina

Cai certa,
Esta chuva,
E em profusão.
Escorre pelas paredes,
Galga o chão.
A cada esquina,
Um riacho encontra outro,
E a carreira que era fina
Agora abre rios
De lavar a cidade.
Arrasta as folhas
Varridas e amontoadas.
Empurra terras e areias
E as garrafas abandonadas.
Traz esse silêncio
E esse respeito
Que é desfazer
O que o homem tinha feito.
E passam três crianças
Em calções e descalças,
Trazendo por seu
Só isso
E a chuva que cai do céu.
Ressoa forte
E sonora
Nos telhados aqui à volta.
Um homem que esperava
Foi-se embora…
E passa esta mão
Divina
Banhando a cidade,
Recolhem-se as pessoas,
Expõe-se a verdade.

jpv


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Crónicas de África – O Pão que o Africano Amassou

O Pão que o Africano Amassou

Maputo, 12 de outubro de 2012

Não será extensa, esta crónica. Mas quero-a intensa. E por isso começo com uma frase curta e objetiva que contém em si todo o propósito da crónica: o pão aqui é fabuloso!

Mastigar o pão que o moçambicano amassou faz-me ter saudades. Saudades da inocência, saudades do genuíno, saudades de antes dos fingimentos, saudades de não ouvir falar de globalização, saudades de não haver desculpas para piorar a qualidade de vida sob o pretexto de que se está a melhorar.

E porque é melhor o pão aqui?
Em primeiro lugar não precisam de lhe chamar caseiro, para ser caseiro. Não lhe chamam nada. É pão e pronto. Depois, porque sabe a pão. Ou seja, a farinha misturada com água e uma pitada de sal. Os pães, aqui, sejam papo-secos, bolas, pregos (compridos), pães de leite ou arrufadas, são enormes. Um papo-seco enche uma mão e, imagine-se, é pesado! Tem imenso miolo branquinho e fofinho e é um pão muito guloso!

O segredo é simples, eu já perguntei, o pão aqui faz-se com três ingredientes: farinha, água e sal! No caso das arrufadas e dos pães de leite, juntam também leite, ovos e açúcar. Quer isto dizer que o pão moçambicano não leva melhoradores nem conservantes e como ninguém tentou melhorar o quer já era bom, bom ficou! Como ninguém tentou conservar um alimento que se vai consumir no próprio dia, ele está naturalmente conservado. E o pão aqui não é sujeito a análises químicas rigorosas, com senhores de bata branca a inspecionarem. Nada disso. É feito por padeiros! Vejam lá ao que isto chegou, o pão moçambicano é feito por padeiros! Sim, esses de camisolas de mangas cavas que passam a noite acordados e se deitam de manhã! Ora, ninguém vem controlar o tamanho do pão, nem o peso, nem a cor, nem a textura nem que químicos deve levar para ser mais seguro o consumo no interesse do próprio consumidor. Enfim, o pão que o africano amassou é genuíno, é verdadeiro, é simples como as coisas simples, come-se por gula só com manteiga, é fofinho, tem miolinho, e leva só o que é preciso para fazer pão. E querem os amigos leitores rir-se? Sendo Maputo uma cidade caríssima, onde quase tudo custa os olhos da cara, um desses pães, papo-seco chamado, pesado, enorme, a saber mesmo a pãozinho, um desses que no fim de comer só apetece comer outro, custa 3 meticais que é mais ou menos, 8 cêntimos de 1€.

Isto leva-me a pensar que, às vezes, na ânsia de melhorarmos, de fazermos mais e mais seguro, nós acabamos criando novas necessidades, novos e desnecessários custos para o utente que são nichos de mercado para quem se aproveita disso e acabamos estragando tudo. 

