
Um véu negro
Vai vendo
Meu mundo morrendo.
Passa, faz negaça,
E não corta
A corda que me abraça.
jpv

Um véu negro
Vai vendo
Meu mundo morrendo.
Passa, faz negaça,
E não corta
A corda que me abraça.
jpv

Na vida das pessoas há sempre assuntos por resolver. Às vezes, para os resolvermos, precisamos de uma longa conversa. Esta é a história do Senhor Nolan e da conversa que teve com a sua amada, M.
Quando se conheceram, o Senhor Nolan usava fato e gravata, era um executivo de uma empresa de comunicações, tinha três filhos, uma mulher prendada com quem praticava sexo sempre missionário, um carro cinzento escuro com quatro metros de comprimento e uma vivenda com dez assoalhadas numa zona proibitiva dos arredores da cidade. A ele, não lhe era vedada a zona, pela simples razão de que podia pagar o luxo. E a vida desenrolava-se entre reuniões, os problemas dos filhos e os orgasmos fugazes e fingidos. Fugazes, os dele…
Um dia, num desses dias em que a mente se questiona a si própria, nesses dias em que o trabalho lhe entorpecera o cérebro, num desses dias em que todos os problemas parecem combinar-se para o atormentar, bateu violentamente com a porta do escritório, disse, Foda-se para isto tudo, e saiu à rua. Caminhou. Sem pensar em nada a não ser no que via. Caminhou para fugir à vertigem de problemas acumulados e soluções por encontrar. Olhou as mulheres, os homens, as crianças, as lojas, os jovens em suas roupas despreocupadas, sentiu o sol, comprou um gelado, e caminhou, caminhou sempre, até que viu…
Vinham numa moto preta com cromados reluzentes. Ele segurava o guiador de braços abertos, tinha uns óculos escuros, um blusão de cabedal e botas como as da tropa. Ela ia atrás, agarrada a ele com um cachecol pelo pescoço em tiras castanhas alternadas com amarelo torrado e as pontas esvoaçantes, os cabelos soltos e um blusão de ganga. Nenhum levava capacete e os dois sorriam ao vento. Para o Senhor Nolan esta fora a visão da liberdade e da libertação, da felicidade e da harmonia. Estava naquela imagem passageira tudo o que lhe faltava. Por vezes, um breve instante na vida de um aprisionado é o suficiente para que pressinta o sabor da liberdade. Por vezes, um episódio insignificante na vida de outra pessoa, pode mudar a nossa. Foi o que aconteceu. Aquela imagem ficou a fazer-lhe comichão na mente, a inquietá-lo. Ponderou imenso. Pensou que estava senil e pensou depois que, se o estivesse, era porque tinha já conquistado esse direito. O Senhor Nolan decidiu mudar. Amadureceu todos os passos e momentos da sua vida. Os do passado e os do futuro.
Divorciou-se. Atravessou essa floresta de complicações e tensões. Meses se passaram. Um ano. E meio! Encontrou novos ritmos de estar consigo, de partilhar a vida com os filhos. Comprou uma casinha pequenina no campo, entalada entre choupos altos. Um carro pequeno e modesto. Entreteve-se na decoração nihilista onde figuravam abundantes velas de cheiro a serpentear a casa. Vivia bem consigo. Inscreveu-se numa escola de condução e tirou a carta de moto. Comprou roupas informais e habituou-se a sorver o tempo só pelo tempo. Um dia foi à Internet e comprou uma moto em segunda mão parecida com a da distante imagem reveladora. Longe no tempo, perto nas intenções. Começou por curtos e breves passeios à volta de casa e, a pouco e pouco, foi conquistando terreno, hábitos, habilidades, mecanismos, até ficar confortável naquela relação homem-máquina.
O Senhor Nolan está diferente. Só vive encarcerado no fato de executivo o tempo indispensável para exercer as suas funções. Todos os dias ao chegar a casa se entrega a si, às suas pequenas prioridades, aos seus pequenos rituais. E, mais extraordinário, quando habita o fato, há uma parte de si que não se deixa aprisionar. O coração do Senhor Nolan rebelou-se, tomou o gosto da liberdade e agora não há amarras nem prisões que o retenham. E os fins-de-semana? Os fins-de-semana são a liberdade em estado puro. Às vezes pára a moto para arrumar o capacete numa das malas laterais e anda uns quilómetros com o vento a fustigar-lhe a face e o cabelo ondulado e ralo. Só porque sim. Um dia parou de frente para o mar e lembrou-se de que algo lhe faltava no sonho de liberdade. Algo estava na imagem reveladora que não viera ainda para a sua. Era M. Lembrar-se-ia ela dele? Claro que sim! Mas o que sentiria? Precisava partilhar esta liberdade com a única mulher que conhecia capaz de a perceber sem a julgar. Precisava de uma longa conversa com M. Decidiu trazê-la para a sua vertigem.
