Já não amanheces comigo, meu amor. Pela madrugada, ouves um clamor De fadas e querubins, De criaturas da floresta e princesas. Um pedido de ajuda e resgate De todas as crianças desamparadas e indefesas Que o Universo pariu. E lá vais tu, Enfrentando o calor e o frio Das almas desertas, Socorrer as pobres crianças E revelar os tesouros e as descobertas De mil segredos por desvendar. Nunca amanheceste comigo. As tuas manhãs são dedicadas a salvar Todas as crianças em perigo.
Todas as fadas da noite Se reúnem em laborioso conselho, Olham o manto negro que cobre a terra E decidem que chegou a hora de erguê-lo. E a luz rompe, devagar, com esforço. No horizonte nasce uma promessa avermelhada. As ruas da cidade espreguiçam-se E contorce-se pela marginal uma carrinha estremunhada. O padeiro tende a última massa E um homem, na cama, abre um olho sem graça, E fere-se com a luz enquanto dormia. Não há como voltar atrás, Já rompe, inexorável, o novo dia. Daqui a pouco, a paz dos justos Dará lugar à azáfama dos distraídos. A cidade luta contra a noite E, ao longe, ardem as tochas de mil anjos caídos.
Nos términos vedados pelo gigante Não entra quem não merece. Não entra verme mesquinho Onde só passa alma que se levante E coração puro que não perece. Não pode haver tróias Nem Aquiles letal e imbatível. Os términos vedados pelo gigante Não se compram com ouros e jóias E o impossível é sempre impossível.
E seria esta a história, e só esta, Não houvesse mão imprudente e funesta A esventrar o ardil do cavalo. Vem sempre de dentro o dolo. Vem de não saber amá-lo, Ao gigante sentado à espera Julgando dominar os amares. Afinal, o gigante é só um tolo.
Há um Adamastor na minha rua, Alma gentil e nua, De peito digno e sem medo. E há uma Tétis… E há um penedo.
A luz clara e límpida da manhã Traz-me o teu olhar claro e límpido. E há um silêncio que as aves cortam com seu chilreio, Uma perfeição acabada, Só melhorada Com as imperfeições que surgem pelo meio.
Na quietude e na paz da folhagem que sussurra O sol brilha no céu limpo E a água azul e cristalina murmura.
Não espero nada. Nem, tão pouco, um sobressalto. E, menos ainda, uma recompensa, um elogio. Aguardo, só, A sequência dos minutos que morrem a fio Com a consciência de os ver morrer. E há neste vazio e neste nada absoluto A paz da existência E o espetáculo dos monstros com que luto.
Não é espanto. Não é admiração. Nem é surpresa. Não é, por certo, zanga… de facto, não se alterou a batida do coração nem um bocadinho. Pouco depois, medi a tensão e estava a 12-6. Normalíssima e aconselhável para a minha idade. De um jovem! Não perdi um átomo de segurança e determinação. E não vacilei. Quando a nossa história é feita de momentos destes, os outros não percebem que, por ser a nossa história, estamos já habituados a todos os cenários, à forma como os olhos se movem, ao som trémulo da voz, ao movimento dos lábios e a surpresa, afinal, não é surpresa nenhuma. É só tristeza. É só uma desolação profunda pelo profundo desequilíbrio que presenciamos a cada gesto, a cada decisão, a cada movimentação… e fico, depois, a olhar o quadro com uma lucidez fria e gélida e pergunto se não sabem que sei. Que sabia. Quando se chega a esta idade e já tanto se presenciou e viu e sabe, cada decisão é pensada e tomada e assumida com ponderação e firmeza e o caminho será sempre o que for e as surpresas são só novas oportunidades que a vida nos abre… ainda ontem… sim… ainda ontem privei com o futuro. E o futuro sorriu-me e disse-me para seguir tranquilo!
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