E agora, caros leitores, se me dão licença, vou-me retirar ali para a cozinha a ver se faço uma sandocha deliciosa. Lá fora, chove, cá dentro, haverá café quente e pão com manteiga. Simples, não?
jpv


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Fé Nua

Fé Nua

Vi-te emergir
Nua
Para a praia
Da deusa
A que rezavas.
E com essa tua nudez,
Ao mundo oferecida,
Não me incomodavas.
Tinhas o santo encanto
De quem sabe
E vive na fé,
De que o mundo é mais
Do aquilo que se vê.
Vinhas luzindo pureza
Sem mácula
Nem vergonha.
Um sorriso por auréola
E a firme e certa certeza
Da alma limpa
E o corpo preparado
Para a vida
E para a morte.
Quem dera
A sorte
Dessa cega fé,
A mesma que nos derruba
A mesma que nos tem de pé.
Vinhas banhada de sal,
Mergulhada em crer,
E eu quase me converti
Só por te ver.

jpv


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Semeador

Semeador

Semeio minha Pátria
Noutro chão.
E nasce em mim,
Pela minha própria mão,
O sentir doce
De outras gentes,
De outra nação.

jpv


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Crónicas de África – Adaptadores e Adaptações

Adaptadores e Adaptações

Maputo, 9 de outubro de 2012

Ainda me vão perguntado, os colegas e amigos de cá assim como os de Portugal, como é que eu me estou a adaptar, se a adaptação tem sido fácil, ou como é que estou a reagir à adaptação. A resposta repete-se, isto tem dores e dá trabalho e é cansativo e é uma mudança grande mas, na generalidade, estou a adaptar-me bem e depressa.

Hoje, voltaram a perguntar-me o mesmo e eu lembrei-me dos adaptadores e das adaptações. Ah pois, os adaptadores são uma coisa muito importante em Maputo. Eu esclareço. Em Portugal, quando compramos um eletrodoméstico, temos a certeza de que chegamos a casa, enfiamos a ficha na tomada e ele funciona. Pois isso é muito giro e muito fácil, mas cá não é assim. Os eletrodomésticos funcionam. Disso não há dúvidas, não tenho razões de queixa. Agora que as fichas sirvam nas tomadas, já isso é outra história. A norma aqui é igual à de Portugal, ou seja, as tomadas das casas tem dois “buracos” e as fichas têm duas “perninhas”, acho que o termo técnico é bornes, mas não tenho a certeza. Ora, Moçambique tanto importa eletrodomésticos da Europa, como do Reino Unido na Europa, como, na sua maioria, da África do Sul. Acontece que as fichas dos eletrodomésticos no Reino Unido têm três “perninhas”, todas retangulares, já as da África do Sul têm três enormes “pernas” redondas. Assim, uma pessoa pode comprar um espremedor de sumos, ou uma torradeira, ou um microondas, chega a casa, abre a caixinha e quando vai para ligar o aparelhómetro a coisa não serve na coisa. Assim, a lei moçambicana obriga os vendedores a fornecerem uma ficha compatível com as tomadas. Isto até seria fácil, mas se cortamos a ficha e pomos a que nos deram e calha de o eletrodoméstico ter uma avaria, o vendedor vai dizer que não pode acionar a garantia porque ele não está conforme foi vendido. Vai daí, surgiu a febre dos adaptadores. Há adaptadores do sistema britânico para o moçambicano, do sistema sul africano para o moçambicano, mas também há do europeu para qualquer um dos outros porque, entretanto, houve quem se lembrasse de mudar as tomadas lá de casa! Enfim, os adaptadores, em Maputo, são um negócio em expansão. Nem é preciso dizer que cada adaptador é um matacão de todo tamanho e dois ocupam o espaço de uma extensão de quatro entradas. Nada a fazer senão adaptarmo-nos.