M continuava no mesmo hospital pediátrico como enfermeira. Os mesmos hábitos e rituais. Depois do Senhor Nolan, não quis mais homens na sua vida. Nenhum a preenchia como ele soubera fazê-lo. Nenhum a magoaria tanto como ele o fez só por ter partido. Às vezes punha a música que eles costumavam ouvir juntos quando ele fugia do casamento para os seus braços por uma noite, um dia. E essa memória valia-lhe por uma vida vivida. M era uma mulher sensível e tranquila. Daquelas que sofrem a vida com estoicismo e são capazes de ser felizes com o canto de um pássaro, o ronronar de um gato. Era uma alma que esquecia com facilidade um grande feito mas nunca um pequeno pormenor de humanidade e sensibilidade. Falava com a expressão da face e com o olhar e guardava as palavras como tesouros pelo que dizia só o que tinha para dizer quando isso fosse significativo. Há três anos que M não sabia nada do Senhor Nolan e, por isso, e por todo o passado comum de emoções fortes, o seu coração sobressaltou-se quando abriu o e-mail e viu na caixa de entrada o nome dele em negrito.
“No próximo sábado apanho-te à porta de casa às oito da manhã. Veste-te de forma prática, botas de caminhar ou sapatilhas, calças de ganga e um blusão. Pode ser aquele teu blusão preto. Um lenço ao pescoço é opcional, mas vinha a calhar. Se puderes, nem precisas responder, nem sequer faças perguntas. Se não puderes basta que me respondas «Não posso.» Mais palavras não serão precisas.“
É sábado. O Senhor Nolan tem o coração cheio de emoção. Calçou as botas pretas, vestiu a roupa da liberdade, calças de ganga e um blusão de cabedal, colocou o capacete, um outro, suplente, na maleta lateral e dirigiu-se para casa de M. O ar frio fazia-o sentir-se livre, rijo, confiante e o sol entusiasmava-lhe a alma. Nem sequer sabia se ela lá estaria, mas o Senhor Nolan era já um homem feliz.
Quando se aproximou da casa de M, pensou mesmo que ela poderia lá não estar. Não se deteve no pensamento. Era impossível. E era. Há coisas que são como são porque são assim e não de outro modo e tentar explicá-las é rematada loucura. Ela lá estava, no passeio, a figura fina e insegura, o porte gentil e elegante mesmo na ganga. Não o reconheceu. Não o esperava numa moto. Não o esperava com aquele aspeto. Não o esperava. Ele parou junto a ela e só quando tirou o capacete, ela percebeu. Percebeu e sorriu. Ia para falar, mas não o fez. Ele também não. Os dois sabiam conversar sem palavras. Sempre haviam sido bons com o silêncio. O Senhor Nolan estendeu-lhe um capacete, ela sentou-se na moto, ele puxou-lhe os braços e colocou-lhos à volta do seu tronco mostrando-lhe onde se agarrar. Ele, querendo que ela visse o caminho, virou a cabeça para trás e disse:
– Put your head on my shoulder!
Deslizaram durante uma hora e meia, viram a paisagem mudar diversas vezes e conversaram. Sem palavras. Ela encostou-se a ele, sentiu o seu calor, o pulsar do seu peito, agarrou-lhe o tronco e ele sentiu-lhe a força e a vontade de estar ali. Segura a si. E seguiram conversando em silêncio. Chegaram junto do mar onde ele havia estado sozinho. Pararam. Ficaram longos minutos ouvindo o mar em silencio respeitoso, em comunhão. Abraçaram-se, ela encostou a cabeça no ombro dele. Nunca se disse uma palavra. Partiram. Pouco depois ele parou, tirou-lhe o capacete, tirou também o seu e seguiram rolando contra o frio revigorante do vento enquanto o sol alaranjava sobre o oceano. Quando ele decidiu rumar ao interior do território, voltaram a pôr os capacetes. Mais uma hora e meia, sempre conversando, sempre em silêncio. Caíra já a noite cúmplice quando chegaram a casa dela. Não houve palavras nem convites, nem justificações. Ela limitou-se a subir puxando pela mão dele. Fizeram amor puro e intenso toda a noite, em refluxos de entrega e paixão e ausência e presença. Adormeceram dentro um do outro.
