Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Crónicas de África – Outras Coisas do Quotidiano

Outras Coisas do Quotidiano

Maputo, 27 de outubro de 2012

É natural que, quando chegamos a um local desconhecido, seja de visita, seja em trabalho, tenhamos um olhar mais luminoso e complacente por não termos experimentado as rotinas e as agruras do mesmo. Eu penso que tenho, nos dias que correm, esse olhar em relação a Maputo. Parece-me, contudo, que não é uma perspetiva menos válida. É a perspetiva do momento e, por isso mesmo, para que se rememore mais adiante na linha dos dias passados, importa registá-la aqui.

Miúdos na Rua
Há nesta cidade um delicioso pormenor de que me não lembrava de assistir desde criança. Miúdos na rua. Magotes deles correndo e brincando e empurrando-se e jogando a bola na estrada, pelas ruas menos movimentadas, e em brincadeiras entusiasmadas pelos quintais, nas traseiras das casas. Não me refiro a crianças na escola, ou em família, ou numa festa de um amigo. Falo daquelas tardes infindáveis em que o tempo era todo nosso para o quisessemos e o que queríamos era brincar e crescer juntos. Essa liberdade primeira e genuína perde-se com o tempo e, em algumas sociedades, morre sufocada em regras. Em Maputo há uma música vespertina que nos embala à hora do lanche: os miúdos em correrias e gritarias entusiasmadas pela brincadeira. Sem esquemas de segurança, nem pessoas a guardá-los, nem escolas a prendê-los para serem livres. Só miúdos. Na rua.

O Chão
Um outro aspeto muito interessante que, curiosamente, me transporta também para a minha meninice, é a relação dos moçambicanos com o chão. É curioso que, em Portugal, e não só, há uma estratégia pedagógica no ensino pré-escolar a que convencionou chamar-se “tapete”. E, nesse momento, educadoras e crianças estão ao mesmo nível. O do chão. Mas é só aí. No resto do nosso quotidiano, parecemos querer erguer-nos acima do chão. Ora, os moçambicanos não parecem ter essa veleidade e interiorizaram que o chão é mais do que a casa dos nossos pés. É a casa da nossa vida. Sentam-se no chão para venderem o que tiverem para vender, sentam-se no chão esperando uns pelos outros, sentam-se no chão para descansar, e, no merecido intervalo do almoço, deitam-se no chão. É comum ver homens deitados no chão junto à sua venda ou no intervalo do trabalho ou no fim de um excesso de cerveja. Não se escondem. Num relvado, num passeio, às vezes com os pés na estrada, outras vezes com o corpo semi-coberto por um carro estacionado, entregam-no à terra, ao cimento, à pedra, à relva, à erva, a qualquer que seja a cobertura e esperam, descansam, dormem… Talvez seja uma vida chã. Talvez seja a consciência intuída de que o chão é o céu dos homens. Talvez seja uma sábia perceção de que é esse o nosso lugar. Não sei exatamente o que é. Mas sei que se sentem à vontade no chão.

Armas na Cidade
Viver em Maputo é também aprendermos a interiorizar a presença das armas. A cidade está repleta de armas de fogo pesadas. Nada daquelas pistolinhas de trazer à cintura como usam as forças de segurança em Portugal. Na capital moçambicana, seja um militar, seja um polícia municipal, seja um segurança de um banco, ou mesmo de um hipermercado, os agentes da autoridade e da segurança estão sempre armados com armas de canos serrados ou com espingardas de cano longo ou ainda com metralhadoras. Ao princípio estranhamos um arsenal tão pesado a cada esquina, a cada porta, depois vamo-nos habituando a conviver com ele e já não estranhamos quando alguém nos pede os documentos e traz ao colo uma arma pesada, capaz de estragos significativos.