Já as adaptações têm sido diversas. O ritmo de vida é diferente. Cinco horas da manhã é uma hora razoável e não muito cedo para uma pessoa se levantar. A primeira aula, por exemplo, é às sete! Dez da noite é tardíssimo. Ir dormir às oito ou nove é o mais aconselhável. É preciso adaptarmo-nos aos volantes à direita, ao trânsito pela esquerda e ao interruptor dos piscas do lado direito. Quando se começa a conduzir aqui, é comum fazer-se o pisca e as escovas do limpa pára-brisas começarem a dançar. Pormenores. É preciso adaptarmo-nos à ideia de andar com dinheiro no bolso. Cá há cartões e a maioria das lojas já aceita pagamento com cartões mas… os cartões servem mesmo é para levantar dinheiro! Toda a gente anda com dinheiro porque as transações são muito pessoais e rápidas e… acho que faz parte desta cultura. Dinheiro no bolso, portanto. Vivo!
 É preciso adaptarmo-nos a carros 4×4 porque as estradas têm mesmo muitos buracos, quando há estradas. É preciso adaptarmo-nos a longas filas nos bancos. A usar repelente para insetos. À ideia de 40º celsius no Natal! É preciso adaptarmo-nos à ideia de que, sempre que se estaciona o carro, alguém se oferece para o lavar. É preciso adaptarmo-nos a uma alimentação diferente, mais picante, mais condimentada, mas também com mais fruta. É preciso saber esperar. É preciso adaprtarmo-nos a uma cidade cujas ruas tanto têm nomes de moçambicanos, como de portugueses, como de russos, como de chineses. É preciso adaptarmo-nos à ideia de que a marcação de um evento, um encontro ou um serviço, só por si, não quer dizer que ele vá acontecer. É preciso adaptarmo-nos ao sorriso das pessoas, que é constante. É preciso adaptarmo-nos à ideia de haver esperança. É preciso adaptarmo-nos a um povo que é constantemente simpático. E, para mim muito importante, é preciso adaptarmo-nos à Língua que aqui se fala. É português, sim, mas é português com bailado nas frases, com palavras de changana pelo meio, com expressões do inglês que se fala na África do Sul entremeadas. É um português mestiço e musical. Lindo de se ouvir, às vezes difícil de se perceber. 

E todas estas adaptações requerem tempo. Sim, estou a adaptar-me bem, mas não é já. Como dizem aqui, Hei de fazer! E, se não me adaptasse, poderia sempre comprar um adaptador!
jpv


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Crónicas de África – Índico Maravilhoso

