Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Crónicas de África – Road Trip Maputo – Vilankulo e Volta.

Crónicas de África – Road Trip Maputo – Vilankulo e Volta.

Vilankulo, 21 de dezembro de 2012

Eram quatro da manhã. Maputo nem parecia a mesma. Uma calma e um silêncio pintados pelo breu da noite que começava a render-se à luz. Nenhum veículo em trânsito. Cruzámos a avenida 24 de Julho como se estivéssemos numa cidade fantasma. Levámos meia hora a abandonar o perímetro da capital. Como prevíramos, nenhum auto-stop. Só começaríamos a ver auto-stops por volta das seis da manhã. Fizemos 740km em 10 horas à ida, em 16 horas à vinda, cera de 1600km, portanto. passámos por cerca de 30 brigadas policiais e só nos mandaram parar uma vez, na viagem de ida, a 17km do destino. Boa tarde. Boa tarde. O livrete, por favor. Aqui tem. Pode seguir, mano.

Muitas vezes corrigi os meus alunos por dizerem, Em Moçambique faz-se assim, Em Moçambique é assim, Em Moçambique funciona assim. E lá atalhava eu dizendo que não podiam referir-se a todo o país pelo conhecimento que tinham da Capital. Maputo é a Capital, mas não é Moçambique. Dizia isto sem conhecimento de causa. Pelo cálculo, pelo bom senso e por algumas leituras. Hoje, ainda não tenho todo o conhecimento de causa, mas sei, pela riqueza que a viagem teve, que Moçambique é um país fantástico, muito para além da sua Capital.

A paisagem é arrebatadora. Começa com grandes planícies, a perder de vista, com o horizonte “limpo”, cortado por aquilo a que o Iago chama de “Árvores à Rei Leão”. Depois, é todo um imenso palmar, uma mar de verdes luminosos a emoldurar a paisagem. De quando em vez, como em Zavala, ou em Inharrime, o azul turquesa do Índico vem compor o cenário e chega, mesmo, no caso de Inharrime, a beijar a estrada. É um azul intenso e irrepetível. Não é um azul forte. É um azul clarinho e límpido a fugir para o tom de verde-água de uma água de colónia que a minha mãe usava quando eu era criança. E, pelo meio das árvores e da vegetação, são às centenas os povoados construídos em casinhas redondas com telhados de palha (palafita) atada e apertada. E estes povoados, mesmo em pisos térreos, estão impecavelmente varridos e o seu traçado é perfeitamente visível.

Ao longo dos 740km há, sem exagero, pelo menos de vinte em vinte quilómetros, às vezes nem tanto, uma Escola Primária. Mais ou menos a cada cinquenta quilómetros, há uma maternidade e um posto da polícia e, sim, há combustível ao longo do caminho, embora, por vezes, alguns postos estejam avariados.

À exceção das auto-estradas, que são estéreis como consequência do seu próprio conceito, as estradas são centros de vida, espaço de negócios e transações, ponto de encontro, e a Nacional 1, que cruza o país de Sul a Norte, com retas de várias dezenas de quilómetros, algumas a perder de vista, é uma estrada constantemente bordejada de vendedores de tudo o que é vendável. Primeiro a venda da castanha de cajú com os rapazes a assinalarem os seus pontos de venda atando inúmeros sacos de plástico transparentes a uma árvore ou a um fio estendido entre dois pontos. Os sacos emprenham com o vento e fica um espetáculo de atrair atenções. Depois a zona da lenha. As pessoas fazem molhos de lenha, empilham-nos à beira da estrada e ficam à espera que alguém os venha comprar. Pode vir uma pessoa comprar um molho, como pode parar um camião e levar tudo de uma vez. Depois, a zona dos ananases. Grandes, pequenos, verdes, maduros, são pendurados em bancas de venda e vendidos baratos. Depois a zona dos cocos. Um saco com cinquenta cocos custa 200 meticais, mais ou menos 5,4€. Depois a zona das mangas, onde são vendidas ao alguidar (mais ou menos 10kg) ou à lata (mais ou menos 20kg). Se pedirmos para comprar uma manga, encolhem os ombros como se não batêssemos bem da tola e oferecem-na. Quem é que quer uma manga?! Há ainda a zona do carvão e das massarocas, cruas e assadas e há aquela cidade onde para se entrar ou sair, alguém tem de levantar uma cancela e há a zona do piri-piri onde se montam umas estantes em madeira e se expõem as garrafas enfileiradas.

