Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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A Paixão de Madalena – Capítulo 3

A Paixão de Madalena

Livro I – A Paixão de Madalena

3. Dois princípios primordiais seguiu o Criador quando criou tudo e todos. Foi o primeiro ter tornado todas as coisas e seres distintos de todas as coisas e seres. De tal forma assim é que estando nós contemplando o mar não dizemos, Olha que belas montanhas o Senhor aqui pôs. E assim acontece com tudo o que a este mundo veio parar. Não se confundem os cães com os gatos, não se confundem as águas com as terras, nem as árvores com os ventos, nem o dia com a noite. Muito trabalho deu isto ao Criador pois que, para todas as coisas e seres, dos maiores aos mais ínfimos, teve de encontrar distintivo traço não Lhe cabendo a Ele qualquer responsabilidade pelo tempo que nós, pequenos humanos, possamos levar a encontrá-los e a identificá-los. Ora, sendo esta tarefa, só por si, justificativa dos seis dias que o Senhor levou a criar todas as coisas e seres, com universal reconhecimento para a sua eficácia e níveis de produção no labor, mais séria e difícil se tornou a tarefa quando o próprio Criador, porquanto mais nada existia à altura, ao mesmo tempo que diferenciava tudo, tudo decidiu interligar em abono da coerência do Universo criado. Só assim se percebe que, ao nomeá-lo, de Universo o tenha chamado.
É curioso, pois, que, desde o início dos tempos, andemos nós humanos identificando traços distintivos e buscando a teia de ligações com a qual se urde a coesão. Sendo certo que é mais seguro o método científico, muitos adeptos têm as conclusões empíricas, as mais das vezes por se dizerem fundeadas na experiência e no saber antigo. E é por esta ordem de razões que sabendo o Povo que os rios são uma coisa distinta e diversa do mar, deles veio a dizer que correm para este. Da mesma forma que sabendo as claras diferenças entre o deserto e a floresta, reconhece que as chuvas que caem nesta tornando-a fresca e frondosa se formam sobre aquele. E assim nasceram relacionamentos de empírica raiz e comprovação. O luar e as marés, os movimentos das entranhas da terra e o humor dos animais, a tela paisagística e o caráter dos homens. E será neste último que nos deteremos de forma breve por não nos esquecermos que temos uma personagem para apresentar e uma história para contar. Diz o Povo que os pescadores são bravios e persistentes como o mar e o vento que os moldou. E diz que os habitantes da montanha são firmes e fechados como a pedra que os esculpiu. E diz ainda que são os habitantes da planície tranquilos e de espírito aberto como a planura e a brisa que os soprou. Fossem todas as paisagens simples e definidas como as dos exemplos que acabámos de dar e todas as explicações seriam fáceis. Viveriam os escrevedores os estranho paradoxo de não serem precisos por estar tudo natural e intuitivamente percebido. Sem história. Felizmente, complicam-se os acidentes da geografia e entrelaçam-se os sentimentos e os comportamentos no caráter dos homens carecendo, por isso, de explicação, história contada.

O rio Camowen desce a montanha excitado e rápido, em torvelinhos, cavalgando rochas, precipitando-se e gerando escumas brancas de oxigénio donde saltam salmões em frenesim correndo apressados e ansiosos da morte que os espera. É revolto desde que nasce e quando chega a Omagh ainda traz o nervo no curso e a excitação no passar. As pessoas que habitam ao longo da sua caminhada parecem ter essa pressa, essa agitação e esse sobressalto na atitude. Como se mesmo estando tudo bem, esperassem sempre uma mudança súbita e para pior, mesmo estando tudo feito, algo estivesse constantemente à espera de surgir inacabado. Quando Kyle Mackenzie nasceu, no coração da Irlanda do Norte, em Omagh, corria o ano de 1948 e já nessa altura se contava a história de seu avô materno, Joseph Stewart, homem que, segundo as fiáveis narrativas de pub irlandês sensivelmente à décima Guiness entornada, nascera apressado, vivera apressado e morrera cheio de pressa para ir ao talho. Falara depressa, ao ano, falava depressa e diziam que só a mulher, a pobre Mary, o percebia na plenitude. Fora para a escola antes da idade e abandonara a escola à pressa sem concluir quaisquer estudos porque queria trabalhar no campo onde havia tanto para fazer e ninguém parecia querer fazer coisa nenhuma. Saíra de casa depressa para se casar à pressa com a pressa de honrar a mulher que engravidara numa cópula apressada entre dois negócios de reses no celeiro de um leilão de gado. Com a mesma urgência de ir a lado nenhum lhe fez mais sete filhos, oito ao todo, dos quais seis vingaram e uma viria a parir Kyle com tranquilidade oriunda de outras águas. Fez nascer, prosperar e falir, que é outra forma de morrer, pelo menos seis negócios, todos em torno do gado bovino. Com a mesma pressa que os fazia vingar, assim os perdia e substituía por outros. Contam que se levantava de manhã, ainda a luz do dia não tinha certeza de querer vingar, empurrava o ombro de Mary para a acordar com brusquidão e dizia, Vá lá, mulher, despacha-te, não tarda nada é hora de almoço! Vestia-se e calçava-se num abrir e fechar de olhos, engolia o café e o bacon, saía à rua e começava a dar ordens que podiam, ou não, ter algo a ver com os trabalhos do dia anterior. Tal como o Camowen, Joseph sempre soube para onde queria ir, só não sabia bem como, excetuando o ímpeto e a pressa. Um dia levantou-se, meteu-se no carro e apareceu no rancho a dar ordens e a dizer que se mexessem, que o trabalho não aparecia feito e ele tinha de ir a Omagh. No meio da agitação que era a sua presença, alguém lhe disse:
– Senhor Joseph, está com pressa?
– Que raio de pergunta é essa, rapaz? Eu estou sempre com pressa.
– Sim, mas mais do que nos outros dias?
– Deixa-te de parvoíces e diz lá o que queres que eu tenho mais o que fazer.
– É que o senhor Joseph está todo vestido mas as calças são do pijama.
Ele largou a rir umas gargalhadas muito abertas e semirroucas, tirou o chapéu destapando o fogo ruivo que lhe ardia na cabeça e disse:
– É no que dão as pressas! Já não volto a casa. Não são as calças que fazem o homem.
Era um irlandês determinado e engenhoso e era-lhe atribuída a autoria de diversas engenhocas e mecanismos de utilidade extrema no cuidar e no transportar do gado. Isso e o “Relógio 48”. Quando alguém em Omagh mostrava uma pressa extraordinária, podia ouvir a expressão, Estás a precisar de um “Relógio 48”. A frase nascera certa noite entre a oitava e a décima Guiness, num pub local, quando Joseph disse, O meu relógio não tem 24 horas, tem 48 meias horas!Alguém teve a ousadia de perguntar, E qual é a diferença? E Joseph rematou, As meias horas passam mais depressa. Um dia, já com os cabelos brancos e as rugas com a pressa de lhe marcarem a face, a filharada toda arrumada e entregue à vida e uma carrada de netos beijados à pressa ao fim-de-semana, Joseph saiu de casa, disse, Vou ao talho, e meteu-se no carro. Num cruzamento, olhou para a esquerda e, com a pressa, esqueceu-se de verificar a direita. Foi abalroado por um camião. No funeral, houve quem dissesse que o tinha ouvido mexer-se no caixão e ainda hoje se conta que, fosse por respeito, por medo ou porque o Camowen corria ali ao pé, o Pastor disse no final do serviço fúnebre, Foi o funeral mais apressado que alguma vez celebrei.

