Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Bíblia

casal2

As tuas palavras
Anunciam desejos.
Os teus lábios
Prometem beijos.
As tuas mãos
Semeiam carícias.
As tuas ancas
Conjuram delícias.

Se não for o anúncio falso
E a promessa vã,
Se não for a sementeira estéril
E a conjuração improcedente,
Nascerá uma nova manhã
De odores citrinos e inaugurais.
Manhã ímpar e fresca
De gestos simples e fundamentais.

Um mundo renovado
E uma nova religião,
O credo do pastor amado
E a prece da paixão.
Reescrevo versículos
Com a cabeça abandonada
Em tuas nádegas desnudas.
Se soubesses
O quanto mudas
Só por estar aqui.
Tenho uma nova Bíblia,
Repleta de orações,
Que nasceu em ti.
E esse livro,
Sagrado e controverso,
Desenha um ato de amor
Em cada singelo verso.

jpv


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Se me deixasses

semedeixasses

O toque suave
Da tua face
Poderia resolver
Este doloroso impasse
Que é desejar-te
E não te ter.
Bastava que me deixasses morrer
Em teus braços,
Após os longos e exalados cansaços,
Que vêm depois
Do que foi antes.

O odor adocicado
Do teu pescoço,
Quando encosto nele
Meus lábios sedentos,
Deveria ser rastilho
Para inusitados momentos
De luxúria ofegante.
Bastava que me deixasses viver
Em teus seios generosos,
Me desses de beber em tuas fontes,
Subir teus montes
E descer a teus vales frondosos.

E, quando me seguras a mão,
Dá-se um milagre,
Faz-se uma conexão
Entre a tua pele que me convida
E o meu desejo que te deseja.
E essa mão singela,
Inocente e dada,
Impele-me
A reação despudorada
E tentações a acontecer.
Se ao menos me deixasses ser,
Por um bocadinho que fosse,
O teu pecado de prazer…
Nasceria outro homem
Em mim.
E esse homem, sim,
Valeria a pena viver.

jpv


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Príncipe

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Ainda agora
Se não via,
Em teu rosto,
O mais insuspeito
Traço de alegria.
Ainda agora,
Há uns momentos atrás,
Diria que te faltava toda a paz.
Negro e dorido,
Teu coração,
Sem horizonte
Nem solução.
Ainda agora,
Há poucochinho,
Diria que choravas
Por dentro,
Vítima de violento
E incontrolado sentimento.

Mas ele chegou.
Talvez fosse um príncipe,
Mas não parecia um príncipe.
E teu rosto se iluminou.
Passo desacertado,
Chinelo no dedo,
Mal segurado.
A barba desalinhada,
A camisa branca aberta
E desengomada,
A alma deserta
De tudo,
Menos de ti,
Como querias.

Pensei que sabias,
Eu desejei, em tempos,
Ser ele.
E outra, que não conheces,
Eras tu.
Já não tenho
Esse desejo cru
E genuíno.
Hoje, contento-me
Com a tua luz,
Como o menino
Que vê brincar os outros
E fica feliz.

Não és ela.
Mas és a prova
De que havia,
Para o príncipe em mim,
Uma donzela.

E agora resta-me
Ver-te a face
Em leve rubor
De excitação.
Restam-me estes sentimentos
Confusos e dispersos,
Estas linhas sinuosas,
Estes atormentados versos.

jpv


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Poesia

 

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Primeiro,
Pressente-se, ao longe,
Esfumada,
E não se percebe bem
O que lá vem.

Depois,
Cresce um pouco,
Um incómodo incerto,
Uma inquietação imprecisa.
Avança tímida e indecisa
E faz-se mais perto.

Agora,
É já uma visível preocupação,
Ou uma alegria exuberante,
Em todo o caso,
É inconfundível a excitação
E a inconstância constante.

Por fim,
Irrompe sob os dedos, em bailado,
A criação.
Um jogo de fúrias e medos em tornado.
E atropelam-se,
Galgam-se desejos e voracidades,
Procuram a frente e as verdades,
Anunciam batalhas, vitórias e perdições.

