Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


3 comentários

12-12-12

12-12-12

Vim só marcar o dia pela curiosidade de ser 12 do 12 de 2012. 
Para mim, um dia particularmente trabalhoso e intenso com falta de dormir acumulada nas últimas noites.

Sete tempos de aulas, duas reuniões e uma série de peripécias da vida laboral e privada pelo meio. Tudo normal, portanto.

Um dia cheio de gente boa e também com algumas almas complicadas como se quer em ambientes repletos de humanidade.

Nada é ocultável. Nós somos todos parte de uma imensa e comum matéria, agora fragmentada, logo, sentimos, pressentimos e, se nos dermos ao trabalho de ouvir o que os outros não dizem e de ver o que os outros não fazem, tudo nos atos se torna percetível e previsível.

Hoje, 12-12-12, se algo marcou o meu dia, foi essa imensa leitura sensorial. Gosto de fazer isso. É mesmo viciante. E depois perguntam-me, Como é que sabes que estava a pensar isso? Como é que sabes que queria isso? Como é que sabes… Eu não sei, as pessoas dizem-me pelas palavras não proferidas, pelos atos não praticados. E essa constelação das coisas ditas e não ditas, feitas e não feitas, oferece-nos uma visão cristalina do universo dos seus comportamentos. E é muito mais interessante do que uma data. Foi um dia de leituras, portanto.

Amanhã chega o nosso filho, três meses depois do último abraço. Isso, sim, será um dia especial. Boa viagem, rapaz.

jpv


4 comentários

Sporting – Benfica: A Paixão do Dérbi


Sporting – Benfica: A Paixão do Dérbi

Primeiro, pensei em fazer um texto racional e sóbrio sobre o dérbi. Mas não dá. Se não, não era dérbi. Mesmo assim, dá para ser apaixonadamente racional. O que não é difícil se tivermos em conta que, sendo eu benfiquista assumido e convicto, o meu filho é sportinguista.

Esclareça-se que não sou aquele tipo de benfiquista que não vê uma falta feita por um jogador do Benfica. Eu veria, se eles fizessem, mas os jogadores do Benfas são tão excelsos que nem faltas fazem. Eu, pelo menos, nunca vi!

Sobre o jogo de ontem, que foi genericamente um jogo fraco, vou dizer uma verdade que oiço a certos comentadores: o jogo teve duas partes! Não sei como nunca tinha pensado nisto! Na primeira, dominou o Sporting que chegou ao intervalo a ganhar com justiça apesar de ser com um golo ao calhas. Ninguém acredita que o avançado do Sporting fez aquilo de propósito, nem  ele, porque se vê claramente que ele fecha os olhos antes de rematar. Um primor! Pode jogar no Euromilhões!

Na segunda parte, o Sporting desapareceu do jogo. Pura e simplesmente não tem ritmo competitivo. Fez um remate ao poste e depois sofreu três golos. Decidiu jogar com dois guarda-redes, mas isso não trouxe bons resultados. O Benfica, tal como o Sporting, marcou um golo ao calhas. A única coisa que se sabe do golo é que a bola entrou. De resto, fica a confusão total. O segundo é daqueles que dá raiva aos sportinguistas porque o penalti não é discutível. Pois… O terceiro é o melhor golo do jogo. Os tipos que dizem mal do Cardozo bem que se podem roer. O tipo, mesmo completamente desajeitado, continua a faturar quando e onde é preciso.

O árbitro esteve bem no sentido que não interferiu no resultado do jogo. Mostrou um amarelo justo ao Maxi Pereira que foi infantil e não expulsou o Wolswinkel (isto não se escreve assim, mas não me apetece ir ver, aliás, não é nome que se ponha a uma criança) como devia ter feito por entrada traseira e bárbara sobre um indefeso jogador das águias. Hihihi…

Quanto ao resto, gostei da festa e de ver as pessoas de família com cachecóis   de ambas as equipas e gostei de viver um dérbi a partir de Maputo. Não tenho televisão, por isso liguei-me a um site indiano que transmite uma televisão árabe que passa os jogos do Benfas. Foi fixe só que não percebi nada. Quer dizer, lá pelo meio percebia os nomes dos jogadores, mas o importante foi ver a redondinha a girar e o Benfica a ganhar! Como é que eu sei que era árabe? Aqui perto da nossa casa, pelas quatro da manhã, há um senhor que chama para a oração naquela língua. É mais bonito porque é mais tranquilo e porque, pelo meio, não é forçado a dizer Xorche Xessus…

E pronto, venha o próximo que este já está.
jpv


Deixe um comentário

Crónicas de África – Cinema

Crónicas de África – Cinema

Maputo, 10 de dezembro de 2012

Eis um assunto interessante. Há e não há. 

Há o Cine África que está quase sempre fechado ou, como surge no jornal, “sem sessão”. Há o Cine Avenida e o Cine Gilberto Mendes que quase só apresentam teatro local. Ainda não fomos, mas está prometido. Depois há o Charlot que quase só passa cinema indiano. Ainda temos o Gil Vicente que passa filmes antigos e, finalmente, há cerca de um ano para cá, inaugurou-se o Maputo Shopping que passa os filmes da modinha em salas Lusomundo com direito a 3D e tudo. Ainda não fomos nem está para breve. Curiosamente, aqui, quando se pensa em sair de casa, não é para ir ao cinema.