No outro dia, quando acordaram, perceberam tudo. Reencontraram todos os motivos, todas as razões e os sentimentos todos. Relembraram o sentido e os sentidos. E foi então que a conversa terminou para que outra pudesse acontecer:
– Bom dia Nolan!
– Bom dia M!
– Amo-te Nolan!
– Amo-te M!
jpv

Autobiografia
Foste trave
Quando precisaram agarrar-se.
Foste caminho
Quando precisaram andar.
E foste explorador,
Em meio de animais perigosos,
Quando quiseram ver
Os mágicos por-do-sol.
E ficaste na beira das camas
Quando o medo apertou.
E foste uma palavra calma
Em meio de um copo de tinto
Cuja casta se perdeu.
E uma noite quente,
E outra arrasadoramente quente,
Tanto… que os corpos bebiam
O suor gotejante.
E foste escritor,
E foste pai
De sortes e azares.
E professor,
E doutor.
E coisas.
Tantas e tão boas e tão más.
Hoje, vejo um filme,
E distraio-me nestas coisas,
E no fim, não sei se era um filme
Sobre a minha vida,
Ou a minha vida num filme.
Era fílmico, acho eu…
As consequências, não.
Orgulhosamente minhas,
À saciedade…
Essa saciedade que vem
Do fui eu que fiz,
Nada, nem ninguém,
Podem orgulhar-se delas,
Ao pé de mim,
Longe de mim,
Estando nas palavras…
Ah! As palavras.
Deuses que enganam,
Que assumem,
Que tiram,
Põem.
As palavras são
O próprio Deus.
Veio a palavra e disse
Faça-se deus. E como a palavra disse
Deus se fez.
E eu aqui, sem um Deus,
Só eu…
Esta mulher
Cheia dele,
Como um insulto,
Vê uma pedra e logo,
Olha Deus.
E eu aqui à procura
Não O vejo,
Nem nas pedras,
Nem nas árvores,
Nem em nada,
Nem nos milagres
Onde dizem que está,
Ou que esteve.
Aqui, há uns dias,
Abri um computador,
Vísceras o ser humano,
Vísceras quentes,
Com inteligência artificial
E tudo…
Nada. Nem deus nem o diabo.
Nem o bem,
Nem o mal.
E eu, que os sinto,
Mas não os vejo…
Vasculho em livros de poesia,
E romances, também,
Em teses,
Em matanças de porcos,
Num toucinho frito
Pela minha avó.
Já me confundiu os sentidos,
Mas não.
Era toucinho.
Não era deus…
Se digo orações?
Claro que sim.
E acredito nelas,
Então as silenciosas,
São um aprumo,
Parece que está ali Ele…
Mas não, é só a minha eloquência,
A fechar as bocas dos outros.
Mas, Deus, o próprio Deus,
Ali não se encontra.
Já experimentei ver no sexo,
No momento exacto,
Achei que sim…
Um amor assim não se repete,
Mas um amor irrepetível, irrepreensível,
Não é deus, talvez lhe faça alguma inveja,
Mas não é ele.
Fui aos livros de ciências
E vi lá o nome.
Pitágoras fundou uma escola religiosa,
Mas acabei junto da matemática.
Depois procurei por Doppler,
E o seu desvio para o vermelho,
Aparência cromática,
Eu a pensar em diabos,
Nada disso,
São espectros…
Propus-me, então, ficção científica,
Mas a Herança não mo trouxe.
E na bíblia, desorganizado…
Essa fonte de Deus,
Devia lá estar…
Organizado demais.
O fim, nem sequer é o fim.
Os passarinhos,
E os cães,
E os cavalos,
E os golfinhos,
Ao que poderia dar-se o seu nome,
Não são mais que graças,
Assomos de paixão.
E sem ele… Ou quem o substitua,
Nada faz sentido.
Nem o Romance Anónimo,
Nem as pétalas das flores,
Nem os rios que correm,
E, menos ainda, os mares
Onde desaguam.
E as nuvens…
Expliquem-me lá a formação
De uma nuvem,
O bater de asas de uma borboleta,
Expliquem-me o olhar
Fulminante de uma águia.
Deambulo errado
Por uma imensidão
De coisas que nunca existiram,
Ou não têm razão
De ser.
jpv

Ontem, estavas vivo.
Ontem, comerias qualquer um.
E ontem, fosse pelo que fosse,
Acolherias em teu manto
Quem quisesse morrer de amores.
