Crónicas de Maledicência – Bacalhau com Natas
Lá diz o aforismo popular, e muito bem, que “Quem nasceu para caracol, nunca chega a bacalhau”!
Crónicas de Maledicência – Bacalhau com Natas
Lá diz o aforismo popular, e muito bem, que “Quem nasceu para caracol, nunca chega a bacalhau”!
Conversas Vadias – Horário Zero
– Neste ano letivo que vai entrar, faço vinte anos ao serviço da mesma escola!
– Ena, ena, motivo para celebrar… devias receber um prémio.
– Já recebi.
– Não me digas, o que foi que te deram?
– No próximo ano sou “excedentária” e tenho um horário zero…
– Oops… e isso é assim?
– Sim. Parece que vinte e tal anos de carreira a educar e a instruir crianças e jovens e a servir o meu país, não valeram de grande coisa…
– Lamento.
– Também eu, também eu.
jpv
[Durão Barroso aceita ser presidente da Comissão Europeia e é substituído por Santana Lopes no Executivo. O Prtesidente da República, Jorge Sampaio, dissolve o Governo e convoca eleições antecipadas. Realiza-se o XXVI Congresso do Partido Social Democrata – PSD (Barcelos). Tem Início o julgamento do processo de pedofilia na Casa Pia de Lisboa. XVII Congresso do Partido Comunista Português (Almada).
[Data da primeira publicação: 5 de Novembro de 2004]
A professora Cilita
Querida mana,
A vida tem destas coisas. Institui em algumas pessoas e no percurso que traçam certo estatuto que escapa à quadrícula mesquinha dos impressos onde, por razões diversas, vamos deixando o rasto da vida: nome, profissão, número do bilhete de identidade. Umas ficam marcadas pela alcunha que descreve em poucas palavras toda uma vida e, às vezes, a vida dos antepassados também. Toino Manso, Manel Carrapicho, Quim Meia-Leca, Baltasar Sete-sóis, a menina Augusta, que foi menina até aos seus noventa e sete garbosos anos, altura em que combinou com o Senhor que já chegava e, claro, a Zefa da rua de cima, a Laurinda das lãs e a Clarinha do Felisberto que tentou, em vão, ser Clara como gostava e queria. Outras, marcadas ficaram por essa segunda pele que é o ofício, o labor do quotidiano e a responsabilidade de dar a cara por cumpri-la substitui-se à pessoa que lê, que cozinha, que ri, que chora, que ama, que cria os filhos, que vive e morre sem direito ao nome que lhe puseram, bonito ou feio não vem ao caso. O que importa são as frases que ficaram no ar a vestir a identidade dos humanos que, por vontade própria ou não, se rouparam com elas: “Telefonas ao canalizador?”, “Falaste com o empreiteiro?”, “Passas no sapateiro?”, “Hoje tive de enfrentar o gerente…”, “a senhora professora dá licença?”
E chegados aqui à senhora professora, fico a ver, na segunda carteira da fila da janela, um miúdo de olhar posto no entusiasmo da vida a sorver as palavras de encanto e magia que a professora Cilita tem para revelar. Nunca soube, como não sei hoje, o nome da minha professora da primeira classe e, contudo, marcou-me os dias de crescer devagarinho com as primeiras letras lidas, os primeiros traços atabalhoados de escrita. Uma carreirinha de as, uma carreirinha de bês, “vá lá, não te esqueças: para cima, para baixo, mais um pouquinho para cima e agora a perninha, isso, vês que bem…” Revelou-me o mundo mágico das histórias e um dia ofereceu-me um livro. Que milagre aquele. Um livro inteiro só para mim, dado pela minha professora…
Na comunidade em que vivíamos poucos saberiam, à excepção da família porque lho puseram, o nome da professora Cilita. Professora não era nome. Cilita era meio nome ou um nome a fazer de conta de outro nome. A expressão junta, professora Cilita, era uma alegria de ir pela manhã de pasta às costas, era um respeito de tratá-la como aos próprios pais, era o poder mágico e inimaginável de ver o giz desenhar milagres no quadro negro. Era o mundo pela frente nas mãos de uma voz suave e firme, de uma bata branca a cheirar a aprender, de um olhar que dizia, a cada momento “vai, aprende e toma o mundo que é já teu ainda que o não saibas…”
Esta autoridade natural, este respeito pela figura do professor, este acreditar tranquilo na transmissão do saber e do universo de geração em geração foi sendo conquistado pelas modernas teorias do ensino, da aprendizagem e da aprendizagem da aprendizagem. Da professora Cilita, entretanto desactualizada, jubilada pela idade, fica só a memória. O presente é que sim, é que está bem, é que ensina. Se não vejamos: para começar, o ano lectivo acaba muito mais tarde e começa muito mais cedo! Logo, o tempo de aprendizagem é maior! A coisa vai até Julho com uns a acabar e outros a continuar como convém à tranquilidade e à especificidade do clima mediterrânico! E começa logo em Setembro, sem tempo a perder. Aliás, para que precisam as famílias de férias em Setembro se tudo enlatadinho em Agosto faz muito mais jeito às carreiras turísticas formatadas pelas agências? Brincar não serve, a brincar não se aprende. De resto, quem é que guardava as crianças? Onde é que as enfiávamos? Depois, bem, depois, os professores são electronicamente colocados e claro que o computador adivinha com a exactidão de quem não sabe o que é errar qual a especificidade humana mais compatível com as características de certa região, determinada população. Por isso estão os de Bragança em Faro e vice-versa! Mas há mais. Vêm aí as novas tecnologias e anunciam-se os tempos em que um bom orador pode facilmente ser substituído por um monitor e duas colunas de som. Em que um conselho, um olhar, uma intuição, uma metodologia e um acompanhar como quem embala serão substituídos pela voz metálica das instruções multimédia! Repara mana, repara bem, o professor continua lá: estuda as metodologias, passa-as aos técnicos que as colocam nos cd’s e na web que são vendidos aos alunos que lêem os professores em diferido, assim é que é: futuro a valer!
Faz-me falta, mana, a tranquilidade de ser professor. A naturalidade de ensinar, a força de não ter vergonha de transmitir conhecimentos, esse pecado pedagógico com que andámos anos a fio a traumatizar as criancinhas! Esse pecado com que me mutilou a alma a professora Cilita. Mutilada está, sim, de saudade…
Beijo,
Mano
The world as I see it
We declare the world as our canvas
As featured in Olympus Passion Magazine and on The Art of Photography
Art Lesson Ideas, Plans, Free Resources, Project Plans, and Schemes of Work. An 'outstanding' art teacher in Greater Manchester. Teaching KS3 and KS4 art and design.
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