O rio Drumragh entra em Omagh não muito longe do Camowen a que há de unir-se. Mas é outra atitude. Sereno e tranquilo, o rio desliza discretamente e há mesmo quem defenda em Omagh que ele só corre por baixo porque as águas superficiais estão paradas. O Drumragh não tem os estreitos nem os acidentes do Camowen. É um rio de curso largo e leito generoso onde é possível pescar um dia inteiro num pequeno bote amarrado por uma corda de nó simples. Todo ele é discrição e serenidade o que não significa que seja um curso fraco, pelo contrário, é uma força de água corrente significativa, mas corre firme e tranquilo sem sobressaltos nem percalços. Sabe para onde vai e vai com graça e doçura. John Mackenzie, pai de John Mckenzie, avô de Kyle Mckenzie, nascera assim, tranquilo, vivera tranquilo e com a tranquilidade de quem parte em viagem se despediu desta vida. No dia em que o pariu, a mãe sentiu uma leve dor, pensou, Vou ter o bebé, dirigiu-se ao quarto, recostou-se na cama e teve-o. Ele cresceu olhando as planuras verdes do Tyrone bordejando a passagem sossegada do Drumragh. Teve uma infância sem sobressaltos, uma juventude sem sobressaltos e um dia chegou junto do pai e disse:
– Meu pai, enamorei-me de Elizabeth O’Leary e acho que vou casar com ela. O que pensa disto?
– Penso que é sensato, mas, meu filho, ela já sabe da tua determinação?
– Não, meu pai, não sabe. Acho mesmo que não tem a certeza de que eu exista, mas, com calma, tudo se faz.
E fez. E foi com ela que casou, foi dela que teve os quatro rapazes. Ao primeiro deu o seu nome por falta de imaginação e para não se aborrecer mais com o assunto. E foi esse primeiro que lhe deu o neto, primeiro também, a quem chamaram Kyle Mckenzie.

Conta-se de John Mckenzie, o pai, que acordava cedo, fazia as suas orações matinais agradecendo a noite descansada e o novo dia, fazia a sua higiene, vestia a roupa que Elizabeth lhe deixara nas costas da cadeira e tomava calmamente o seu pequeno-almoço num ritual de passar manteiga nas torradas, beber o chá com leite enquanto folheava o Tyrone Advertiser. Depois, saía à cozinha para fora, inspirava o ar da manhã e, de olhos fechados, erguidos ao céu, pressentia o dia. Quando abria os olhos podia exclamar, Hummm… isto hoje vai pôr-se bom. E, assim sendo, todas as tarefas lhe corriam com fluidez e normalidade. A ele e aos que o rodeavam, por mais complexas e arriscadas que fossem. Se, por outro lado, ao abrir os olhos, dissesse, Oh diabo, isto hoje é capaz de se complicar,alguma coisa haveria de lhe ensombrar o trabalho ou a vida de forma a exigir trabalheiras e canseiras extraordinárias. Tudo passava, suportava e vencia com o olhar azul e beneplácito, uma palavra de tranquilidade e uma serena palmada nas costas. Certa vez, por descuido, desprendeu-se a cilha da sela, caiu do cavalo e foi atropelado por dois bois que terminavam uma manada a acabar de encurralar. Com o osso da perna a rasgar-lhe o tecido das calças e um empregado a desfalecer lívido, disse para os que sobravam em pé. Tenham calma, o que tinha de ser, já foi, vão lá chamar o médico, digam-lhe que tenho aqui um arranhão. Ficou coxo para o resto dos seus dias e gostou. Costumava dizer que, se não fosse ser coxo, seria um homem como qualquer outro. Aquela era a sua marca de individualidade. Aos noventa e quatro anos, viúvo, órfão de dois filhos e um neto, após um pequeno almoço generoso e tranquilo, comunicou à enfermeira que tomava conta dele que iria recostar-se na cama porque lhe apetecia morrer.
– Não diga disparates, senhor Mckenzie! Para o que lhe havia de dar hoje.
Quando foi ver dele, daí por uma hora, ele lá estava, recostado na cama, com as mãos sobre o peito, as pernas de lado para não sujarem a coberta, os olhos tranquilamente fechados, dormindo o sono dos sonos.

E foi assim que nasceu Kyle Mckenzie, entre a corrente tumultuosa do Camowen e o sereno deslizar do Drumragh, com o sangue apaixonado, determinado e efervescente de Joseph e o olhar azul e a pose tranquila de John. Quando o Camowen e o Drumragh se unem em Omagh dão origem ao Strule, um curso firme e caudaloso, mas de deslizar sem sobressaltos. E pode bem dizer-se que o caráter de Kyle foi temperado por essas águas. A primeira vez que o viu, Joseph não se conteve, Tem o fogo na cabeça, é cá dos meus! E seria, mas não tanto quanto ele quereria. Por volta dos seis anos, começou a ser visto em passeios contemplativos ao longo do Drumragh atirando pedras ao rio, falando às árvores e aos pássaros. Outras vezes, parava, ficava a olhar a água e era como se toda a sua existência, exceto o corpo, tivessem mergulhado e desaparecido no leito do rio e, contudo, gostava de aprender. Nunca se negou a aprender. Aprendeu a selar e a montar um cavalo, os cuidados com a alimentação, aprendeu a negociar num leilão de gado, a transportar os animais, a diferenciar uma rês de cobrição e uma de carne, aprendeu as atribuições de cada funcionário do rancho e como geri-los e, por volta dos dezasseis anos, a família conhecia-o, mas não fazia a mínima ideia de qual seria o seu destino. Quem via nele o Camowen dizia que seria um rancheiro de mão cheia. Quem via nele o Drumragh dizia que ele seria uma alma pacata como o avô John, talvez um médico veterinário, e ninguém conseguia perceber o meio terreno em que o seu caráter crescera e se formara. Exceto a mãe que um dia a um jantar, quando todos se deitavam a adivinhar o futuro de Kyle e a discuti-lo, disse, a destoar das teorias todas, O coração do meu filho não cabe no Tyrone! Ninguém percebeu o que ela quis dizer até ao dia em que Kyle anunciou, sem pedir, Vou para Belfast estudar.E foi. Mas a essa parte da história iremos daqui a pouco. Por agora, importa falar das paixões de Kyle Mckenzie, neto de Joseph Stewart e John Mckenzie, filho de John Mckenzie, criador de gado, contemplador do rio, amador das mulheres.

