Crónicas de África – O Regresso
Maputo, 26 de agosto de 2013
Author Archives: mailsparaaminhairma
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Trabalhinho em Tempo de Férias…
Crónicas de África – África Depois de África
Como a imagem documenta, fomos recebidos pela família e por amigos com bandeirinhas à porta de casa e a expressão “Bem Vindos” riscada no fundo de uma caixa de mines que bebemos com satisfação. Essa e outras. Rever a família foi fundamental. A mãe, a mana, o filho, os cunhados, os sogros, os primos, os tios, os amigos… Ainda não conseguimos vê-los todos. Tentaremos. Foi bom, foi reconfortante, o reencontro com o nosso país, as nossas gentes, os nossos rituais, a expectabilidade e a previsibilidade dos gestos das pessoas, dos serviços, dos equipamentos sociais. Tudo isso foi fantástico. E, contudo, essa organização e essa formatação, tão necessárias à nossa segurança e ao nosso bem estar, e que eu tanto prezo, foi aquilo que mais estranhei. África vive em mim nas coisas mais simples e impercetíveis do quotidiano. Há uma liberdade geradora, há improviso, há sonho, há esperança e há o acreditar de que ainda posso contribuir, de que ainda posso mudar.
A Europa, sendo mais confortável, é mais constrangedora dos nossos movimentos.
Sou tão português como sempre fui. Talvez mais. A condição de emigrante força-nos a reperspetivar o nosso país com olhos de benevolência adocicada pela saudade. Mas temo que, definitivamente, já não seja só português. Talvez tenha duas nações e talvez uma delas seja um continente inteiro. Nós podemos partir de África e regressar ao confortável ninho da nossa pátria, mas África não parte de nós. Anicha-se no nosso coração com a virtude da liberdade, dos sorrisos de esperança e com todas as suas vicissitudes e instala-se no nosso ser. África fica.
Às vezes temo ter duas pátrias. Quem sabe se um dia chego a Portugal e me sinto estranho e, estando em África, não estarei completamente em casa porque me falta o chão lusitano. Muitas pessoas vivem a dicotomia da identidade. Podendo ser de duas terras, não sabem bem a qual pertencem. Eu temo pertencer tanto às duas que venha a não pertencer a nenhuma. A Portugal regressa-se. É o “nostos” grego sem tirar nem pôr. De África nunca se parte. Em Portugal dominamos, mas temos a liberdade coarctada. Em África somos dominados, mas temos a liberdade à rédea solta. Em Portugal vive-se a segurança que se conquista ao preço de limitar horizontes. Em África, a insegurança representa um sem número de oportunidades num horizonte longínquo e indefinido de possibilidades de vida.
Nestes dias de manutenção de espaços e afetos, tem-me andado este país a enternecer, tem-me andado aquele continente a chamar. África depois de África, em Portugal.
Colar Cartazes – Provérbio Africano
MPMI em Ritmo de Férias
Citação do GPS
Apátrida
Apátrida
A minha pátria
Não é,
Com certeza,
A Língua Portuguesa.
A Língua é a alma
Da minha vida,
O chão fértil
Onde renasço
Todos os dias,
O abraço das tristezas
E das alegrias.
A pátria é uma outra nação,
Um recanto inexplorado
No centro do coração.
Uma ânsia,
Uma busca
E uma incerteza.
Um grito contido,
Agrilhoado no peito.
Um menino perdido,
Sem destino
Nem jeito.
A minha pátria
É uma existência
Recôndita,
Uma caixa negra
De mistérios,
São mapas e planisférios
De dor e melancolia.
E, num dia de sol,
Uma vertigem de alegria
E criatividade.
A minha pátria sou eu.
E eu não sei que seja.
Nasci demasiado cedo
Para ter pátria.
Demasiado tarde
Para não tê-la.
Com demasiado vigor
Para esta terra.
Com demasiada suspeita
Para aquela.
Eu sou o senhor
De mim,
Desta terra sem fim
Que meu olhar percorre.
Eu nasço todos os dias,
E o que sou,
Todos os dias morre.
Caminho
Sem pressa
Nem promessa,
Sem longe
Nem horizonte.
Não sei para onde vou
Nem donde venho.
Já secou a água
Dessa distante e difusa fonte.
Eu sou o princípio e o fim.
A pátria e o apátrida
De mim.
jpv




















