Livro da Coragem – 22

America Great Again…
Nem os Estados Unidos da América são só um país, nem o seu presidente é só um homem. Ou uma mulher.
O problema, esse problema que os americanos tentam hoje resolver, não é solúvel. E, a meu ver, o que é profundamente inquietante não é colocar o povo americano perante duas más opções. O que é profundamente inquietante é ter-se percorrido um longo caminho de escrutínio e avaliação para se chegar aqui e, contudo, oferecer a milhões de eleitores a escolha entre o mau e o muito mau. Será que, ao longo do processo que conduziu os americanos a esta dilacerante e fatídica escolha, não havia alguém efetivamente capacitado para o exercício de um dos mais importantes cargos do mundo?
E não me venham com a história de que isso é lá com os americanos. Tudo o que seja lá com os americanos, os russos e os chineses é com toda a gente. O resultado desta eleição afetar-nos-á a todos.
Para mim, o muito mau é Trump. O homem representa tudo o que há de mais vil e ignaro ao cimo da terra. A sua eleição seria uma regressão estupidificante do ponto de vista… enfim, sob qualquer ponto de vista.
Hillary tem demasiados fantasmas. O fantasma do republicanismo convicto do pai. O fantasma do segundo mandato do marido no cargo a que ela agora se candidata. O fantasma das acusações de fraude. O fantasma de uma primeira corrida à Casa Branca marcada pela desistência. O fantasma de Barack Obama, o Presidente com classe, com sentido de humor, sem escândalos nem suspeições.
Um é muito mau e a outra não lidera uma candidatura genuína e pujante. Parte cansada e desgastada. Uma candidata que sabe colherá muitos votos de quem não quer correr o risco de ter a Besta como Presidente de uma das mais poderosas nações do mundo. E, se ganhar, Hillary terá sobre a cabeça as damocleas espadas de todos esses eleitores de mal menor.
Não sei quem anunciarão mais logo, espero que seja a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos da América, mas sei que amanhã a América não começa a ser great again!
jpv
Livro da Coragem – 21

Bolinhos, bolinhós…
Não tenho nada contra o “Haloween”. Nem a favor. Não me diz nada. Culturalmente, pertence a outras geografias e na minha família nunca teve qualquer espécie de relevo.
Já o Dia de Todos os Santos é toda uma memória. Pela manhã, bem cedo, a azáfama de preparar o farnel, o carvão, fogareiro, o abano, bebidas para adultos e miúdos, um frasquinho com sal e outro com açúcar, a cafeteira do café, os guardanapos, as colherzinhas, as mantas para colocar no chão, a cadeira articulada do meu pai, os panos da loiça, a toalha de mesa e uma mesinha pequenina cujas pernas se dobravam. Romaria ao cemitério da Conchada a comprar as flores e a acompanhar a Mimi que visitava os defuntos todos. Os dela e os dos vizinhos. Na altura, eu não tinha defuntos. Aprendi os rituais. Depois das orações e do passeio silencioso pelo jardim dos mortos, enfiávamo-nos todos na 4L do meu pai e lá íamos a caminho de Santa Quitéria, ali para os lados de Pombeiro da Beira. À chegada, era ver as gentes montanha acima e montanha abaixo espalhadas, acendendo lumes, oferecendo do seu vinho a provar, as famílias trocando abraços. Seguia-se a peregrinação de ir comprar pão, castanhas, uns chouriços, umas morcelas e, claro, as febras. A passagem inevitável pela capelinha da Santa e depois o nosso próprio ritual de acender o lume, a Mimi de volta dele com uns gravetos que eu e a minha irmã tínhamos ido apanhar pelo pinhal, e a dar-lhe com o abano, a minha mãe temperava a carne e o meu pai sorvia aqueles momentos como se soubesse que nos deixaria neste mundo antes de todos os outros e quisesse aproveitar cada segundo. Comíamos e bebíamos, conversávamos e depois procurávamos um poiso para olhar o céu por entre as ramagens dos pinheiros enquanto os adultos dormiam a sesta.
Aqui onde vivo não é feriado. É um dia de trabalho normal. E isso magoa-me, como me magoou a suspensão desse feriado nos últimos anos. É que, agora, infelizmente e porque o Senhor Tempo não para, já tenho defuntos. A Mimi, velhinha, de cancro, o meu querido pai, que tanta falta me faz a cada segundo que passa, aos 65, do coração, a minha avó Ana, do pâncreas, o meu avô Velez, de cansaço, a minha avó Letícia e o meu avô Francisco, tanto quanto sei, de velhice… e tantos outros que me povoaram a infância… estes são os meus Santinhos, as almas por que rezarei amanhã. Não é uma coisa que se resuma à religiosidade do dia. É a tradição de manter a família unida, vivos e mortos, num só ritual. É uma evocação dos tempos em que fui mais feliz porque, nesses dias, havia toda uma vida a viver, e tudo era duradouro e seguro e eterno. E todas as minhas decisões eram claras e óbvias e todos os meus gestos eram simples e imaculados.
Amanhã, para mim, não é o “Halloween”, empréstimo de outras gentes. Amanhã, é Dia de Todos os Santos e hoje é a noite de sair por aí tocando e batendo às portas, “Bolinhos, bolinhós, para mim e para vós…”
jpv
Volta ao Mundo