Aos dezasseis anos, o fogo no cabelo era uma certeza rebelde, o que era justificadíssimo motivo de orgulho, mas não era atarracado, nem de ossatura larga, pelo contrário, saíra esguio e à procura do céu como a mãe, tinha o olhar azul e profundo, sardas na face e nas costas, as mãos grandes e um andar cambaleado. A voz grave e forte com um traço de rouquidão que o fazia parecer mais velho quando falava. Desde que se conhecia que se sabia apaixonado. A raposa de Éxupery queixa-se ao principezinho, Rien n’est parfait, isto porque onde houvesse galinhas, teria de haver caçadores e onde estes não pusessem o pé também não haveria galinhas. Kyle sofria de um dilema semelhante com os pais das raparigas. Arriscou sempre, por vezes até a própria pele. São onze horas, o sol de verão está quase a pino e aquece as águas calmas do Drumragh, ouve-se o zumbido dos insetos cortando o silêncio e de quando em vez uma leve brisa vem sacudir a sombra da vegetação nas margens. No meio do leito está um pequeno bote fundeado com uma âncora pequena. É a calmaria total. Quem olhe a embarcação da margem não vê nada nem ninguém, quase parece abandonada, mas fixando bem a vista percebe-se um certo balançar. Da mesma forma que apurando o ouvido conseguimos perceber uma voz máscula e jovem cortada por um risinho feminino. Ela está deitada de costas no fundo do bote, o sol doura-lhe a pele clara e a brisa sopra-lhe o púbis exposto à luz e ao azul do céu e dos olhos de Kyle que está a seu lado, recostado sobre um cotovelo, elogiando as formas dela e o sorriso enquanto os seus dedos passeiam o corpo oferecido. Baixa-se para beijá-la e é o paraíso. Seguido do inferno:
– Kyle Mckenziiiiiiie! Seu grandessíssimo filho da puta, salvo seja, que a tua mãe é uma santa senhora que não merece o filho que tem, eu vou buscar-te seu atrevido e encho-te o corpo de chumbo!
Kyle manteve-se calmo, riu-se com ela, abraçaram-se. Bastava que ficassem quietos e nada aconteceria. Mas aconteceu. Quando ouviu o ruído dos barcos a motor, Kyle disse-lhe, Fica quieta, eles querem-me a mim, vão atrás de mim e esquecem-se de ti, nunca te levantes. Ela riu, puxou-o para si, agarrou numa mão dele que levou ao seu púbis e disse-lhe ao ouvido, Kyle Mckenzie, não te atrevas a ser apanhado hoje; à meia-noite no celeiro do meu pai! Estás louca? Ou é isso ou nunca mais me tocas. Seja! À meia-noite no covil do lobo! Kyle levanta a cabeça, olha à sua volta, são dois barcos, um vem descendo a corrente e outro vem-na subindo, olha para a margem, pensa que consegue mas, Vai ser por um triz, e faz-se ao rio completamente nu, nada desalmadamente para a margem oposta àquela em que está o pai ofendido, sim, o pai, que a donzela já se percebeu de que lado está, os homens nos barcos percebem-lhe o plano e dirigem-se para a margem, Kyle chega primeiro a terra e começa a correr em direção a um arvoredo perto, quando os homens se preparam para iniciar a sua corrida de perseguição, a rapariga, por curiosidade, levanta a cabeça, um acompanhante do pai ofendido vê-lhe a cabecita a espreitar e exclama:
– Olha, Ron, não é a tua filha!
– Olha, pois não, mas devíamos dar uma lição àquele malandro!
– Sê sensato, Ron, tu não és o ofendido… sabes lá se a rapariga estava ali autorizada…
– Olha lá, mas tu ’tás parvo ou quê? Aquele era o Kyle Mckenzie, a única autorização que ele tem é a sua própria para perseguir todas as raparigas do Tyrone…
– E para curar as tuas éguas quando sofrem de peeira.
– Lá nisso tens razão.
Fez um gesto para os perseguidores de Kyle na outra margem e gritou:
– Rapazes, vamos embora, esse safado não merece o combustível dos barcos nem o tempo que perdemos com ele, além disso nem sei quem é a rapariga…
– É a filha do…
– Cala-te, besta, já te disse que não sei quem é a rapariga!
À noite, no celeiro de telhas falhas, a lua substituiu o sol na cumplicidade dos murmúrios abafados pela palha e a Natureza cumpriu a sua missão.

Outras vezes entregava-se à conversa com os animais. Gostava particularmente de pedir conselhos ao Malte. Fora um garanhão promissor para as corridas, mas a necessidade levou a que a sua força fosse aproveitada nos trabalhos do rancho. Em vez de passar a vida a correr com outros cavalos, tinha nas suas corridas o propósito de juntar as reses do gado. E cobria. A sua linhagem era de tal forma garbosa que os Mckenzie se davam ao luxo de cobrar quantias exorbitantes por cada vez que o espantoso animal plantava uma sementinha de si numa égua da vizinhança. Hoje trabalha pouco. Está velho e cansado mas nunca foi abatido porque se tornou numa figura do Clã Mckenzie e num símbolo do rancho. Kyle gostava de pegar no Malte e caminhar à beira do rio e pelas estradas de terra sem o montar. Ia andando e ia-lhe contando as suas aventuras com as raparigas, os problemas na família, a contabilidade do rancho, os projetos para o futuro e contava depois que o Malte dava bons conselhos. Quando chegava à primeira localidade depois do rancho, entrava no pubcom o Malte pela mão e pedia duas pints, uma de homem e outra de cavalgadura. Mickey, o empregado de balcão, servia uma pint de Guiness a Kyle e vazava dois litros de cerveja num balde, passava o balde a Kyle que o segurava enquanto Malte bebia a sua Guiness tranquilamente. Saíam os dois semiébrios e conversando de coisas menos sérias. Os amores de Malte, o sentido da vida, o significado da sombra das árvores, o porquê de cada rapariga ter um pai e esse pai ser obcecado por caçadeiras… e faziam poesia juntos. Partes desses poemas, aquelas que Kyle conseguia relembrar no dia seguinte, registava-as num caderninho de escrita pequenino que guardava na mesa de cabeceira e tinha escrito na capa “Poemas de Kyle Mckenzie e seu ajudante, o Grandioso Malte”.