Modernices
Já aqui tenho contado, a propósito das assimetrias desta cidade, alguns pormenores de tecnologia avançada a ser utilizada em Maputo. Um dos bancos locais está agora a lançar um produto muito interessante. Chama-se Conta Móvel e consiste na substituição do cartão de débito pelo telemóvel. Uma vez feita a ativação da Conta Móvel pela primeira vez, pode transferir-se dinheiro para o telemóvel. Depois, numa máquina ATM, insere-se o número do dito telemóvel, o PIN de segurança e já está, pode levantar-se o dinheirinho. Dá jeito para quando nos esquecemos do cartão e para ter o dinheiro distribuído por diversos meios de acesso, não vá o diabo tecê-las! Modernices…

IDE

Hoje foi o dia do IDE. Trata-se de uma festa religiosa muçulmana que assinala, salvo erro, o fim da peregrinação a Meca. É um momento de alegria e agradecimento. O interessante é que o IDE é universal, ou seja, é celebrado por muçulmanos em todo o mundo. Em Portugal, naturalmente, quase não dou por esta celebração, mas estas são terras com cheiro a Oriente e com uma forte multiculturalidade. Tão forte, que foi decretada, pelo Governo, tolerância de ponto para os trabalhadores muçulmanos. E, também na escola, se sentiu a ausência de uma parte da nossa comunidade de aprendentes, os alunos que estavam celebrando o IDE.


O quotidiano, em Maputo, é diferente, mas não é diferente por uma grande razão, é diferente por todas estas que se juntam e fazem da vida aqui um passar do tempo bailado ao som das brincadeiras dos miúdos.
jpv


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Divulgar

Francisco Máximo Carvalho é um colega de trabalho visivelmente apaixonado e entusiasmado com, pelo menos, duas coisas na vida: África e a Fotografia.

Por isso se tem dedicado a conhecer este continente e por isso publicou a obra que agora se divulga e que se pode consultar e adquirir em http://www.blurb.com/books/3356453


Caros leitores e amigos, sugiro uma visita ao site do livro com a garantia de que não se arrependerão!


Um abraço,
jpv


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Geografia da Alma

(Imagem de Telma Moreira, aqui)

Geografia da Alma

Não peças
O que não tenho
Para dar-te.
Não queiras
O desenho
Que não sei desenhar-te.
Não sintas
Por mim
Esses sentimentos
Que são teus.
Não procures nos teus meandros
Os meandros meus.
Não me guies os passos,
Não me estendas os braços,
Generosos e oferecidos.
Quanto mais os estendes,
Mais os meus se sentem perdidos.

Não sejas a minha luz,
Nem a mão que me conduz,
Não sejas para mim nada.
Apenas a suave alvorada,
A alma
Pela minh’ alma amada.
Não queiras o meu espaço.
Oferece-me, só,
O teu regaço
E recebe nele a minha entrega.

jpv


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A Paixão de Madalena – Um cheirinho do próximo capítulo

“O Criador mandou-nos a este mundo e desde que chegamos até que partimos andamos contando o tempo que por cá estamos como se fossemos todos iguais, sendo certo que o somos à partida e à chegada deixando pelo meio o rasto das nossas diferenças.”
João Paulo Videira
In “A Paixão de Madalena”, cap. 5.
A publicar brevemente neste blogue.


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Crónicas de África – Mais Coisas do Quotidiano

Mais Coisas do Quotidiano

Maputo, 22 de outubro de 2012

Hei de
Eu não sei como é que os moçambicanos escrevem a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo haver, se hei-de, à moda antiga, se hei de, à modinha, mas sei que usam esta expressão com muita frequência e significados diferentes consoante o verbo que lhe juntarem. É impossível passar um dia em Maputo sem nos cruzarmos com o hei de. Por exemplo, se perguntarmos a alguém, Fazes-me isso? Ele pode responder hei de fazer ou hei de ver. Se disser hei de fazer, isso quer dizer que já decidiu fazer, só não se sabe quando fará. Se responder hei de ver, isso quer dizer que ele ainda há de decidir se vai fazer e só depois há de fazer. Da mesma forma, se perguntarmos a alguém, Mas vens ou não vens?, ele pode responder hei de vir ou hei de chegar. Hei de chegar é bom sinal, quer dizer que está a caminho, vai demorar cerca de uma hora, sejamos otimistas. Se ele disser hei de vir, a coisa é complicada, ele sabe que virá, mas não tem a certeza quando. Nestes casos, pode-se esperar duas a quatro horas, um dia, ou várias semanas. Mas virá! Um canalizador disse-me há três semanas hei de vir e ainda não veio. Parece que vem hoje!