E, além de tudo isto, há as vendas ocasionais. Alguém tem lá em casa qualquer coisa que quer vender e vem para a beira da estrada. Achámos particularmente curioso um jovem com um coelho branco pendurado pelas orelhas, com ele bem erguido no ar, a ver se alguém o queria levar.

Quando paramos para comprar umas mangas, perguntei a como eram, a vendedora apontou para um alguidar e disse, Cinquenta. E depois apontou para uma lata enorme e disse, Cem. Eu apontei para o alguidar e disse, Levo aquelas. Ela vazou-as para um saco, eram seguramente mais de dez quilos de mangas e tinham custado cinquenta meticais (mais ou menos 1,25€). O Iago perguntou-me, Como é que sabias que era 50 por todas? Eu pensava que era por cada uma. E eu ainda hoje penso na pergunta dele. Eu não sabia, calculei. Acho que, com o tempo, nos habituamos às dádivas da Natureza já que tudo o resto é tão caro e difícil.

Quando parámos para comprar ananases, demos com uma simpática e desdentada anciã, apareceu com uns ananases enormes, para aí com mais de dois quilos cada um. Quanto queres? Cinquenta. Ok, dá cá dois. E quando ia para seguir, ela levantou a mão como que a dizer Não vás já e disse:

– Papá, não tens um chocolate?
– Chocolates não tenho, não posso comer, fazem-me mal aos dentes.
– Mas posso eu, já não tenho dentes!

E largámo-nos todos a rir. Fiz-lhe uma contra-proposta:

– Tenho aqui uma Laurentina, queres?
– Quero.

O Iago deu-lhe a garrafa da cerveja para a mão e senhora começou a dançar e a rodopiar sobre si própria, esfuziante de alegria e cantando Obrigado! Obrigado! Obrigado! O interessante é que ela dera mais importância a uma oferta do que ao facto de ter acabado de vender dois ananases. E foi-se afastando do carro e a miudagem foi atrás dela, não tanto por lhe cobiçar a cerveja, mas mais por partilhar a alegria do momento.

À medida que atravessámos localidades mais povoadas como Xai-Xai, Quissico, Lindela, Maxixe, Morrumbene e Massinga, era sempre o mesmo espetáculo de cor e odores frutados e movimento e ruas de passagem transformadas em autênticos mercados com os produtos em bancas e pelo chão numa riqueza e numa demonstração de vida ímpares.

Quando chegámos a Vilankulo estávamos cansados, mas estávamos, também, saciados. Finalmente, ambientes genuínos e livres onde nem tudo está controlado. Quero dizer, onde quase nada está controlado e a vida brota e acontece com a pujança que a carateriza. Finalmente, um pouco de Moçambique fora de Maputo. Finalmente uma viagem à moda antiga, com incidências e peripécias, com paragens e trocas e conhecimentos. Depois conhecemos Vilankulo, que escreverei em breve, e regressámos pelo mesmo caminho mas com parte do percurso feito de noite. Completamente desaconselhado. Carros sem luzes a ultrapassar em contra-mão, atrelados sobrecarregados a partirem o engate com o veículo e a despistarem-se ambos,  pneus que rebentam e eixos da direção que partem por excesso de peso. Carrinhas pequenas que levam tanta gente e mercadoria que parecem almejar o céu, mas que perdem o equilíbrio e tombam para o lado. Uma aventura e um risco.