A vida no liceu de Omagh também não era fácil para o jovem e ruivo Mckenzie. As alunas queriam estudar com ele, as professoras queriam que ele estudasse para elas, as raparigas queriam-no apanhar sozinho para marcar encontros fortuitos e lutar pela exclusividade da sua atenção, as professoras queriam-no apanhar sozinho para tentar convencê-lo a seguir a sua área e todas, sem exceção, lhe sorriam e, à sua maneira, o seduziam. E Kyle ia bebendo as palavras delas, alunas e professoras, e ia mergulhando nos decotes delas, alunas e professoras, e ia-se deixando seduzir por elas, alunas e professoras e quando cresceu e o percurso no liceu se aproximou do fim, Kyle navegava no corpo delas, alunas e professoras. Gostava de deitar-se com os lábios junto ao sexo delas soprando o púbis para o ver revolto como os rápidos do Camowen e ficava contemplando as formas onduladas dos corpos como se estivesse visitando as dunas do deserto mas com o insuperável odor de um corpo de mulher depois do amor. Era um aluno contraditório, quase misterioso. Andava por ali displicente, um caderno preto no bolso de trás dos jeans, o olhar perdido nas raparigas e na folhagem das árvores, Que andas a fazer Mckenzie? A pensar. A pensar? Pensar, pensamos todos nós. Aí é que te enganas, a maioria de nós não pensa, reage. Pensar dá trabalho, é gerador, iniciático.Viravam-lhe as costas e iam à sua vida e Kyle continuava no labor de pensar. O que é que queres ser na vida , Mckenzie? Pensador. Pensador? Ninguém ganha a vida como pensador! É porque ainda ninguém pensou o suficiente. No último ano do liceu, as coisas precipitaram-se na sua mente. Se bem que o mais correto não é dizer-se que se precipitaram, mas antes que foram precipitadas. Miss Melanie era uma professora de Inglês que usava sempre uma saia de fazenda comprida, uma blusa de seda com gola aos folhos e um grosso casaco de lã por cima. Tinha uns óculos pequeninos, o cabelo apanhado atrás num totó e uma rede a envolvê-lo. Trazia invariavelmente uma pasta de cabedal preta, nunca se atrasava e nunca se esquecia de perguntar por um trabalho que tinha pedido. Foi ela que lhe deu a beber a fluidez melódica de Shakespeare, o romantismo extremado de Lord Byron, a intriga familiar e rural de Jane Austen e a fantástica e perturbante veia realista de James Joyce. E tentou-o com ideias. Um dia disse-lhe, Livra-te de ficares nesse rancho a dar cerveja a um cavalo, já pensaste que, ao contrário do que te deixam acreditar, tu podes viver de pensar e, mais importante, de ensinar a pensar. Tu percebes a literatura, tu sentes a literatura, tu vives a literatura e, à parte algumas falhas por desleixo, tens um bom domínio do inglês, darias um excelente professor, não fiques aqui, Kyle Mckenzie, vai estudar miúdo, vai estudar, andas fascinado com todos esses autores e as suas ideias e a sua sensibilidade e nem sabes tudo o que estás a perder, há mais, Kyle, há muito mais e na universidade podes ter acesso a tudo.O discurso, diversas vezes repetido, era motivador, espicaçava a curiosidade mas só por si não provocaria uma epifania. Susy provocou. A verdade é que, nesse ano, Miss Melanie, de palavras distantes, mas apaixonadas, adoeceu gravemente, fruto da idade a que estamos, todos nós humanos, sujeitos. E foi o contraste de todo esse entusiasmo, dessa capacidade de fazer parecer que cada palavra era um milagre, com o discurso leviano e superficial de Susy que o levaram a decidir. Era uma rapariga jovem, recém-formada, reagiu muto bem aos encantos dele e sabia perfeitamente o que estava nas páginas centrais dos tablóides, o problema é que, para ver o milagre das palavras em Shakspeare ou em Joyce, era preciso um pouco mais e para esse pouco a ela faltava-lhe muito. Susy está deitada na penumbra do seu quarto alugado em Omagh. Ao seu corpo nu chega uma ténue claridade que faz bailar sombras no seu ventre e derrama nos seios pequeninos e redondos um mar de prata. Kyle está como mais gosta, com os lábios junto ao sexo dela soprando os pelos do púbis. Fazem pouco efeito porque estão aparados muito curtos como se fossem um risco preto numa folha prateada de luz. Ele observa-lhe as formas, apetece-lhe perceber aquele encanto, quer saber o que pensaram e o que escreveram os homens sobre as maravilhas do mundo e, entre elas, sobre esse deleite que é observar um corpo tombado, oferecido à luz ténue e prateada de um fim de tarde. E, estranhamente, lembrou-se de Miss Melanie. Nunca a senhora lhe oferecera o corpo, nem a ele nem a nenhum outro homem em toda a sua vida, mas dera-lhe as explicações todas, as possíveis, dadas as limitações. Susy, por seu lado, dera-lhe o corpo sofregamente, mas não tinha uma única explicação que superasse a banalidade e Kyle, contemplando-lhe as formas, percebeu que lhe faziam mais falta as explicações. Faziam-lhe a falta toda. Levantou-se, vestiu-se à pressa, deixou-a com uma interrogação na mente e outra nos lábios, Está tudo bem, Kyle?Ele não chegou a responder. Apressou-se. Chegou a casa e disse, Meu pai, minha mãe, vou para Belfast estudar.E foi. Inscreveu-se nos exames que superou com assinalável sucesso,matriculou-se no curso de Língua e Literatura Inglesa e quando foi aceite chegou-se a casa de Miss Melanie e disse-lhe baixinho, Conseguimos, Miss Melanie, conseguimos. Ela sorriu, prostrada na cama, e respondeu com ternura, Conseguiste, miúdo, tu é que conseguiste e, Kyle, isto é só o princípio. No outono de 1967, Kyle entra em Belfast com dezanove anos para conquistar o coração da cidade e desbravar todo o saber. Conquistará Belfast, há de desbravar muito do conhecimento e será também em Belfast que o seu coração ficará cativo para quase sempre.

É para nós informação óbvia sabermos que habitamos uma cidade se de uma cidade se tratar. E por vezes, seja por ignorância ou por vício, ao dizer a palavra cidade, fazemos a evocação mental de um emaranhado de edifícios. Nada mais errado, porquanto as cidades são, sobretudo, o que nelas se vive e como se vive. Já constitui facto menos óbvio e percetível haver cidades que nos habitam. Podemos até nunca ter vivido nelas, mas vive em nós o seu espírito e se calha o destino levar-nos até lá, de imediato nos identificamos e concluimos, Oh, mas eu sou daqui! É um fenómeno recorrente identificarmos em nós o espírito de uma cidade. Descobrirmos, como já se disse que éramos habitados por ela mesmo antes de habitarmos nela. Foi essa compatibilidade e essa sintonia que Kyle Mackenzie descobriu em Belfast. E por isso a sua adaptação foi tão rápida e harmoniosa. Há pouco tempo lá estava e era como se lhe conhecesse os segredos todos, como se sempre ali tivesse vivido. Os três primeiros anos foram o perfeito encantamento, o príncipe e a princesa, o enamoramento do homem pela urbe que o completa. Frequentava as aulas, empenhava-se nos trabalhos, debatia com os colegas e com os professores, escrevia para o jornal da universidade, ia a palestras sobre tudo o que lhe interessasse, História, Filosofia, Arte e sempre, sempre a Literatura. Organizou tertúlias e outras organizavam-se sozinhas e eram as mais apetecíveis, noites inesperadas e espontâneas a discutir o pensamento do Homem e a sua expressão, bebendo Guiness e beijando quem se deixasse beijar ou devolvesse a carícia só porque sim. Tudo começava num pub e acabava no dia seguinte em casa de alguém, corpos seminus e mal acordados, a vida saboreada, discutida e levada do prazer do estímulo intelectual até ao suor gemido da carne. O ruivo de Omagh começou a ser conhecido em Belfast e a criar a sua teia de relações de tal forma que, quando voltava às margens do Drumragh, se sentia pacificado e inquieto. Primeiro, pela tranquilidade que bebia do lugar. Depois, porque lhe faltava o ópio e esse ópio chamava-se Belfast. Era comum ouvir-se nos corredores da universidade frases como, O ruivo disse, O ruivo marcou, O ruivo mandou fazer… Kyle conquistou Belfast e tomou posse no trono do conhecimento e dos relacionamentos. E, da mesma forma que Belfast era para si uma droga, ele parecia ser uma droga para Belfast. Havia quem arriscasse que Kyle nunca mais deixaria a Irlanda do Norte, mas, como o leitor já percebeu, enganou-se quem tal disse e se tivesse feito aposta, perderia. A sua mudança começou em 1970 e o curioso é que daí em diante e até conhecer Madalena, as coisas iam suceder-lhe de dois em dois anos. Como ele diria mais tarde, Vivi de biénio em biénio.Um dia, nesse ano, cruzava um dos jardins junto à universidade, abraçado a amigos, e viu-a passar entre duas moças com quem conversava. Era alta, muito loira, os olhos verdes e líquidos, as ancas generosas e tinha um sinal junto ao nariz, por baixo do olho direito. E deu-se o caso incomum de ele ter olhado para ela e ter continuado a conversa como se nada tivesse visto, mas algo lhe ficou gravado na mente que o suspendeu da conversa , deu mais quatro ou cinco passos, segurou os amigos que o ladeavam por um braço para os calar e perguntou:
– Vocês viram aquilo?
– Aquilo o quê, rapaz?
– Vai ali a mulher da minha vida!
Os tipos abriram a boca, pensaram que era Guiness a mais e iam para gozar com ele quando ele lhes virou as costas, correu para o grupo de moças e perguntou ^`a do meio:
– Olá, como te chamas?
– Sandrine…
– Sotaque… francês!
– Suíço! Se é que isso existe…
– Deve existir, tu, pelos vistos, tens um…
– Sim, tenho, querias…
– Queria perguntar-te se queres passar o resto da tua vida comigo…
– Se quero, não sei, mas acho que o mínimo que posso fazer perante tanta ousadia é perguntar quem pergunta.
– Kyle Mckenzie… já viste como soa bem?
– O teu nome?
– Não. O teu. Sandrine Mckenzie. É brutalmente multicultural.
– Bebes uma cerveja, Kyle Mckenzie?
– Não, mas aceito uma Guiness!