Estou a chegar
Os moçambicanos são deliciosamente perifrásticos. É quase como se dizer um sim ou um não diretos fosse demasiado brusco e pudesse chocar ou ofender o interlocutor. Assim, se nos disserem, Assim não há de ser, quer dizer que não vai acontecer, façam-se os esforços que se fizerem, o solicitado está para além da capacidade de realização de quem disse a frase. O pior mesmo é quando aparece o verbo estar como auxiliar. Por exemplo, se alguém nos disser, Estou a chegar, que é para mim a mais emblemática das expressões que usam o verbo estar como auxiliar, isso não quer dizer que ele está a chegar, isso só quer dizer que o processo da chegada dele está em curso. Ora, daí até o vermos podem distar medidas de tempo diversas, minutos, horas, dias, semanas… Outro exemplo interessante é o Estou a ir lá. Se pedimos a alguém um serviço que implica ir a algum lado e ele diz essa frase, isso não quer dizer que ele já está a caminho, só quer dizer que decidiu ir. Quando irá é outra conversa… Quando é que se deve ter medo? É simples, se ouvirem alguém dizer-vos a frase Tem problema, fujam e procurem outra solução. Vocês não querem entrar nesse problema e a razão é simples: não tem saída!

Bom Descanso
Esta é uma frase deliciosa. Em Moçambique preza-se muito o descanso, não só o próprio como o dos outros. Assim, no final de um dia ou de uma semana, ninguém diz Até amanhã porque isso é estar a invocar o dia seguinte passando por cima de um momento crucial, o descanso. O mesmo com o final de semana. Ouve-se dizer Bom fim-de-semana, mas é muito mais comum e agradável ouvir dizer Bom Descanso! As pessoas sabem que vamos descansar e querem que isso corra bem. 

Dar sinal
Não é avançar com uma porção de dinheiro para garantir um serviço! Se alguém nos diz, Vou-te dar sinal, quer dizer que, à hora combinada, vai-te dar um toque de telemóvel e desligar para tu ligares de volta. Isto quer dizer que ele não tem saldo ou decidiu que tu tens mais saldo do que ele!

Dá-me crédito
Esta é uma expressão muito engraçada porque não quer dizer nada do que a frase expressa. Em primeiro lugar, nesta frase o dá-me não está a pedir que o outro dê algo, mas sim que venda. E o crédito não é confiança, nem é bancário, é somente uns minutos de telefone. Assim, quando se quer comprar uns minutos de telefone, abordamos o vendedor de rua, devidamente identificado por um colete da companhia telefónica de que somos clientes, e dizemos, Dá-me crédito, e ele vende-nos uma raspadinha com n meticais de chamadas!

Humidade
Para além do calor, que é uma constante, a humidade relativa do ar é sempre muito elevada em Maputo. Ontem estiveram cerca de 30ºc, mas a humidade do ar esteve nos 98%, ou seja, passei o dia inteiro a suar mesmo quando não estava a fazer nada. A pele fica hidratada e escorregadia como se tivessemos um creme gordo posto. O exmplo mais engraçado que posso dar-vos acerca da humidade do ar em Maputo tem a ver com o papel da impressora. Seja dia de sol ou chuva o papel está sempre húmido ao tato e se o deixamos no tabuleiro da impressora fica deformado porque, devido à humidade, não se tem direito.

Autorrádio
Agora escreve-se assim. O meu, como já referi antes, vinha com o carro que veio do Japão por mão de um paquistanês que só falava inglês e mo vendeu, a mim, que nasci em África e sou português. Ora, os japoneses não querem saber disso para nada e mandaram o livro de instruções em japonês. Isso e o painel do autorrádio que, como se vê pela imagem, é muito fácil de utilizar. Tem lá tudo escrito! 

E por hoje é tudo. Se estiverem a gostar destas crónicas, não se preocupem, hei de fazer mais!

———————–jpv———————–

Painel do meu autorrádio: Está simples de ver!


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Crónicas de África – Rápido e Intenso

Rápido e Intenso

Maputo, 19 de outubro de 2012

Quando vos escrevo, ainda se veem os relâmpagos ao longe, já envergonhados, e os trovões são só um sobressalto distante. Chove pouco. Nem parece que há poucos minutos esteve aqui o inferno.

