Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


Deixe um comentário

Neblina no Caminho

sta-carolina

Já eras
A diáfana imagem
Da perfeição
Quando te conheci.
Já eras o amor
E a sedução
Quando me apaixonei
Por ti.
Róseo seio,
Delicada pétala,
Flor sem fruto
Na inocência da idade.
És memória,
E és saudade.

Já eras
Um mar encapelado,
Um vento revoltado,
No olhar
E nos cabelos.
Eras a graça,
O beijo inaugural,
O primeiro corpo
Sob o meu.
Tinhas um perfume
Adocicado e experimental,
A tua nudez,
A minha pele arrepiada
E o corpo tremendo.
Tinha medo de estragar-te.
Queria amar-te
Para sempre
E não sabia
Quanto era isso.
Paixão,
Amor,
Feitiço…
O sal do mar
Sabia melhor
Na tua boca.

Já eras
O caminho
E a caminhada louca.
Já vivia em ti,
Sozinho,
A minha solidão.
Feitiço,
Amor,
Paixão…

jpv


Deixe um comentário

Quadras satírico-humorísticas de timbre antigo e desusado escritas enquanto não estavas a ver…

vamos-fazer-uma-coisa-gostosa

Hoje fiz amor contigo,
É pena que não estivesses presente.
Ficas a saber, para castigo,
Que posso amar teu corpo ausente.

Sei que dirás, com desdém,
Que são devaneios de um pobre coitado.
Pois fica a saber, também,
Que deixei teu corpo deliciado.

Não te dês ares de superioridade,
Superior é coisa que não és.
Aqui, do alto da minha humildade,
Ainda te hei de ver a meus pés.

És vaidosa e usas roupas finas,
Para te passeares pela rua,
Enquanto vês montras e cruzas esquinas,
Eu fico em casa a imaginar-te nua.

Já vai longo este fado incerto,
De rumo sinuoso e complexo,
Quem dera ter-te por perto
Para intenso e despudorado sexo.

Será teu corpo uma plantação
De envolventes e suaves carícias,
Onde hei de ir colher à mão
Uma sementeira de malícias.

Vá lá, diz que sim,
Ao menos uma vez.
Não queiras apressar o fim
Do coração que tão bem te fez.

Hei de ver-te, finalmente,
Em minha cama deitada,
Corpo esguio e presente
Desde a noite até à alvorada.

E do que ali se passar
Faremos inviolável segredo,
Até ao dia em que subas ao altar
Com uma aliança de oiro no dedo.

jpv


Deixe um comentário

Talvez Tourada

Quando a farpa
Entra na carne do touro,
Não é na carne
Que mais lhe dói.
É no êxtase da surpresa,
Na desilusão que corrói.
Quando investes
E te entregas
À volúpia da carícia
E da harmonia imaginada,
Não percebes
A origem da perícia,
Sentes, só,
O gume da espada.
Quando dás
Sem te pedirem,
O corpo à festa
E à multidão,
E sentes os pés fugirem
À gravidade
Que te prende ao chão,
Percebes, finalmente,
A verdade crua e ensanguentada:
Era para ti a mentira,
Era para ti a espada.
Eras tu, besta insana,
A vítima da tourada!

jpv


2 comentários

Amanhece… 

Amanhece.
E com o amanhecer,
Até parece
Que vale a pena viver.
A Natureza,
Em sua pujança matinal,
Renova a luz,
Renova o espírito,
Renova o Universo,
Em cada aurora inaugural.
E cria em mim
Esta turva ilusão
De que cada dia
É um dia novo,
Uma nova canção.

E tudo isto é belo,
E tem seu sentido,
Mas anda um poeta
Pelas noites da alma
Só…
E quase perdido.

Que amanhecer é esse
Em que te não vejo
E te não ouço?
Que poder é esse
Em que tu podes
E eu não posso?

Entardece minha vida.
Aproxima-se a partida.
Neste breve entardecer
Não há manhã
Que me resgate
À fortuna de morrer.
Uma palavra que fosse,
Uma palavra e um gesto sereno…
O tempo esgotou-se.
Para tanto desejo,
Meu desejar é pequeno.

Anoitece.
O céu imenso escurece
E com ele meu peito.
Resta um homem só,
Refugiado
Num corpo imperfeito.

Vem de novo o silêncio,
Esfumam-se os traços do teu rosto,
Tuas expressões já esqueço.
Invade-me o breu
E anoiteço.

jpv


Deixe um comentário

O que fica…

IMG_0256

Fica só a dor.
No fim do amor.
Fica só o desespero
Da indiferença
E da rejeição.
No fim da paixão.
Fica só essa viagem
longa e interminável
Pela noite escura.
Fica só a sepultura
Das palavras todas
E de todos os abraços.
Fica o timbre da tua voz.
Fica a impotência,
Absurdo inexplicável,
Dor atroz.
Fica só a cinza.
Do lume,
Nem chama,
Nem calor.
Fica só a memória distante
Do amor.
Fica o muro
Intransponível
E escuro
Onde rebento os punhos.
Fica a folha branca,
refém do vazio
E de imperfeitos rascunhos.
Não conheço esse traço, já!
Não sei porque vives sem mim,
Se em mim nasceste
E em mim cresces
Despudorado.
Tem travo a fim
Este fim desenhado
Nos teus gestos.