É claro que para uma cidade tão grande, a oferta é escassa e cara e é por isso que prolifera um tipo de comércio que tem tanto de ilegal quanto de fascinante. Os rapazes que vendem filmes em DVD nas ruas. A oferta é vastíssima. Qualquer filme com três meses de circuito comercial pode ser comprado nas ruas de Maputo com excelente qualidade de imagem e som por 100 meticais (2,70€). Também se arranjam filmes com uma semana de circuito comercial, mas, nesse caso, alguma coisa vai correr mal, garanto-vos. Acho que já vi o “007 – Skyfall” umas três vezes. Primeiro com a imagem manhosa, depois com o som manhoso, depois vi um que estava bom mas não tinha o fim do filme e acho que para a próxima já acerto num completamente bom e entretanto passaram os três meses da ordem! Mas trocam-mo sempre! Os rapazes colocam uma pilha com cerca de 100 DVD na mão trepando e amparando-se pelo braço acima. Cinema indiano, moçambicano e, claro está, toda a oferta da indústria de Hollywood. Se se para o carro e abre a janela, eles vão passando filmes para dentro do carro até perceberem que o cliente já escolheu. Depois não se pergunta o preço. É o tipo de negócio em que o preço está tacitamente aceite por vendedor e comprador e é universal. É claro que se pode solicitar por género: Arranja-me aí comédia romântica. E ele tira para o lado tudo o que é ação e espeta-nos com uma carrada de DVD no colo. Não convém pedir um filme de amor. Isso é uma pergunta que acaba com o Kama Sutra rodado em Bombaim no nosso colo. O mais engraçado é que, se acontecer comprar-se um filme estragado, seja porque não arranca, seja porque a imagem é de má qualidade, sai-se à rua e troca-se por outro sem ser preciso encontrar o vendedor a quem se comprou aquele em específico.

Outra forma de ver cinema é ter televisão. Muita gente tem. Nós decidimos não ter porque a oferta é caríssima e porque, verdade, verdadinha, nos estamos a desinteressar da televisão. Nem sentimos a falta.

No domingo, comprámos o jornal e fomos verificar o que estava em cena e reparámos que o Gil Vicente está a passar uma fita muito recente e original: “Os Três Mosquiteiros”. Não, não está mal escrito, é assim mesmo. Parece que em Hollywood já estão a rodar a sequela que será “Os Quatro Repelentes”. Mai nada. Olha a prova aí em baixo!


(Clique para Aumentar)
jpv


Deixe um comentário

Citação da Liberdade Assim como Quem Aguça o Apetite

A liberdade é um conceito. Às vezes também é um facto. Uma realidade. Não acontece sempre. E as mais das vezes nem é porque seja cerceada por terceiros, é porque nós próprios a desconhecemos, ignoramos os seus limites, e navegamos pela vida sem percebermos que liberdade temos, que liberdade podemos ter, que liberdade queremos ter e, não menos importante, que liberdade é a dos outros. Madalena sabe. Não sabe porque tenha pensado nisso, refletido e consciencializado. Sabe, porque sente no seu íntimo o desenho dos limites da sua ação, do seu desejo e do bater do seu coração.

João Paulo Videira
In A Paixão de Madalena, Cap. 6
A publicar brevemente neste blogue.


4 comentários

Crónicas de África – Carrinhos de Choque

Crónicas de África – Carrinhos de Choque


Maputo, 8 de dezembro de 2012


Desde que estou em Maputo já tive dois acidentes. Parecidos, consequências semelhantes.


Como já tive oportunidade de escrever, o trânsito por aqui é caótico, mas há poucos acidentes e os que há, normalmente, não são graves. A mim calharam-me dois em quinze dias. No primeiro, ia descansadinho na avenida Julius Nyerere, parei num semáforo a uns metros do tipo da frente e, ainda mal não tinha parado, um estrondo invadiu o carro, andei uns três metros para a frente e pensei, Pronto, já tenho o carro todo desfeito. Quando saí do carro, a primeira visão que tive foi a do carro que embateu no meu. Tinha o capô todo arreganhado e a grelha da frente com severos maus tratos. Olho para a traseira do meu carro e nada. Para choques ok, porta ok, abri e fechei, não estava empenada, espreitei por baixo do carro e tudo me pareceu ok, inclusive o tubo de escape. O outro condutor a pedir-me desculpa, que a culpa era dele porque tinha batido por trás, que eu visse se tinha alguma coisa. Eu não tenho nada, mas o senhor parece que tem. Ele não me respondeu. Fez peso com o corpo no capô para o endireitar, deu-lhe uns murros até ele voltar a fechar, agradeceu-me e foi à vida dele.

Ontem foi diferente. Era uma descida e reparei, pelo retrovisor, que atrás vinha uma carrinha LiteAce, é uma Hiace mas mais pequena. Tem a frente direita. Guardei distância do da frente porque era uma carrinha de caixa aberta carregada de materiais e com dois homens em cima da carga. A meio da descida e por causa da fila, parei. Não tem nada que saber. Um estrondo enorme a ecoar dentro do carro, três metros de rojo, e claro que percebi que tínhamos levado nova cacetada só que esta fora com mais força. Pensei que escapar sem mazelas, nem polícia, nem papelada, duas vezes seguidas, seria muita sorte e tinha a certeza de que a minha traseira estaria severamente danificada. Quando olhei para a carrinha ainda tive mais certeza de que haveria danos. O tipo tinha a frente toda amarrotada. O ritual repetiu-se. Olho para a traseira do meu carro e nada. Para choques ok, porta ok, abri e fechei, não estava empenada, espreitei por baixo do carro e tudo me pareceu ok, inclusive o tubo de escape.