O dia foi cansativo, muito trabalhos, algumas mudanças para gerir e o nosso corpo vinha pedindo tréguas, a cabeça cansada e muita fome. A Paula sugeriu um franguinho no Piri-Piri. Bora lá! Quando saímos do carro, a noite estava quente, um calor noturno a rondar os 30º. E havia no ar uma humidade que se sentia na pele. O vento não se mostrava. Era, por isso, uma noite calma, quente e húmida. Ficámos na esplanada e quando já estávamos a acabar a refeição, levantou-se um vento forte e repentino de fazer voar os guardanapos de papel, levantar as toalhas das mesas, as saias das senhoras que se seguravam a elas como podiam, os cabelos desalinhados, folhas pelo ar e súbito uma bátega de água forte e certa. Pagámos e fugimos para casa. Assim que chegámos, o céu rebentou num clamor de assustar. Os relâmpagos eram tantos que não acabavam uns para logo se verem os flashes dos outros, nem eram a seguir uns aos outros, eram em simultâneo. E, sobretudo, eram de uma claridade intensa e muito próxima. Os trovões eram mais espaçados, mas de uma força assustadora, tudo parecia tremer e alguns quase faziam acreditar que o céu se estava a rasgar, tal a a intensidade e a proximidade do som. A chuva continuou certa e encheu as ruas. Subiu do chão um profundo e inconfundível cheiro a terra molhada. E tudo isto demorou meia hora. Agora, restam só resquícios longínquos do poder que há pouco se mostrou sobre Maputo. Rápido e intenso. Durante a tempestade o R. ligou-me. Também está a chover aí? Sim, bastante, isto é forte! Forte? Ainda não viste forte. Isto é médio!

———————-jpv———————-


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Terra de Surpresas

Terra de Surpresas

Fechou-se o céu.
E estremeceu.
As nuvens deram tudo
O que tinham de seu.
Abafou-se o ar.
Não bulia uma folha,
Era difícil respirar.
E o calor envolvia a vida
Como um manto sufocante.
E tudo isto durou
Um breve instante!

Desponta o sol
Ao longe.
Corre uma brisa fresca
E perfumada.
Nesta terra de surpresas
Tudo, num repente,
Fica nada!

jpv


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Motorcycle Chronicles – Wireless Connection

Wireless Conection

Ele batia-lhe. Era violento. Começara por uma coisa de nada, uma discussão ridícula. Dera-lhe um estalo. Ela não reagiu. Como costumavam fazer jogos de submissão na cama em que ele a esbofeteava como ato de incitação, como ela sempre permitira isso, ainda que não gostasse muito, confundiu aquela chapada com as outras. E foi por isso que não reagiu. Ele gostou de bater-lhe e sentiu um poder e uma força especiais pelo facto de ela não reagir. Era homem. E foi por isso que lhe assentou a mão de novo. Com força! Ela caiu de costas, desamparada. Ficou no chão a olhá-lo, incrédula, as lágrimas a surgirem-lhe nos olhos, a blusa desalinhada, a saia de seda a subir-lhe pelas pernas. Ele sentiu-a fraca e deu-lhe um pontapé forte na coxa mais próxima. Tombou sobre ela, aplicou-lhe uma sucessão violenta de chapadas e depois violou-a.

Ela quis queixar-se. A família culpou-a imediatamente. Desvalorizou o que ele pudesse ter feito, Não estás marcada, se ele foi assim tão violento, onde estão as marcas? À polícia não quis ir por vergonha. Depois iam pedir-lhe que mostrasse o corpo, pensou, e isso não queria suportar. E, a verdade, verdadinha, é que o trabalho dela era um part-time de demonstração e venda de conexões Internet e mal dava para os seus extras. O seu verdadeiro sustento e o dos dois filhos era o trabalho dele. E assim, de chapada em chapada, de pontapé em pontapé, de agressão em agressão foi aguentando. Acreditava que, com a idade, ele acalmaria, acreditava que, em crescendo os filhos, ele teria de parar. E, por isso, foi suportando e foi rezando para que acontecesse menos e para que, quando acontecesse, ele se saciasse e passasse depressa. Nem chegava a perceber as razões. Já lhe tinha batido por tudo e… por nada. Porque discordavam num assunto da educação dos filhos, porque a comida estava insossa, porque ela se atrasara no trabalho, porque um dos miúdos tinha tido negativa a português, porque o resultado da bola tinha sido desagradável, porque o sexo fora mau… e, o curioso, nisto dos comportamentos humanos, é que, quanto mais a agredia, mais lhe apetecia agredi-la. É estranho, o ser desumano. Não se sacia com a violência. A violência tem um fermento de crescimento, tem um adubo e um fertilizante e é autofágica, alimenta-se de si própria e quanto mais se devora, mais cresce.