Era uma daquelas moças que está uma temporada noutro país a estudar ao abrigo de um programa com o nome de um filósofo antigo qualquer. Ao cabo de três meses viviam juntos. Foi numa paixão fulminante e intensa. Eram de áreas diferentes e costumavam brincar dizendo que se completavam. Kyle mostrou-lhe a cidade, leu-lhe poesia ao luar e à chuva, fizeram amor em todos os locais que consideraram dignos do seu amor, dançaram, riram, choraram e quando ela partiu, Kyle ficou melancólico e abatido e iniciou um período de visitas frequentes a Genebra, ao longo de um ano, para visitá-la e tocar-lhe e beber-lhe a vida e o espírito.

O inverno vai rígido. O frio aperta com inusitada severidade. Finda janeiro de 1972 e as piores vontades dos homens combinaram encontrar-se no domingo, dia 30. Kyle espreguiça-se na cama desfeita do quarto em desalinho e batem-lhe à porta com tal força que parecem querer derrubá-la.
– Kyle! Ruivo, ó ruivo, acorda, pá!
Ouve as vozes, dirige-se para a porta, quatro ou cinco colegas irrompem pelo quarto em altercação e o confuso é que Kyle não consegue perceber se estão assustados ou entusiasmados e isso há de entristecê-lo em breve.
– Mas afinal o que é que se passa?
– Foi fantástico e terrível, pá, colocaram uma bomba numa igreja e limparam o sebo a uma carrada deles!
– Onde é que foi isso?
– Em Derry, pá! O que pensas disto?
– Desnecessário. É uma catástrofe desnecessária. Nós pensamos o que pensamos e às vezes pensamos pouco. Algum de vocês é protestante porque pensou no assunto ou herdaram todos essa condição como se fosse uma doença?
– Não digas isso, pá, eles são separatistas, pá!
– Sim, e nós somos unionistas! Andamos a unir o quê, rapazes? E como? À bomba! Eles cometem crimes, nós cometemos crimes e tudo não passa de um gigantesco crime e têm razão, rapazes, é preciso fazer alguma coisa…
– O que é que vais fazer, Ruivo?
– Vou a Derry!

Kyle foi a Derry depois do domingo sangrento, visitou as famílias de algumas vítimas, sobretudo as mais jovens, e pediu-lhes desculpa pela insanidade dos homens. E rezou com elas. A sua alma enlutou-se de vez. O sol da sua vida estava em Genebra. E aqui, a violência atingia expressões indignas da sua terra natal. Concluiu o curso nesse ano. Lecionou inglês durante um ano em Belfast, mas não conseguiu suportar a escalada de agressividade e violência, não conseguiu assistir aos seus colegas conspirando atos de morte, não conseguiu suportar a ausência de Sandrine. Em 74 mudou-se para Genebra, definitivamente. Nunca mais daí sairia. Exercia como professor de inglês na universidade e visitava regularmente as margens tranquilas do Drumragh ou as revoltas do Camowen. Essa regularidade foi-se perdendo e as visitas à Irlanda tornaram-se mais esporádicas. Vivia para Sandrine. Envolto no amor por ela. Com ela. Dois anos depois casaram. Uma cerimónia íntima de meia dúzia de pessoas, umas palavras de circunstância e fugiram para uma cabana na montanha a fazer amor. Não frutificou, então, mas viria a dar frutos mais tarde. Duas meninas, Mary em 78, pelo trigésimo aniversário de Kyle e em 80 veio a rebelde Charlotte. Kyle dedicou-se em exclusivo às suas três mulheres e fez delas a sua alegria e a sua razão de viver. Percebeu a importância de ensinar jovens. Ser pai fez-lhe mudar muitas opiniões e perspetivas. E foi por essa razão que em 82 mudou de trabalho. Continuou como professor de inglês, mas optou por ensinar os mais jovens no secundário. E essa opção viria a mudar a sua vida, por mais breve que fosse. Viria a dar-lhe a oportunidade de acreditar de novo no Ser Humano. E bem precisava. Sandrine, paixão de juventude, mulher nas alegrias e nas tristezas, mãe das suas filhas, fora surpreendida na cama, suando com outro homem, gemendo com um estranho. Essa infidelidade corroeu-o por dentro, desiludiu-o em relação a tudo e a todos. Kyle declarou que 1984 seria o ano horribilis da sua vida. Enganou-se. Em 1986 foi-lhe diagnosticado um cancro no cólon e o casamento, de mil maneiras fragilizado, sucumbiu. Atormentado por uma doença cuja fama a precedia, a exigir exames e tratamentos violentos, fustigado pela deceção de um divórcio que se anunciara e surgira na pior altura, Kyle não espera nada da vida nem das pessoas. Assim, quando o ano letivo de 1987/88 começou, o homem que entrou na sala de aula apresentado como professor de inglês era um tipo cinzento e desiludido. Acontece que a vida não se domina nem se controla e tem os seus próprios caprichos. A nós, humanos, cabe-nos aceitar a nossa vulnerabilidade e passar o tempo com a maior dignidade possível e, se for caso disso, usufruir das boas surpresas que ela nos reservar. A Kyle reservou só mais sete anos, mas reservou-lhe os mais luminosos, os mais intensos, e os mais belos. Esses sete anos valeriam uma vida, como já se disse. Valeram a vida de Kyle Mckenzie e a paixão de Madalena.

