Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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A Paixão de Madalena – Previsão que não é Promessa

Amigos, já vou sentindo algum embaraço em relação à demora na publicação do quinto capítulo de “A Paixão de Madalena”.
De facto, são muitas as mensagens de e-mail a lembrar-me do atraso.
A escrita tem avançado a ritmo lento, mas tem avançado. Acho que a adaptação a uma nova vida, a novos ritmos, as aulas para preparar, os testes para corrigir e toda a instalação numa cidade nova que fica em África me têm consumido tempo e energia.
Ainda assim, ao contrário do que alguém sugeria num e-mail, “Será que abandonou o projeto…”, a escrita segue entusiasmada e eu, que sou suspeito porque parte interessada, estou a gostar bastante do resultado.
Como previsão que não é promessa, admito que o quinto capítulo surja nestas páginas até ao próximo sábado.
jpv


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Conversas Vadias – O Homem Bom e o Macho Mau

Conversas Vadias – O Homem Bom e o Macho Mau

– Afinal como é que isso começou?
– Pensei que sabias…
– Quer dizer, a parte prática eu sei… essa eu sei, hahahaha, eu não sei é como é que te pudeste interessar por ele, hahahaha!
– Sei lá, sabes como é, todos temos vinte anos e sonhamos com o par perfeito. Ele era um homem bom, gostava de mim, ajudava-me imenso com a casa e depois acho que me habituei a isso e fui ficando… sei lá, ele era muito sensível, aliás, ainda é, e eu gostava disso nele… agora já me farto um bocadinho, sempre aquela lamechice. Sabes, eu sempre fui o homem da casa e ele sempre foi a mulher da casa.
– Hahahaha… eu acho que tu mereces um homem mais macho… hahahahaha!
– Já tenho pensado nisso.
– Eu também, hahahahaha!

jpv
(adaptado de uma conversa real ouvida de passagem)


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Crónicas de África – Flores para P!

Crónicas de África – Flores para P!

Maputo, 27 de novembro de 2012

Para quem possa saber do que estou a falar, importa, antes de mais, referir que a P. está bem, felizmente. 

Serei reservado como é hábito, mas há um pormenor desta história que me marcou pela generosidade. E é esse pormenor que vou relatar-vos.

A instituição onde trabalho, em Maputo, recebeu uma delegação do MEC em visita oficial. Nessa delegação vinha a minha amiga P. e quando nos vimos trocámos um longo abraço a matar as saudades todas. As dela e as de todas as pessoas que por ela tinham enviado cumprimentos e força e beijinhos. A P. andou bem, desempenhando as suas funções com competência e elegância como é costume e depressa se percebeu que se integrava com facilidade num país muito diferente ainda que por meros cinco dias.

Ontem, contudo, o azar bateu à porta. Entre duas reuniões teve de baixar ao hospital com um problema de saúde súbito e ficar internada. A coisa resolveu-se graças à qualidade do atendimento e à celeridade com que foi socorrida. Pois, aqui não corre tudo mal! À noite, depois de uma anestesia geral, já podia receber amigos. O J. fez a simpatia de me informar e combinámos encontrar-nos no hospital os três, a D. o J. e eu. 

No caminho para o hospital pensei em levar-lhe umas flores. Não conseguia imaginar uma situação muito pior do que uma pessoa estar afastada de casa e da família e, de repente, o organismo pregar-nos uma partida longe de todos aqueles que nos são próximos e constituem o nosso suporte de vida. Por isso, achei que os amigos ao pé dela e o carinho de umas flores poderiam atenuar.

Nem de propósito, enquanto cruzava a avenida Julius Nyerere, lá estava um dos muitos rapazes que vendem ramos de flores pelas ruas e avenidas de Maputo. Era noite. Mesmo assim, encostei o carro e chamei-o. A ideia era saber se tinha algumas que eu pudesse comprar porque saíra de casa a correr e só levara comigo cem meticais (mais ou menos 2,70€):
– Quanto valem?
– Estas duzentos e estas trezentos.
– Ok. Desculpa lá incomodar-te, mas não tenho dinheiro.
– Quanto dás?
– Não dou nada. Não tenho dinheiro. Só levo aqui cem meticais.
– Oh boss, sobe lá um pouco.
– Até subia, mas não tenho, vou ver uma pessoa ao hospital…
– Hospital? Toma, leva.
– Toma lá os cem…
– Não quero, leva assim…
– Ai queres, queres…

E fiquei ali uns minutos até o conseguir convencer a receber o dinheiro. Ora, se tivermos em conta que estas pessoas precisam mesmo, o que aquele rapaz fez na noite de Maputo foi ao abrigo de valores que estão acima de todos os comércios. A solidariedade e o apoio aos fragilizados é um código que, felizmente, ainda vai sendo válido por esse mundo fora incluindo a noite de Maputo.