Sem sair de dentro da carrinha, o outro condutor, disse-me a medo:
– Está alguma coisa estragado, papá?
– Está! Tens a frente toda amarrotada.
– E no teu?
– O meu está ok. Por mim, podemos seguir. Mas tens de ter cuidado.
– Eu vou ter cuidado, papá.

Entrei para o carro, olhei pelo retrovisor e vi que ele nem sequer saiu. Seguiu no seu ritmo sonolento. Fixei melhor a vista na frente da carrinha dele e reparei que o amarrotado era o desenho de um pneu. O meu! Mas com vincos!

Assim, caros leitores, se estão em Moçambique ou a pensar vir para Moçambique e vão precisar de carro, aqui toda a gente precisa de carro, dou-vos um conselho. Não interessa nada se é a gasolina ou a gasóleo, se tem muita ou pouca cilindrada, se gasta muito ou pouco, se é grande ou pequeno, se é bonito ou feio, o que interessa é que tenha um pneu bem cheio de ar na porta de trás. Assim, faz o efeito “Carrinhos de Choque em Ambiente Urbano” e o meu amigo livra-se de boa.

Em todo o caso, para as estradas de Maputo e areais de Moçambique, aconselha-se um carro com tração às quatro rodas, não muito grande, com ar condicionado e… japonês! O resto é… boa sorte e boa viagem.

– Adeus!
– Adeus, papá!

jpv


6 comentários

Crónicas de África – Assim Também Eu!

Crónicas de África – Assim Também Eu!


Maputo, 7 de dezembro de 2012

Há pormenores do quotidiano que são tão subtis, tão singelos, que não mereceriam uma crónica, contudo, são eles que marcam a diferença, que nos dão a exata medida do que é viver em Moçambique, mais especificamente em Maputo.
Trata-se de um delicioso pormenor de mensurabilidade. A realidade africana é diferente da europeia pelo que a forma como se medem as distâncias, o tempo e os produtos é, forçosamente, diferente.
Há muitíssimos carros do mesmo modelo que o nosso, em Maputo. Ora, eu desconfio, há algum tempo, desde que o comprei, que ele anda a consumir muito. Não sabia se seria um problema no carro ou o simples e mais provável facto de se tratar de um quatro por quatro a gasolina e a fazer percurso urbano.
Hoje, finalmente, apanhei a jeito um homem que estava parado dentro do seu carro que era exatamente do mesmo modelo que o meu. É importante que saibam os leitores que o senhor estava à porta da minha escola, mas eu não o conheço de lado nenhum. E tivemos a conversa que agora reproduzo que, para o bem e para o mal, não é fictícia, está rigorosamente como aconteceu.
– Bom dia!
– Bom dia!
– Desculpe incmodá-lo, mas tenho há pouco tempo um carro deste modelo e queria fazer uma comparação. Posso fazer-lhe uma pergunta?
– Claro, diga.
– Este carro consome-lhe quanto?
– Pouco. Gasta 2000 meticais por semana.
– Pois, obrigado, mas eu queria saber é a que é que isso equivale…
– Ah, é fácil, é de casa aqui e daqui a casa duas vezes por dia!
Aí, eu fiquei sem argumentos. A informação era tão certeira e compacta, o senhor estava tão seguro da informação, que era difícil dizer-lhe que, não obstante a sua boa vontade, ainda não me tinha dito nada… mas não desisti:
– E daqui a sua casa é longe?
– O senhor mora onde?
– Moro na cidade!
– Aí tem, também eu!
Apeteceu-me dizer-lhe que a cidade tinha várias dezenas de quilómetros de área, mas ele perguntou:
– Mas isso gasta-lhe quanto?
– Bem, de facto, anda a gastar-me 2000 meticais por semana…
– Está a ver, está a ver, está tudo bem, não se preocupe. É um bocado, mas é de ser a gasolina!
E pronto. Fiquei-me. Normalmente, o consumo mede-se em litros por quilómetros. Desta vez, encontrei alguém que o media em meticais por semana! Nunca tinha visto, mas há uma primeira vez para tudo. Fez-me lembrar a anedota do português que dizia, Tanto se me dá que aumentem a gasolina como não, eu meto sempre cinco contos! Sorri e fui à vida. A africana.
jpv


4 comentários

Crónicas de África – Malária e Poesia

Crónicas de África – Malária e Poesia

Maputo, 6 de dezembro de 2012

A malária é um problema que afeta África em geral e, naturalmente, Moçambique não lhe é isento. Há muita publicidade institucional aconselhando as pessoas a usar mosquiteiros e a protegerem-se das mais diversas formas. Não é que apanhar malária uma vez seja mortal, longe disso, trata-se. Acontece que afeta órgãos vitais e contraí-la por diversas vezes, isso sim, pode tornar-se letal.

Percebe-se, pois, que, mesmo praticando cuidados básicos, repelentes, mosquiteiros, roupas que cubram o corpo, pode acontecer ser-se picado por um mosquito infetado, sobretudo, fora de Maputo.

Quando isso acontece, por mais tratamentos que se apliquem, há sempre aquele medo das consequências, Afinal o que é que me vai acontecer? Depois, a malta habitua-se e convive com essa realidade africana.

Um dia destes, a nossa empregada, a F., apareceu-nos às sete e meia da manhã, como é costume, mas trazia o filho mais novo, de um ano, às costas! Vai de perguntar-lhe se estava tudo bem e ela a responder em lágrimas de aflição que o trouxera porque estava cheio de febre e diarreia. Ainda por cima, era dia de chuva.