Uma palavra que seja.
Uma palavra para que se veja.
Uma palavra é como ter-te aqui.
Uma palavra é o princípio de todas as coisas.
E é o fim.
A tua voz embala destinos.
A tua voz são infinitos caminhos.
A tua voz é a grandeza de sentir-se pequeno.
A tua voz inaugura um homem e funda uma nação.
De esperança.
A distância que nos une
É maior e mais grande que este tapete que faço e desfaço.
Vive no fulgor de um abraço, na doçura do teu olhar.
A distância que nos une
É a exata forma do querer e do amar.
Procurei-te onde não estavas.
Corri montes e cabeços.
Ao sol, à chuva e ao vento.
Indiferente à desilusão e ao tempo.
E encontrei-te no lugar pequeno de meu coração.
Para ir tão longe…
Não era preciso dar a volta ao mundo da ilusão.
jpv
Solidão

A linha com que se tecem meus dias
É escura
E estão pálidas e frias
As mãos.
Não há nada para além deste vazio.
Só o chão esquecido e frio
Onde passou o que foi.
Nem tu ficaste.
jpv
Uma Zanga e uma Citação

A escrita é tramada. Zanguei-me com ela. Zanga antiga de dedicar-me sem medida e não receber em troca a mesma atenção. Zanga antiga de procurar a qualidade, mas andarem textos andrajosos de mão em mão. Que me divorciava, que não escrevia mais, que tinha por vendidos um punhado de livros entre familiares e amigos, que não era vida de escritor este dar sem receber. E mordia-me os calcanhares da mente a história daquele tipo que publicou catorze romances inteiros em doze anos, todos feitos de páginas às centenas e capas rebrilhando nos escaparates. E eu aqui, tecendo e destecendo, qual Penélope das palavras, amanhando investigações, enjeitando umas frases e erguendo outras à luz cristalina de meus dias não mais que um romance a cada par de anos vencido. Mas a Escrita é amante caprichosa. Que não, não haveria partilhas, que o casamento seria para sempre, que teria de continuar a suportar-lhe os trejeitos de dama que subjuga o coração de quem a ama e ela me suportaria os dias em branco, as linhas riscadas, as páginas desconseguidas… Mas não, homem que é homem, por macho ser, leva a sua adiante, e vai de depor as armas e arrumar as canetas e esconder os cadernos e comprar livros e ler. Seria leitor por vingança de não ser lido. O primeiro sinal de recaída foi um caderno em branco de capas acastanhadas e gravadas de palavras no exterior. E lá dentro, nada. E depois um outro, discreto, com uma fitinha de marcar páginas e limites. E depois uma caneta. Coisa imperdoável de se desperdiçar ali, na montra, a olhar. E assaltou-me, à traição, uma personagem, e invadiu-me a imaginação uma história e entre a verdade esfumada na pobreza da memória e a vívida clareza dos momentos a perpetuar, sentei-me a rabiscar. E a zanga cá andava no peito a perder terreno para o entusiasmo desta nova história que chegou calma, tranquila e sem pressa. Assim começa: “Quando nasceu, Indesejada da Conceição Nhaca, não soube, não poderia ter sabido, que viera a este mundo para ser emigrante em sua própria terra, estranha no chão que a ouvira chorar pela primeira vez, despojada dos afetos, filha da miséria. Mas não foi isso o pior que a vida lhe reservou.”
João Paulo Videira
Tu Sabes

