Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


1 Comentário

Anúncio

jp-o-homem-do-pau

É só para informar os meus amigos, em geral, e os cidadãos portugueses, em particular, que não serei candidato à Presidência da República.

Peço desculpa por não convocar conferência de imprensa, mas tenho trabalho.

João Paulo Videira


2 comentários

Tempo

Tempo

Tempo

O verdadeiro Deus

É o Tempo.

Sempre certo,

Sempre isento.

De leis simples

E universais.

Sempre justas,

Sempre benévolas,

E sempre fatais.

Sem piedade, consome

O espírito e o corpo do homem.

E aceita uma única e singular

Oferenda de adoração

Em seu magnânimo altar:

Exige, em regime exclusivo e absoluto,

A entrega do crente

E o seu usufruto.

Não tem catedrais,

Nem mesquitas,

Nem sinagogas.

O templo do Tempo

É a praia

E a sombra generosa

De uma pinheira mansa.

É esta cadeira em que me sento

E a minha pele

Como palco da dança

Da brisa leve que me acaricia.

É o sorriso de uma criança,

E o olhar meigo

De um idoso

Que teve o que quis:

Morreu tranquilo e feliz

E primeiro que os seus.

A esta regra e a esta ordem

Obedecemos todos.

Até mesmo Deus,

Seja qual for o seu credo,

A sua fé,

Ou a sua raça,

Observa o tempo que passa

E curva-se ao seu passar.

Já foram os dias

De não ter consciência.

Já foram as horas

De conquistar a independência.

Já foi o tempo

Das impetuosidades todas.

Já foram as certezas.

Já quis consertar o mundo.

Já foi o tempo

De saber o que quero.

Agora, só e resignado,

Espero.

É o tempo de cada minuto.

É o tempo de descontar.

É o tempo

Do Tempo absoluto.

É o tempo

Do Tempo passar,

Cortante,

Por mim.

É o tempo das rugas.

São os dias do fim.

Não dobram, já, os joelhos,

Como costumavam.

As raparigas que passam,

Não olham

Como olhavam.

Estão mais longe, as distâncias,

Mais pequeninas, as letras impressas.

Não há razão para ter pressas.

Deixa-O passar… devagar.

Evitam-se os espelhos

Que nada têm para espelhar

Que não seja decadência.

Perdi a fé na Ciência

E no Homem também.

Recordo meu pai

E minha mãe

No tempo de antes de mim.

E sei

Que já nem eu

Sou assim.

Esta cadeira, de novo.

O papel.

A tinta deslizando

O desenho das palavras

Como um arado

A rasgar a terra.

Sou mais um capítulo

Que se encerra

Neste poço sem fundo.

Já pouco me resta.

Já só me falta

Erguer

E conquistar o Mundo.

jpv


Deixe um comentário

A Pensar em Ti

A Pensar em Ti

A Pensar em Ti

A pensar em ti
Fiz os poemas apaixonados
Da juventude…
Os versos arrebatados
Do amor
E da incompletude.

E foi a pensar em ti
Que rimei rimas
Sem nexo
De luxúria e sexo
Exposto
Ao vento e ao luar.
A pensar em ti
Meu coração
Aprendeu a rimar.

A pensar em ti
Escrevi
Sobre o desespero
E a desilusão,
Sobre grandes projetos
E o espectro da separação.

E vieram outras mulheres
Doces e belas
Partilhar meus braços.
Escrevi imenso sobre elas,
E tudo o que escrevi
Foi a pensar em ti.

A pensar em ti
Escrevi palavras de paciência,
De fulgor sem fulgor nenhum.
A pensar em ti
Escrevi a resiliência
Do amor especial e comum.

E agora,
Que se anuncia
Outra meninice
Que não é pujança
Nem velhice,
Penso em ti
E na força dos afetos.
Traço duas linhas de ternura,
Penso em ti
E escrevo sobre nossos netos.

jpv


Deixe um comentário

Era Digital

Era Digital

Era Digital

Ainda sou do tempo
Em que a identidade
Não era digital.
Dava-se a mão
E a palavra.
E até o mais casual
Beijo
Tinha cheiro e tato
E um toque de desejo.

jpv


Deixe um comentário

A Puta da Ideia

A Puta da Ideia

A Puta da Ideia

A puta da ideia
Recebeu em si
Todos os homens do Universo.
Os que se vieram em prosa.
E os que se vieram em verso.

Fizeram fila, os homens,
Para copular.
Desistiram do intento
Ao saber
Que a puta se fazia pagar.

jpv


Deixe um comentário

Livro em Branco

Livro em Branco

Livro em Branco

Hoje comprei um livro.
Estava em branco.
O autor reclamou para si toda a originalidade.
Que felicidade!
A originalidade Já ter dono.

jpv


Deixe um comentário

Duas Estrofes de Pecado

Duas estrofes de pecado

Duas Estrofes de Pecado

O pecado tem um sorriso
Que encanta
Quando é olhado.
Etéreo e impreciso,
Nasce no teu rosto
O sorriso do pecado.

E dou voltas à mente
Procurando esquecer a tentação.
Meu coração não sabe o que sente
E peca mesmo sem razão.

jpv
(Foto gentilmente cedida por Ruth Kissa)


2 comentários

Brisa

BrisaBrisa

As palavras sopradas à brisa
Têm mais sabor.
Sabem a histórias antigas
De mancebos heróicos
Amando raparigas.
E vem, com o restolhar da folhagem,
Bailando nas voltas da aragem
Fresca,
Uma promessa.
É uma vida nova e doirada,
Uma esperança renovada,
Uma imagem e uma ideia.
Tudo, preso na teia
De uma conversa que passa.
Passou.
E ficou só o canto da cigarra
E a brisa na minha pele.

jpv


Deixe um comentário

Short Stories – Malas

Short StoriesShort Stories – Malas

Ele chegou à hora que tinham combinado. Estacionou o carro onde tinham combinado. Tocou à campainha como tinham combinado. Subiu de elevador como tinham combinado. Ela deixou a porta encostada como tinham combinado. Ele entrou de mansinho como tinham combinado. Ela beijou-o, ávida de boas vindas, como tinham combinado. Ele pousou a mala. Ela estranhou:
– Nunca ninguém trouxe malas antes.
Ele pegou-lhe ao colo e levou-a para a cama como tinham combinado.

Amaram-se desesperadamente, entregadamente, violentamente. Exploraram-se de novo os caminhos que já haviam desbravado antes e agora redesbravavam como se fosse a primeira vez. Adormeceram exaustos e saciados. No outro dia, ele levantou-se, tomou um duche, beijou-a nos lábios, pegou na mala que tinha pousado e saiu. Nunca mais voltou.

jpv