Crónicas de África – Índico Maravilhoso

Maputo, 7 de outubro de 2012

Nunca gostei muito de praia. Sempre amei o mar como uma extensão de mim. A misteriosa. Às 17:30 do dia 5 de outubro parecia ter vivido três dias num. Se me tivesse deitado naquele momento, tinha adormecido até ao outro dia, mas foi preciso adiar a hora do sono. Ainda havia muito para experimentar.Preparámos um saco de roupa e uma caixa com mantimentos. Tinham-nos dito, Para onde vamos há excelentes condições mas não há comida. Atestei o depósito e a conselho do Marco levei um JerryCan com 20l extra. Às 8:30 enfiámos os carros no ferry e atravessámos de Maputo para Catemba. Assim que o carro saiu do barco, o asfalto desapareceu. Verificámos a pressão dos pneus e o Marco aconselhou, Põe isso em 4×4 porque daqui em diante é só terra e areia. Seguimos para Sul. A primeira parte do percurso foi em terra batida semeada de buracos por todo o lado. Passámos por uma carrinha avariada que tinha como sinalização de veículo imobilizado uns ramos de árvore atrás e à frente. Um pouco mais à frente, a polícia mandou-nos parar, perguntaram-nos se íamos passear e se estava tudo bem. Respondemos que sim às duas perguntas. O senhor está com aquelas pessoas que vão na carrinha ali à frente? Estou sim. Então boa viagem. Obrigado. Estava prestes a arrancar e o polícia disse para a Paula, Mamã tens aí uma garrafa de água? Tenho sim. E demos-lha antes de seguir. A polícia aqui sabe que os locais são inóspitos e que os caminhos são tortuosos, logo, a maioria dos auto-stop são de caráter pedagógico. Só querem saber se estamos bem, se a viagem está a correr bem. Isso, para eles, é mais importante do que a papelada. Por vezes, pedem água e compreende-se porque são largados no meio de nada ao calor e têm de aí ficar horas a fio. Os condutores são a sua companhia e a fonte de água fresca. Entrámos na área da Reserva de Elefantes de Maputo mas não vimos nenhum. Em contrapartida, deparámo-nos com diversas manadas de vacas que tivemos de contornar porque elas, simplesmente não saem do caminho. Depois veio o asfalto. Quer dizer, o que sobra dele. O Marco parou para avisar, Agora temos aqui um bocado de asfalto. Acontece que os buracos eram tantos e tão grandes que raramente andávamos 100m sem parar para contornar um. Decidi seguir a maior parte do trajeto pela berma de terra. Asfalto é que não! Ao cabo de duas horas tínhamos andado 65km. Seguiu-se um troço de areia direito e largo, mais um pouco de asfalto e, por fim, uma picada de areia muito funda a exigir as mudanças baixas por diversas vezes. O carro portou-se muito bem. Tem força, é ágil e não aconteceu o que eu mais temia: não sobreaqueceu. Ao cabo de 130km e mais de quatro horas de caminho, chegámos à Ponta Malongane. Estava cansado e só me apetecia dormir. Não sabia que o melhor estava para vir. O lodge Tartaruga Marítima é um dos muitos que há por aqui, consiste num conjunto de cabanas construídas em madeira e canvas (um tecido muito mais resistente do que o pano e muito mais fresco do que a lona), colocadas no meio das árvores como se fizessem parte da paisagem. As camas são muito confortáveis e estão protegidas por mosquiteiros. Somos constantemente visitados por macacos que tanto andam nas árvores, como fazem correrias loucas por cima das cabanas. O lodge tem uma área de restauração comum onde há frigoríficos, fogões, grelhadores, lava-loiças, armários, amplas mesas, sofás confortáveis e todos os requisitos para guardarmos e confecionarmos os nossos alimentos e estarmos confortáveis. Os funcionários do lodge mantêm o local limpíssimo. A vista para o Oceano Índico, por cima das árvores, é de cortar a respiração. O acesso às cabanas e à praia faz-se por um passadiço de madeira que há por todo o lodge. Antes de entrar no mar pensei, É a primeira vez que vou dar um mergulho no Índico! O Marco avisou, Está fria! Mas a verdade é que a água do mar estava cálida, uma temperatura morna e convidativa, um azul esmeralda intenso a entrar pelos olhos e a preencher todos os recantos da alma. E um cristalino de ver a nossa própria sombra no fundo do oceano. O areal é de uma extensão a perder de vista e toda a praia está povoada de colónias de caranguejos que abrem buracos na areia para se esconderem. Se estivermos sentados numa toalha muito quietinhos, eles começam a surgir à nossa volta, a um simples palmo de distância. A primeira coisa que fazem é limpar os olhos e deslocam-se a uma velocidade incrível. No dia seguinte ao almoço reparámos que, ao longe, já perto da linha do horizonte, havia jatos de água que pareciam emergir do próprio mar. Era uma colónia de baleias das muitas que por ali habitam. À noite fomos à praia e presenciámos um fenómeno muito interessante. À medida que caminhávamos, acendiam-se pequenos pontos de luz na areia que tínhamos acabado de pisar. Pegadas de luz… uma fantástica luminescência noturna no imenso areal da Ponta Malongane.

Como eu e a Paula tínhamos muito trabalho para fazer, preparar aulas, reuniões e fazer materiais, decidimos sair no domingo de manhã bem cedo e deixámos os primos para trás com os miúdos para aproveitarem mais um bocadinho. O Marco emprestou um GPS, uma pá, uma catana e um kit de primeiros socorros. O GPS deu imenso jeito. Do resto, felizmente, não precisámos. Cruzámos-nos com fauna diversa. Um lagarto de proporções enormes, cerca de 1m de comprimento e 30cm de diâmetro que ficou parado no meio da estrada a olhar para nós, uma manada de vacas à briga umas com as outras, tivemos de esperar que desocupassem a estrada para podermos passar, macacos atrevidos a atravessar a estrada à frente do carro e um fabuloso bando de galinhas selvagens muito azuis e com uma popa preta na cabeça. Chegámos cedo, antes de almoço, banhos e trabalho e as baterias completamente recarregadas, as da mente que o corpo pede uma boa noite de sono. O Índico é maravilhoso, a viagem comporta riscos mais ou menos controlados, mas é fantástica e esta terra, sejam quais forem os passos que dêmos, parece reservar-nos surpresas e emoções a cada momento. 
jpv