Tocavas alto
Como se fosse uma
Área de Wagner,
E contudo,
Diríamos que, ontem,
Tudo o que sairia
De ti era Chopin,
Já velho na idade,
Já sem Sand
Na cabeça.
Ainda que me soasses
Uma coisa,
Eras outra.
Um arrepio de morte,
Uma coisa que se sente
Mas não se vê,
Um peito rasgado,
Um não sei quê
Que ainda agora
Se sentiu
E já passou…
jpv

Roma fervilha de atividade e emoção… não é a capital da Europa. É a capital do Universo civilizado. O mercado de víveres está povoado de patrícios, de escravos e de estrangeiros de todas as partes do mundo. As matronas apontam para o que querem e continuam deslizando, os escravos ficam para trás apurando as escolhas e depois seguem-nas. Ervas, óleos, frutos, verduras, animais vivos e esfolados, homens e mulheres apregoando o negócio. Depois, o bairro das sedas e depois o do calçado e, por fim, o dos metais. Com o desmoronar da república e a abolição da democracia, seria de esperar do regime imperialista uma recessão nos hábitos e costumes, um recrudescer do ambiente social. Nada disso. Não só a vida não veio a ser assim, como do ponto de vista cultural, político e social, a civilização romana teria o seu auge logo no início do império. E tudo, como sempre acontece, por influência de um homem. Os regimes são o que são. Nem melhores, nem piores, diferentes. Os homens que lideram os regimes é que podem fazer a diferença. E Octávio César Augusto fez a diferença. O imperador aprofunda o culto e o desenvolvimento das letras e das artes. A obra secular de Cícero é estudada e debatida nas escolas. Os contemporâneos Horácio e Virgílio são declamados em saraus, nas bibliotecas, em jantares de amigos e nas ruas. Os concursos de teatro multiplicam-se. Os romanos preparam farnéis, fazem uma algazarra descomunal na comédia e compenetram-se até às lágrimas na tragédia. Podem estar cinco dias no teatro sem sair. Apesar do poder absoluto do imperador, Augusto mantém o senado a funcionar como órgão consultivo e isso fortalece o seu poder de decisão. Solidifica o direito romano e promove políticas de fortalecimento e proteção da mulher como seja o divórcio unilateral por iniciativa desta desde que se prove emancipada para o que deve ter três filhos. Pode parecer ridículo aos olhos de um cidadão europeu do século XXI, mas o estado de coisas antes de Augusto dava ao marido direito de vida e morte sobre toda a família incluindo a sua mulher. O progresso social é tremendo. Augusto consegue o equilíbrio entre a austeridade e o luxo permitido e isso traz o mundo romano satisfeito e feliz. O fenómeno cristão é ainda jovem e incipiente, mas até nisso o Imperador é hábil. Decreta a liberdade de credo religioso para os patrícios e as hostes acalmam-se. As ruas de Roma atafulham-se de liberdade e movimento, há tabernas, bordeis, lojas de todos os comércios imagináveis, há bibliotecas, tribunais, templos e monumentos e há esse espaço indispensável ao quotidiano dos romanos, o lugar onde correm todas as notícias verdadeiras e os boatos todos, onde se constroem as intrigas domésticas, onde se fazem os negócios e onde, espante-se, se descansa e se trata do corpo. São os banhos públicos. Roma está apetrechada com diversos destes locais onde a oferta é vasta e cobre todos os gostos e necessidades. Ginásio, salas de óleos e massagens, espaços para leitura, normalmente, ao ar livre, e, claro, os banhos nas suas três vertentes. O frigidarium, banhos frios; o tepidarium, banhos mornos e o caldarium, banhos escaldantes. Pela manhã são espaços desertos, mas à tarde, à medida que os afazeres profissionais vão terminando, estes espaços enchem-se de gente e ação.
É nesta Roma rica, crescente, multilingue e alucinante que vimos encontrar Cornélia, filha de Cornélio, esposa de Terêncio Emílio, mulher educada e perspicaz, de alma arguta e corpo insaciável. Ela cuida da casa, gere os escravos, lê, escreve, faz compras, planifica e executa meticulosamente a educação dos filhos que tem com Terêncio e quando, à noite, o procura no leito para a satisfação dos seus desejos e prazer das suas carnes, normalmente, encontra um homem cansado do trabalho e das jantaradas e com o sexo satisfeito por rapariguinhas que enfiou à socapa e a troco de subornos chorudos na ala masculina dos banhos ou ainda por rapazes de barba a despontar que aí acorrem, o acariciam e satisfazem e sabem que no dia seguinte o dinheiro ou os presentes baterão à porta.