E lá paguei ao rapaz numa cena muito pouco habitual que foi o vendedor a tentar não receber o dinheiro e o comprador a obrigar o vendedor a cobrar. Trocámos papéis e valeu a pena. A P. abriu um sorriso largo quando as viu e o seu rosto iluminou-se de acolhimento.
A P. está bem. Dois dias de repouso e pode regressar a Portugal com a memória de uma visita diferente. Com trabalho, com percalços, com um atendimento fantástico e… com rosas perfumadas de generosidade.
jpv


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Citação da Caminhada

“Os laços da morte me cercaram e as angústias do Inferno se apoderaram de mim; encontrei aperto e tristeza. Então invoquei o nome do Senhor, dizendo: Ó Senhor, livra a minha alma. Piedoso é o Senhor e justo, o nosso Deus tem misericórdia. O Senhor protege os simples; fui abatido, mas ele me livrou. Volta, minha alma, para o teu repouso, pois o Senhor te fez bem. Porque tu livraste a minha alma da morte, os meus olhos das lágrimas, e os meus pés da queda. Andarei perante a face do Senhor na terra dos viventes.”

In A Bíblia Sagrada

Salmos, 116, 3 – 9.


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Citação da Atitude

“Para que o mal prevaleça, basta que os homens de bem nada façam”

Edmund Burke


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Crónicas de África – África do Sul!

Crónicas de África – África do Sul!

Maputo, 23 de novembro de 2012

É sabido e será necessário ser muito cego para não reparar que a África do Sul é uma presença cultural constante em Maputo. Viaturas, alimentos, acessórios, hábitos, expressões gravadas na linguagem, tudo um reflexo da proximidade que a geografia desenha e as estradas facilitam. E este é, por isso, um assunto que me interessa.

Outro assunto que me interessa sobremaneira é a onomástica moçambicana a que já dediquei largas linhas e redobradas atenções.

Ora, anteontem cruzaram-se na minha frente a influência da África do Sul no quotidiano de Maputo e a criatividade moçambicana para batizar as crianças. Ele é o Senhor Detergente, ele é o Senhor Repelente, ela é a Dona Pobreza e, mais recentemente, esta que eu encontrei e de agora vos falo.

Estava na fila do 4º Cartório Notarial para ver reconhecida uma assinatura e reparei que, ao mesmo tempo, chamavam pelas pessoas cujos documentos já estavam prontos. E era assim:

– Teodósio!
E lá ia o Teodósio levantar o documento.
– Marcelino!
– João Paulo!
Não era eu, foi coincidência. Eu ainda estava à espera da minha vez.
– África do Sul!
Oh diabo, pensei eu, ainda agora estavam a chamar pelos nomes das pessoas e agora já estão a chamar pelos países, tenho de me por a pau…

E estava pensando isto quando surge atrás de mim uma senhora baixinha e redondinha gritanto:

– Sou eu, África do Sul sou eu!

E pronto, não estavam a chamar por países…

– João Paulo!
– Sou eu. Obrigado.
jpv


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Crónicas de África – Mundo Pequeno


Mundo Pequeno

Maputo, 19 de novembro de 2012

Este blogue é absoluta e completamente independente e o seu proprietário e gestor não deve nada a ninguém, exceto à Caixa Geral de Depósitos, logo, por aqui se fala do que quero e me apetece desde que me dê na gana, que não é real, e faço a publicidade e promovo quem muito bem entendo. Ou seja, nesta crónica vou referir marcas e/ou produtos e assumo a responsabilidade.

