Caros leitores,
De Negro Vestida: XXVI
Solidão – VII
Há entre nós, os humanos, independentemente da condição, da raça, do género, da cultura, da religião, da idade, da posição social, da estrutura financeira e do carácter, diversos impulsionadores de pensamento e acção. E há um, aquele que agora desperta em Maria de Lurdes, pouco valorizado, subestimado mesmo, mas que, em nossa opinião – que o leitor poderá aprovar ou rejeitar – é o mais importante de todos. Não escondendo a importância do dinheiro, não é dele que falamos. Reconhecendo o valor da educação, não é a ela que nos referimos. Nem à alimentação, nem ao sexo, nem à religião, nem à segurança, nem à solidariedade, nem à investigação, nem à saúde, nem à família, nem a nada que tenha um motivo. O móbil principal da acção humana é o saber a pouco. A insatisfação.
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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.
Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.
Obrigado pela vossa dedicação.
Setembro de 2013
João Paulo Videira
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De Negro Vestida – XXV
Solidão – VI
Carolina Maria terminou o banho, seu retempero do corpo e da alma. Para si a água quente e o perfume do gel são bálsamos que limpam e acariciam e este ritual é um espaço de reflexão. Fecha-se no círculo que a água desenha tombando do chuveiro. Não ouve nada. Não sente nada a não ser o calor da água massajando-lhe o corpo. E pensa. E revive as tristezas, as alegrias, os pormenores. Hoje está voltando à biblioteca, ao jantar, às mãos largas e aos cabelos encaracolados. Acaricia-se levemente como que para senti-los mas depressa percebe a ilusão e a insatisfação com ela. Pára. Fica-se pelo rememorar delicioso que nestas coisas, ainda para mais sendo-se mulher, a mente pode mais do que o corpo. Termina o banho. Limpa-se. Faz o périplo dos cremes e vai à cozinha.
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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.
Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.
Obrigado pela vossa dedicação.
Setembro de 2013
João Paulo Videira
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A Crise A
Ora, ninguém queria esta gripe como, de resto, ninguém quer gripe nenhuma. E o dono dela, como a queria vender, pensou: “Como é que eu vou fazer publicidade eficaz a uma coisa que ninguém quer comprar?”. E foi então que teve essa brilhante ideia: “Assusto toda a gente!” Vai daí começou a fazer um gigantesco BUUUUUUHHHH universal ao mesmo tempo que fazia uma carantonha feia a ver se assustava. E assustou. E as pessoas, assustadas, correram atrás do gel, do álcool, das máscaras, dos comprimidos, das vacinas. Tudo se encomendou aos milhões. Não por causa da gripe, só por causa do medo. E fizeram-se planos de contingência e saíram muitas notícias nos jornais, nas rádios e nas televisões e houve contagem de mortos que morriam de tudo e mais alguma coisa menos de Gripe A, comprovadamente é certo. E depois, de entre os biliões de pessoas que somos, lá houve um ou outro que morreu de gripe.
Como morrem todos os anos. E lá voltaram as notícias. E compraram-se milhares de milhões de unidades de desinfectante para as mãos que é álcool com cheirinho, e de máscaras e sabonetes iguais aos outros mas diferentes porque eram para a gripe e toalhetes e passou-se a espirrar para o cotovelo patético e as pessoas assustadas encheram os bolsos do senhor sem imaginação para nomes mas com muita imaginação para vender coisas que ninguém quer, o dono da Gripe A. Hoje, depois do Natal, das eleições, do futebol, e, sobretudo, depois de estarem exauridos os bolsos que já tinham pouco e depois de estar já satisfeito o dono da gripe, já ninguém se lembra de nada. E há dispensadores abandonados. Uns vazios, outros meio cheios, outros cheios e outros ainda arrumados nas caixas onde vinham embalados. E há sabonetes que nunca viram o sol e máscaras que nunca foram ser estúpidas para a cara de ninguém. E tudo isso jaz abandonado mas pago. E a memória é curta. E não tarda nada estamos a pagar outra coisa qualquer.
Não, meus amigos, não me enganei no título do post.
Perspectivas – II
De Negro Vestida – XXIV
Solidão – V
Maria de Lurdes está na marquise convertida em atelier de costura tentando fazer, refazer e reunir os gestos necessários para engrossar um pouco mais a coluna das receitas no seu orçamento familiar. Está sentada numa cadeirinha branca, tem a máquina de costura preparada, caixas abertas com linhas e acessórios à volta, as costas curvadas para a frente, uma linha presa entre os dentes e pressente. Pressente os filhos que chegam num rumor escadas acima. Sabia que chegariam tarde. Alguma utilidade têm os telemóveis e as SMS. Mas não sabia que, por via da mesma utilidade, chegariam mais ou menos à mesma hora. Estava já preocupada. Sem razão, é certo. Mas, sendo-se mãe, mais razões não são precisas para que uma ansiedade funda marque o ritmo do coração.
Sente-os aproximarem-se.
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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.
Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.
Obrigado pela vossa dedicação.
Setembro de 2013
João Paulo Videira
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De Negro Vestida – XXIII
Solidão – IV
Venha comigo, caro leitor, venha presenciar ou reviver um ambiente irrepetível. O local onde vamos tem um odor ímpar e inconfundível, tem sons próprios e seculares, tem rituais, tem frequentadores e tem uma personagem da nossa estória.
Há templos que são templos. E porque são templos, as pessoas comportam-se neles como estando em templos. E há espaços que não sendo templos, são templos na mesma e, por isso, estando as pessoas nesses espaços que não são templos comportam-se neles como nos templos. É explicável mas indefinível a linha da lógica razão, a linha do pensamento que define porque fazemos silêncio numa biblioteca. Logo à partida, não se trata de silêncio, trata-se daquele marulhar abafado das folhas de papel virando, do sussurrar respeitoso de comentários, só os essenciais, que os utilizadores trocam entre si ou com os funcionários do templo dos livros. E esse respeito vertido em quase silêncio tanto o pode ser para que se não incomode quem lê e quem pensa, como o pode ser para que se respeite quem pensou e quem escreveu com sabedoria, dedicação, trabalho e genialidade suficientes para que viesse parar à biblioteca. Tem este espaço o estatuto de templo do saber e faz-se nele silêncio para que se não incomode quem soube e quem está querendo saber.
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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.
Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.
Obrigado pela vossa dedicação.
Setembro de 2013
João Paulo Videira
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Sereno
Epílogo!
Os meus olhos são uns olhos.E é com esses olhos uns
que eu vejo no mundo escolhos
onde outros, com outros olhos,
não vêem escolhos nenhuns.
Quem diz escolhos diz flores.
De tudo o mesmo se diz.
Onde uns vêem luto e dores,
uns outros descobrem cores
do mais formoso matiz.
Nas ruas ou nas estradas
onde passa tanta gente,
uns vêem pedras pisadas,
mas outros gnomos e fadas
num halo resplandescente.
Inútil seguir vizinhos,
que ser depois ou ser antes.
Cada um é seus caminhos.
Onde Sancho vê moinhos
D. Quixote vê gigantes.
Vê moinhos? São moinhos.
Vê gigantes? São gigantes.