Terêncio dá hoje um jantar. O triclínio está pronto. Foi preparado para nove convivas a quem foi dito para trazerem os seus guardanapos de refeição para poderem regressar com eles recheados das iguarias a servir. O rumorejar do espelho de água cria uma sensação de frescura, há uma música tocada suave ao fundo da sala. Os convivas reclinam-se sobre um cotovelo que apoiam nas costas do longo assento todo forrado de mantas e almofadas. Terêncio ordena ao escavo que quer um vinho forte.
– Pouca água nisso, ouviste. Faz uma mistura de 1 por 3.
O escravo coloca uma medida de água para cada três de vinho numa ânfora e serve copiosamente os convivas. Primeiro, é servido um prato de peixe. São robalos assados, servidos com verdura e passas de uva. Depois, um extraordinário lombo de javali recheado com ameixas secas e acompanhado com castanhas cozidas. Há pão e carnes de aves frias. Há mel e queijos e há fruta. Os escravos vão servindo as iguarias e os convivas, seis homens e três mulheres, vão conversando, comendo e bebendo. Bebendo muito. Os escravos vão trazendo tabuleiros de comida donde os convivas se servem com as mãos que limpam aos guardanapos e esses tabuleiros são levados e substituídos por outros e o vinho continua a jorrar. Conversam, debatem, contam histórias libidinosas e chegam as frutas que são despejadas no triclínio em taças enormes e é nesse momento que o gesto acontece, que se dá o evento, que se inicia uma sucessão de acontecimentos que não têm como ser parados.
Cornélia estende um braço para as uvas e estica um pouco o corpo para chegar-lhes e, no momento em que se encontra tombada para a frente, a visão do seu peito sardento e sensual abre-se para Marco António, um companheiro e amigo de Terêncio. Ele vê o que há para ver e deixa os olhos presos à visão. Ela apercebe-se do que mostra e, mais do que tudo, apercebe-se que ele vê observando-lhe a excitação colada no olhar.
E chegam as dançarinas e bailam à volta dos homens simulando carícias. Ela sorri. E chegam os dançarinos e bailam à volta delas, um deles poisa um pé na beira do assento dela e oferece-lhe a perna musculada à visão. Ela trinca o lábio inferior, encolhe os ombros em sinal de traquinice e passeia dois dedos ao longo da perna do dançarino. Marco António está excitado, entusiasmado, e os seus olhos faíscam cólera por não estar ele no lugar do dançarino.
É a hora nona. Os banhos públicos começam a encher-se de gente. Marco António estava a levantar pesos e agora está deitado de barriga para baixo à espera que os rapazes lhe façam uma massagem retemperadora. Está nu. Cornélia passou umas ligaduras à volta dos seios para os disfarçar, apanhou os cabelos, subornou quem devia e entrou na sala de massagens. Estava com dois rapazes massajando o corpo musculado e bem definido de Marco António que quase adormecera. Ela dispensa os outros massagistas com um aceno de cabeça e com as mãos lubrificadas empreende uma massagem forte e tonificadora. Sem abrir os olhos, sem mexer um músculo, Marco António pronuncia em tom pausado:
– Quem pensas tu que enganas Cornélia?
A surpresa ruboresce-lhe as faces e quando recupera o fôlego, ela responde tentando continuar a simulação de que é um rapaz:
– Como disse, meu senhor?
– O teu senhor é Terêncio. E deixa-te de simulações. Eu conheceria essas mãos em qualquer circunstância.
– Perdão, meu senhor, creio que estas mãos nunca lhe tocaram.
– O corpo não, mas têm remexido a minha alma desde o momento em que passearam na perna do dançarino. Conheço-te a forma das mãos, a espessura, sei qual a pressão que pode fazer na minha carne e conheço-lhes o toque mesmo que não me tenham tocado.
Cornélia não respondeu com palavras no início. Continuou a massajar-lhe as costas, depois as nádegas, depois as coxas, em movimentos até ao joelho e de regresso às nádegas e de cada vez que regressava a elas estendia mais os dedos até acabar por acariciar-lhe os testículos e o pénis. Quando o sentiu ereto e excitado, quase levado à loucura, falou:
– Amanhã, à hora quarta no caldário.
Ele percebeu que o convite para aquela hora significava que ela queria estar a sós consigo, acabar o que começara. À hora quarta, os banhos estavam desertos.