Não estivemos com meias medidas, enfiámos a F. enervada e em lágrimas no carro e levámo-los a um Centro de Saúde. Uma hora e meia depois, recebemos uma sms dela a dizer que estava despachada e fomos buscá-la. Os testes foram inequívocos: o bebé tinha malária. Por razões óbvias, a saúde da criança e a chuva, metemo-los no carro, levámo-los a casa e dissemos-lhe para não vir trabalhar enquanto a criança não estivesse estável. Nesse momento, a F. mostrou-se um bocadinho menos preocupada. Já sabia o que enfrentava, o bebé já tinha levado uma injeção e estava muito bem disposto. E atravessámos a tempestade, trovões, águas e lamas até chegarmos junto à sua casa e foi nesse caminho que, da malária, emergiu a poesia. Uma frase só, uma expressão, F. não sabe, mas desenhou uma invejável metáfora. Andam os escritores perscrutando os caminhos da inspiração, buscando a beleza estética nas formulações originais, gastando tempo em aturado estudo, para encontrar a poesia e afinal ela foi nascer da malária, ali, a meio do caminho entre Maputo e Albazine, no coração amedrontado de F. Comecei eu:

– Então, estás mais aliviada?
– Estou, fico sempre assustada. Essa doença já levou o meu pai e uma irmã minha.
– Tens medo…
É. Quando a doença aparece, o meu coração corre para longe.

E pronto. Ali fiquei eu. Com a expressão a ecoar-me na mente, com o desenho claro da preocupação da F. sempre que a malária bate à porta. Essa doença que tanto brota morte como poesia.

jpv


Deixe um comentário

Crónicas de Maledicência – Notícias do Fim do Mundo

Crónicas de Maledicência – Notícias do Fim do Mundo

Estou chateadíssimo com os americanos. Em particular com o governo estaduniense! Tem uma pessoa a vida organizada, surge um boato sobre o fim do mundo a 21 de dezembro e o que faz o cidadão responsável e cumpridor como eu? Atafulha a despensa de latas de atum, despede-se dos amigos e da família, vai à igreja encomendar a alma ao Criador e espera tranquilamente que venha o fim. Foram assim os meus últimos dias. Ora, acontece que hoje o site do governo americano anunciou ao mundo essa surpreendente, fantástica e dura realidade, só ao alcance dos mais iluminados: “o boato sobre o fim do mundo é só um boato”!

Já de si, é difícil conceber que um boato seja um boato. Um boato normalmente é outra coisa qualquer. Ora, mais difícil ainda é enxergar que quem anunciou que o mundo acabaria no próximo dia 21 de dezembro estava a gozar com a malta e a mentir ou que batia mal da carola. Normalmente, as pessoas que preveem o fim do mundo é tudo gente muito ajuizada e adoradora do rigor científico e professa da ciência, a mãe de todas as coisas, inclusive dos boatos.

Por outro lado, ainda que tenha de viver mais uns tempos, a verdade é que fico com uma carrada de latas de atum que são bem capazes de durar mais do que o meu tempo de vida.

Se eu estou a brincar? Nada disso. Pode ler-se aqui o anúncio do respeitável governo das terras do Tio Sam.

Eu não percebo muito de política nem gosto de me dedicar a essa arte. Não é por nada em especial, é só porque passei a infância e a juventude a ouvir dizer que era porca e eu sou um tipo asseado, contudo, era capaz de adivinhar que a situação política, social e económica estaduniense não é a mais agradável. E a razão é simples: quando o governo de um país gasta dinheiro, esforços e a pouca massa cinzenta que lhe resta a desmentir boatos sobre o fim do mundo, está tudo dito.

Mas, cá para mim, tudo não passa da mania das grandezas. Senão vejamos. Nos filmes americanos, onde é que aparecem os extra-terrestres? Nos Estados Unidos, claro! E que língua falam? Americano, claro! E Deus, onde é que aparece Deus e a quem se mostra? Aparece no quintal de uma casa americana e mostra-se a um americano comum que, por coincidência, vive dificuldades tremendas, até a namorada lhe deu com os pés! E que língua fala Deus? Exato! E o maior vulcão alguma vez visto, onde é que ele entra em erupção? No sistema de esgotos de uma cidade americana! E as pragas de gafanhotos? É lá! E os dinossauros, onde é que vão parar? À Quinta Avenida em Nova Iorque! E o vírus mortal? É lá! E os mísseis para onde vão? Para lá! E a maior onda marinha alguma vez vista? É lá! E os milagres todos? É lá! E o King Kong? É lá! E as explosões e os gangsters e as aventuras e os tesouros da Humanidade e os faraós e o mapa do tesouro e os piratas e os bandidos e as pessoas boas e os génios e, e, e… Estão todos lá, vão todos para lá e são todos encontrados lá. Não admira, pois, que os americanos se sintam no direito de achar que sabem ou não sabem quando vai ser o fim do mundo. De resto, eu acho de uma generosidade e de uma amabilidade tremendas que nos tenham dito para estarmos descansados. Em inglês, mas disseram.

Eu só fiquei chateado porque não sei mesmo o que fazer às latas de atum!
jpv


2 comentários

Crónicas de África – Provisório-Definitivo

Crónicas de África – Provisório-Definitivo

Maputo, 2 de dezembro de 2012

A autora Alice Vieira escreveu, há uns anos, um livro intitulado “Um Fio de Fumo nos Confins do Mar” que tinha uma personagem, de seu nome Crispim, que, a propósito do aspeto degradado de certos barracões nas escolas, se referia ao estilo “Provisório-Definitivo”. Assim uma espécie de remendo que chega como provisório e vai ficando e vai perpetuando-se no tempo até que se integra na vida das pessoas como definitivo.