Viajar é uma experiência única. Viajar em Moçambique é uma experiência única e especial. É conhecer as gentes as terras, as movimentações, a força do labor e a paisagem de cortar a respiração. Tem magia e encanto este país e eles notam-se mais quando se cruzam as terras. E, por falar em cruzar terras, nesta viagem cruzámos o Trópico de Capricórnio que está assinalado com placas e onde fizemos a tradicional fotografia. Só um pormenor entre tantas coisas a registar. Melhor do que isto, só arranjar tempo e cruzar o país todo. Coisinha para 3000km e volta. Que é lá isso?!

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Dados da viagem:
Quilómetros percorridos: mais ou menos 1650.
Horas decorridas: cerca de 26.
Litros de combustível: cerca de 80.
Coca-colas bebidas: cerca de 16
Águas tónicas: 2.
Cervejas bebidas: 1.
Água consumida: mais ou menos 8l.
Frangos comidos: 1.
Mangas compradas: cerca de 20kg.
Ananases comprados:2.
Capulanas compradas: 2.
Canções ouvidas: cerca de 330. O Iago foi à Estrela, em Maputo, e comprou uma “coisa” onde se enfia a pen/flash com música, depois liga-se ao isqueiro do carro, e depois o rádio sintoniza a “coisa” como se fosse uma estação de rádio. Com comando e tudo por 180 meticais.
Auto-stops encontrados: mais ou menos 30.
Auto-stops em que fomos mandados parar: 1.
Paragens para comer: sei lá! umas seis.
Paragens por outras razões fisiológicas: bué!
Conselhos: Faça Você Mesmo!
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jpv


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Saudação Natalícia

A todos os leitores de “Mails para a minha Irmã”, a todos os meus amigos e amigas, à minha família mais chegada, aos familiares mais afastados, à minha equipa na DSFRHE, aos meus amigos na DGAE e na SEEAE, aos meus colegas na Escola Secundária de Alcanena, aos companheiros de viagem do Clã do Comboio, aos colegas na EPM-CELP, aos amigos que despontam em Maputo, àqueles que continuam a acreditar em mim e querem comigo traçar projetos para o futuro, aos amigos que fiz e mantenho no SPGL e na FENPROF, aos meus alunos do presente e do passado que me vão revisitando das mais diversas formas, a todos aqueles com quem troquei um sorriso, um abraço, um aperto de mão, uma palavra, a todos os que possa ter ajudado e a  todos os que me ajudaram, a todos os que possam não estar nestas palavras, mas estão no meu coração, votos de um santo e sereno Natal, passado em harmonia, na companhia daqueles que mais estimam, projetando sonhos e realizando a vida.

Mais do que uma data ou uma quadra festiva, o Natal é a celebração da solidariedade, da Fé numa vida melhor, da redenção e da esperança. Que os vossos corações possam sentir estes valores e que as vossas ações reflitam essa Paz.

Com Amizade,
João Paulo Videira


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Feliz Natal

Caríssimos Amigos, Leitores e familiares,

Onde estou não há cheiro de Natal nem sombra de internet. O que consegui agora foram 15 minutos de exceção que aproveito para desejar a todos UM NATAL MUITO FELIZ PLENO DE TRANQUILIDADE E REALIZAÇÕES!

Em breve estarei de volta com muitas crónicas e a continuação do romance.

Um forte abraço a todos,

João Paulo Videira

ps: mãezinha, adoro-te! mana, amo-te!


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Crónicas de África – Três Meses de Esperança

Crónicas de África – Três Meses de Esperança

Maputo 15 de dezembro de 2012

Todo o dia fora de antecipação e borboletas no estômago. A noite estava quente, acolhedora, e o aeroporto de Maputo tinha as entranhas repletas de portugueses à espera de portugueses. Para nós, aquele avião trazia a carga mais preciosa, o passageiro mais especial. O nosso filho chegou para nos visitar na passada quinta-feira à noite. Abraços infindáveis, as perguntas já feitas ao telefone e no skype agora repetidas com o calor da presença de quem nos anima a vida. Não é fácil descrever o que se sente com a ausência de um filho, e menos fácil ainda é descrever o momento da reunião. É uma completude, um preencher de vazios, é um refazer de sentidos e uma pacificação, é o afastar de um sobressalto constante no peito, é uma nuvem que se vai para o sol poder brilhar de novo. É só isso. E é isso tudo!