Estava exausta. Nesse dia tinha caminhado vários quilómetros a bater de porta em porta tentado vender excelentes pacotes de Internet que ela nunca vira a funcionar a não ser nas breves formações que recebera. Chegara a casa, passara uma parga de roupa, fizera o jantar, recebeu os miúdos e tratou deles e quando ele chegou, percebeu que vinha zangado com a vida. A noite ia ser das más. Tentou ser carinhosa com ele. Por vezes, raramente, funcionava:
– Que tens, meu amor, pareces tão tenso…
– O que tenho é que o Teixeira ficou com o prémio de desempenho que era para mim, é o que tenho…
– É uma injustiça, tu esforças-te tanto…
– Sim, claro, e sabes porque é que o perdi? O meu chefe diz que chego atrasado de manhã e sabes porque é que chego atrasado, sua vaca inútil, é porque em vez de uma mulher, tenho em casa uma vaca que não é capaz de preparar um pequeno almoço a horas!
– Mas eu…
Já não acabou a frase. Segurou-a pelo pescoço, encostou-a à parede e sufocou-a. Ela não resistiu. Os miúdos não saíram do quarto. Ela os ensinara a agirem assim. Quando ela estava a ficar lívida, ele soltou-a e ela tremeu das pernas e ia a cair, mas ele teve-a de pé por um braço. Estás fraca, cabra? Estás fraca? É por isso que não fazes a merda do pequeno almoço a horas? E, com um braço lhe segurava num braço e com o outro a ia esbofeteando por onde a apanhava, na cara, na cabeça, uma ou outra no queixo e no pescoço e quando estava cansado do braço, usava os pés e pontapeava-a no rabo e nas coxas e nas pernas. Por fim, quando a sentiu completamente vulnerável, deu-lhe um pontapé pelos pés, ela caiu desamparada, bateu com a cabeça numa mesinha e fez um corte por cima da orelha. Já sentiu pouco. Sentiu o calor da proximidade dele e o ritmo balanceado de uma cópula indesejada e violenta. Ficou no chão da sala. Quando acordou, ele estava a comer na cozinha. Ela levantou-se, foi à casa-de-banho, lavou-se, colocou uns cremes para atenuar as nódoas negras pelo corpo e enfiou-se na cama. Não o sentiu chegar.

A manhã está límpida, o sol cristalino oferece promessas de vida e ela caminha pelas ruas sem fé nem esperança. Revê a noite anterior. Repensa a sua vida, mas sente-se completamente encurralada. Nada no seu horizonte lhe traz qualquer esperança. Manteve-se assim o quadro cinzento da sua vida e da sua mente até que bateu à porta de Robert Flaherty.
– Bom dia, posso tomar-lhe um minuto?
– Não preciso de nada, obrigado…
E estas palavras simples e educadas, considerando a generalidade das respostas que recebia, Não quero nada disso; Desaperece, vai mas é trabalhar; Parasita, faz qualquer coisa de útil; soou-lhe agressiva e rompeu num choro convulso, os seus limites estavam todos ultrapassados, precisava de ajuda e não sabia como pedi-la. Robert percebeu de imediato que algo muito grave se passara e percebeu também a contusão por cima da orelha, estendeu-lhe uma mão, ela colocou a sua mão frágil na mão forte dele e essa força começou, de imediato, a passar. Entre, ela entrou, ele fechou a porta e disse-lhe, A vida tem-na tratado mal… desabafe, acho que é o primeiro passo, diga tudo… deite tudo cá para fora. Ela não disse uma palavra. Fez-lhe um gesto para ele se sentar. Robert obedeceu. Depois, lentamente, de frente para ele, foi tirando a sua roupa toda. Primeiro a blusa, depois descalçou-se, depois a saia, depois as meias-calças, depois a camisola interior, depois o sutiã, depois as cuecas e por fim, encolheu os ombros e deixou os braços caídos à frente do corpo com as mãos a taparem envergonhadamente o púbis. Por fim, disse, É o meu mapa de dor. Robert estava estupefacto. Era brutal o que tinha na sua frente, pensou em mil e uma soluções, foi-lhe dizendo cada uma das coisas que podiam fazer e ela foi negando cada uma até que disse, Ajude-me a mim, eu sou o mal, eu preciso saber lidar com isto, não sei como, não tenho perspetiva, há muito que a perdi. Robert pensou durante uns minutos e depois disse-lhe, Acho que lhe falta liberdade, acho que está demasiado agarrada a essa dor e a quem a causa, está a ver essa Internet que vende, uma liga-se por cabo e outra é wireless, o que a sua mente precisa é de uma conexão wireless para a liberdade, venha comigo.