São só palavras
Desenhando emoções.
São só estas linhas imperfeitas.
São só esta coisa absurda
Que tenho no peito,
Este reduto último
De quem vive dilacerado e desfeito.

Cada palavra rasga-me a carne
E cada verso é escrito a sangue,
Cada estrofe é uma coisa que arde
E exala de meu cadáver exangue.

Palavras…
Arrancadas
À noite e ao dia.
Em minha mente
Torturadas…
Poesia.

jpv


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Morrer

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A ausência da palavra.
A dor do silêncio.
O inequívoco rumo
Da flecha.
Uma alma vergada
Ao sofrimento
Num corpo só
E exilado de ti.
Um grito, primeiro.
Depois, um lamento,
Um debater-me com o inexplicável.
E por fim o choro.
Caminho cego
E prometo voltar a ver,
Mas nada já me resta
Na vida
Melhor que morrer.

jpv


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Partida

 

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Ainda tenho o teu abraço
No meu corpo.
Ainda sinto em mim
O perfume da tua pele doce.
Ainda a tua voz
Me pergunta se vi os teus óculos.
Ainda não partiste
E já foi, há muito,
A hora da partida.
És a estrela
Na noite da minha vida.
A força
Do meu respirar.
Conjugação primeira
Do verbo amar.
A luz no breu,
O fogo de Prometeu
Sem castigo nem suplício.
Só o vício
De ter-te a mão
Na mão
E saber que isso
É o Universo que conheço e sei.
A única e verdadeira lei
De estar vivo e completo.
Ainda tenho o teu abraço
No meu corpo
E já me falta o chão…
E o teto.

jpv


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Saudades

saudades

Tenho saudades
Dos beijos que não me deste.
Tenho saudades
Das carícias que não me fizeste.
E tenho saudades, enfim,
Da tua pele suave sobre mim
Prometendo que não voltava.
E quando voltaste,
Trazendo suplícios de ternura,
Insanidade dos sentidos,
Desvario de mente quase pura
E quase perdida,
Trouxeste ainda mais vida,
Mais transgressão
E absoluta liberdade.
E deixaste no meu corpo
A semente dessa saudade.

jpv


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E havia tanto mar…

Não houve…
Não poderia ter havido.
Foi sempre um mar incerto,
Uma embarcação sem rumo
Nem sentido.

Não tem mais
Cavalos selvagens nos teus cabelos.
Não tem mais
Borboletas coloridas nos teus lábios.
Sucumbiste
Aos conselhos sábios
Da razão e da prudência.
Presente…
Só a ausência.

E havia tanto mar.
Havia tanto marinheiro.
Havia um homem por inteiro
E um desejo a saciar.
E agora
Há só este chão queimado,
Este deserto desolado
De ter-te.

Nem me viste.
Nem chegaste a ignorar-me.
Poeta sem poesia.
Modelo sem charme.
Músico sem notas.
Coração vazio
De onde brotas
Sem nunca
Teres entrado.
Só este terreno inóspito,
Este chão queimado.

Não houve…

João Paulo Videira


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Fogo

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Porque me namoras assim?
Porque me incendeias a alma
E a palavra
E ateias o lume do corpo?
Porque me dás sem pedir?
Porque me prendes
E me libertas?
Porque ofereces tuas formas
Às minhas mãos desertas?
Porque me acaricias a existência
E me abandonas a arder?
Porque me deixas ganhar-te
Se te não posso perder?

João Paulo Videira


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Revolta

Muda o tempo,
Muda a gente,
Muda a palavra
E a promessa,
Muda o encanto,
Muda o olhar
E o mudar não cessa.
Muda a luz,
Muda a paisagem,
Muda o piloto
E o destino da viagem.
Muda a intenção,
Muda o imutável,
Muda a geração
E o destino favorável.
Muda o amor,
Muda o corpo
E a sensação.
Muda o sexo,
Muda a cama
E o frio do chão.
Muda o desespero,
Muda a fome
E muda a solidão.
Muda o suor,
Muda o sol
E muda o vento.
Só não muda
Esta revolta cá dentro.

João Paulo Videira