No dia seguinte, completaram-se três meses sobre a nossa chegada a Moçambique. Um trimestre de certezas e incertezas, de alegrias e dúvidas, de uma adaptação constante a tudo. Um trimestre de que ficam aqui alguns, poucos, aspetos que o marcaram.

Marco e Sandrine
Incansáveis, sempre prestáveis e absolutamente fundamentais na nossa chegada e adaptação até conseguirmos dar os primeiros passos sozinhos. Conhecer a cidade, onde ficavam as portas que mais depressa e urgentemente precisaríamos de abrir, encontrar casa, perceber hábitos, rituais e as atitudes das pessoas… tudo ficou mais fácil com eles.

O Nunes
O Nunes como é conhecido por cá ou o Zé, como às vezes ainda lhe chamamos, foi uma ajuda preciosa para encontrarmos um carro, perceber os valores, o tipo de carro que mais se adequa à cidade, fazer um bom negócio, as primeiras manutenções, enfim, conseguirmos autonomia e mobilidade. O Nunes ajudou e esteve sempre sereno. E, sobretudo, foi paciente!

A Escola
Percebemos, quando chegámos, a curiosidade dos colegas e até alguma interrogação sobre o que viríamos fazer. Rápido se percebeu que éramos do clã. Só mais dois professores. E, desde a direção a todos os colegas na sala de professores, fomos recebendo dicas de adaptação através das inúmeras histórias e múltiplos conselhos que nos foram dando. E os alunos entraram nesse circuito, Os meus pais fazem assim, E já foi ali, Olhe, quando lhe acontecer isto assim, assim, faça o seguinte… E fomos vencendo o trabalho e criando os nossos próprios espaços e pode dizer-se, ao cabo de três meses, pelo menos, não somos estranhos e temos mesmo alguns amigos novos.

A Casa
Criámos, porque se trata de uma pessoa séria, uma boa relação com o senhorio. A nossa casa tem vindo a crescer por dentro e vai ficando mais confortável à medida que o tempo passa. Em certa medida, acho que as pessoas tentam, com as devidas adaptações, replicar a sua vida original.

Maputo
Meu Deus, havendo de tudo como em Portugal, estando repleta de portugueses, o facto de ser uma cidade africana, muda tudo. Como a vida é diferente! Nada tem nada a haver com o nosso modo de vida. Os mercados de rua, as pessoas a vender de tudo pelas artérias da cidade, os rapazes oferecendo-se para levar as compras, o trânsito caótico e cuidadoso, a alegria das gentes, o falarem para nós na rua ou num espaço público só porque sim, só porque somos uma pessoa e ele também, os buracos na estrada, os edifícios novos a despontar em cada esquina, a presença constante de armas pesadas nas forças de segurança, os encontros com os agentes da polícia de trânsito, tudo com a marca do improviso, da calma, do hei de fazer, da bonomia e da simpatia e dessa fantástica relação entre as pessoas com o dinheiro a mediá-la. Maputo tem lixo, sim. É um problema a resolver. Mas tem também a marginal e tem a 24 de Julho ululante de gente e fervilhante de vida. É uma grande cidade e, ao mesmo tempo, uma pequena aldeia. Traçado pombalino, é uma urbe de que nos apropriamos com facilidade. A vida é dura, claro, para quem emigra para África, mas, queiramos nós agarrá-la com firmeza, pode ser bem agradável. Pelo menos, há esperança.

Clima
São oito horas e já está calor. E vai continuar a estar calor, às vezes roça o insuportável, depois, em poucos minutos, o céu escurece, desaba uma água forte e caudalosa, toda a cidade é varrida pela bátega e meia hora depois vem a calmaria de novo. Maputo não é uma cidade insuportavelmente quente. A brisa do mar adoça a agressividade do calor. A brisa do mar e a bátega de água lavadoira!