Em Maputo também há disso. Com os carros. Mais especificamente com os pneus suplentes. Antigamente, havia aqueles pneus suplentes que eram mesmo pneus. Uma pessoa tinha um furo, substituía o pneu e ele ficava lá para sempre, que é como quem diz, até ter um furo. O remendado ia para o lugar do suplente. Ora, alguém se lembrou de poupar uns cobres, e os carros passaram a vir equipados com um pneu suplente minúsculo, assim mais a parecer uma roda de bicicleta. Notam-se bem porque têm uma jante amarela e berrante. Dizem as instruções que aquilo é provisório e só dá para 30 quilómetros. Em Maputo dá para bem mais. Aqui, todo o material é precioso e aproveitado até ao limite. Bem podem dizer que aquilo é para 30 quilómetros, mas, uma vez colocado um pneu desses num carro de Maputo, ele vai eternizar-se e andar ali até não dar mais. Então é ver carros particulares e taxis de pneu provisório-definitivo. Há aqui um carro que eu conheço porque me cruzo com ele diversas vezes e porque tem uma cor marcante, cor de rosa, e lá anda ele, pelo menos há dois meses, a exibir a sua orgulhosamente minúscula jante amarela. Resolvi escrever estas linhas por duas razões. Primeiro porque a cidade está repleta destes pequenos pneus que era suposto serem para uma aflição provisória e andam por aí definitivamente agarrados aos veículos. Depois porque hoje me cruzei com um veículo curioso. Era um carro desportivo, baixinho, todo branco e com uns pneuzorros larguíssimos e com umas jantes que não tinham nada menos do que 19 polegadas. Três delas! A quarta, pneu traseiro, lado direito, lá ia luzindo sua rodinha de bicicleta amarela. E acham que o tipo se importou? Qual quê?! Janela aberta, música no máximo a vibrar a voz da Dama do Blingue, braço de fora (infração punida por lei), relógio reluzente e o orgulho como o som: no máximo. O pneu? Que importa lá isso. Era um provisório-definitivo. Está-se bem. Maningue bem!

jpv


8 comentários

A Paixão de Madalena – Capítulo 5

A Paixão de Madalena

Livro I – A Paixão de Madalena

5. O sábado amanheceu frio mas brilhante. Quase como se houvesse esperança no ar. A manhã vai a meio e a sala é modesta, mas absolutamente limpa. Muitos livros à volta, uma cristaleira com poucas peças que se esqueceram de ser usadas, uma mesinha redonda no meio com uma toalha em croché, um bule branco com uma risca dourada na asa fumega um odor claro a erva cidreira e canela, algumas bolachas de água e sal num pires, também ele branco, uma manteigueira, algumas fatias de pão e uma faca sem gume e de folha larga para passar a manteiga loura no pão fresco e macio, um frasco de doce e um açucareiro com torrões lá dentro. Pela janela entra o sol e banha a mesa e desenha sombras com a disposição dos objetos. Entre a sala e a cozinha, Albertina desloca-se com tranquilidade. A vida já lhe ensinou tanto e já lhe trouxe tantas surpresas que poucas são as situações que a possam surpreender. Agirá com naturalidade porque, bem vistas as coisas, natural é a situação. O Criador mandou-nos a este mundo e desde que chegamos até que partimos andamos contando o tempo que por cá estamos como se fossemos todos iguais, sendo certo que o somos à partida e à chegada deixando pelo meio o rasto das nossas diferenças. E acertamos as datas. Falamos ao ano e meio, somos crianças até aos onze, começamos a ser adolescentes aos doze, somos adultos aos dezoito, verdadeiramente adultos aos vinte e um, poderosos aos trinta, experientes aos quarenta, respeitáveis aos cinquenta e a dever tempo à cova a partir dos sessenta e cinco, altura em que ficamos oficial e reconhecidamente velhos com direito a desconto nos transportes públicos. E preparamos as mentes e ajeitamos os conceitos nelas para reagirem com naturalidade a esta ordem de coisas. Somos homens quando chega a idade de sermos homens, mulheres quando chega a idade de sermos mulheres, casamos na idade de casar, procriamos na idade de procriar, vencemos na idade de vencer e morremos quando se espera que tal venha a suceder. Ora, em saindo um de nós desta regulação e desta tácita ordem de sucedâneos, estranham os conceitos, inquietam-se as mentes e reagimos expurgando de nós e da nossa normalidade, a anormalidade sucedida. E ao fazê-lo, expulsamos a mesma diferença que passamos a vida inteira a reclamar como direito. Em abono da esperança na nossa humanidade, alguns de nós abrem os horizontes da leitura da vida e da perceção dos sucedidos nela. E habituam-se a não estranhar. E desenvolvem a tendência de aceitar, mais do que de rejeitar, de incluir, mais do que expurgar. É assim Albertina. Por si começou pois que se divorciou, por vontade própria, numa terra e num tempo em que se não divorciavam os casais e menos ainda por iniciativa das mulheres. Um divórcio era uma desgraça na família e uma mancha no casal com particular ênfase para a mulher, por inocente que fosse. Ora, espírito livre nasceu Albertina e em espírito livre criou Madalena e foi esse espírito que primeiro reconheceu em Kyle e, por isso, resolveu aceitá-lo. Isso e o gosto por chá. São pequenas as coisas, pormenores, que às vezes influenciam as decisões maiores.
-Interessa-me pouco a sua idade e interessa-me ainda menos o que as pessoas dirão. O que as pessoas dizem são palavras. As palavras varrem-se do cimo da terra com uma suave brisa. Quanto a normalidade, lamento, mas não sei o que seja. Nada na minha vida tem sido normal e pouca coisa na vida de Madalena tem sido normal. E nem por isso temos deixado de ser felizes. Interessa-me, isso sim, se gosta dela. Se está disposto a cuidar dela e a fazer disso a prioridade da sua vida. Pelo que viveu, pelo que leu e pelo que viu, Madalena é já uma mulher, mas tem ainda o pensar de uma jovem. Precisa ser acompanhada.
– É isso que quero, mais do que tudo. Acompanhá-la. Cuidar dela. Sinto desejo, sim… como disse, ela é uma mulher, mas antes desse desejo há uma profunda vontade de ampará-la.
– E de ser amparado por ela…
– Não nego. A juventude dela é-me necessária. Estou doente. Ela sabe isso.
– E está mal?
– Acho que sim, mas não penso muito nisso. Nem sou egoísta com isso. Eu não procuro uma enfermeira, senhora Albertina…
– Albertina.
– Eu não procuro uma enfermeira, Albertina. De facto eu não procuro nada, ou, pelo menos, não procurava… Queria só que me deixassem em paz. Que me deixassem acabar em paz, mas Madalena desinquietou-me o espírito e fez-me ter coragem e acreditar que ainda é possível viver.
– E eu preocupada com ela e com o que o senhor lhe podia fazer… o melhor seria preocupar-me consigo… estou a ver que ela lhe deu volta à cabeça…
– Remexeu-ma toda. A cabeça e o coração…
E, em meio desta conversa, surgiu uma voz feminina e jovem:
– Olha que bonito, a brincarem aos adultos, a falarem de mim como se eu não estivesse aqui. Não sei já qual dos dois me disse que isso era falta de educação. Talvez ambos! O mais certo é ter de cuidar de vós… velhotes…
E riu. E arrastou consigo as gargalhadas deles e criou-se ali a sintonia que todos queriam preservar. E o certo é que Madalena pelo que conhecia de cada um viria a ser uma ponte entre todos. E quando se despediram ao final da manhã, Albertina acrescentou com o olhar antecipando uma lágrima, Cuide bem da minha menina. Da nossa menina, emendou Kyle.