———————- jpv ———————-


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Crónicas de África – Pipocas na Aldeia dos Pescadores

Pipocas na Aldeia dos Pescadores

Maputo, 29 de setembro de 2012

A pergunta surgiu ontem e foi simples, mas, como quase sempre acontece por aqui, uma pergunta desse tipo pode conter promessas e acabar em momentos inusitados:
– Então priminhos, amanhã almoçamos juntos?
– Sim, Claro.

E hoje, lá fomos, direitos ao “Mimmos” da Matola. O “Mimmos” é um restaurante com alguns pratos muito interessantes e de preços bem acessíveis. A Matola é uma espécie de subúrbio de Maputo de avenidas largas, casas térreas e espaçosas. Não fosse o trânsito matinal durante a semana, e toda a Maputo moraria na Matola. Apreciámos o grande jardim central, verde e florido e tivemos pena que no lugar do grande lago só estivesse o buraco. Depois avistámos um Gula-Gula. É um lagarto de porte mediano com a particularidade de ser muito azul na cabeça e parar durante a subida de uma árvore e ficar a oscilar a cabeça como se estivesse numa dança africana. E talvez esteja.

Depois visitámos o L. e inspecionámos um carro que ele tem para vender. Agradou-me, mas está a fugir do orçamento. Talvez se consiga uma solução de compromisso… Quando deixámos o L., o Marco disse, Quando saem comigo, nunca sabem como vão voltar. E o regresso foi, de facto, uma agradável e assinalável surpresa. O Marco não gosta de asfalto. Coisas do feitio dele. Vai daí, começa a meter por estradas de terra com lombas onde um carro desaparece para reaparecer no alto dela e seguiu a direção de Maputo. Perderam-se as lombas. A paisagem tornou-se mais plana e o terreno parecia um pântano seco. Quando está maré vazia pode atravessar-se e vai dar a um rio nos arredores da capital. Cruzámo-nos com um tipo num jipe e perguntámos para onde era a Aldeia dos Pescadores. Resposta rápida: Não sei, tenho para aqui um terreno, mas não consigo encontrá-lo, já ando meio perdido. Decidimos seguir na direção do rio e acabámos desembocando numa praia lindíssima, de pequenas dunas, vegetação rasteira, embarcações precárias de andar à pesca e o rio feito mar estendendo-se a nossos pés numa ondulação pacífica. De semi-perdidos num pântano, passámos a capitães de praia. E, como a tarde caía e o sol se punha, olhei o mar e procurei o astro amarelo, mas só lá estava…  a lua! Que raio, mas que é feito do sol? Está nas tuas costas! Pode parecer uma parvoíce, mas estes pequenos pormenores estranham-se. O sol aqui põe-se em terra e nasce no mar. Coisas do Índico que tem a mania de ser diferente!

No regresso, o Marco orientou-se sensorialmente para a direção que achava ser a mais correta. E era. Ao atravessarmos o pântano no meio de nada, sem viv’alma por perto, eis que surge um jovem com um fato de fazenda, uma camisa de seda e uns phones nos ouvidos. Peculiar, mas não tanto como as pipocas. A noite tinha caído entretanto. A Aldeia dos Pescadores é atravessada por uma estrada de terra que tem enormes buracos que o mar foi escavando e lombas a fazer lembrar pistas de motocross e a ladear este acesso tão precário, estão precárias e minúsculas construções em blocos ou em zinco a que podemos chamar de casas, se quisermos. Algumas têm luz de gerador, outras têm luz de bateria, de muitas exalam músicas alegres e mexidas e a maioria oferece produtos. Mercearias completas, casas de frutas, casas de tabaco, barbearias, casas de peixe, mulheres sentadas na beira da estrada com arcas congeladoras repletas de cervejas e refrigerantes 
e bares, imensos bares com luzes fracas. Em alguns pontuavam mesas de snooker. Na maioria, duas ou três cadeiras e a promessa de uma geladinha. E tudo isto era rudimentar, mas fervilhava de vida e agitação. E eis que surge o pormenor mais delicioso deles todos. Por entre casas de tábuas e zinco e blocos de cimento incompletos, por entre luzes fracas e numa estrada de terra e pó, luzia uma máquina de fazer pipocas fumegando e exalando o odor que nos invadiu o carro. Assim, de repente, onde menos se esperaria, Hollywood estava na Aldeia dos Pescadores. Esta terra tem precariedade, mas encerra promessas de liberdade e crescimento como poucas outras o fazem. É um chão que brota gente tão industriosa e alegre quanto desorganizada. Mas as vozes que se ouviam eram de alegria. Essa lição, temos ainda de aprender. A fazer muito com pouco, a iluminar a alma com luz de bateria, a parir a alegria onde reina o caos e, claro, a vender pipocas na Aldeia dos Pescadores.

Mais tarde, comprámos uns churrascos no “Piri-Piri” e fomos para casa comê-los. Eu reguei copiosamente os meus pedaços com piri-piri caseiro da Dona Rachida, é tão fraco ou tão forte que até faz chorar só com o cheiro, eu cá acho que me cresceram cabelos no peito. Ah homem!

E foi assim o nosso almoço. Começou à uma da tarde e acabou às oito da noite… maningue tarde!

jpv

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Gula-Gula no jardim da Matola


Praia Fluvial Salgada junto a Maputo


A lua sobre o mar


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Poema Relâmpago

Poema Relâmpago

A terra sangra
O calor
E as águas volumosas
Da chuva.
O céu rebenta,
Poderoso,
E faz-te sentir pequeno,
Outra vez.
A humidade
Ocupa o ar doce
E envolvente.
A alma assustada,
O corpo quente.
O céu avança
Majestoso,
Invade a tua vontade
E, mesmo antes de perceberes,
Semeia-lhe o medo.
Segue-se o batismo copioso
Que lava tudo,
Arrasta tudo…
Foi um instante
E nada está como era.
O sol brilha já
E na tua alma
Reergue-se a quimera.
Secou tudo
Sem rasto.
És humano pasto
Para a vontade da Natureza.
Ela, a força,
Tu, a fraqueza!

jpv


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Crónicas de África – Preçário

Preçário

Maputo, 27 de setembro de 2012

Maputo é uma cidade cara. Não é, pelo que me contam, como Luanda, mas, mesmo assim, é uma cidade cara.

Quando um europeu chega à cidade, apercebe-se de que há coisas muito acessíveis, mas aprende pela carteira que a generalidade dos produtos é muito cara quando comparada com os preços praticados na Europa e, em particular, em Portugal.