Arte e Festa
É um povo que se exprime com os materiais mais nobres e com os mais rudimentares também. Com três latas de Coca-Cola e um fio de arame, faz-se uma carrinho de brincar, um helicóptero ou um LandRover Defender. Trabalham a madeira com arte e o ferro e o tecido. E pintam em tela com tinta ou em pano com tinta e cera e têm pormenores deliciosos de criatividade. Estão sempre em festa. Cumprimentam-te na rua em festa porque sim. Cantam no local de trabalho, já assisti a caixas de supermercado e balconistas de um banco, dançam enquanto atravessam a estrada e têm o culto da músico e o ritmo irrequieto nas pernas, nas ancas, no corpo todo.

Chapas
Não é possível ficar-se indiferente. São aos milhares pela cidade e transportam toda a gente de todo o lado para todo o lado. Interferem com as vidas das pessoas e uma greve de utentes a este serviço para completamente a cidade.

Ritmos
Deitar por volta das 20h, 21h, levantar com a luz das 4:30h, 5:30h, começar aulas às 7:00h, almoçar às 11:30. Encarar as 8h como meio da manhã. Não forçar ritmos, aprender a navegar neles. Assumir que o descanso é para descansar. 

RSA
Presente em hábitos do dia-a-dia, em expressões de fala, em hábitos alimentares, em objetos que se trazem no carro ou se guardam em casa, a África do Sul é uma vizinha donde chegam ventos culturais todos os dias.

Mail, Facebook, Skype, Amigos e Familiares
As comunicações por e-mail, as mensagens no FB, as vídeo-chamadas pelo Skype mantiveram presentes os amigos de lá, dessa Pátria fria e distante e mantiveram a presença visual e sonora da família. 

Negociar em Meticais

Viver em Maputo é estar em permanente negócio, é medir forças em meticais constantemente. Tudo tem um preço, tudo se negoceia, tudo se vende. Não só coisas. Serviços. Tudo o que possa resultar no amealhar de umas moedas pode ser transacionável. 

Portugal
Lá longe… esfumado nas mentes e vivido nelas também. É sempre a Pátria. Uma pátria donde chegam com frequência notícias de apreensão. Sim, é para voltar, mas não será já. Portugal terá de esperar.

O Futuro

O futuro, para já, é aqui. Aqui estão as soluções e a esperança de crescer. Aqui está o trabalho e a vontade de viver. Sempre desalojados. Sempre realojados da esperança e da vontade de superar. Hoje, enquanto estávamos no trabalho, o nosso filho andou pela cidade a conhecer, e a falar com as pessoas que mostraram gostar muito dele e do seu aspeto tranquilo. Chamam-lhe “O Argentino”, “O Reggae Man”, “O Messi” ou o “Brother”. E comprou umas sapatilhas All Star por 250 meticais, 6€. Em Portugal custam 70€. Sim, também para ele há esperança. Sim, também para ele, ela parece morar aqui.

Três meses repletos de dificuldades e alegrias, de crescer como pessoas na multiculturalidade que é a sociedade moçambicana. Uma sociedade aberta e simpática onde há riscos e onde há, sobretudo, oportunidades. Mesmo estando um pouco “vaidosos” com a nossa coragem para mudar de vida aos 45 anos, somos humildes e estamos gratos a todos os que se cruzaram connosco por bem. Três meses! Venham mais três!

jpv


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12-12-12

12-12-12

Vim só marcar o dia pela curiosidade de ser 12 do 12 de 2012. 
Para mim, um dia particularmente trabalhoso e intenso com falta de dormir acumulada nas últimas noites.

Sete tempos de aulas, duas reuniões e uma série de peripécias da vida laboral e privada pelo meio. Tudo normal, portanto.

Um dia cheio de gente boa e também com algumas almas complicadas como se quer em ambientes repletos de humanidade.