Todos os namoros são como os outros namoros e nenhum namoro é como os outros namoros. Tudo é encantamento e enamoramento e limar dos defeitos alheios com os olhos próprios, tudo é essa força magnética de puxar-te para mim e empurrar-me para ti, tudo é marcado pelo olhar benevolente da descoberta e pelo movimento concêntrico da adaptação. E, contudo, cada par tem seus próprios ritmos, suas próprias caraterísticas, seus rituais, suas músicas e suas palavras de encantar. O que, definitivamente, marcará para sempre o namoro de Kyle e Madalena é que foi ele o guia, o tutor e o cicerone e foi ela a aluna aplicada das emoções, das atitudes e da forma como se pode olhar o Universo. Ensinou-a a reagir a pressões, ensinou-a a consciencializar sentimentos, ensinou-a a relacionar-se com os outros medindo forças, ensinou-a as subtis diferenças entre paixão, amor e amizade e ensinou-lhe os sinuosos caminhos que se percorrem no prazer do corpo para conquista da alma. E ensinou-lhe a cidade. Os passeios junto ao grande lago, os locais para comprar as melhores mercearias, os bares mais confortáveis e os poucos pubs importados da Irlanda onde era possível ouvir o jorrar da cerveja, o bater das canecas umas nas outras, as pessoas falando alto e aquecendo o desconforto do local com a sua ruidosa presença. Ele costumava dizer, Isto é a Irlanda diluída pelo frio e pela distância, mas é o mais aproximado. E ela retorquia, Estás sempre a falar do frio de cá, mas lá também é frio. Mas ele não se calava, Onde há dois irlandeses, não há frio, o frio combate-se de muitas formas, os sistemas de aquecimento são menos eficaz! E como sempre acontece foram aprendendo-se mutuamente. Foram percebendo o recorte mental de cada um. Ela percebeu-lhe o caminho de vida atribulado, a ânsia de paz, assuntos por resolver com as filhas, a mente plural e aberta, o gosto pela sedução, o desespero com a doença. Ele viu-lhe o desejo contido de conhecer mundo, outras gentes, outras pessoas, para ela, estar entre as montanhas que cercam a cidade, era como estar aprisionada, viu-lhe a candura e viu-lhe, na malandrice de menina, a sensualidade da mulher que despontava. E quando a cidade estava explorada e conhecida e começavam a desenhar-se rotinas, ele disse-lhe, Um dia destes falo com a Albertina e levo-te a Belfast. Isso sim, é uma cidade. E que tal falares comigo primeiro? Já me perguntaste se queria ir contigo? Não perguntei, nem pergunto, vais e pronto, às crianças não se pergunta o que querem fazer, diz-se! E ela começou a correr atrás dele e ele fugia numa corrida frágil e tímida e quando o apanhou, puxou-lhe as orelhas e mordiscou-lhas e beijou-o e pelo meio disse-lhe em excitação, Temos de castigar o senhor professor!

