Quando entramos pelo bloco à esquerda do central, deparamo-nos com dois painéis de azulejos que conferem dignidade ao espaço. Mas, a verdade, é que quase nem reparamos neles, por via do trabalho que nos orienta. Parei um bocadinho para vos trazer algumas reflexões.
Este conjunto de azulejos apresenta duas composições complementares: um painel central com inscrição latina e pavão, e um painel floral puramente ornamental.
Ambos exibem linguagem decorativa barroca e rococó e uma paleta vívida de amarelos, verdes e azuis sobre fundo vidrado.
Painel de azulejos com pavão e lema “Lucerna pedibus meis”.

O primeiro painel organiza-se em torno de um grande vaso monumental do qual brota um denso ramalhete de flores e frutos.
No topo, um pavão de cauda aberta ocupa a posição central, dois putti alados flanqueiam a urna, segurando fitas e pendentes.
No plinto do suporte e na faixa acima notam‑se letras latinas parcialmente preservadas — a leitura mais nítida é “LUCERNA PEDIBUS MEIS”, expressão latina que remete ao versículo salmódico “Lumen pedibus meis…” e se traduz por “lâmpada aos meus pés” ou “luz para os meus passos”.
Essa fórmula confere à peça um sentido simbólico: a imagem decorativa soma‑se a um lema que evoca orientação espiritual ou moral, sugerindo que a decoração não era apenas festiva mas também portadora de um significado reflexivo para os proprietários.
Já a adaptação frase bíblica “ELANGUERUNT OCULI MEI” significa “Os meus olhos estão cansados”. Também uma valoração moral.
Dois putti e mascarões completam o repertório clássico-ornamental.

O segundo painel funciona como contraponto ornamental: um vaso azul‑dourado pleno de flores, ramos e pequenas aves ocupa todo o campo.
Aqui não há lema escrito, a peça realça a exuberância vegetal e a habilidade pictórica da eventual oficina, servindo sobretudo para preencher e enriquecer o espaço onde estaria instalado o conjunto.
Cromatismos e técnica
Os dois painéis são executados em faiança vidrada, fundo claro vítreo com pintura à pincel, contornos e sombreamentos feitos por traço escuro e lavagens.
A paleta dominante combina amarelos ocres e dourados, verdes esmeralda e azuis médios, com marrons e pretos usados para definição.
O contraste quente‑frio, amarelos sobre verdes e azuis, e o brilho do vidrado dão ao conjunto forte presença visual típica da decoração de interiores nobres dos séculos XVII–XVIII.
Contexto histórico e hipótese de datação.
Esteticamente, a mistura de urnas clássicas, putti, mascarões e motivos florais remetem para modelos italianizantes difundidos na Península Ibérica entre o final do século XVII e o século XVIII.
A combinação de repertório, técnica e paleta sugere uma cronologia plausível no período barroco tardio e rococó.
Peças assim, eram habituais em salões, escadarias e capelas privadas de famílias abastadas ou instituições religiosas.
Leitura simbólica resumida
– “Lucerna pedibus meis” (lâmpada aos meus pés): chave de leitura moral/espiritual — orientação e luz de caminho.
– Pavão: prestígio, vigilância e, em leituras cristãs, ressurreição/imperituidade.
– Vaso e guirlanda: abundância, domesticamento da natureza e apetite decorativo. Juntos, insígnia de status e de reflexão.
jpv