Ajudou-a a vestir-se. Emprestou-lhe um blusão de cabedal que lhe ficava enorme, mas ela gostou da sensação de proteção, desceram à cave, colocou-lhe um capacete, apontou para o banco da moto e disse, Sente-se aí! Ela quis dizer que tinha medo, mas tinha o capacete na cabeça e, por outro lado, o que quer que fosse que aí viesse, seria melhor do que a noite anterior. Ele subiu para a moto de alta potência, puxou-lhe as mãos para a sua cintura mostrando-lhe onde e como se devia agarrar e saiu para a cidade, percorreu o esquadrinhado das ruas, saiu para o campo e dirigiu-se para o mar. Percorreu quilómetros sem fim pela estrada que acompanhava a falésia e o mar, ia-lhe apontando o sol rebrilhando na água, mostrou-lhe as gaivotas a pairar sobre a rebentação e acabou entrando com a moto pela areia, mesmo junto à água. Parou para tirarem os capacetes e depois continuaram a rolar junto ao mar recebendo os salpicos da água na face. Por fim, pararam e ficaram sentados na areia a olhar a rebentação. Muito tempo depois, ela disse, Não sabia que a vida podia ser assim. Claro que não, por isso é que se deixou subjugar. Liberte-se! Precisa de conectar-se com a liberdade e depois saberá o que fazer. Para tudo na vida há uma conexão wireless! Robert fez o caminho de regresso usando o mesmo traçado. Ela usou esse tempo para pensar. Sabia que a lição dele era preciosa, só não sabia como se adaptaria à sua realidade e ficou matutando nisso quilómetro atrás de quilómetro. Quando chegaram, ela perguntou, Mas afinal já tem Internet, ou não? Sim, e estou bem servido. E foi aí que ela começou por surpreendê-lo. Posso usar a sua Internet? Claro que sim.

Saiu à rua e só via a luz do sol e o brilho do mar à sua frente. Passou pela farmácia, dirigiu-se a casa, não ia feliz, mas ia entusiasmada. Nesse dia recebeu os miúdos como sempre, preparou o jantar com especial carinho e dedicação, e quando o marido tombou morto no final da refeição, ela não se surpreendeu. Telefonou para as urgências, fez um ar muito triste e chorou muito, convulsamente, e no funeral, dois dias mais tarde, fez o mesmo papel, estava tão habituada a chorar para que lhe não batesse mais que não lhe custou a parte do choro. Coitadinha, fica desamparada, o que foi que o levou? Não sei, não sei, jantou tão bem, estava tão satisfeito e de repente tombou para a frente e desfaleceu, os médicos dizem que foi uma paragem cardíaca.

A moto rola e leva consigo Robert e a sua companheira. É uma moça viúva que em tempos foi vítima de maus tratos domésticos. Robert nunca lhe perguntara, mas naquela tarde, de frente para o mar, não resistiu, Afinal, ele morreu de quê? Ela sorriu ao horizonte e sem tirar de lá os olhos embevecidos e a alma livre, disse-lhe, Deu-lhe uma wireless conection!

jpv


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Citação do Caos

“O caos é impensável, já que a mistura é uma ordem e não há para o espírito do homem, ou no espírito do homem, nada que não seja relação. O que acontece é que chamamos desordem à ordem que nos não agrada, ao conjunto de relações em que não entendemos ou não aceitamos a relação connosco.”
Agostinho da Silva


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Crónicas de África – Coisas do Quotidiano