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Crónicas de África – O meu Aniversário com o Povo Moçambicano

O meu Aniversário com o Povo Moçambicano

Maputo, 4 de outubro de 2012

Não é segredo. Faço hoje 45 anos. Vim a fazê-los em condições bem diferentes do que imaginaria, por exemplo, o ano passado. A última vez que fiz anos em África foi há 38 anos na terra em que nasci, Gabela, Angola.

Vivo um sentimento de reencontro e completude, um ciclo que se fecha e uma perspetiva que se abre. Saudades do filho e da família, mas o olhar em frente. Aos 45 anos estou a tentar reinventar a vida, repercorrer trilhos e caminhos, lavar a alma, adoçar o coração. É boa terra para isso, Moçambique. Uma terra de gente doce e simpática. Ando há uns dias para escrever sobre os moçambicanos, mas não tenho tido um motivo para começar. Hoje há um extraordinário motivo. Moçambique e eu temos algo em comum. Uma celebração no dia de hoje. Aqui, o dia 4 de outubro é feriado. É o dia da Paz porque foi neste dia que se assinaram os acordos que garantiram esse bem precioso. E começo por aí. Se há algo que carateriza os moçambicanos, novos e idosos, homens e mulheres, mais ou menos cultos, é o apreço e a valorização da Paz como um bem a manter. É fácil, em qualquer conversa, um moçambicano, derivar para a Paz e defender a sua conquista e a sua preservação. Os moçambicanos falam da Paz com carinho. Hoje ao sair de casa pela manhã cruzei-me com uma senhora que disse como quem anuncia a boa nova, Feliz dia da Paz. Feliz dia da Paz, respondemos comovidos à sua prece.

Outra caraterística deste povo é a hospitalidade e a alegria. Um dia destes, entrei num supermercado e um funcionário disse, Bom dia, eu respondi, Bom dia como estás? Estou feliiiz… Felicidade também para ti. E sorriu genuíno como se fosse essa a sua essência. Aqui, têm o costume de tratar as mulheres por mamã e os homens por papá. A como estás a vender as bananas? A 25 meticais, papá! À saída dos supermercados, é preciso mostrar os recibos de pagamento e, se nos for solicitado, as compras. Quem faz esse serviço são funcionários do supermercado ou seguranças. Esta semana presenciámos um contraste vertiginoso entre o aspeto de um homem e a sua alegre essência moçambicana. Era um segurança a solicitar os recibos das compras. Tinha uma farda azul, um cinto encarnado, botas da tropa, um cacetete e uma pistola no coldre. A Paula disse, Bom dia, como estás? Estou feliiiz, um bom dia para a mamã também! E sorriu um sorriso aberto do tamanho do Universo. Como povo, não são nada stressados, pelo contrário, um dia de cada vez, uma coisa de cada vez, é o seu lema. Quando vens? Hei de vir! Quando fazes? Hei de fazer! E vêm e fazem, só não stressam com isso. E essa tranquilidade passa a quem contacta com eles. Têm uma naturalidade confrangedora na atitude, para os moçambicanos, as coisas são o que são, sem véus nem fingimentos. Um dia destes perguntei ao canalizador:
– Então, já fizeste? 
– Ainda!
– Ainda? Ainda quê?
– Ora, não se diz ainda sim!
Toma e embrulha!
São pessoas disponíveis, claro que têm interesses e o sentido do negócio, mas prestam-se a ajudar antes de mais e, mesmo quando negoceiam, ainda que o façam com malandrice, fazem-no sempre com boa disposição. Os moçambicanos sofreram muito. Têm agora oportunidade de reconstruir o seu país e estão a fazê-lo com tranquilidade e um sorriso nos lábios. E claro, sabem que precisam de ajuda e por isso desenvolveram um sentido de inclusão com particular enfoque nos portugueses. É claro que uma grande cidade como Maputo tem zonas e horas do dia em que pode ser perigoso passar, mas isso acontece em qualquer grande cidade. Na generalidade, o ambiente é seguro, as pessoas são afáveis e a verdade é que, estando longe da família, sinto que vim fazer 45 anos a casa!