– Tenho uma má notícia para ti.
– E uma boa?
– Depende de como encarares a má.
– Como queres que a encare?
– Como quero que encares tudo. Com aventura no coração e espaço na mente.
– Espaço na mente?
– Sim, Madalena. Não te feches sobre ti e o teu umbigo.
– Vais gostar do meu umbigo…
– Não me distraias, ouve-me que isto é importante…
– Sim, setôr!
– Abre a tua mente para as oportunidades da vida. O interessante nas oportunidades é que muitas vezes vêm mascaradas de problema. Não sejas pequena no pensar. Não deixes os problemas tomarem conta de ti. Abraça a vida, entrega-te a cada dia como se tudo dependesse dele, agradece o sol e a chuva e, sobretudo, agradece cada pessoa que se cruzar contigo, mesmo que te traga problemas. Os problemas são sofrimento e o sofrimento é aprendizagem e nós nunca aprendemos o suficiente e quando finalmente sabemos algo, estamos prontos para partir… não sejas efémera porque a efemeridade é a tua condição à nascença. Sê perene nas tuas opções e nos teus atos. Imortaliza-te a cada momento, a cada olhar e a cada palavra e, mesmo assim, verás mais tarde que poderá não ter sido suficiente.
Madalena bebeu-lhe as palavras como um néctar de vida, um manual de sobrevivência e gravou-as na mente e no peito. Nunca mais dali sairiam. Contudo, não se deixou iludir em relação ao início da conversa e atalhou:
– E a má notícia?
– No próximo ano não serei teu professor.
– A tua saúde?
– Não. A minha opção!
– A tua opção? Porque te afastas de mim?
– Não me afasto, miúda, aproximo-me.
– Vais começar a fazer sentido em breve ou tenho de esperar?
– Madalena, já passei a fase de achar que isto era uma loucura. Já te inclui no meu céu de estrelas e pessoas boas, já estás no meu coração. Pedi a minha demissão por razões diversas.
– Pediste a demissão? Tu és louco?
– Seria louco se não fosse louco. Tenho pena de só ter-te encontrado agora, mas agora que te encontrei, quero cada momento partilhado contigo. Demiti-me, antes de mais, para ter tempo para nós. Também preciso de tempo para mim, para gerir esta doença terrível que me consome e depois por razões que são dos homens com preconceitos e que combateria noutra altura e noutras circunstâncias. Acontece que, neste momento da minha vida, não me importo de fazer-lhes a vontade e ser um bocadinho egoísta. Afasto-me do trabalho por questões éticas, para que não digam que o professor e a aluna dormem juntos. Sim, não tenho dúvida nenhuma de que a maldade e a inveja reduzirão o nosso amor a um estereótipo pejorativo, a uma coisa feia, quando na verdade é a coisa mais bela que alguma vez me aconteceu…
– Mas nós não dormimos juntos…
– Mas vamos dormir, tens consciência disso…
– E até uma pontinha de ansiedade… só quero que me prometas uma coisa…
– Tudo.
– Vais achar que é coisa de miúda como costumas dizer, talvez seja, talvez seja a Elisabeth Bennet que há em mim, ou então é só uma tolice…
– Desembucha, miúda.
– Promete-me que será especial. Não quero mais nada de ti. Eu percebo que te possas interessar por mim só por causa da minha juventude, pela atração do corpo, mas, ainda que seja uma só vez, promete-me que será especial.
– Enterneces-me e ofendes-me. Já te falei de sexo, eu? Não. E sabes porque não? Porque eu adoro sexo, mas sei que é só um complemento do que as mentes das pessoas conseguem trocar entre si. É preciso desbravar as ideias primeiro. Deixar crescer o entusiasmo, deixar evoluir a sedução e por fim consumá-los num momento… como é que é a palavra que usaste? Especial! Sim, miúda, será especial. Para ambos.
– E enterneço-te com quê?
– Hã?!
– Pois, esse teu discurso todo foi sobre o que eu disse e te poderia ofender, mas também quero saber o que é que te enterneceu?
– Que tu queiras um momento tão íntimo, tão revelador, e tão especial como esse comigo. Que tu estejas disponível para entregar-me a tua juventude em vez de o fazeres com um rapaz da tua idade. Seria o normal, não?
– Os rapazes da minha idade são uns tolos. Acho que por serem da minha idade ainda não estão preparados para dar. Somente para sorver, sugar a emoção e deixar escapar entre os dedos a oportunidade de fazer algo especial…
– Meu Deus, a consciência que tu tens das coisas!
– Com que então demissão?
– Demissão!
– Valho assim tanto?
– Vales o resgate de uma vida.
– Talvez só tenha vindo ao mundo para isso…
– Para quê?
– Para resgatar vidas. Como uma missão, uma predestinação. Madalena a que veio para amar e resgatar.

A conversa foi breve e produtiva:
– Se a Albertina não vir inconveniente, este fim de semana vou levar a Madalena a conhecer Belfast.
– Sabe, Kyle, há uma coisa em que ela tem razão. Temos de deixar de falar dela como se ainda a estivéssemos a educar. Eu criei-a em liberdade. A liberdade das decisões e a responsabilidade por elas. Ela optou. É com ela que tem de falar. Eu não estou a demitir-me de nada. Só não posso substituir-me à Madalena, sobretudo, assumindo nós que estamos perante uma mulher. A sua mulher.
– Sim, tem razão. Só não queria que não soubesse onde ela vai estar.
– Para mim, Kyle, onde ela vai estar é consigo. Nas suas mãos. No seu coração. E isso basta-me.
– Fico feliz por ouvir isso…
– Divirtam-se e…
– Sim?
– Que seja especial!
– Vocês combinam-se?
– Ou estamos irmanadas pela convivência e pelo amor. Chá?
– Sempre. Adorei aquela planta aromática…
– Cidreira.
– Cidreira.