Tu tens desejos
No corpo.
Tu tens convites
Nas linhas curvas
Da tua figura.
Tu sabes que há beijos
Por dar
Que são para mim
Doce tortura.
Tu sabes como dizer sem palavras.
Tu sabes como chamar
Com o silêncio do teu sorriso.
E até sabes que levas nas ancas
A perdição total de meu juízo.
E, contudo, passas.
Indiferente às ameaças
de meu cercar.
Sábia em cercos,
Em dar de corda
E em apertos,
E em ter-me preso a ti,
Entre tuas coxas amarrado!
Santa luxúria,
Beato pecado.
Não.
Não penso hoje nos seios
Que me faltam as palavras e os meios
Para tanto navegar.
Entre nós
Não há nenhum espaço.
E há o mar!
jpv
Leituras de Verão


Livro da Coragem – 16 –

– 16 –
Eu sou europeísta e quis sempre acreditar no projeto europeu. Quase como se, depois de séculos virado para os monstros do mar, Portugal se virasse para as pessoas em terra. Além disso, a ideia de uma Europa unida, livre, forte, sempre me pareceu fazer sentido ainda que houvesse preços a pagar, o que, nestes casos, é normal.
Percebe-se, pois, que, no âmbito do referendo britânico, o meu coração batesse pelo remain, pela permanência, e tivesse recebido com tristeza e desilusão a vitória do BREXIT.
Ontem, contudo, vacilei. Com tamanha crise a braços, com problemas tão profundos para resolver como sejam a situação dos refugiados e a crise económica de todos os estados-membro da União Europeia, só para relembrar dois, o que o senhor Schauble escolhe, para se divertir, é fazer um bluf com um suposto pedido de resgate financeiro que Portugal teria apresentado por não ter cumprido em 0,2 as metas que se propôs. Logo a seguir às suas palavras, os juros da dívida pública portuguesa cresceram em todas as frentes.
Acresce que o incumprimento da Alemanha, da França e da Espanha, por exemplo, é muito maior do que as duas décimas de Portugal.
Schauble não consegue resolver os problemas sérios da Europa, mas exerce uma chantagem infantil, patética e desnecessária com Portugal. Não se atreve a enfrentar os grandes, mas dá porrada com força nos pequenos. Não foi com esta gente que aprendi a ser europeísta.
Este tipo não sofre sanções? Não paga o prejuízo causado? Ninguém o repreende? Não pede desculpa? Não se demite?
Ontem, tive ganas de um PTEXIT e se houvesse um referendo, àquela hora tinha votado leave!
João Paulo Videira
Livro da Coragem – 11 –

– 11 –
Uma coisa é o que somos, intrinsecamente, no fundo mais recôndito do nosso ser.
Outra coisa é o que projetamos ser. Algo bem menos belo e ambicioso porque conformado às condicionantes e coarctado pela realidade.
Outra coisa, ainda, é o que conseguimos ser. Uma imagem pálida e distante do que somos. Algo que se perdeu algures no emaranhado da vida, das cedências e dos compromissos.
E outra coisa, por fim, e a mais dolorosa, é a conversa que temos entre todas elas.
João Paulo Videira