Hoje demos um passeio de carro pela cidade. Sim, já temos carro. Se tinha sido interessante um português alugar casa a um muçulmano em África, imaginem um português a comprar um carro japonês a um paquistanês que só fala inglês em África! Pois, o tal do melting pot é aqui! Aqui se vive uma mescla cultural quotidiana, rua a rua. O vendedor foi o Atif. No dia seguinte a ter-me mostrado o carro e tendo ele ficado a considerar uma contraproposta de valor que lhe fiz, telefonou-me e disse, Good morning, brother, you go see car? Claro que não lhe podia falar um inglês correto, senão começava uma conserva de surdos, então, mentalmente pedi desculpas a todos os meus professores de inglês e respondi bem alto, I go see car after lunch! Às tantas, reparei que o carro não tinha macaco e se tivesse um furo estava enrascado, ele viu que eu reparei e disse, juro que disse, a seguinte frase, No problem, I give macaco! Larguei a rir, I give macaco é inimitável. O Atif começou também a rir, olhou para a Paula e disse, good car for mamã go shoping! A sério, foi delicioso. Fechámos negócio e a nossa qualidade de vida aumentou substancialmente porque em Maputo, como já antes se escreveu, a mobilidade é fundamental e a melhor forma de a ter é com viatura própria. O Atif ainda tentou gabar o auto-rádio que era bom para a mamã ouvir música, mas eu disse-lhe que os botões estavam todos em japonês e ele calou-se, não fosse estragar o negócio. É giro porque os botões não têm os sinais internacionais de play, pause, etc… têm só carateres japoneses, os botões e o livro de instruções, enfim, pormenores sem importância nenhuma, em Maputo, um carro automático serve para acelerar e ir em frente… mais ou menos em frente!

Convidámos os primos Marco e Sandrine e o tio Zé (que não pôde vir porque vai viajar) e fomos almoçar ao rodízio. Correram carnes deliciosas, muqueca de peixe, sobremesas supremas e umas cervejinhas geladas e terminámos a tarde a planear uma passeata…

Há pormenores da vida aqui que são muito difíceis, mas na generalidade, o projeto vale muito a pena porque este é um país em crescimento, com potencialidades tremendas, com pessoas alegres e sorridentes, que nos interpelam na rua com simpatia para um cumprimento. E há esperança. Sim, posso dizer que em Moçambique há esperança e essa esperança, tão pouco palpável em tese, sente-se no quotidiano e muda-nos a perspetiva de vida.

À sexta-feira à tarde, ao longo da avenida marginal da Costa do Sol, com palmeiras e outras árvores marcando o traçado bordejado pelo mar, eles começam a chegar em carros e carrinhas, as malas térmicas estendem-se ao longo da avenida prenhes de sumos e cerveja, a mais popular chama-se “Laurentina”, mas eu gosto mais da “2M”, eles estacionam os carros e ligam os rádios no máximo e riem e cantam e dançam e bebem e há vida e festa e sensualidade no ar. É difícil cruzar a avenida ao fim-de-semana. Porque há festa. E a razão não é outra que estarem as pessoas vivas e ser fim-de-semana. Esta celebração da vida só termina ao final de domingo. No dia seguinte, inicia-se uma semana mais, sem stress.

Nos últimos anos, sempre que fiz anos, senti o peso deles. Este ano fiz menos um. Na cabeça, que é onde mais conta! E, sim, tenho saudades. Se não tivesse, não era português!
jpv