Nada é ocultável. Nós somos todos parte de uma imensa e comum matéria, agora fragmentada, logo, sentimos, pressentimos e, se nos dermos ao trabalho de ouvir o que os outros não dizem e de ver o que os outros não fazem, tudo nos atos se torna percetível e previsível.

Hoje, 12-12-12, se algo marcou o meu dia, foi essa imensa leitura sensorial. Gosto de fazer isso. É mesmo viciante. E depois perguntam-me, Como é que sabes que estava a pensar isso? Como é que sabes que queria isso? Como é que sabes… Eu não sei, as pessoas dizem-me pelas palavras não proferidas, pelos atos não praticados. E essa constelação das coisas ditas e não ditas, feitas e não feitas, oferece-nos uma visão cristalina do universo dos seus comportamentos. E é muito mais interessante do que uma data. Foi um dia de leituras, portanto.

Amanhã chega o nosso filho, três meses depois do último abraço. Isso, sim, será um dia especial. Boa viagem, rapaz.

jpv


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Sporting – Benfica: A Paixão do Dérbi


Sporting – Benfica: A Paixão do Dérbi

Primeiro, pensei em fazer um texto racional e sóbrio sobre o dérbi. Mas não dá. Se não, não era dérbi. Mesmo assim, dá para ser apaixonadamente racional. O que não é difícil se tivermos em conta que, sendo eu benfiquista assumido e convicto, o meu filho é sportinguista.

Esclareça-se que não sou aquele tipo de benfiquista que não vê uma falta feita por um jogador do Benfica. Eu veria, se eles fizessem, mas os jogadores do Benfas são tão excelsos que nem faltas fazem. Eu, pelo menos, nunca vi!

Sobre o jogo de ontem, que foi genericamente um jogo fraco, vou dizer uma verdade que oiço a certos comentadores: o jogo teve duas partes! Não sei como nunca tinha pensado nisto! Na primeira, dominou o Sporting que chegou ao intervalo a ganhar com justiça apesar de ser com um golo ao calhas. Ninguém acredita que o avançado do Sporting fez aquilo de propósito, nem  ele, porque se vê claramente que ele fecha os olhos antes de rematar. Um primor! Pode jogar no Euromilhões!

Na segunda parte, o Sporting desapareceu do jogo. Pura e simplesmente não tem ritmo competitivo. Fez um remate ao poste e depois sofreu três golos. Decidiu jogar com dois guarda-redes, mas isso não trouxe bons resultados. O Benfica, tal como o Sporting, marcou um golo ao calhas. A única coisa que se sabe do golo é que a bola entrou. De resto, fica a confusão total. O segundo é daqueles que dá raiva aos sportinguistas porque o penalti não é discutível. Pois… O terceiro é o melhor golo do jogo. Os tipos que dizem mal do Cardozo bem que se podem roer. O tipo, mesmo completamente desajeitado, continua a faturar quando e onde é preciso.

O árbitro esteve bem no sentido que não interferiu no resultado do jogo. Mostrou um amarelo justo ao Maxi Pereira que foi infantil e não expulsou o Wolswinkel (isto não se escreve assim, mas não me apetece ir ver, aliás, não é nome que se ponha a uma criança) como devia ter feito por entrada traseira e bárbara sobre um indefeso jogador das águias. Hihihi…

Quanto ao resto, gostei da festa e de ver as pessoas de família com cachecóis   de ambas as equipas e gostei de viver um dérbi a partir de Maputo. Não tenho televisão, por isso liguei-me a um site indiano que transmite uma televisão árabe que passa os jogos do Benfas. Foi fixe só que não percebi nada. Quer dizer, lá pelo meio percebia os nomes dos jogadores, mas o importante foi ver a redondinha a girar e o Benfica a ganhar! Como é que eu sei que era árabe? Aqui perto da nossa casa, pelas quatro da manhã, há um senhor que chama para a oração naquela língua. É mais bonito porque é mais tranquilo e porque, pelo meio, não é forçado a dizer Xorche Xessus…

E pronto, venha o próximo que este já está.
jpv


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Crónicas de África – Cinema

Crónicas de África – Cinema

Maputo, 10 de dezembro de 2012

Eis um assunto interessante. Há e não há. 