Numa primeira impressão, em traço largo e impreciso, parece-me que os automóveis usados, na sua maioria importados do Japão, a mão-de-obra, nomeadamente, as empregadas domésticas, e o peixe são produtos e serviços muito acessíveis. Um jipe Toyota RAV4 com dez anos custa entre 5000 e 6000 euros, 1kg de camarão grande custa entre 3 e 4,5 euros e com cerca de 90 euros paga-se a mão-de-obra de uma empregada doméstica para um mês. Outra coisa substancialmente mais barata do que em Portugal são as chamadas telefónicas internas, ou seja, nacionais. Um minuto custa cerca de sete cêntimos e há imensos pacotes de 100, 200 e 500 minutos grátis. A coisa funciona assim: na compra de 500 meticais (15 euros) de chamadas, dão-te mais 500 minutos nessa rede.

E as rosas acabam aí… tudo o resto, que é a maioria das coisas, é a preços exorbitantes. Não quero fazer uma lista de compras. Seria despropositado e maçador. Farei, somente, o registo dos preços que me impressionaram mais. Vamos, então, ao preçário. Podem fazer-se compras em diversos locais. Nos hipermercados parecidos com os europeus, estes são fora da cidade, têm uma oferta muito diversificada e são caríssimos porque os produtos são importados, na sua maioria, da África do Sul. Nos supermercados dentro da cidade. Estes são mais pequenos e são uma reprodução exata dos nossos supermercados dos anos 70 e 80, com as mercadorias pelo chão, os preços marcados à mão e um balcão a servir de charcutaria. São bem mais baratos e têm muitos produtos portugueses. Nos mercados e nas vendas de rua. Nestes locais é possível comprar tudo, frutas, legumes, batatas, citrinos, água, peixe, etc… São os locais de venda mais baratos, mas é indispensável ter uma balança própria e andar com ela na mala. Há umas de pendurar os sacos que são pequenas e os vendedores não se importam que usemos. Nestes locais, o mais aconselhável é levar notas separadas nos bolsos e só mostrar uma de  cada vez. Os eletrodomésticos são caríssimos. Um microondas de linha branca que se compra em Portugal com 30 ou 40 euros, aqui custa entre 100 e 150€. Todos os metais e alumínios como, por exemplo, as panelas e os talheres são artigos de luxo. Um jogo de 7 panelas, qualidade mediana, custa entre 200 e 300 euros. Um jogo de 6 garfos, 6 facas e 6 colheres de qualidade média/baixa custa entre 24 e 40 euros! Uma forma para bolos, pequena, para fazer um bolo para duas pessoas, custa 12€! A carne, meu Deus, a carne é caríssima! O fiambre anda entre os 15 e os 30 euros/kg. Um frango com 700 gramas custa entre 6 e 9 euros. Há muito pouca carne de porco e a generalidade da carne de vaca ou borrego também é muito cara. Todos os plásticos são ao preço do ouro. Um simples balde do lixo pode custar 9€ ou mais. Um cesto standard para a roupa suja, em plástico, custa qualquer coisa como 15€. A água e a luz são caríssimas, em contrapartida, o gasóleo é a 1€, ou seja, menos 0,50€ do que em Portugal. O fornecimento de água é eficaz, mas o sistema é curioso. A água pública não tem pressão para servir as casas. Então todas as casas têm um tanque ao nível do solo que é abastecido automaticamente de madrugada. Depois as pessoas têm uma bomba de pressão que manda a água para depósitos no telhado e nos terraços das casa, por fim, segue desses depósitos para as torneiras com a força da… gravidade! Mai nada! O certo é que funciona…


O que me parece mais avisado é fazer um mix. Temos de recorrer aos hipermercados de importação para adquirir certos bens, mas é interessante e mais acessível irmo-nos misturando e consumindo nos supermercados da cidade e nas vendas de rua. Sempre fui adepto de aderir aos costumes das terras que visitava. Como, desta vez, não é uma visita, mas uma estadia, acho que não tenho outra solução senão entranhar a vida daqui, mas isso é o que dá mais prazer!


Se sobre esta matéria, sempre tão apetecível e interessante que é o custo de vida em Maputo, 
tiverem dúvidas, coloquem-nas nos comentários que eu responderei com prazer… se souber…

jpv


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Crónicas de África – Transportes

Transportes

Maputo, 26 de setembro de 2012

Primeiro surge a necessidade de uma pessoa se deslocar. Depois a pessoa pode estar em Maputo ou noutro lugar qualquer do mundo. Aqui, a oferta é variada e para todos os gostos. O importante é que funcione, se funcionar. Comecemos pela tchova. A tchova é uma carroça com dois pneus enormes, carregada de fruta, pneus, colchões e mais o que calhar e é empurrada por uma ou mais pessoas. É um meio de transporte vocacionado para o comércio e transações. Depois há a chopela. A chopela é uma moto com três pneus, um à frente e dois atrás. À frente vai o condutor e atrás tem um banco onde podem ir até duas pessoas. É barato e quando chove é completamente desaconselhado porque à passagem dos outros carros nas poças de água, os transportados em chopela tomam banho! Logo a seguir na escala de meios de transporte surge o chapa de que já aqui falámos. É uma Hiace de nove lugares com uma carrada de gente lá dentro. É barato. Atravessar toda a cidade custa menos de 0,50€. Um dia destes, no Facebook, um artista colocou a notícia “Acidente com mini-bus em Maputo” e colocou uma foto de um chapa. Foi uma generosidade de expressão. Também há o chapa em versão large. É o mesmo conceito, mas numa carrinha de caixa aberta. Cabe sempre mais um! Também há autocarros. Acontece que são poucos e param quando há cortes no abastecimento de gás porque se movimentam com esse combustível. A opção mais estável é o táxi. Há muitos em Maputo e, claro, são mais caros do que a chopela ou o chapa. Andar de táxi tem as suas particularidades. Ao contrário de Lisboa, em Maputo os taxistas têm, na generalidade, uma condução prudente. Ou então sou eu que ando com sorte. Mas a verdade é que os carros são antigos e precisam de manutenção, então eles tentam poupá-los e fazem uma condução cautelosa. O preço discute-se antes da viagem e não há taxímetro. Uma viagem aproximada, em distância, à deslocação Marquês de Pombal > Santa Apolónia custa 200 meticais, ou seja, cerca de 6€.


A melhor forma de ter mobilidade é comprar um carro. Pode comprar-se cá ou importar do Japão. Normalmente são carros automáticos. O trânsito em Maputo é como a cidade: caótico, mas corre tudo bem. As regras respeitam-se quanto baste. Por exemplo, havendo volantes à direita e circulação pela esquerda, seria de esperar que a prioridade fosse de quem se apresenta pela esquerda. Nada disso. Manteve-se a regra antiga, tem prioridade quem se apresenta pela direita, contudo, quase ninguém liga a isso. Os condutores chegam a um cruzamento e quem chegou primeiro ou quem se chegar à frente mais depressa é quem passa… Toda a condução é um bocado a olho. A polícia bem que anda a fazer um esforço, mas já vi diversas vezes pessoas com jipes ultrapassarem uma fila de carros por cima do passeio… havia espaço! Há semáforos e respeitam-se, mas os semáforos nos cruzamentos são muito engraçados. Há um semáforo no início do cruzamento e outro do lado de lá que repete o sinal deste daqui… é para a malta não se esquecer! Não é uma cidade onde haja muitos acidentes apesar de parecer que está sempre para acontecer um!

jpv


Tchova
Chopela
Chapa

Chapa Large

Táxi


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Aviso e Pedido de Desculpas

Caros amigos e leitores,

estou a enfrentar algumas dificuldades técnicas que têm prejudicado o aspeto do blogue.