Marco António entrou, despiu-se na sala de óleos e massagens, untaram-lhe o corpo e rasparam-no para que ficasse limpo e suave. Ele dirigiu-se para o caldário. A sala estava já repleta de vapor, quase não se via nada, na piscina não havia ninguém e no anfiteatro à volta dela, aparentemente, também não. Ele sentou-se e esperou.
Ela fê-lo esperar. Ele duvidou. Tinha a cabeça entre as mãos olhando o chão, ouviu um restolhar de passos e olhou em frente. Da névoa densa do vapor emerge Cornélia com seu corpo esguio e sardento, traz somente uma túnica transparente. Vem andando devagarinho, medindo cada passo. Quando está a um passo dele deixa tombar a túnica. Marco António vê-lhe os seios, o abdómen perfeito, um triângulo de seda geometricamente desenhado no púbis, arde em prazer e sabe que ela também. E diz-lhe:
– Vem.
– Irei.
Dá o passo que falta, senta-se no colo dele, estão frente a frente olhando-se nos olhos, e é olhando-se nos olhos que o sexo dele mergulha lentamente no universo quente e húmido que ela tem para oferecer-lhe.
A poderosa Roma estava, finalmente, a seus pés!
jpv

Três elementos usou Deus para fazer uma paisagem. A terra. O céu. E o mar.
Depois, assim como quem não quer coisa, e acima de todas a vaidades, e com toda a humildade inimaginável, veio o homem e pisou uma simples pegada.
E contou histórias, que contavam as pegadas e o esforço, histórias que acediam lumes e outras que os apagavam, histórias com muitas pegadas.
Até que esqueceu a primeira. Das pegadas.
jpv
[Primeira publicação em 15/08/2012]

Cozinha para Homens – Feijoada à Transmontana
Não esqueçam os leitores e as leitoras de que esta rubrica se chama “Cozinha para Homens” o que equivale a dizer que MPMI não pretende concorrer com as senhoras, mas tão somente ajudar a desenrascar os machos da Diáspora Lusitana espalhados por esse mundo fora.
A presente receita pode ser muito útil a namorados, a maridos recentes e a divorciados. Os maridos acomodados tirarão menos partido, mas não faz mal nenhum lerem estas reflexões e preciosas instruções de confeção.
Toda a gente sabe que uma feijoada é uma feijoada e não dignifica nada saber fazer uma feijoada e a razão é simples, resume-se a atirar com carne de porco e enchidos para dentro de um tacho, juntar-lhe uma carrada de feijões, temperar, fazer um arroz branco e já está. Ora, isso, qualquer um é capaz. O difícil, logo, valorizador de quem for capaz, é fazer uma feijoada que fuja a essa normalidade. E a Feijoada à Transmontana é o melhor exemplo. Saber fazer uma Feijoada à Transmontana é equivalente a tocar uma partitura de Rachmaninoff, isto é, piano qualquer um toca, Rachmaninoff só os mais experientes e capazes. É distinto. Assim, se for o novo namorado dela, ela vai querer que seja aprovado pelo seu clã e para isso nada melhor do que provar que está apto a ajudá-la e a ser o futuro marido, nomeadamente cozinhando pratos típicos e de assinalável dificuldade. Se for o marido recente, é o prato ideal para provar à família dela que ela fez uma excelente escolha, você até sabe fazer Feijoada à Transmontana! Se for o caso de ser divorciado, há sempre aquele momento em que a sua Ex e a família dela vão querer saber se você se está a desenrascar sem ela. A forma de os calar a todos é fazer para eles ou para os seus filhos, e pedir-lhes que espalhem a notícia, a famosa e elaborada Feijoada à Transmontana.
Bem sei que isto pode parecer uma tarefa difícil, mas não temam companheiros, vai correr tudo bem… e, tomem boa nota do que vou dizer-vos, a receita que vou facultar-vos já foi testada e todos os comensais repetiram e deram vivas e elogios ao cozinheiro. Ora vamos lá…
———————–
Feijoada à Transmontana para 8 pessoas
Ingredientes:
4 garrafas de vinho alentejano muito bom, 1 ramo de coentros, 4 bagas de piri-piri muito picante (o chamado sacaninha), 1 Kg de arroz vaporizado, 1 rolo de sacos do lixo pretos e opacos de 20 Kg de capacidade, 8 latas de 1 Kg de Feijoada à Transmontana pré-cozinhada (todos os supermercados têm, as da marca Continente são particularmente boas!).
