Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Taraxacum officinale

Estão a ver aquela planta,
Não sei como se chama,
Quando éramos miúdos,
Soprávamos só para a ver desfazer-se
E fugir-nos no ar
Enquanto lhe colocávamos
Uma mão por baixo
Como se a fossemos apanhar.
Não sei, sequer,
Se é uma planta ou uma flor.
Sei que fazíamos jogos de amor
Com o que restasse dela,
O que sobrevivesse ao sopro.
Não me ocorreu, na altura,
Poderia ser de intensa dor
Aquele voo inútil e desnecessário.
Nunca mais vi a plantinha,
Nunca mais me cruzei com ela.
Talvez a vida esteja ao contrário
E o meu destino seja afinal como o dela.
Meu pai já morreu.
Minha mãe foi a sepultar.
Meu filho vive lá longe
Onde a neve cair devagar.
Estão com ele meus netos.
E há outros queridos entes
Anónimos por entre as gentes
Mas ainda a acordar meus afetos
Que esvoaçam como a plantinha.
Graciosos, desordenados, distantes…
E com uma mão por baixo.

E é isso que não percebo
Neste universo:
Se foram eles que se dispersaram,
Ou se sou eu
Que ando disperso…

jpv


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O Previsível Caminho dos Dias Pardos

De Rerum Natura
O Previsível Caminho dos Dias Pardos

O dia nasceu pardo. Não era hábito naquele lugar, naquela altura do ano. Mas nasceu pardo, como que a negar uma qualquer centelha de esperança. Não era dia para grandes cometimentos. Não era dia para iniciar projetos ambiciosos, nem mudanças de fundo. Era só mais um dia pardo. Dia de ficar perscrutando o sentido do amor no fundo do olhar dela. Dia de ficar roçando a pele na pele do desejo. Dia de dizer o que ela já sabia assim como quem se assegura de que ainda está tudo no seu lugar. Era o dia perfeito para fazer tudo que já fora feito antes, mas agora com intensidade redobrada e cuidado particular. Era o dia de andar descalço e seminu pela casa, de ver aquela porta do armário que fecha mal, de vestir a t-shirt com um buraco no ombro, de verificar aquela tomada que teima em pendurar-se da parede à espera de cair. Era dia de ler. De ouvir ler. Era um dia pardo, um dia de percorrer o previsível caminho dos afetos conquistados, constantemente reconquistados. Nesse dia, a nádega dela acordara com a exata forma da minha mão côncava. Não teve história e, contudo, foi habitado pelas personagens todas de todas as histórias que nos trouxeram até ali. Quando as pessoas se perguntam, por vezes, por que razão os dias brilhantes de sol não cintilam, esquecem-se de que o brilho tem de fundear-se neste amanho interior da alma, dos corpos e dos rituais que só pode acontecer quando a luz do astro grande se esconde. E tem de ser previsível. Tem de ser alimento. Fonte. Tem de ser um manual de rituais e um mapa de códigos e heranças ancestrais a invocar os pais dos pais dos pais e a desaguar em mãos dadas e afetos reafirmados. Os dias pardos não são tristes. São baús de aprender. São sementeiras de estar. São trilhos de interioridade e segredos por revelar. Ela levantou-se, deambulou sensual pelo espaço que nos separava, passou por mim sem parar, estendeu a mão como quem me convida e não aceita negação e eu levantei-me naquele enlevo guiado para desaparecermos na penumbra da casa. Percorreu-se, depois, o previsível caminho dos dias pardos. Hoje, o sol pendurou-se no firmamento e brilhou abundâncias de luz. Exatamente como estava previsto que acontecesse.

jpv


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Súbdito

Ó pobre de mim!
Abandonado
E torturado, assim,
Na tua presença
E na ausência tua.
Teu corpo vestido,
Tua alma nua.
Quisera preencher-te a alma,
Despir-te o corpo,
Libertá-lo dessas amarras
E preenchê-lo também,
Com ganas e garras,
Nesse deleitoso ritual
Que me faz refém.
E, no momento da rendição,
Entregar-te meu coração
Para o abandonares de novo.
Tu és a rainha
E eu sou o povo.
Proletário dos afetos,
Errante mendigo de teu corpo.

jpv


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Homem sem Tempo

Tempo

Já nada virá a tempo.
Perdi a vida,
Perdi o momento.
Perdi o sonho
Em nome do sustento.