Há o Cine África que está quase sempre fechado ou, como surge no jornal, “sem sessão”. Há o Cine Avenida e o Cine Gilberto Mendes que quase só apresentam teatro local. Ainda não fomos, mas está prometido. Depois há o Charlot que quase só passa cinema indiano. Ainda temos o Gil Vicente que passa filmes antigos e, finalmente, há cerca de um ano para cá, inaugurou-se o Maputo Shopping que passa os filmes da modinha em salas Lusomundo com direito a 3D e tudo. Ainda não fomos nem está para breve. Curiosamente, aqui, quando se pensa em sair de casa, não é para ir ao cinema.

É claro que para uma cidade tão grande, a oferta é escassa e cara e é por isso que prolifera um tipo de comércio que tem tanto de ilegal quanto de fascinante. Os rapazes que vendem filmes em DVD nas ruas. A oferta é vastíssima. Qualquer filme com três meses de circuito comercial pode ser comprado nas ruas de Maputo com excelente qualidade de imagem e som por 100 meticais (2,70€). Também se arranjam filmes com uma semana de circuito comercial, mas, nesse caso, alguma coisa vai correr mal, garanto-vos. Acho que já vi o “007 – Skyfall” umas três vezes. Primeiro com a imagem manhosa, depois com o som manhoso, depois vi um que estava bom mas não tinha o fim do filme e acho que para a próxima já acerto num completamente bom e entretanto passaram os três meses da ordem! Mas trocam-mo sempre! Os rapazes colocam uma pilha com cerca de 100 DVD na mão trepando e amparando-se pelo braço acima. Cinema indiano, moçambicano e, claro está, toda a oferta da indústria de Hollywood. Se se para o carro e abre a janela, eles vão passando filmes para dentro do carro até perceberem que o cliente já escolheu. Depois não se pergunta o preço. É o tipo de negócio em que o preço está tacitamente aceite por vendedor e comprador e é universal. É claro que se pode solicitar por género: Arranja-me aí comédia romântica. E ele tira para o lado tudo o que é ação e espeta-nos com uma carrada de DVD no colo. Não convém pedir um filme de amor. Isso é uma pergunta que acaba com o Kama Sutra rodado em Bombaim no nosso colo. O mais engraçado é que, se acontecer comprar-se um filme estragado, seja porque não arranca, seja porque a imagem é de má qualidade, sai-se à rua e troca-se por outro sem ser preciso encontrar o vendedor a quem se comprou aquele em específico.

Outra forma de ver cinema é ter televisão. Muita gente tem. Nós decidimos não ter porque a oferta é caríssima e porque, verdade, verdadinha, nos estamos a desinteressar da televisão. Nem sentimos a falta.

No domingo, comprámos o jornal e fomos verificar o que estava em cena e reparámos que o Gil Vicente está a passar uma fita muito recente e original: “Os Três Mosquiteiros”. Não, não está mal escrito, é assim mesmo. Parece que em Hollywood já estão a rodar a sequela que será “Os Quatro Repelentes”. Mai nada. Olha a prova aí em baixo!


(Clique para Aumentar)
jpv


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Citação da Liberdade Assim como Quem Aguça o Apetite

“A liberdade é um conceito. Às vezes também é um facto. Uma realidade. Não acontece sempre. E as mais das vezes nem é porque seja cerceada por terceiros, é porque nós próprios a desconhecemos, ignoramos os seus limites, e navegamos pela vida sem percebermos que liberdade temos, que liberdade podemos ter, que liberdade queremos ter e, não menos importante, que liberdade é a dos outros. Madalena sabe. Não sabe porque tenha pensado nisso, refletido e consciencializado. Sabe, porque sente no seu íntimo o desenho dos limites da sua ação, do seu desejo e do bater do seu coração.“

João Paulo Videira
In A Paixão de Madalena, Cap. 6
A publicar brevemente neste blogue.