Peço desculpa e prometo tentar resolver o mais breve possível.


Obrigado.


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Crónicas de África – Internet

Internet

Maputo, 26 de setembro de 2012

Ontem foi feriado. Deu para avançar na instalação. A casa apronta-se a bom ritmo. O próximo passo é resolver a questão da mobilidade sendo que comprar carro em Maputo é tarefa complexa e que requer muitos cuidados.

Hoje, contudo, tivemos uma alegria. Já temos Internet. Como calculam, o facto só por si não dava uma crónica, mas o tipo de Net que comprámos merece várias palavras e comentários… Para já, que eu saiba, não existe em Portugal. Eu pelo menos nunca vi.

Devo esclarecer, antes de mais, que em Moçambique a Internet é um serviço muito caro e não há em regime de tráfego ilimitado como é comum na Europa. Aqui o tráfego ainda é por pacotes de gigas que começam em 1gb e vão até 30gb. As velocidades também são lentas. A mais comum é de 500Kb. Uma conexão normal de cerca de 3gb/mês pode custar o equivalente a 90 euros. Se for de 5gb, custará cerca de 120€.

Mas surgiu uma novidade. Um serviço de 15gb utilizáveis no tempo que se quiser desde 1 dia até 45 dias que custa o equivalente a 45€. Mas isso não tem nada de novo. O que tem de novo é o fornecimento. Trata-se de um pequeno aparelho do tamanho de um pequeno telemóvel que se coloca onde se quiser, na sala, no quarto, na cozinha, no carro, no autocarro, na escola, ou na mala e vai connosco para todo o lado sem ser preciso qualquer fio de ligação ou cabo de alimentação porque tem uma bateria. Tem um nome de utilizador e uma palavra-passe e aceita até 20 computadores ligados em simultâneo! A ligação é wireless e a empresa garante cobertura em toda a Maputo e na Matola. Não é como uma pen porque a pen precisa estar fisicamente ligada ao computador e só dá para um. O aparelho, além de estar protegido por palavra-passe, tem um mostrador que diz quantos computadores estão ligados para podermos controlar… É prático e já posso dizer que é muito eficaz! É recarregável como os telemóveis: pela net, por multibanco ou com uma raspadinha que se compra na esquina! E esta hein?! Tecnologia de ponta na maravilhosa Maputo!

– Olha, dá-me aí 500 paus de net! Mai nada!

Mais informações aqui: 
http://www.inmoz.co.mz/


jpv


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A Vista


Caríssimos Amigos e Leitores,


Já estamos na nossa casa de Maputo que é muito confortável, mas ainda não temos net daí alguma ausência digital. Por isso e porque há muito trabalho a fazer em casa e na escola. Abraços a todos!


Digam lá que a vista não é espetacular!
jpv


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Mudança

Mudança

Muda a palavra.
Muda o ritmo.
Muda a cor da terra,
Muda o ar do céu.
Muda da posse o sentido
Do que me pertenceu.
Muda o movimento
Das gentes em profusão.
Muda a ordem.
Muda a confusão.
Muda a faixa de rodagem.
Mudam as roupas,
Muda a engrenagem.
Muda a religião.
Muda o tempo
Com que se muda tudo.
Muda o tom da pele
Mas não muda o seu veludo.
Muda um corpo dançando
E outro na rua tombado.
Muda-se tão facilmente que,
Em se olhando,
Se encontra um homem mudado.
Muda o poiso do sol,
Muda das aves a cor,
Muda o suor no lençol,
Sem que se mude, dos homens, a dor.
Mudam as frutas,
Mudam os odores.
Muda-se até um oceano,
E muda-se dos ventos a dança.
Tinhas razão, ó poeta,
Este mundo é composto de mudança!

jpv


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Crónicas de África – Um Dia com M.


Um Dia com M.

M. é um muçulmano, casado, pai de duas meninas aos vinte e seis anos e um tipo intrinsecamente honesto. É também intrinsecamente negociante. E como sabe que um negócio atrai outro, nunca prejudica nem engana quem lhe compra bens ou produtos. Só transaciona material que ele próprio certifica como sendo de qualidade. Claro que se lhe dás mais do que as coisas valem, esse é um problema teu.

Aluguei-lhe uma casa em Maputo. É o meu senhorio, portanto. Um dia destes, por via da legalização e assinatura do contrato, passámos um dia quase inteiro juntos no carro dele. Era o M., eu, a minha mulher e a mãe dele que ele trata por mamã. É impressionante como muda de registo, ora está a falar em tom malandro e sério a fazer um negócio ao telefone, ora põe o tom mais meigo que pode ouvir-se a um homem e diz, Cuidado, mamã, aí tem água! Foi possível e muito interessante conversar com ele acerca de esquemas de negócio, de negócios propriamente ditos, de como conseguir as coisas mais facilmente, de princípios, de valores, da nossa postura perante a vida, de religião. Um dia, a todos os títulos interessante. M. é moçambicano. Sempre aqui viveu, embora tenha viajado, conhecido e trabalhado em outros países, como por exemplo, Angola e Paquistão. Veste a sua túnica, entra no carro, coloca o telemóvel no colo e passa o dia a resolver problemas às pessoas. O telemóvel é o meu escritório, diz com entusiasmo.

No espaço de um dia, alugou-me a casa, fomos às finanças e ao notário, fez diversos negócios para reparação de i-pods e telemóveis, Gosto mais de trabalhar com software do que com hardware, tem menos riscos. Quando lhe disse que ia precisar de carro, atalhou logo, Queres de cá ou importado? Se quiseres importado, também te importo? Não tens net? Olha, a oferta melhor é da empresa xis, eu trato-te disso. Impressora? Diz lá que marca queres? E o modelo? De repente, ele estava a parar em locais onde apanhava telemóveis que ia entregar no dia seguinte, as pessoas confiam nele, sabem que vai devolver arranjado. Desbloqueou-me o meu telefone português. Ao passarmos por uma rua, disse-me, Estás a ver aquele carro branco? Estou. Está a ser roubado. Depois dos nossos primos e dos seus ensinamentos, foi muito interessante conhecer o M. e toda a sua capacidade para se movimentar e negociar na grande cidade. Está sempre ativo e atento e o negócio corre-lhe nas veias. M., esse parking é exclusivo. Vamos ver… Estacionou lá, claro! Sem problemas. O M. tem uma dicção perfeita e uma agilidade de raciocínio invejável e sabe alterar o registo do discurso de acordo com o seu interlocutor. É absolutamente educado comigo, é meigo com a mãe e quando se aproxima de um cliente pode dizer com um tom muito cool e integrado, Oi mano, qual é o teu problema? Às tantas reclamei, M., duas horas para abrir uma conta?! Não estranhes, é por isso que isto é Moçambique! Não sei como será o futuro, não sou adivinho, para já, tudo isto se revela surpreendentemente tentador! Se eu podia viver em Maputo sem o M.? Poder, podia, mas não era a mesma coisa! Hahahaha…
jpv