Preparação:
Ponha a mesa para 8 pessoas, abra as quatro garrafas de vinho e coloque-as sobre a mesa para o vinho respirar, abra as 8 latas de Feijoada à Transmontana pré-cozinhada e verta o conteúdo num tacho grande, coloque em lume brando, deite três quartos dos coentros migados e as quatro bagas de piri -piri cortadas aos bocadinhos e mexa em movimentos lentos com uma colher de pau, coza duas canecas de arroz e tempere de sal a atirar para o insosso, coloque as latas vazias num dos sacos pretos opacos e guarde no porta-bagagens, tranque o carro. É fundamental que a reação ao preparado não seja desvirtuada pela visão das latas vazias. Uma vez bem aquecida, coloque a Feijoada à Transmontana em duas ou três travessas, ponha o resto dos coentros sobre a feijoada, ponha o arroz em duas taças de aspeto rústico, coloque tudo na mesa acompanhando com comentários muito sapientes sobre a preparação da feijoada que você leu na Internet na noite anterior. Sente-se e coma com satisfação dando o exemplo e dizendo esta frase: “A mim está-me a saber às mil maravilhas e a vocês?” Usufrua dos comentários elogiosos. Nota Final: nunca, nunca, mas mesmo nunca, em circunstância alguma, refira a ninguém, mesmo a ninguém, o segredo do seu sucesso. É que nunca se sabe o dia de amanhã.
Ainda não se tinha lembrado desta, pois não? Não tem quê!
jpv

Por vezes, há que passar por estas coisas, por estas pessoas para quem a alegria de viver é tudo, e não é nada se a mamã ou o Ti João, estiverem doentes.
Por vezes, é preciso ver os outros a darem, como se dar fosse a única forma de vida, para percebermos o quão enganados estamos.
Não é falta de sentido de propriedade, antes disso, é um sentido que se dá à vida. É o sentido da vida.
É saber a verdade, sem revelar, é ouvir e saber que se tem de calar. É fazer uma promessa e morrer por ela.
É saber que se tem de esperar, muito, antes de no-lo dizerem. É a Belinha.
jpv
[Este texto foi escrito após a saída em dvd do filme “Original Sin”. Muito desse filme acordou-me memórias de um passado marcante e de retorno impossível. Já a revisitação não é tão difícil. Ainda bem!
O Iraque tarde em responder ao ultimato dado pela ONU. Manoel de Oliveira com 94 anos estreia “Filme Falado”. O JN publicou uma investigação que divulga falta de apoio clínico nas maternidades o que torna o processo penoso e doloroso. Um estudo refere que a funcao publica está envelhecida, situando-se a idade média dos trabalhadores entre os 40 e os 45 anos. E, devido as alterações no sistema de aposentação que obriga os funcionários a trabalhar até aos 60 anos, nao se prevê uma melhoria para esta situação
Data da primeira publicação: 29 de Novembro de 2002]
O pecado do António Banderas

Querida mana,
Ontem vi um filme. Depois de horas consecutivas com os olhos pregados em leituras teóricas para a minha tese quis ver cor. Quis ouvir som. Quis uma história. Fui requisitar um filme e trouxe um com o António Banderas. De um argumento intrincado e um tanto decadente emerge a figura do actor latino com o cabelo ondulado, puxado para trás, o cigarro no canto da boca, o olhar envolvente, o sorriso malandro a despertar todas as libidos femininas. Emerge, ainda, a tenacidade e a certeza de quem quer agarrar a vida, de quem quer ser feliz, “no mather what”! Essa ânsia da felicidade absoluta, do entendimento perfeito entre dois seres de sexos diferentes mas em simbiose psicossomática é alcançada depois de muitas provações. Ora aí está a grande diferença entre os filmes e a realidade. É que atrás da tela é sempre possível o pecado da felicidade absoluta, do entendimento perfeito, o pecado do prazer que se estende para além da carne e toma as almas dos pecadores! A personagem do António, ontem, fez-me lembrar outras personagens, em tudo idênticas, que percorreram as vidas dos nossos pais trazidos à luz dos projectores pelo Bogart. Foi algures nesse nó do pensamento, entre o Bogart, o António e os nossos pais que parei numa interrogação: “que faltou na realidade à mãe e ao pai de tudo o que os outros tiveram atrás da tela?” nada! Conheceram-se durante aventuras africanas de contornos complexos mas os seus caminhos cruzaram-se uma vez para nunca mais se perderem de vista. O seu amor, espontâneo e avassalador, passou as provações e os testes que a honra e os costumes exigiam. Uniram-se em beijos infindáveis e noites de prazer tropical e o seu castigo fomos nós! Dois filhos a quem se dedicaram como se fossem a sua obra de arte. Ainda me lembro do pai, poucos meses antes de morrer, com lágrimas de alegria nos olhos dizer como quem fecha um capítulo, como quem encerra um livro: “o que é que os outros têm? terrenos, casas e carros. Mas eu tenho dois doutores!” acredita mana, não era vaidade no grau académico, era a singela contemplação da obra da sua vida! uma vida de harmonia, de entendimentos, de dar, de receber, de cedências carinhosas, de protecção mútua. A mãe costumava dizer, ainda em África, que desconfiava de tanta felicidade. Por vezes, já depois do regresso atribulado, dizia que a forma como tinham sido despojados da sua vida, do seu paraíso na terra, fora um castigo por terem sido tão felizes. Mas como explicar, então, que de tamanha adversidade tenham de novo tido forças para reconstruir o seu paraíso na terra, como explicar a ausência de uma discussão nos momentos mais difíceis, nos dias mais pobres?