Fica só…

jpv

 


Deixe um comentário

Bob Dylan

bob-dylan

Não oiço, já,
A voz rouca
E evocativa
Do Bob Dylan.
Deixei de cruzar-me
Com os seus versos.
Sobram, em meus dias,
Sons amargos e dispersos,
Primitivas melodias
De meus erros
E meus pecados.

Quando o ouvia cantar,
Como se fosse
O único gesto possível,
Like a rolling stone…
Acreditava nas palavras.
Na dor,
Na ironia,
E na verdade
Que vinha com elas.
Havia, afinal,
Músicas paralelas,
Havia outros versos,
Outros poemas,
Muitos intérpretes,
E temas
De surpresa
E traição.

Já não oiço Bob Dylan…
Perdi-me a meio da canção.
Desconheço o destino
E a condição
Do que vim a ser para ti.
Talvez o fim…

Hey, Mr Tambourine man, play a song for me…

jpv


Deixe um comentário

Desabrigo

dhow

Essa palavra
Forte e curta.
Início da dor,
Fim da luta.
Esse gesto
Lento e demorado.
Princípio do caso,
Caso encerrado.
Essa ausência
Súbita e inesperada.
Temor do peito,
Intenção adiada.

Se tu me quiseres
Como eu te quero,
Se tu me esperares
Como eu te espero,
Será mais curto
O desespero
E mais rápida
A decisão.
Nunca senti
A tua mão
Em meu corpo,
Nem teu desejo
No meu olhar.
Só as palavras
Como último lugar,
Única e longínqua
Forma de estar contigo.
Meu porto inseguro!
Meu desabrigo!

jpv


1 Comentário

Luz

20170412_062528

É tão pouco
E tão ténue
O que nos divide.
E é tão clara
E tão forte a divisão.
A minha vida
Não é Bíblia
Nem Corão.
É só o ar que respiro,
O vôo da ave
Que vejo e admiro.
A minha vida
Não é Norte
Nem Sul.
É só o morrer das ondas
Na areia,
Sob o céu azul.
A minha vida
Não é Grande
Nem Pequena.
É só o sentir
Da brisa serena
Acariciando-me
Os pelos nos braços.
E é ter-te junto a mim
Num longo
E emocionado abraço
E acreditar
Que isso é todo o Universo.

Entre o aroma
Da tua pele macia
E o madeiro que desliza
Sob a ponte
Não há diferença alguma.
E, se a houver,
É só uma.
Tu és a fonte
De todos os rios,
O raio que provoca
Todos os arrepios,
A luz que rasga os céus
Antes da explosão
Que derruba
A árvore ao chão
De onde se desprende
O madeiro
Que desliza na corrente.
Tu és alma
E és gente,
Fogo incessante
De dúvida e esperança.

Por ti,
Meu mundo balança.
Por ti,
Rasgo a Bíblia e o Corão.
Por ti,
Abjuro o Norte e o Sul.
Por ti,
Não quero senão
A imensidão
De uma vida pequena.

Abraço.
Aroma.
Madeiro.
Ponte.
Alma.
E Luz.

Que seduz.

jpv


2 comentários

Retrato em Quatro Quadras

Quando me estendeste a mão, 

Tinhas os olhos humedecidos

E havia uma aura de ilusão

Que nos trazia envolvidos.

 

O brilho desse olhar,

Adocicado pela tua voz,

Quase me fez acreditar

Que nascera algo entre nós.

 

E antes que chegasse a ternura

E a voracidade da paixão,

Soubemos acordar da loucura

Que entreteve nosso coraçào.

 

Um suave adeus,

Teus olhos nos meus

E um breve abraço

Dão sentido aos versos que faço.

jpv


2 comentários

Tenho Poemas

palavras

Tenho poemas inteiros
Escritos a sangue
No peito.
E tenho poemas inacabados
No peito rasgados
A sangue.
Tenho palavras soltas
Sem destino nem jeito.
Restos de vida,
Gotejar impreciso
De um ideário morto.
Tenho linhas a direito
Com sentimentos a torto.
E tenho este grito
Que não sai.
Este mudo vociferar
Contra mim
E contra o fim
Que tarda em chegar.
Tenho palavras salgadas
E doces mentiras.
Tenho musas inspriradoras
E suaves liras.
E tenho este muro de impotência,
Esta coisa que não é Deus
E também não é Ciência.
Um sacrifício absurdo,
Um caminho doloroso.
Um querer tanto,
E tanto brilho,
Que torna mais penoso
O trajeto na escuridão.
Tenho tanto Sim
E vivo tanto Não.

jpv