Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Acordar Ausente

toque

Acordar a teu lado
E beijar a tua face.
Olhar o teu sono,
Esperar que o momento não passe.
Acordar o veludo da tua pele,
Ajeitar-te os cabelos em desalinho.
Amar-te a noite toda
E acordar sozinho.
Esperar pela manhã
Para ver-te sorrir
Irradiando encanto e deferência.
Sentir os lençóis frios
E não perceber
A crueldade desta ciência.

Não é a tua distância que me dói.
É a tua ausência.
Não é o silêncio que me corrói,
É a certeza de não estares aqui,
Onde te quero
E desejo,
Onde possa tocar
O que sinto e vejo
E onde sejas minha
Para sempre.
Nenhum corpo
É um corpo
Se não estiver presente.

Vem de mansinho…
Vem devagarinho…
Saciar minha fome
De ti.
Vem deixar-me ajoelhar
E tomar para mim
Teu seio
E teu sexo.
Inaugura teu corpo
No meu
E desenha a carícia.
Rompe teu ímpeto em mim
Sem regras nem fronteiras.
E quando a noite se fizer longa
E teu cheiro de jasmim
Morar na minha pele,
Quando as aves acordarem
E derem vivas ao dia,
Encosta teu corpo ao meu
E adormece.
Meus lábios saberão,
De novo,
Beijar a tua face.

jpv


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Despedida

despedida-01

Partiste de meu silêncio
E gritaste cá dentro
Uma vontade cega!
Partiste de mim
E percebi, enfim,
Que um amor tão grande
Não se nega.
Partiste de minha ilusão
Sem teres pisado o chão
Que te oferecia.
Partiste,
Indiferente,
Como se não fosse
Sofrer de gente
Este sofrer
Que por ti sofria.
Partiste
E não soubeste
Como a esta alma vieste
Desarranjar o concerto.
Partiste
E não soubeste
Que, por me não ganhares,
Te perdeste.

As palavras que te disse
E as carícias que quis fazer-te
Morreram sozinhas.
Tuas mãos
Nunca foram minhas.
Teu êxtase
Não me aconteceu.
Não colhi
O teu Olimpo
E foste tu
Quem perdeu.

Não me vi nos teus gestos,
Não cresci no teu olhar
E não foram para mim
As palavras proibidas
Que andaste a sussurrar.

Não houve saudações,
Nem despedidas.
Nem se fechou a porta
Que nunca se abriu.
Teu peito gélido
Não me viu.

E hoje,
Neste pódio de emoções,
Com o mar a meus pés,
Sei que sou
Mais do que fui
E tu és
Só o que és.

Partiste…

jpv


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Paisagem em Vão

20170708_134951

Daqui,
Vejo o Mundo
Em todo o seu esplendor.
O mar imenso
Rebrilhando o sol,
Uma embarcação
Traçando destinos,
O céu beijando o oceano
E a urbe
Em tamanho pequenino.
As aves
Cruzam o meu olhar,
Suspensas
E velozes.
Ao longe,
Soam doces vozes
Entoando uma canção
Dolente.
Aqui, está Deus.
Ausente.
Presente.
E está aqui o Homem.
E tudo o que é humano
Aqui se sente
E aqui se suspende.
É um lugar de paz
E de gente.

E surgem, invasivas,
As palavras,
E teimosas.
Crescem versos,
Nascem prosas,
E tudo faz sentido.
Rasgam o pensamento
E a imagem,
Desenham a moldura
E a ideia.
Sem palavras…
Só noite escura,
Um barco perdido
Na imensidão,
Uma paisagem em vão.

jpv


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Vidraça

20170630_211940

Não tem mais poesia
No vento que passa.
Os meninos da rua
Já não riscam corações
Na tua vidraça.
Essa aura tanta,
Esse sorriso
E a emoção que ardia…
Nada ficou.
Nada mais que a fantasia.
Nada mais que o leve ensejo…
Nunca se fez beijo…
O destino de teus lábios
Nunca foi os meus.
A vida tem misteriosos caminhos
E são sempre sábios
Os conselhos da razão.
Mas está só
E imaculada
A vidraça.
Não tem luz,
Nem cor,
Nem risco,
Nem nada que faça
Vibrar um coração.
É só um vidro,
Limpo e sem alma.
Uma transparência vazia.
Uma noite solitária
Que não viu o dia.
Os meninos cresceram
E foram noutro lugar.
No meu peito
Ficou a rua vazia
E uma vidraça por riscar.

jpv


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Prece

suor

Ó senhora!
Ó deusa!
Ó musa maior!
Aceita minha dádiva,
Minha prece,
Meu suor.