Belfast surpreendeu-a em todos os sentidos. De todas as formas. Maravilhava-se a cada esquina e pedia a Kyle que lhe contasse a história de cada edifício. Apesar de se notarem ainda os efeitos dos conflitos na degradação dos espaços, a cidade afigurou-se-lhe belíssima. Era um emaranhado de ruas estreitas e compactas com muitas delas para uso pedonal exclusivo. A marca da época vitoriana habitava cada edifício e evocava histórias antigas de realezas e cavaleiros nobres. Kyle mostrou-lhe a sumtuosidade do Scottish Provident Building, a harmonia musculada do City Hall onde a levou de novo à noite para verem a cúpula iluminada, a frieza vertical e exótica do Albert Clock, Vê lá se tens o relógio certo, este nunca se engana! Visitaram os jardins botânicos onde fizeram corridinhas e trocaram abraços e beijos apaixonados. A certa altura, Kyle dirigiu-se com ela para o mar, percebia-se pelas gaivotas a bailar e os corvos marinhos agitados em volta delas, até que chegaram junto de uns grandes armazéns que pareciam abandonados e onde jaziam enormes peças de ferro que lhe pareciam pedaços de um gigantesco puzzle tridimensional de um barco.
– O que é isto? É tudo tão velho, tão abandonado.
– São os estaleiros da Harland and Wolff.
– Da quê?
– É uma construtora de navios.
– Muito bem. Apesar de tudo isto ser estranho e feio, conseguiste pôr-me curiosa. Tem tudo sido tão romântico, posso saber o porquê deste momento de sucata?
– É um dos mais interessantes momentos. Poucas pessoas sabem que foi aqui…
– Que foi aqui o quê?
– Já ouviste falar do Titanic?
– Quem não ouviu? Uma história de grandiosidade e terror. Até fizeram um filme na década de cinquenta. É trágica e bela a cena do navio a afundar-se com as pessoas em sentido… não me digas que…
– Exatamente! Foi construído aqui, nestes estaleiros.
– Maravilhoso.
Depois percorreram a Victoria Street e pararam em frente ao Crown Liquor Saloon.
– Este também tem uma história.
– Então?
– Durante a fase mais acesa dos conflitos sofreu várias tentativas de ataque, mas nunca foi realmente atingido.
– Porquê?
– Essa é a parte engraçada. A malta aqui diz que é porque Deus protege os bêbados.
– E bebemos?
– Claro. É obrigatório.

E beberam e passearam pela noite fria e foram-se aquecendo intermitentemente neste e naquele pub e toda a gente parecia conhecer Kyle e toda a gente lhe perguntava quem era aquela e ele dizia com inocência que era a sua namorada. Uns calavam-se, outros riam, outros gozavam e todos acabavam a beber uma Guiness com eles. Chegaram tardíssimo ao hotel e caíram pesados e exaustos na cama. Pensaram diversas vezes, um e outro, que aquela seria a noite dos corpos. Não foi. O dia fora tão extenuante quanto interessante e a noite longa e visitada por muitos vapores etílicos. Foi de madrugada. Ele acordou e viu a luz primeira do dia banhando-lhe a pele. Percebeu-lhe a sensualidades das curvas e dos volumes e, olhando para ela, mesmo sabendo da sua juventude, não podia deixar de admitir que era de uma mulher que se tratava. Com a ponta dos dedos, percorreu-lhe um braço numa carícia suave e sentiu-a acordar ainda que fingisse continuar a dormir. Depois poisou-lhe um beijo no ombro descoberto, e ainda outro no pescoço, ela voltou-se para ele como se acordasse, sem abrir os olhos, e beijou-o apaixonadamente. E sussurrou-lhe, Ensina-me tudo. Ensinarei. Desapertou-lhe o sutiã e beijou-lhe os seios firmes e rosados, percorreu o seu ventre com os lábios húmidos e beijou-lhe o sexo como quem se persigna num altar agradecendo a dádiva e acariciou-a de tal forma que quando se ergueu para tomá-la, ela já estava ansiando que ele o fizesse. E aceitou-o no seu ventre, acolheu-o em si como uma dádiva de vida, recebeu-o para ficar a eternidade toda no seu corpo e na sua alma. E deram-se as explosões todas e voltaram-se a dar. E foram ensinando um ao outro o caminho despudorado do prazer e foram brincando um com o outro como se fossem brinquedo um do outro. E houve libertação. Kyle libertou-se da opressão da doença, sentiu esperança e realização. Madalena libertou-se de si, da sua própria ignorância e cruzou as fronteiras traçadas pelos preconceitos dos homens. Foram um casal. Um homem e uma mulher esgrimindo a sedução e a sensualidade. Foram dois corpos nus inaugurando o amor na madrugada fria de Belfast.

Quando trouxeram o pequeno almoço ao quarto, Madalena devorou-o sentada na cama como se não comesse há uma semana. Kyle viu-a comer com prazer enquanto bebia um café. Depois foi para o chuveiro, abriu a água quente, deixou-a correr sobre a cabeça que ergueu aos céus. Em pensamento agradeceu a mulher que o fizera renascer e era uma pequena oração que murmurava enquanto a água lhe corria pela face misturando-se com as lágrimas.

——————————— jpv ———————————