Coisas do Quotidiano

Maputo, 16 de outubro de 2012

Esta semana fui, pela primeira vez, assaltado em Maputo. Quer dizer, eu não fui assaltado. Enfim, não sei bem. Um roubo, acho, é quando a gente não vê porque não está presente, 
isso também pode ser um furto. Um assalto é quando a gente vê mas, mesmo assim, tem de entregar o bem que vai ser roubado. Eu explico. Eu estava lá e estava a olhar, mas não vi. Ninguém falou comigo. Logo, acho que isto foi um misto de roubo e assalto. A verdade é que um arrumador ofereceu-me um lugar de estacionamento e eu não aceitei porque quis ficar mais perto do restaurante onde ia almoçar. E fiquei. Fiquei tão perto que, da esplanada onde estava, via bem o carro. Ele lá estava a brilhar de lavadinho. E fui sempre olhando, sempre atento sem lhe tirar o olho de cima. Quando cheguei ao carro, para meu espanto, o espelho retrovisor do lado direito, aquele que estava mesmo de frente para mim, tinha… voado! Devia ter aceitado a oferta do arrumador! Perguntei onde poderia arranjar um. Disseram-me para ir ao mercado da Estrela. Ora, aqui, as pessoas têm o hábito de gravar a matrícula dos carros nas diversas peças, espelhos, faróis da frente, luzes traseiras, vidros das portas e tudo o mais que lhes vem à cabeça. No caso daqueles piscas laterais muito pequeninos, como não há muito espaço para gravar a matrícula, colocam umas tiras de metal por cima deles. Como é que agarram as tiras de metal? Simples. Furam a chapa do carro e enfiam-lhe com dois rebites… É lindo de morrer, ver um tipo que acabou de comprar um carro, voluntariamente mandá-lo furar… hahahaha… eu adoro esta cidade. Como precisava de um espelho e queria gravar umas partes do carro, lá fui ao mercado da Estrela. São duas ruas repletas de bancadas com acessórios automóveis, chaves de rodas, macacos, limpa-pára-brisas, triângulos, capôts, jantes, pneus, pára-choques, emblemas, espelhos, vidros, portas, tudo, tudo, rigorosamente tudo, vendido no meio da rua. Além dos acessórios, também há serviços, por exemplo, lavagem, polimento da chapa, dos faróis, enfim, é um não mais acabar de oferta. Assim que cheguei, mesmo antes de parar o carro, começaram a fazer-me sinais e a oferecer-me coisas. Quando parei, o carro foi cercado por mais de dez rapazes a oferecerem todo o tipo de acessórios e serviços. Saí, disse do que andava à procura e em cinco minutos apareceu um espelho do modelo que eu queria e aplicaram-no logo no sítio, perguntei se gravavam, claro que sim, pedi para gravarem a matrícula nos espelhos e nos faróis da frente e para porem umas tiras de metal nos piscas laterais. A primeira coisa que me disseram quando fechámos negócio foi, Abra aí o capôt! Eu estranhei. Por que raio é que eles querem que eu abra o capôt. E perguntei, Olha lá, para que é que queres o capôt aberto? É a bateria! Nem mais nem ontem, além de pagar o serviço, ainda forneci a energia. As máquinas de gravar que eles usam, assim como os berbequins, são elétricas, eles cortam as fichas dessas ferramentas, colocam uns bornes de agarrar nas baterias e o cliente fornece a energia. Mai nada! Quando o tipo acabou de gravar disse, com um sorriso nos lábios, Já se acabou o pão do ladrão! Estive à conversa com eles e ainda que admita que o ambiente, para quem ali chega, possa ser um pouco intimidador, a verdade é que não passam de uns rapazotes simpáticos e bem dispostos à espera de fazer algum negócio e é possível trocar umas gargalhadas com eles, aliás, em Maputo, a gargalhada está barata, toda a gente tem várias para dar! Um colega disse-me, Foste à Estrela? Não é qualquer um! Mas eu gostei, até estou a pensar lá voltar porque preciso de um macaco em condições, isso e umas escovas para o limpa-pára-brisas.

Outro fenómeno interessante foi a reação das pessoas à chuva. Quando chove, Maputo fica repleta de pequenas e grandes lagoas em todas as ruas e avenidas porque o sistema de escoamento está a precisar de ser revisto. Mas os habitantes não se atrapalham nada, como a água é quente e vai secar daí a nada, em vez de se protegerem muito, desprotegem-se! Pois, puxam as saias, elas, dobram as calças, eles, e enfiam uns chinelos. Depois… depois andam pelas ruas como se a água lá não estivesse. E não vi ninguém a morrer com um ataque de pés molhados!