Seja feita em mim
Tua vontade.
Envia pelo anjo
A sublime e espantosa
Novidade
Que há de surpreender
O Universo perplexo:
Tombou ajoelhado,
Perante tua figura,
O servo do sexo.

Deste forma
Ao meu desejo
E alma
À minha loucura.
És tudo
O que sinto e vejo,
Seio,
Colo,
Sepultura.
Teu corpo
É meu altar,
Teu gemido
Minha devoção.
Em ti
Procuro o grito sentido
Que completa minha oração.

jpv


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Fado

solitude

Sou o apátrida
Dos teus afetos.
O banido
Dos desejos secretos
Onde escondes
O teu ser.
Amar-te
É morrer!
Sou a ferida
No teu corpo,
Ser estranho
E morto
Que rejeitas
Sem olhar.
E é porque sou tudo isso,
Oração e Feitiço,
Que não me consegues abandonar.

Nasceste onde terminei,
Vives onde me acabo.
És tudo o que tenho e sei,
Meu príncipe, meu rei,
Minha canção,
Meu fado.

jpv


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Recusa

recusa-sensual

Gosto quando me recusas
E as palavras
Que usas
Chamam por mim.
Gosto quando anuncias o fim
E tudo me soa
A desejo.
Gosto do teu beijo
Zangado
E refilão.
Gosto dessa tua
Negação
Sensual e atrevida.
Contigo,
A vida
É mais vivida.
E gosto quando
Me viras as costas
E tuas mãos
Continuam postas
No meu corpo.

Não mudes, meu amor.
Esse teu desatino
Traz som e cor
Ao filme
Da minha vida.
Gosto de ti,
Sempre,
Até na partida.

E quando já não puder amar,
Em meus dias longos e envelhecidos,
Quero entregar no teu regaço
O que sobrar dos meus sentidos.

jpv


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Doce

08bad-pes

Gestos redondos
E suaves.
Olhar curioso.
Sorriso feiticeiro
Onde trazes
A tentação
E a doçura.
Tua distância
É tortura
E teu não
Desespero.
Negas-me com delicadeza
E esmero.
E não sei
Como conquistar-te.
Teu território
Exige tempo
E arte.
Não me tentes!
Não me digas
Não!
E não me digas
Sim!
Deixa morrer
Em mim
A esperança de ter-te.
Um dia
Não é mais que um dia.
Um olhar
Não é mais que um olhar.
É o desejo de tocar-te
Que me consome.
É de ti
Esta imensa
E insana fome
De prazer.
Se não me queres,
Afasta-te de mansinho
E deixa-me
Morrer.

jpv


2 comentários

Breve

b7cd2-mulhernaareia

A tua doce
E serena presença
Não chega às minha palavras.
Anuncias revoluções
No peito
Em que gravas,
Levemente,
O teu ser.
Passas por mim
Como se me não tocasses,
Invades-me o desejo
Como se não entrasses
Em meu mundo
E como se não fosses fundo
Tocar-me de leve.
E fica,
Infinito em mim,
Teu olhar breve.

jpv


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Rouxinol

rouxinol-de-pequim-04.jpg

Na manhã fresca
E revigorante
Veio um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

Em meu peito cinzento
E dorido
Ouviu-se um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

Sobre tua ausência
E tua distância
Pairou um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

À volta de nosso silêncio
E obstinação
Bailou um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

E havia no seu canto
Simples e singular
Lição.
Em meio de todo o cinzento
Pode sempre ecoar
Uma canção.

jpv