Um dos ex-libris de Maputo é o Café-Bar-Pastelaria Continental. Fica ali próximo do Bazar (Mercado Central) e do Mercado do Pau e é um espaço amplo de mesas generosas e uma colunata altíssima e imponente com uns feitios em “L” escrito à mão a encimá-las. Tudo aquilo transpira bem estar e paira no ar um odor adocicado a pastelaria acabadinha de confecionar. Acresce, ainda, uma esplanada em cima de um estrado em madeira de dimensões consideráveis. A pastelaria é muito boa e o café de excelente qualidade. Quem for um bocadinho cusco não dispensa um pequeno almoço de sábado ou domingo naquela esplanada porque faz esquina e dá para ver quem vai, quem vem e quem fica.

No domingo, fomos lá tomar o pequeno almoço. Arrofada mista com um toquezinho de manteiga, café e chá. E estávamos muito descansadinhos a cuscar o passar das gentes, escondidos no nosso anonimato de recém-chegados, quando passa por nós um homem alto e bem constituído que para a olhar para mim, dá dois passos na minha direção e diz:

– Olá! Então o que é que faz por aqui?

E quando me levantei por educação e lhe estendi a mão, reconheci-o, mas não o identifiquei:
– Eu estou a conhecê-lo, mas tem de me dar uma ajuda.
– Então, da Pizaria Catita!
– Mas isso é no Entroncamento!
– Era! Tive de a fechar!

E relembrei uma mãe trabalhadora que em tempos se sacrificou educando dois filhos, uma rapariga e um rapaz, e o rapaz cresceu no negócio e fez-se nele e a simpatia com que nos tratámos nesses dias distantes da
Pizaria Catita guardou emoções nos corações e essas emoções vieram reencontrar-se em Maputo onde me julgava anónimo, mas, ao que parece, não sou assim tanto.

É pequeno, o Mundo. Sobretudo quando os corações dos homens são grandes. O rapaz, hoje um homem, já brevemente descrito, reconheceu-me. Conversámos um bocadinho, trocámos números de telefone e, claro está, estabelecemos um elo.

Depois, quando saímos dali, demos uma volta pela marginal de que vos mostro algumas fotos, e eu fui pensando, Quantas pessoas mais estarão em Maputo que eu conheço de outras paragens? É pequeno, o Mundo.
jpv

Avenida Marginal, sentido Costa do Sol, 6:30 a.m.

Avenida Marginal, sentido Costa do Sol, 6:30 a.m.

Avenida Marginal, sentido Maputo Centro, 11:30 a.m.

Avenida Marginal, sentido Maputo Centro, 11:30 a.m.


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Crónicas de Maledicência – Vá para fora cá dentro… ao contrário!

Crónicas de Maledicência – Vá para fora cá dentro… ao contrário!

Este slogan, “Vá para fora cá dentro”, gravado na memória de todos nós, tinha, na altura, o saudável intuito de promover o produto português. Há pouco, andava pela net numa voltinha de final de dia e apercebi-me de que o produto português era realmente muito bom, mas… não estava em Portugal!

O vídeo que coloco abaixo, é um excerto de 46 segundos de um jogo de futebol na Turquia e mostra um golo que é uma obra prima, um momento de qualidade que messis e ronaldos gostariam de ter protagonizado, mas não protagonizaram. Foram jogadores medianos, com salários inferiores ao que ganham alguns futebolistas estrangeiros em Portugal para produzirem coisa nenhuma.

Eu, que gosto da bola pela bola, do espetáculo pelo espetáculo, pergunto-me onde é que andam os olheiros do FCP, do SLB e do SCP que não “importam” estes portugueses de volta?!

Manuel Fernandes, de seu nome, faz um passe absolutamente genial e mata uma defesa inteira e Hugo Almeida fatura à ponta de lança.

O que é nacional é bom, mas está na Turquia!

jpv


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Palavra Indizível

Palavra Indizível

Arde no peito
E sempre volta
Uma coisa sem jeito
Que se chama revolta.
Vem de longe,
De tempos sem data.
É um nó denso
Que não se desata.
É um fulgor
E um peso mudo.
É um nada
Que às vezes é tudo.
É uma gente perdida
Sem esperança
Nem vida.
É uma história
Sem raça nem glória.
É um dobrar vencido,
Um diálogo perdido,
Um caçador mirando a corça…
Uma gente sem vontade
Nem força.
É uma palavra indizível
Que se diz.
Outrora foi uma nação,
Hoje,
É só um país!

jpv


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Citação da Autoestima

“I’m not perfect, I’m just gorgeous!”

Numa T-shirt em Maputo