Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Aniversários

ap-e-jp

11 de setembro de 2015.

Tu estás, aqui, a meu lado, como acontece, já, desde o começo do Mundo. E o nosso menino, aniversariante como nós, está noutro continente. E nenhum de nós está em casa. Mas isso importa pouco. Importa que, faz hoje 27 anos, começámos juntos uma caminhada. E cá estamos, caminhando. Superando barreiras, calcorreando o Destino como se o nosso destino fosse um só. Queria fugir ao lugar comum dos momentos bons e maus e queria dizer-te o quanto significa para mim estares aqui: uma vida. Não sei, já, como era a vida antes de ti. E não consigo conceber no horizonte uma paisagem onde não estejas. Tens o amor em ti, aquele puro amor de que falava o poeta. E a generosidade. E a resiliência.

E o nosso menino faz anos hoje, também. 25! Ninguém tem vinte e cinco anos. Nem mesmo ele. Homem alto e grande e independente como no tempo em que se morria pela independência.

São dois aniversários num dia. A nossa vida toda num dia. Que se repita. Sempre!

jpv


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Memorando do 11 de Setembro

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Foi antes dos aviões. E não foi um ato de guerra. Foi um gesto de amor. De entrega. Foi uma comunhão funda cujas implicações não percebemos logo. Sim. Houve certa inconsciência e até isso foi belo. Foi em 11 de setembro de 1988 que casámos. Mas ia nesse verbo mais, muito mais, do que a festa e a igreja e os convidados… ia todo um projeto de vida.

Foi antes dos aviões. E não foi um ato de guerra. Não veio nos jornais porque os homens trazem as prioridades trocadas. Foi a maior de todas as obras, o mais fantástico de todos os feitos, o mais maravilhoso de todos os dias e momentos. Não foi, para nós, um dia de morte. Foi a mais genuína celebração de vida entre os homens. Em 11 de setembro de 1990 nasceu o nosso menino.

Ontem de manhã tomámos um tranquilo pequeno-almoço na Pérola. E tudo parecia mais harmonioso. Falámos com o menino feito homem que está lá longe, onde os homens falam com palavras impercetíveis e os invernos chegam mais cedo e mais frios. E vagueámos a manhã por Maputo, a cidade que agora acolhe os nossos 11 de setembro. E houve aquelas flores, gerberas, que tu tanto gostas. Almoçámos juntos e fomos trabalhar. E ao fim do dia, jantámos sob as enormes jacas num jardim oriental iluminado de luzes a parecerem velas. E, chegados a casa, estava eu com a chave na porta, prestes a rodá-la e tu disseste ao meu ouvido, Gosto tanto da tua companhia. E eu pensei que não era preciso mais do que isso e menos seria insuficiente. Acho que foi sempre a companhia que fazemos um ao outro. Acho que por isso mesmo temos suportado e superado as tormentas e temos chegado sempre a um dia em que reconhecemos o ouro que é essa companhia. Sabes, aqui para nós, que ninguém nos ouve, enquanto te deitavas, pensei para mim quantas pessoas haveria no mundo que ao cabo de 26 anos a viver comigo conseguissem dizer essa frase. Há por aí quem dissesse outras. Mas essa… esse ouro puro… é tão raro quanto valioso.

E agora dormitas a meu lado enquanto uma entrevista na rádio te embala o sono. E sabes que estou aqui. E sei que estás aí. E é isto tão pouco. E é este pouco tanto… um universo…

Foi antes dos aviões. O verdadeiro 11 de setembro é teu. É meu. É nosso. E é do nosso menino. E quando fui dormir, não tinha visto as reportagens, nem as teorias, nem as imagens, nem as histórias. Fui dormir a pensar num 11 de setembro sem aviões. Ou outro tão mais importante, tão mais fantástico. Um 11 de setembro de vida e amor e dádiva e, sobretudo… de companhia. Gosto tanto da tua companhia!

jpv