Outro fenómeno interessante teve a ver com o serviço de costura. Fomos a uma enorme loja de tecidos que, assinale-se, são um dos poucos produtos mais baratos do que em Portugal, e a oferta era tremenda. Corredores e corredores com rolos de tecido e dezenas de empregados disponíveis para ajudar. Ajudar e fazer negócio! Ah pois é! Durante o processo de escolha e compra dos tecidos é comum os empregados oferecerem, eles próprios, os serviços de costura. O E. fez isso connosco. Precisa de coser? Eu coso para si. Tu ou é um serviço aqui da casa? A casa não tem esse serviço, quem cose sou eu mesmo. Tu ou a tua mãe? Ele riu-se com vontade e respondeu, Eu mesmo! E pronto. Comprámos o tecido e ele fez os cortinados. O E. não tem mais de vinte anos. O interessante é que ele próprio comprou aos colegas, em nosso nome, os acessórios, sei lá, ganchos e coisas do género. Ou seja, a casa não se importa que os empregados façam negócio paralelo porque é da maneira que vende mais! Tenho ou não tenho razão para estar a adorar esta terra? É tudo tão simples! Tão verdadeiro.

O trânsito em Maputo é caótico, mas há muito poucos acidentes. É raro ver-se um. A condução é muito instintiva, passa quem passa, às vezes passa quem chega, enfim, tudo muito a olho e tudo muito por intuição. Andava com isto na cabeça a tentar perceber o porquê quando, numa conversa de amigos, se me fez luz. Aqui, como em Portugal, é obrigatório ter seguro, mas a polícia raramente pergunta por ele. E a razão é simples, a polícia quer saber se estamos bem e, eventualmente, dos documentos do carro e dos selos dos impostos, aqui paga-se imposto de circulação e imposto de radiofonia, mas não se interessa muito pelo seguro porque isso é uma coisa que se ativa quando se precisa. E quando é que se precisa? Quando se tem um acidente! Ora, é um facto comummente conhecido que, em Maputo, há uma percentagem muito significativa de veículos que não têm seguro. Isto, só por si, torna a condução mais cautelosa. Obviamente que quem não tem seguro não se quer ver envolvido num acidente!

Recentemente, deparei-me com um exemplo da alegria e da boa disposição que caraterizam este povo. Num supermercado, há um sistema interno de “competição” entre as diversas equipas de funcionários. Aqueles que colecionarem mais pedrinhas azuis que o supermercado disponibiliza aos clientes têm prémios de simpatia no atendimento. Então, eles têm a liberdade de solicitar aos clientes que se sentiram simpaticamente atendidos, uma pedrinha para a coleção. Os do bar tinham escrito uma coisa do tipo, “Caro Cliente, se ficar maravilhado pelo atendimento excepcionalmente excelente…” enfim, arrancaram-me logo um sorriso!

E termino a crónica de hoje com um pormenor tipicamente moçambicano. Um pequeno apontamento que diz bem da simpatia e da alegria destas gentes. Comprámos um despertador com rádio porque gostamos de acordar com música e ouvir as notícias da manhã e a meteorologia e etc e tal… Sintonizámo-lo numa rádio moçambicana, claro. Em Portugal, há aqueles programas matinais em que as pessoas podem telefonar para participar. Normalmente são perguntas a troco de prémios para quem acerte nas repostas ou são fóruns de discussão com temas da atualidade. Pois, aqui em Maputo há uma rádio que, pela manhã, abre a antena aos seus ouvintes só para eles poderem dizer bom dia a alguém! A coisa fica assim, Bom dia, como se chama? Eu sou o Castigo! Castigo e quer dizer bom dia para quem? Eu quero dizer bom dia para a minha dama! E pronto, cada um diz bom dia a uma pessoa dos seus afetos e o prémio é só isso mesmo, essa alegria e essa boa disposição publicamente partilhada. Claro que se eu tivesse outro filho, evitaria chamar-lhe Castigo, mas isso são pormenores de gosto!
jpv
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Algumas imagens relacionadas com esta crónica:

Maravilhoso, excelso e excepcionalmente excelente pedido de uma pedrinha azul!

Exemplo de um retrovisor com a matrícula gravada para evitar tentações.

Exemplo de proteção de um pisca lateral!