Sabes, durante muito tempo julguei que os nossos pais não eram normais porque estava sempre tudo bem, tudo em harmonia, por vezes busquei essa normalidade numa discussão, numa briga mas nunca a encontrei! Por vezes, recordo em gargalhadas, uma noite em que eu, ainda mergulhado na doce escuridão da ingenuidade, ouvi a mãe chorar! De imediato pensei e conjecturei noites atribuladas de grandes discussões e planos infindáveis para que no dia seguinte tudo corresse bem. E foi no dia seguinte que perguntei, armado em defensor da mãe e da normalidade:”mamã, porque é que tu choraste hoje de noite?” e as conjecturas ruíram, os meus planos e a minha noite em branco tinham sido em vão: “a mamã não chorou, deves ter sonhado, filho! sabes, por vezes sonhamos com tanta força que até parece realidade.” E andei ali desenganado com aquele choro na mente uns dez anos. Mais tarde, já a ingenuidade tinha levantado o seu manto, já eram as saias das raparigas que me toldavam a visão, e tornei a ouvir aquele choro. Era bonita, jovem e o seu corpo de sereia oferecia-se ao meu quase tão desajeitado como eu. Trocávamos o que tínhamos para trocar que, ainda que não fosse muito, para nós era tudo! E à medida que a minha mente recuava no tempo empurrada pelos sons do presente, o choro da mãe ia ficando menos choro, mais sensual e eu não tinha agora ninguém para proteger, e agora já não era choro, era um gemido de prazer de um corpo que se entrega, de uma alma que se funde. A moça, assustada com as lágrimas que lhe beijavam os seios perguntou: “Que tens? Magoaste-te?” Não sei o que respondi na altura mas se fosse hoje diria: “Não tenho nada, foram só os meus pais que cometeram o pecado do António Banderas!”
jpv

Avistavas o mar, e de certo, o que havia para lá dele. Terras de África, da Madeira ou mesmo dos Açores. Mas não vais, já.
É longo o voo, e sabendo que gostas do lado de lá, há uma força incrível que te puxa para ficares. Uma força do tamanho de não seres capaz da travessia. Há alturas assim, que um homem sabe o caminho, que sabe como vencê-lo, mas não o começa, já.
E ficar… Só por incapacidade ou impotência. Nunca se nega um voo só porque sim. Vi-te tentar. Planavas o mar. Mas não seguias. É mais confortável a morte deste lado.
jpv
"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."
A esperança pra quem busca pequeno e grande detalhe do criador. Shaloom....
Compartilhar ideias, com coerência e responsabilidade
Literaturas
Is all about telling the truth about everything I Know
WordPress.com é o melhor lugar para seu blog pessoal ou seu site de negócios.
Notícias-Fofocas-memes-humor
Reflexões sobre a vida, ética e o cotidiano — e respostas diretas sobre o que penso e o que diz o Direito
Informação para quem decide - Aqui tem Good News
Plataforma institucional de hospedagem de websites
O Amor Próprio nasceu como uma página nas redes sociais e se transformou em um espaço acolhedor para quem busca reencontrar sua força, sua essência e seu valor.
O assunto básico é Arte/Fotografia e Psicologia. Eventualmente há indicações de livros e equipamentos interessantes lincados na Amazon, Shopee e SocialSoul.
Just another WordPress.com weblog
Palavreando com Chico Viana
Tarô, Velas e Pergaminhos
Terapia em progresso
No Agora é Notícia você fica sabendo da notícia do Brasil e do mundo
Site da Comunidade Portuguesa de WordPress