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Crónicas de África – Carrinhos de Choque

Crónicas de África – Carrinhos de Choque


Maputo, 8 de dezembro de 2012


Desde que estou em Maputo já tive dois acidentes. Parecidos, consequências semelhantes.


Como já tive oportunidade de escrever, o trânsito por aqui é caótico, mas há poucos acidentes e os que há, normalmente, não são graves. A mim calharam-me dois em quinze dias. No primeiro, ia descansadinho na avenida Julius Nyerere, parei num semáforo a uns metros do tipo da frente e, ainda mal não tinha parado, um estrondo invadiu o carro, andei uns três metros para a frente e pensei, Pronto, já tenho o carro todo desfeito. Quando saí do carro, a primeira visão que tive foi a do carro que embateu no meu. Tinha o capô todo arreganhado e a grelha da frente com severos maus tratos. Olho para a traseira do meu carro e nada. Para choques ok, porta ok, abri e fechei, não estava empenada, espreitei por baixo do carro e tudo me pareceu ok, inclusive o tubo de escape. O outro condutor a pedir-me desculpa, que a culpa era dele porque tinha batido por trás, que eu visse se tinha alguma coisa. Eu não tenho nada, mas o senhor parece que tem. Ele não me respondeu. Fez peso com o corpo no capô para o endireitar, deu-lhe uns murros até ele voltar a fechar, agradeceu-me e foi à vida dele.

Ontem foi diferente. Era uma descida e reparei, pelo retrovisor, que atrás vinha uma carrinha LiteAce, é uma Hiace mas mais pequena. Tem a frente direita. Guardei distância do da frente porque era uma carrinha de caixa aberta carregada de materiais e com dois homens em cima da carga. A meio da descida e por causa da fila, parei. Não tem nada que saber. Um estrondo enorme a ecoar dentro do carro, três metros de rojo, e claro que percebi que tínhamos levado nova cacetada só que esta fora com mais força. Pensei que escapar sem mazelas, nem polícia, nem papelada, duas vezes seguidas, seria muita sorte e tinha a certeza de que a minha traseira estaria severamente danificada. Quando olhei para a carrinha ainda tive mais certeza de que haveria danos. O tipo tinha a frente toda amarrotada. O ritual repetiu-se. Olho para a traseira do meu carro e nada. Para choques ok, porta ok, abri e fechei, não estava empenada, espreitei por baixo do carro e tudo me pareceu ok, inclusive o tubo de escape.

Sem sair de dentro da carrinha, o outro condutor, disse-me a medo:
– Está alguma coisa estragado, papá?
– Está! Tens a frente toda amarrotada.
– E no teu?
– O meu está ok. Por mim, podemos seguir. Mas tens de ter cuidado.
– Eu vou ter cuidado, papá.

Entrei para o carro, olhei pelo retrovisor e vi que ele nem sequer saiu. Seguiu no seu ritmo sonolento. Fixei melhor a vista na frente da carrinha dele e reparei que o amarrotado era o desenho de um pneu. O meu! Mas com vincos!

Assim, caros leitores, se estão em Moçambique ou a pensar vir para Moçambique e vão precisar de carro, aqui toda a gente precisa de carro, dou-vos um conselho. Não interessa nada se é a gasolina ou a gasóleo, se tem muita ou pouca cilindrada, se gasta muito ou pouco, se é grande ou pequeno, se é bonito ou feio, o que interessa é que tenha um pneu bem cheio de ar na porta de trás. Assim, faz o efeito “Carrinhos de Choque em Ambiente Urbano” e o meu amigo livra-se de boa.

Em todo o caso, para as estradas de Maputo e areais de Moçambique, aconselha-se um carro com tração às quatro rodas, não muito grande, com ar condicionado e… japonês! O resto é… boa sorte e boa viagem.

– Adeus!
– Adeus, papá!

jpv