E há essa pedra fria
Em que habitas.
Esse espinho cravado na alegria.
Essa manhã clara
Feita noite fugidia.
Essa porta fechada,
Destino sem rota,
Nem estrada.

O caminho que fizeste
Não tem trilho de regresso.
Só sangue negro e espesso,
Vitória sem sucesso,
O escuro à volta da luz.
Corpo de samba
Que não seduz,
Trevo de quatro folhas
Sem charme nem sorte,
Vida pujante
cheirando a morte.

E amanhã,
Quando me estenderes a mão,
E a sentires gelada como o chão
De inverno,
Não encontrarás, já,
O toque quente e terno
De um corpo com alma
E esperança.

O caminho que fizeste
Não tem trilho de regresso.
Pedra fria.
Porta fechada.
Homem sem tempo.

jpv


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Sementeira

sementeira

No início, era um quase sorriso,
Um esgar.
Um olhar tímido e indeciso,
Um choro contido,
A preocupar.

Depois desse tempo inicial,
Em que não me vias
Ainda,
Chegou a coisa mais linda.
Uma esperança.
Um gesto de confiança,
As tuas mãos mais perto,
Um sorriso aberto.

Foi tempo de me falares
Com emoção,
De me olhares como quem pede,
De me estenderes palavras
À passagem,
De fazermos a viagem
Dos riscos
E do prazer.

E chegou, por fim, o infinito.
O lânguido e ocioso grito
Durante e depois do sexo.
Veio o tempo do côncavo
E do convexo.
Veio o tempo de me incendiares
A carne
Com a saliva do teu desejo,
Uma gula voraz,
Em sentido e profundo beijo.
E tuas mãos tomaram conta de mim,
Novos gritos e urros
E carícias sem fim…

E houve a descoberta!
Não está mais deserta
A planície do teu corpo.
Está semeada de mim!

jpv
Imagem daqui.


4 comentários

São Tantos e Tão Intensos

iago-dasa-2

São tantos e tão intensos,
Os afetos.
E tudo isto é tão pouco.
Queria ver-te viver
Para sempre.
Não és uma pessoa,
Nem humana é tua
Essência.
Tu és a razão de toda a existência.
Tu és o espaço preenchido.
O coração enfunado
De amor.
Tu és o exercício vencido
De suportar qualquer dor.

Não temo a morte,
Venha quando vier,
Seria sempre essa a sorte.
Tenho só pena de deixar-te…
Tenho pena de não poder ouvir-te mais…
Ver-te desenhar a vida
A traços de loucura e coragem,
Desafiar os limites
Na insana voragem
Do horizonte.

Não há palavras
Para o que tenho no peito.
Há só estes versos sem jeito
A rasgarem lágrimas de alegria
E saudade.
Há a imagem de ti
Como um universo sem fim.
Há a minha vida
Nas tuas mãos…
Para além de mim.

jpv


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Prenhe Vazio

a-pensar-em-ti

No vazio das palavras,
O ato.
No vazio do tempo,
O momento exato.
No terreno estéril
E árido
De meu peito
Cresce uma esperança
Sem jeito
Nem destino.
Fenómeno inexplicável,
Como mão grande e afável
Percorrendo o cabelo do menino.

No vazio da cama
Um homem que ama.
No vazio de um peito de mulher,
Um homem que quer.
Numa folha branca
Uma palavra que grita
E deseja,
Uma linha sensual,
Uma vírgula que beija
A hesitação,
E de novo a mão.
Agora suave e sedosa
Em provocante e prazerosa
Provocação.

No vazio de tudo…
A reinvenção!

jpv

 


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Retrato Impreciso

Retrato Impreciso

A esperança tem o desenho
Do teu sorriso.
E o futuro nasce
Na doçura do teu olhar
Vago e impreciso.
As tuas formas
Imperfeitas
São a perfeita dimensão
Do meu desejo.
O meu mundo
Não vive para além
Do que vejo,
E o que vejo
Começa e acaba
Em tua diáfana
Figura.
E assim,
Como quem me tortura,
És meu chão
E meu horizonte.
A linha traçada,
A barricada,
E a ponte.

jpv